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setembro 30, 2004

O meu coelho suicida #8

omeucoelhosuicida8.jpg

Publicado por João Pedro da Costa às 03:56 PM | Comentários (3)

Há dois tipos de pessoa:

os que utilizam o e-mail racionalmente e os cabrões que enchem a caixa dos outros com a porcaria dos seus «forward to all».

Publicado por João Pedro da Costa às 03:12 AM | Comentários (3)

Post policial

Esta noite, quando a Manela e eu chegamos a casa dela (a formação correu lindamente, thanks for asking) tivemos uma surpresa desagradável. Jazia no chão, partido em bocados, um belíssimo prato pintado pela Amanda Passos. A Manela ficou em estado choque e disse

- Ó.

e eu, claro, tentei reconfortá-la invocando o facto de ela possuir mais dois belos trabalhos da dita pintora (funcionou) e de, pelo menos, o prato não ter caído na cabeça de ninguém (aqui, nem por isso). Como é óbvio, após o nosso choque inicial (a Manela gosta muito da Amanda Passos e eu gosto muito da Manela), tentamos apurar o que teria sucedido. Inspeccionámos o prego da parede onde o prato estava exposto, avaliámos a distribuição dos móveis pela sala, analisámos um jogo de xadrez interrumpido (de qualquer forma, as pretas sofreriam mate em duas jogadas), medimos a temperatura ambiente e, como é óbvio, procurámos impressões digitais. A conclusão da Manela apontava para uma conjuntura em que a inevitabilidade da lei da gravidade de Newton se aliava à duvidosa qualidade do prego comprado no Aki: numa palavra, azarito.

Servi-me de um uísque de 20 anos e sentei-me no sofá. Sabia que, mal chegasse a casa, conseguiria apurar a sequência cronológica dos factos e eventuais nexos de causalidade, mas, de qualquer forma, estava resoluto a aplicar deduções, induções e abduções para a resolução do mistério e, enquanto a Manela se sentou no computador com um ar tristonho (Amanda Passos) a peparar uns slides no Powerpoint, resolvi ignorar a jornada europeia e dirigir-me ao que, na altura, já suspeitava ser o local não de um acidente mas de um crime. Foi só então que me apercebi da ausência do Minorca. O Minorca, para quem não sabe, é o gato da Manela. Foi encontrado há dois anos, em Moledo, e a Manela fez o que lhe competia: deu-lhe de comer, ofereceu-lhe um abrigo, fez-lhe votos de amor eterno e, claro, mandou-o capar (com as cortinas não se brinca). Pois bem: o Minorca é um daqueles gatos que adivinha sempre a chegada da dona a casa e que não arreda pata enquanto não receber a sua dose (merecida?) de mimos. Porém, hoje, ele não apareceu. Passei pelo corredor (onde vi a Xana, uma gata velhíssima e sedentária que tem a virtude de se confundir com os móveis) e entrei no quarto onde estava o Minorca, deitado na cama, a olhar para mim.

Não sei ler o olhar de felinos. O dos cães é-me transparente e penso que não será gabar-me em excesso se vos disser que os anos me ensinaram a compreender a cadência das noites no olhar das mulheres. No que diz respeito ao dos gatos (confesso que nunca tentei ler o olhar de um tigre, o que por acaso até é grave para um borgesiano como eu), no que diz respeito ao dos gatos, dizia eu, confesso aqui a minha incapacidade, quiçá ignorância. Sentei-me na cama e enrolei mais um cigarro. O Minorca pareceu-me inquieto. Dei uma passa e, ainda com o o fumo nos pulmões, atirei a pergunta:

- Foste tu, Minorca?

Ele ignorou-me. Peguei no DVD de LOST IN TRANSLATION que estava em cima da secretária (e que logo logo me encarreguei de desviar para o meu saco) e comecei a ler os extras:

- Documentário, trailer, teledisco de «City Girl», cenas cortadas, entrevista... foste tu, Minorca?

Desta vez, ele não consegui fugir à pergunta:

- Miau.
- Também me pareceu.

Abri a janela do quarto (não é suposto um ser humano fumar no quarto da Manela) e fui ter com ela, que continuava sentada no computador, às voltas com os ISO 9000. Arrisquei um

- Não terá sido o gato?
(silêncio)
- O gato o quê?
- Que partiu o prato.
(suspiro)
- O Minorca?
(hesitação)
- Sim, o Minorca.
(silêncio novamente)
- Tem juízo, aquilo foi um acidente.

Sorri e retirei-me de fininho. Na sala, apeteceu-me pôr música. Algo de épico. No entanto, contive o desejo e resolvi sentar-me de novo no sofá. Folheei uma revista e olhei, através a janela, para o luar. Bem bonito. Preparava-me para enrolar um cigarro, quando a Manela

- Vamos. Levo-te a casa.

A viagem foi feita em silêncio. Eu sabia que ela sabia que ambos sabíamos a razão daquele silêncio. Ainda tentei dizer umas frases espirituosas, mas em vão. Silêncio. Quando chegámos ao portão da minha casa, despedimo-nos como duas pessoas civilizadas e, antes de eu fechar a porta, já estava eu cá fora, ela disse:

- Foi um acidente.
(silêncio)
- Eu sei.

Não fui de imediato ver as gravações. Antes, verifiquei se tinha mensagens no voice-mail, despi-me e ouvi cinco vezes, em bendito repeat, o tema «Girls» dos Death in Vegas. Deu para enrolar e fumar mais um cigarro, mas daqueles que gosto (grossos e apertadinhos com dupla mortalha), e fazer apostas comigo mesmo. Confesso que adiei o momento. Retirei a bobine do gravador e coloquei-o no leitor da sala.

Devo aqui fazer um parênteses. Há quatro anos que filmo a casa da Manela e ela, claro, não o sabe. Não o faço por ser perverso ou por ter uma paranóia com a intimidade dos outros. Apenas gosto de proteger os que amo e foi esta a forma que encontrei para o fazer. Gastei imenso dinheiro no equipamento, tudo tecnologia japonesa, e penso que me compreenderão se vos disser que tenciono levar comigo para o túmulo o nome do técnico que contratei para instalar as onze mini-câmaras, os cinco sensores de movimento e os emissores / receptores de feixes hertzianos. Não faz parte do meu feitio julgar os outros: apenas peço que façam o mesmo em relação a mim. Fim de parênteses.

Apaguei as luzes e carreguei no botão.

PLAY.

Não houve surpresas. Não, não houve. Nem vou entrar aqui em pormenores que considero desnecessários. Penso que bastará esta imagem

fotogatopassos.jpg

para perceberem o que quero dizer. Enganam-se os que pensam que senti algum prazer por verificar que tinha razão. Afinal de contas, a Amanda Passos é a Amanda Passos e, podem acreditar, a minha humilde existência dispensa bem mais um dilema: devo, ou não, contar-lhe a verdade?

Publicado por João Pedro da Costa às 03:08 AM | Comentários (15)

setembro 29, 2004

Um prenda para os fãs de THE OFFICE

davidbrentguitar.jpg

Consegui sacar os acordes de um dos fantásticos temas que David Brent toca no 4.º episódio da Série I de THE OFFICE. É muito simples, e consiste em quatro acordes tocados em sequência em cada verso e no refrão:

C (dó) F (fá) Am (lá menor) G (sol)

Por aquilo que se consegue ver no DVD, Ricky Gervais não toca um fá perfeito com travessão (133211), mas com a última corda E (mi) solta e sem tocar na primeira (x33210), o que, para além de facilitar a passagem de C para F, também soa muito bem.

Já agora a letra:

Pretty girl on the hood of a cadillac, yeah
She's broken down on Freeway 9.
I take a look, I get her engine started and
leave her purring and I roll on by. Bye, bye!

Free love on the freelove freeway, the
Love is free and the freeway's long, I got some
Hot love on the hotlove highway, ain't
Going home cause my baby's gone (she's gone)

[ou se preferirem a versão de Gareth: «(she's dead!)»]

A little while later, see a Senorita,
She's caught a flat trying to make it home.
She says «Por favor, can you pump me up?»
I say «Muchos gracias, adios. Bye, bye!»

A long time later I see a cowboy crying
«Hey buddy, what can I do?»
He says «I lived a good life, had about a thousand women»
I said «Why the tears?»; he says «Cause none of them was you»

(Absolutamente genial.)

Publicado por João Pedro da Costa às 12:00 PM | Comentários (3)

Um verso

Um dos mais belos jamais escritos numa música pop. Como não podia deixar de ser, Mark Eitzel, «Song of the Rats Leaving the Sinking Ship», penúltima canção do último álbum dos American Music Club, LOVE SONGS FOR PATRIOTS:

«I swear you wanna say goodbye even more than you want to breathe»

(Também não havia necessidade de deixar as coisas chegarem a este ponto, pois não?)

Publicado por João Pedro da Costa às 11:54 AM | Comentários (2)

Poema Para Pesar Maçãs

Às vezes ainda fecho os olhos, mas já não funciona tão bem.
Outrora, podia pensar fosse no que fosse e cerrar
os olhos que de imediato havia uma similitude entre o que pensava
e a imagem que surgia na escuridão. Hoje em dia, nem isso.
Posso, por exemplo, pensar em ti com muita força
e, acto contínuo, fechar os olhos que me aparece (olha,
quem diria) a motorizada do meu pai.

Mas eu, de olhos abertos, faz-me pensar mais no teu filho
do que nos cisnes. Uma pessoa nasce e cresce.
Conhece um pai e uma mãe, aprende a falar e a escrever
«mãe» e «pai» e outras palavras mais em idiomas diversos.
Há um dia em que nos deixamos tomar por alguém
pela primeira vez e ocasionalmente a gente apaixona-se
que é o momento da vida em que duvidamos do Newton
e optamos pela incerteza e seus princípios de suprema relatividade,
na medida em que verificamos que o centro de gravidade nem
sempre é a Terra: todas as maçãs passam a cair na cabeça da pessoa amada,
esteja ela onde estiver. Viveste tudo isso (ou talvez um pouco mais)
para chegares a uma tarde em que estás sentada na relva
em frente a um lago e olhas para o lado
e vês um rapaz. E eu imagino que, pela primeira vez,
te apercebes que aquele miúdo (para além de ter todas as maçãs do mundo
a cair-lhe em cima da cabeça) surgiu algures, como quem não quer
a coisa, numa curva mais apertada da tua existência.
Fomos dotados de um poder do qual somos indignos
que é trazer para o mundo um ser apto a detonar
todos os verbos que conjugámos no passado.
Tudo isto é inimaginável e terrível, embora não deixe
de ser belo até à comoção, que é normalmente o nome predicativo
de todos os sujeitos terríveis e distantes.

Lembro-me igualmente de quando te fui visitar ao hospital
e recordo ainda com maior exactidão a vontade
que tinha em te ver, pois para mim era óbvio que era outra
a rapariga que ali estaria. Tinhas dado um salto. Pisado um risco.
Nitidamente entrado para outra divisória. Esperava adivinhar-te
transfigurada, na plena posse do teu poder criador,
e não deixava de ter um pouco de medo ao pensar na possibilidade
tão verosímil de não admitires uma presença profana
(inclino agora um pouco o pensamento para os cisnes,
pois era o que me faziam lembrar as enfermeiras ao deslizarem
silenciosas e elegantes, os corredores infinitos). Entrei no quarto e vi-te.
Estavas bem bonita, sabes. Despojada do teu milagre –
mas bonita. Olhavas para a luz que era a única forma de matéria
que deverias reconhecer naquela altura. Chamei-te pelo nome,
olhaste para o vazio. Estavas cansada e sorriste.

Fecho os olhos e não vejo o teu sorriso. Porém,
na memória, um odor a maçãs e outros cisnes.

Publicado por João Pedro da Costa às 01:36 AM | Comentários (3)

Curiosidade

Caros bloguistas: haverá alguém em escuta que já tenha blogado charrado? É muito bom.

Publicado por João Pedro da Costa às 12:58 AM | Comentários (13)

setembro 28, 2004

Verdade e verosimilhança

Há, na blogosfera, uma polémica interessante não tanto sobre os media, mas sobre os conceitos de VERDADE e VEROSIMILHANÇA aplicados ao CÓDIGO DA VINCI. Leitura aconselhada.

Publicado por João Pedro da Costa às 03:57 PM | Comentários (12)

A oeste há sempre algo de novo

wardandbanhart.jpg

São as duas grandes revelações da música americana.

Devendra Banhart, que vai tocar no próximo Sábado no Festival para Gente Sentada, em Santa Maria da Feira, é uma espécie de reencarnação de Nick Drake e Marc Bolan, e o seu segundo álbum REJOICING IN THE HANDS (2004) já colocou o seu nome na primeira linha dos novos compositores americanos (supostamente, NINO ROJO, uma espécie de 2ª parte do disco anteriormente referido, já terá sido editado há duas semanas, isto apesar de não o encontrar à venda em lado nenhum...).

Quanto a M. Ward, as coisas piam mais fininho: ele já é uma certeza. Este senhor, para além de coloborar com nomes tão sonantes com Howe Gelb, Jason Lytle e Mark Linkous (para quando um novo álbum dos Sparklehorse?), conseguiu atingir o pico da sua discografia com o 3.º álbum, editado em 2003, TRANSFIGURATION OF VINCENT. Imaginem uma voz semi-cavernosa à Tom Waits e composições algures entre Stephen Stills, Townes Van Zandt e Django Reinhardt (juro) e ficarão com uma pequena ideia do trabalho deste senhor. Foi, para mim, o grande disco do ano passado, onde nem sequer falta a mais arrepiante versão de um tema de David Bowie - nada mais, nada menos, que «Let's Dance». Dizem as boas línguas que está previsto um novo disco até ao final do ano.

Publicado por João Pedro da Costa às 01:46 PM | Comentários (2)

E a coisa mais importante que vou fazer hoje...

...é desejar boa sorte a uma rapariga que vai dar a sua primeira acção de formação devidamente remunerada.

;)

Publicado por João Pedro da Costa às 02:12 AM | Comentários (15)

Ponto de situação

Tenho dedicado uma boa parte dos últimos dois dias a ouvir dois discos recém-editados: HIGH dos The Blue Nile e LOVE SONGS FOR PATRIOTS dos American Music Club. Vamos por partes:

i) o álbum dos The Blue Nile é uma semi-desilusão. De facto, o tema «Soul Boy» (cuja audição motivou a compra do álbum) é, de longe, o melhor do disco. As composições de Paul Buchanan tem o seu encanto, seduzem pelo bom gosto nos arranjos e pela forma despojada como se insenuem no ouvido, mas são um pouco enfadonhas de mais para o meu gosto. Falta-lhe garra, cuja medição (como é óbvio) não passa pelo nível de decibéis. É música adulta, mas num sentido que não faz vibrar a minha corda sensível. Quem sabe, daqui uns anos...

ii) o trabalho dos AMC é, para mim (e que o Diabo seja cego e surdo), o melhor disco que ouvi em 2004. O mérito vai muito para além da inegável capacidade de composição de Mark Eitzel: nota-se que é o disco de uma banda, onde o todo é imensamente maior que a soma das partes e que até tem mérito de pôr em pespectiva o seu trabalho a solo. Quem esperava um disco calmo com temas lânguidos e arrastados, enganou-se redondamente: é um disco de rock (americano, é claro) que cumpre na perfeição uma das missões mais nobres do género: um olhar lúcido sobre a realidade, sem jamais cair no panfletismo descartável que por vezes tanto prejudica a fruição da música de outras bandas (os Manic Street Preachers são aqui um bom exemplo). No fundo, é tudo uma questão de subtileza, bem ilustrada nos versos de «Mantovani, the mindreader» destinados a George W. Bush:

«What kills your soul is the pain you make
the fights you faught, the love you fake.
And at the end of your show
I hope you'll have a marvelous goodbye
A shotglass melody for a timpani sky.»

Publicado por João Pedro da Costa às 01:36 AM

setembro 27, 2004

O meu coelho suicida #7

omeucoelhosuicida7.jpg

Este coelhinho é dirigido a todos aqueles que têm um blog na plataforma do Movable Type e que, como eu, sofrem pesadelos quando se atrevem a mudar os templates...

(Como é óbvio, este coelho suicida não conhece o Paulo Querido para lhe pedir uma ajudinha...)

Publicado por João Pedro da Costa às 08:46 PM

Aproximação à fenomenologia dos «Projectos»

Nos últimos anos tenho reparado que quase todos os meus amigos «estão com um projecto». Desde logo, convem reparar no verbo utilizado neste predicado: um projecto não é algo que se possa «ter», mas algo com que se está. Como é óbvio, a diferença é enorme («the difference is huuuuuge» diria a Maria de Medeiros no PULP FICTION). «Ter um projecto» é uma coisa insignificante e não impressiona o ouvinte: todos nós temos vários ao mesmo tempo e todos eles residem no limbo das possibilidades remotas que poderão um dia, talvez, se o tempo for favorável e a gente estiver praí virada, se concretizar. «Estar com um projecto» é totalmente diferente. Temos o «projecto» ao nosso lado, a caminhar connosco de mão dada, e a nossa inegável existência serve de atestado à existência concreta do projecto, isto é, o «projecto» existe comigo, ou seja, a existência dele é tão real como a minha, resumindo: o projecto, caramba, existe mesmo e não estou aqui a falar do campo das possibilidades remótas, percebeste?

«Estar com um projecto» é diferente de «Ter um projecto» também pelo facto da primeira formulação topicalizar ou isolar de certa forma o projecto do sujeito da enunciação. O projecto é mais importante quando alguém está com ele do que uma mera relação de posse. «Estar com um projecto» também induz o ouvinte a concluir que o «projecto» já não é um mero «projecto»: no fundo, o bicho já tem uma espessura assinalável, de certa forma o gajo já existe, está em andamento, e de um dia para o outro ele vai nos estoirar nas fuças. O projecto é uma fatalidade, ele está na iminência de acontecer.

Claro que tudo isso é retórica. Quando ouço uma pessoa dizer «Estou com um projecto», acredito menos na viabilidade do mesmo do que um que esteja na posse de outrém. No fundo, quem diz esse tipo de frase também sabe que há uma probabilidade considerável do seu enunciado vir a bater no cepticismo de quem o ouve. É exactamente por isso que disparam o verbo «estar», que é suposto nos confundir e nos levar a pensar que a fase do «Ter um projecto» evoluiu para um estado mais ontológico de «estar» com ele. Até porque «Estar com um projecto» é um «estado» permanente, poderia quase ser traduzido por «Estou agora e sempre com um projecto porque o gajo é tão plausível e importante que me é impossível existir sem estar com ele ao meu lado: estou com o projecto de manhã quando tomo o pequeno almoço, ao longo do dia quando estou a trabalhar, ao serão quando vejo o Telejornal e à noite quando vou prá cama: é impossível pensarem em mim sem pensar no projecto com que estou, porque, no fundo, eu e o projecto somos a mesma coisa, a única e mesma pessoa».

Antigamente, conseguia manter uma conversa com os meus amigos sem nunca passarmos pelo tópico dos «projectos». Mas a gente envelhece, os sonhos que tínhamos, afinal, não se concretizaram e todos nós acabamos por arranjar um trabalho que não corresponde minimamente às nossas expectativas. Ele é um músico que terminou a gerir um restaurante; um poeta que vende seguros; um pintor que foi trabalhar para um talho no Reino Unido; uma ilustradora que está a tirar um curso de tai-chi. E porque em todos eles havia de facto algum talento, nenhum deles abandonou o sonho de lançar um disco, publicar um livro, montar uma exposição ou ilustrar todos os livros do mundo. Talvez seja por isso que, quando algum desses amigos (que amo profundamente) estão com alguém como eu que foi testemunha do seu talento e da forma como a vida os afastou daquilo que realmente queriam ser ou fazer, todos eles transpõem o seu sonho para os famigerados «projectos», espécie de sombra que os acompanha durante o dia e mesmo à noite quando o Sol se põe.

Na melhor série televisa de sempre, THE OFFICE, há uma cena do episódio 2 da 2ª série, em que a telefonista Dawn fala a David Brent, seu patrão, do seu sonho de ser ilustradora de livros para crianças. O texto é belíssimo e é no fundo uma pequena narrativa que ilustra na perfeição o que tenho estado aqui a dizer:

DAWN:«I always wanted to be a children's illustrator and when people said "What do you do?", i would say "Well, i'm an illustrator, but i do some reception work for a litlle bit of extra cash". So, for years, i was an illustrator who did some reception work. Then Lee [o namorado] thought it would be a good idea for us both to get full-time jobs. Then you're knackered after work and it's hard to do illustrating. Now, when people ask me what i do i say I'm a receptionist.»

É claro que tudo isto é patético (não confundir com «pateta») e que todos estes meus amigos, no fundo, sabem que eu sei que ambos sabemos que quanto mais se fala de um «projecto», menor é a possibilidade de ele acontecer realmente, pois o tempo passa, a vida apesar de ser às vezes porreira também sabe ser cruel, e um «projecto» não é uma coisa de que se fala, mas que se faz, a não ser que a gente comece a perceber que ele está cada vez mais longe de se concretizar e falar nele é uma forma desesperada de «manter o sonho vivo», como depois diz cruelmente David Brent:

DAVID BRENT: «Pipe dreams are good... in a way.»

DAWN: «Well, I still hope it will happen...»

DAVID BRENT: «Keep the dream alive, because otherwise one day you'll go "Oh, could i have made it?". If you keep trying, at least, one day (when it doesn't happen) you'll be able to say "Well, at least i had it a go", you know?»

Yeah, digo eu, we all do.

Publicado por João Pedro da Costa às 03:50 PM | Comentários (2)

É hoje

lost in translation.jpg

Pergunta inocente: Manela, sabias que a partir de hoje este DVD está à venda e todo o país, nomeadamente na FNAC que fica mesmo à beira do teu local de trabalho?

Publicado por João Pedro da Costa às 01:57 PM | Comentários (12)

Mas o meu pai, afinal, não apareceu.

telefone.jpg

Como não tenho telemóvel (eu seu, eu sei), de vez em quando lá tenho eu de entrar num café para fazer uma chamada. Ontem, entrei num na Rua Passos Manuel, em frente ao Coliseu do Porto, e foi-me apresentado um velho telefone de disco giratório. E eu fiquei estupefacto por várias razões. A primeira é que os poucos números que sei de cor (e incluo aqui o código do Multibanco) são por mim memorizados através do desenho geométrico que a sucessão dos números traça sobre o teclado, ou seja, não consegui fazer a chamada sem antes ter desenhado num papel, e perante o olhar incrédulo do empregado, a quadrícula com os 10 dígitos e o zigue-zague do respectivo número (há gajos que são considerados mentecaptos por muito menos do que isto); a segunda é que já fazia anos, talvez 10 ou mais, que não via um telefone daqueles, para mais preto, igualzinho ao que deslumbrou a minha infância (ao ouvir o ruído mecânico do disco, tive durante alguns segundos a certeza que o meu pai ia aparecer naquele café para me perguntar a quem é que eu estava a ligar). Por último, não deixei de sentir uma certa tristeza ao verificar que é tão fácil nos esquecermos do que é belo.

Haverá por aí alguns à venda?

Publicado por João Pedro da Costa às 12:07 AM | Comentários (4)

setembro 26, 2004

O coração do patrióta

Cortesia de Mark Eitzel, canção #3 do novo álbum dos American Music Club, LOVE SONGS FOR PATRIOTS.


PATRIOT'S HEART

If you wanna see something patriotic, there's a stripper
He don't look that good, but he's got an all-American smile
that fills his underwear with all the lonely dollars
from all the lonely men who no one suffers
who wait around this bar and spend all their lonely hours
they're already gone - no one's running for cover
the farther you run away, the more you have to hide in the dark
white as the worm that crawls in the patriot's heart

It is so red, white and blue the way he works the bar
selling his embraces like Mr. President or a fallen star
he don't care babe if you're worldly or wise
he's just looking for men with sins in their eyes
and he always says the same thing, he says,
«So, how you doin', baby? I'm your rod and your staff
and for a tip, you can touch me.
And after a few tequilas, I become something holy.
And this crappy little bar with its sweating mirrors
and its mildewed ceiling are more full of love,
yeah, then even natural selection. And dollar for dollar, babe,
it's a better bargain. The more you pay,
the more I can break you all apart.»
And dollars pour like ashes from the patriot's heart.

Now he knows that your good time will kill him,
but the thought of getting old, no it does not thrill him
He says «Give me all your money and don't tell me what you're thinking.
I'm the past you wasted, I'm the future you're obliterating.»
Oh, come on grandpa! Remind me what we're celebrating -
that your heart finally dried up or that it finally stopped working?
And how you make a dead man cum?
You learned the undertaker's art and make 'em shine
like the alcohol that preserves the patriot's heart.
We all want a patriot's heart
Give me your patriot's heart

You can see him fade with the dawn in a pile of Washingtons
His head is in a spin, he's happy to pass out again
He would rather fade into the static than hear the violins
that whine like old lovers who whine that they love him
He would rather laugh alone in the dark with his soft hands and harem
because they leave him alone with his entertainment system.
He does it for the money but he gives more than he's given
He does it for the money but he gives more than he's given
and it's only when he's naked that he feels his heart
in the whorehouse desert of the patriot's heart.

We all want a patriot's heart

Publicado por João Pedro da Costa às 03:23 PM

Bryce Dallas Howard

bryce dallas howard.jpg

É tão bom ser surpreendido. Com THE VILLAGE, M. Shyamalan passa a fazer parte do meu restrito panteão de realizadores de culto. Claro que ainda há algumas coisas que me irritam, caso da obsessão que o gajo tem pela câmara lenta, mas, de qualquer forma, um belo filme. A mais sublime e subtil alegoria sobre a América do pós 9 de Setembro.

E depois, há a Bryce Dallas Howard. Decorem este nome e esta cara. Está neste momento nas mãos de Lars Von Trier. E só o Diabo sabe o que o que poderá acontecer.

Publicado por João Pedro da Costa às 02:47 PM

setembro 25, 2004

D. José Policarpo e a justiça popular

Confesso que ainda estou em estado de choque e que, provavelmente, deveria esperar pelo dia de amanhã para escrever este post. Mas não dá.

Acabo de ouvir declarações de D. José Policarpo sobre o terrível desaparecimento da Joana. Em primeiro lugar, o patriarca de Lisboa saca de uma reflexão sociológica de pacotilha e interpreta o acontecimento como um «sintoma dos males da nossa sociedade» - de facto, é difícil ser-se mais impressionista e reaccionário. Em segundo lugar, e ainda mais grave, este senhor dispara um discurso altamente perdulário e compreensivo sobre as manifestações populares e as tentivas de linchamento de dois suspeitos, interpretando as mesmas como uma «manifestação do que vai no coração daquela gente». A partir de hoje, ficamos portanto a conhecer mais um dogma da religião católica: o ódio e a irracionalidade, se vierem do fundo do coração, são válidos e compreensíveis.

Ámen.

Publicado por João Pedro da Costa às 11:59 PM | Comentários (2)

Já cá canta...

high.jpg

Publicado por João Pedro da Costa às 04:11 PM

Minuto 109

«Take me as iiiii am, as a soooouuuul boy».

Publicado por João Pedro da Costa às 03:23 AM

The Blue Nile

A UNCUT trazia (é da praxe) um CDzito com algumas músicas que costumam ser inofensivas, mas que sempre dão para entreter o ouvido. Tudo bem, pensei, isto vai servir para prolongar a espera (é verdade, eu sou desses) de ouvir o novo disco do AMC que tenho aqui aos pulitos na cama. Isto até chegar à faixa 10 e apanhar na tromba com um tema do novo disco dos THE BLUE NILE chamado «Soul Boy». Estou há 74 minutos em «repeat». Onde é que eu ando com a cabeça, caramba? Amanhã lá vou eu à FNAC.

Ups, 75.

Publicado por João Pedro da Costa às 02:49 AM

Os meus coelhos suicidas #6

omeucoelhosuicida6.jpg

A sério: livrem-se de ir aqui, e de se submeterem ao «compasso político» usado pelo Público para localizar o espectro político dos três candidatos à liderança do PS.

Eu obtive (-10, -10), valores que me colocam no extremo A-BE-SSU-LU-TU do quadrante Esquerda-Libertário. Isto faz de mim o quê, caramba? Um tarado sexual armado em Che? Ou um Gandhi com sonhos molhados?

Bardamerda pra isto.

Publicado por João Pedro da Costa às 02:31 AM | Comentários (2)

Já sabem qual é o «disco do mês» da Uncut?

amc foto.jpg

Pois é: o disco do mês da edição de Outubro da UNCUT é o último trabalho dos American Music Club, LOVE SONGS FOR PATRIOTS (que, lembro, não editavam um disco há dez anos). A piada é que comprei hoje o disco e ainda só tive tempo de ouvir os três primeiros temas. Do caralhão.

Cito Allan Jones: «What's it like? Absolutely fucking brilliant, since you ask». E com isto me babo.

Publicado por João Pedro da Costa às 01:44 AM | Comentários (2)

setembro 24, 2004

A vida é um milagre II

Seria desnecessário eu publicar este post se o último trabalho de Kusturica fosse apenas aquilo que seria de prever, isto é, um bom filme. Acontece que A VIDA É UM MILAGRE é, na minha opinião, o melhor filme que o croata fez até hoje. E tendo em conta que ele já realizou filmes com o calibre de O TEMPO DOS CIGANOS, O PAPÁ FOI EM VIAGEM DE NEGÓCIOS, ARIZONA DREAMING (a investida mais bem conseguida de um realizador europeu em Hollywood), UNDERGROUND e GATO PRETO, GATO BRANCO, dá para ficar com uma pequena ideia do que estou a falar.

O último filme de Kusturica é a sublimação de tudo aquilo que faz da sua visão cinematográfica uma das experiências mais intensas que a sétima arte tem para nos oferecer. Temos lá os planos fellinianos, a omnipresença da música dos balcãs, a proliferação subtil de simbolismos, uma galeria eufórica das personagens (onde cada rosto equivale a uma paisagem) e, sobretudo, uma das mais belas histórias de amor jamais transportas para o celulóide.

Pena que os nossos críticos de cinema tenha aproveitado a boleia do Festival de Cannes (onde o filme foi friamente recebido) e não se tenham rendido aos seus encantos. Eu, por exemplo, foi vê-lo ontem e ainda continuo por lá perdido.

Publicado por João Pedro da Costa às 02:57 PM | Comentários (1)

A primeira vez que a alma se desprendeu do meu corpo

A primeira vez que a alma se desprendeu do meu corpo, eu não estava à espera. Tinha comido duas grandes pratadas de feijão fradinho com atum e, quando me ia levantar, uma pontada no baixo ventre fez-me dar um peido ruidoso que libertou um cheiro que classificaria de interessante e a dita alma, por demais inqualificável. Como todas as almas

suponho eu

a minha era invisível e planava no ar sobre a mesa da sala, o que me dava uma panorâmica bastante engraçada da coisa. A minha avó ficou escandalizada com tamanho descuido e abriu a boca de espanto. O avô era meio surdo e, portanto, estava a leste. Ela olhou para mim

quero dizer, para o meu corpo

e perguntou-me se isto se fazia à mesa. Não respondi, visto que um humano sem alma é como um fantoche sem titereiro. Tornou a fazer a mesma pergunta, articulando as palavras com uma tensão que

sinceramente

me pareceu exagerada naquele contexto de confraternização familiar. Ainda tentei responder de lá de cima, mas percebi que as almas quando estão livres não podem falar, o que é uma chatice e eu não gosto delas, sobretudo quando são grandes como era o caso.

O sangue subiu-lhe às faces e voltou, desta vez aos berros, a fazer-me a mesma pergunta, ao que o avô respondeu que não, que não queria mais sopa. Eu, assim suspenso, começava a ficar atrapalhado e também a dar conta de que a careca dele era bem maior que aquilo que pensava. Ela levantou-se, o avô disse

- Caralho, Maria, já te disse que não quero mais sopa.

e o meu corpo, esse, continuava mudo, inerte, de olhos abertos a olhar de um jeito meio estranho e alucinado para eles. Confesso que tinha um ar um tanto ao quanto ridículo. Chamou-me malcriado e disse-me que se não respondesse de imediato levaria com um prato nos cornos. Meu avô olhou-a espantado e deu um arroto sem que, no entanto, a alma saísse pela boca, o que na altura até teria dado um certo jeito, ou talvez não. Ela, furibunda, agarrou num prato; ele, desautorizado, agarrou na bengala; e eu, desesperado, não agarrei em nada, o que também não é muito grave, visto que não é que não era bem isto que vos queria contar.

Publicado por João Pedro da Costa às 02:22 PM | Comentários (4)

setembro 23, 2004

Lembrete

Para os mais distraídos, deixo aqui este lembrete: amanhã é 6ª-feira e, por isso, leitores do JN e do DN, não se esqueçam de ir ao suplemento BYTES, ler a crónica do magnífico José Becho (publiquei um post sobre esse senhor no passado dia 18 de Setembro).

Publicado por João Pedro da Costa às 07:34 PM | Comentários (2)

A vida é um milagre

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Vou vê-lo hoje. E vocês? Estão à espera de quê? Sim, sim, os filmes de Kusturica recomendam-se assim mesmo, às cegas.

Publicado por João Pedro da Costa às 07:17 PM | Comentários (2)

Tivoli Audio One

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Não sou um audiófilo. Deus me livre. De resto, passei a minha adolescência a ouvir todos os grandes discos da década de 70 numa miserável aparelhagem (aparelhagem?) que, para além de acrescentar um zumbido insuportável a tudo o que lhe saisse das colunas, tinha o dom de destruir todas as cassetes que lá metia. Hoje em dia (bruxo), já possuo uma Denon F88 que se tem aguentado à bronca com o uso intensivo que lhe dou e emana um som a-gra-da-bi-lí-ssi-mo, não obstante a necessidade que por vezes sinto de lhe domar os agudos (mas o problema deve ser meu).

Por isso confesso que, há dois anos, quando comprei um Tivoli Audio One, fi-lo porque achei o bicho lindo de morrer (é mesmo lindo, não é?). As mais-valias viriam depois. Para além do inacreditável bom gosto do design retro, o Tivoli Audio One tem duas características notáveis. Em primeiro lugar, possui um sistema pioneiro de captação de ondas que resulta de uma adaptação da tecnologia GaAs MES-FET usada nos telemóveis de 3.ª geração (não faço a mínima ideia do que estou práqui a falar, mas a verdade é que, no meu quarto, consigo captar mais de 20 estações de rádio na banda FM). Em segundo lugar, este bichinho tem um som mono tão cheio, límpido e aveludado que me faz questionar o porquê dessas novas aparelhagens feias e carotas com 5, 6 ou 8 colunas, quando uma pequena caixinha com apenas um speaker é capaz de pôr qualquer mortal a levitar.

E depois, ter um Tivoli Audio One é como fazer parte de uma seita. Somos extremamente sóbrios e «low profile», mas a gente reconhece-se se nos cruzarmos na rua. Temos um código de conduta e um culto que, não o nego, poderá chocar as mentes mais sensíveis. Somos assim, orgulhosos, parvos e diferentes. Entre os nossos membros mais distintos, talvez deva destacar a personagem principal do último filme de Tim Burton, BIG FISH, e uma morena giraça que dança num anúncio televisivo de um certo crème depilador (o dela é branco e, pasme-se, tem-no na casa de banho).

E tudo isso por menos de €170,00. Dá para acreditar?

Publicado por João Pedro da Costa às 12:33 AM | Comentários (8)

setembro 22, 2004

O meu coelho suicida #5

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Este coelho é aquilo que se pode chamar um verdadeiro plágio: inspirei-me num gag do livro de Andy Riley onde, em vez de um disco rígido com software da COMPTA, havia um disco dos ABBA (apesar de tudo, quem dera à COMPTA estar para as empresas informáticas, aquilo que o quarteto sueco foi para a pop).

Publicado por João Pedro da Costa às 09:57 PM | Comentários (5)

«O Manuel Alegre está a falar! É preciso respeitar o Manuel Alegre!»

Ontem, assisti um pouco ao debate na SIC Notícias com os três candidatos à liderança do PS. Apesar do momento da noite ter sido, sem dúvida, a chamada de atenção de João Soares a José Socrates (ver título), houve outro que também me tocou de forma particular: quando se falou de um magnífico sintagma que, confesso, até à altura me era totalmente desconhecido: «classe média empobrecida».

Caramba, senti logo a carrapuça a aquecer-me as orelhas. Classe média emprobrecida, classe média empobrecida. Será que isto faz de mim um eleitor com propriedades radioactivas?

(Chega de bloguices, vou prá praia aproveitar o dia. E que belo dia.)

Publicado por João Pedro da Costa às 02:22 PM | Comentários (3)

Obrigado pelo momento

Só agora é que dei por ela. Sois muito gentis. Conseguiram pôr o relógio biológico deste blog a dar horas ;).

Publicado por João Pedro da Costa às 02:11 AM | Comentários (3)

Os meus coelhos suicidas #4

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Estes coelhinhos sabem que podem contar com o nosso governo de direita. Danados.

NOTA: O desenho que podem ver apenas foi possível graças ao gentil patrocínio da Manela, que gastou €6,40 numa Papelaria Fernandes na compra de duas MICRON Archival Ink, uma 08 e outra 03 (eu gostava mesmo era das STAEDTLER, mas tá bem), e de uma EDDING 3000 Permanent Marker, todas elas pretas. Um beijinho à mecenas.

Publicado por João Pedro da Costa às 01:29 AM | Comentários (6)

setembro 21, 2004

O relógio biológico dos blogues

Não sei se já repararam, mas todos os blogues tem um relógio biológico. É claro que quando os blogues são unipessoais e os posts são publicados com uma certa regularidade, a detecção do mesmo torna-se mais fácil, na medida em que apenas há uma forma de estudarmos o relógio biológico de um determinado blog: a hora em que são publicados os posts. É óbvio que há aqui uma margem de erro a considerar, recentemente exponencializada com a nova possibilidade fornecida pelo Movable Type de publicar posts numa hora posterior àquela em que os mesmos foram redigidos. De qualquer forma, o método é relativamente fiável e, na maioria dos casos, encontra-se um padrão.

A primeira grande distinção a fazer é entre os blogues nocturnos e diurnos. Os primeiros concentram num espaço de tempo reduzido (entre uma e três horas) uma série de posts em catadupa: há neles um grande desejo de débito, diria quase um sentimento de culpa por, durante o dia, não terem despejado nada para o seu blog. Os diurnos são, por regra, mais regulares e a sua amplitude de publicação varia entre as 5 e as 10 horas. São sem dúvida pessoas que, por um lado, tem a oportunidade de produzir e enviar conteúdos a partir do seu local de trabalho e que, por outro, quando chegam a casa esquecem o blog - muito raramente publicam coisas depois das 22h.

Há depois casos fascinantes (não vou citar exemplos, pois a blogosfera está cheia de gente susceptível). Conheço dois blogues unipessoais e relativamente conhecidos (regularmente presentes nos 100 mais visitados do weblog.com.pt) que publicam os seus posts com uma amplitude de 20 horas (entre as 10h e as 6h). Outros (conheço três casos) que apenas estão activos entre a meia-noite e as 4 da manhã. Há um em particular (provavelmente há mais, mas é apenas esse que conheço) que é um autêntico relógio suiço: no espaço de duas semanas publicou sempre com uma amplitude de 1 hora (entre as 22 e as 23h). Não sei se repararam que no TOP 10 dos blogues mais populares da rede, não é frequente haver a publicação de um post depois das 22 horas e antes do meio-dia.

Tudo isto, poderão dizer, é um exercício fútil. Talvez. Mas, nos últimos dias, tenho vindo a construir na cabeça, e de uma forma quase involuntária, uma espécie de taxonomia dos blogues a partir do seu relógio biológico, e começo a chegar à conclusão que existe uma assinalável correspondência entre essa classificação e o conteúdo dos mesmos (isto é particularmente visível nos blogues conotados politicamente).

Publicado por João Pedro da Costa às 03:36 PM | Comentários (10)

Mutts #4 - 6

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A isto chamo «animalidade comparada».

Publicado por João Pedro da Costa às 01:55 PM

setembro 20, 2004

O tabaco e os impostos II

Até porque uma coisa seria o ministro da saúde vir dizer que se vai aumentar o imposto sobre o tabaco como medida profilática no combate ao tabagismo e outra, totalmente diferente, é o ministro das finanças vir dizer o mesmo como estratégia para combater o défice.

Publicado por João Pedro da Costa às 09:01 PM | Comentários (2)

O tabaco e os impostos

Eu sou fumador e fumo muito. Fumo porque fumar é bom, dá-me mesmo IMENSO prazer. Mas não sou burro (burrice foi quando fumei o primeiro) e, como a maioria dos fumadores, já procurei diversas vezes deixar de fumar. Já tentei o método «Bunny suicide» (deixar de fumar sem mais nem menos), a substituição por pastilhas elásticas, deixar de tomar café, ler intensivamente artigos impressionistas sobre os malefícios do tabaco, enfim, o diabo a quatro - tudo em vão. Há duas semanas, aderi ao tabaco de enrolar e os resultados não são menosprezáveis: gasto apenas 20% do que gastava antes e reduzi cerca de 50% o número de cigarros que fumava por dia (os números exactos, hei-de levá-los comigo para o túmulo). Como todos os fumadores, sofri e sofro por fumar na rua, por fumar em casa e na casa dos outros e por ter fumado em todos os locais onde já trabalhei. Tenho de ouvir piadas de mau gosto de pessoas que não sabem ou não querem saber o que é ter um vício, comentários sobre o que deveria ser a minha preocupação em relação aos outros e ainda (última novidade) tenho de andar no bolso com uns dizeres (cortesia dos governos da união europeia) que me fazem o favor de me lembrar que me ando a matar aos poucos. O que, apesar de ter efeitos nulos, é sempre simpático.

O governo. Tem piada que na sua já famosa performance televisiva sobre as contas do Estado, Bagão Félix apenas fez referência a uma única medida concreta para combater o défice: aumentar o imposto sobre o tabaco. O que, se calhar, este senhor não sabe é que a margem de manobra já não é grande: somos o 5º país da Europa com o maior imposto sobre o tabaco (estão preparados?): 78% (pois é). Ou seja, quando compramos um Marloboro por €2,35, vão direitinhos para os cofres de estado €1,83. Somos uns magníficos contribuintes. Chatos, mas contribuintes.

Aconselho pois as repartições públicas, alguns restaurantes e a MacDonalds a substituir os avisos «É proibido fumar» por «É proibido contribuir para a meta dos 3%». E anda-me este governo a preparar uma nova lei que restringe os locais onde se pode fumar. Será que desconhecem o plano de acção do ministro das finanças?

Bando de palhaços.

Publicado por João Pedro da Costa às 06:34 PM | Comentários (4)

O meu coelho suicidia #3

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É. Confesso que estou a tomar-lhe o gosto.

Publicado por João Pedro da Costa às 06:28 PM

O meu coelho suicida #2 (esboço para)

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É apenas um esboço. Não dá para ver, mas é suposto o coelho ter uma gravatinha.

Publicado por João Pedro da Costa às 04:58 PM | Comentários (8)

Listening Session #5

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Quando em 1995, os Stone Roses chegaram ao fim (um ano após o magnífico SECOND COMING, um dos mais injustiçados álbuns da história da pop), cheguei a fazer apostas com o meu melhor amigo (olá, José Gentil, como vai a vida em Bragança?) sobre quem iria ter mais sucesso após o rompimento da banda. Como é óbvio, Ian Brown e John Squire eram, para nós, os mais cotados. O tempo viria a demonstrar que, afinal, estávamos errados: tanto o vocalista como o guitarrista perder-se-iam para sempre e nenhum dos elementos da dupla de compositores dos Stone Roses voltaria a escrever uma página de ouro da história da música pop. Os Seahorses apenas deixaram dois singles pouco mais que aceitáveis («Love is the law» e «Blinded by the sun») retirados de um álbum francamente medíocre (DO IT YOURSELF, 1997), e tanto os álbuns a solo de Ian Brown (apesar de algumas boas ideias) e de John Squire (maus de mais para almas sensíveis) são exercícios desaconselháveis para quem vibrou com canções como «I wanna be adored», «Fool's gold» ou «Love spreads».

Vem esta introdução a propósito dos Primal Scream e da (muito pouco assinalada) importância que Mani (Gary Mounfield), o ex-baixista dos Stones Roses, viria a ter no percurso musical da banda escocesa com a sua entrada em 1996. Creio que se pode mesmo falar de um momento «AC/DC», isto é, há duas bandas sob o nome de Primal Scream: uma «pré-Mani» e outra «pós-Mani». A primeira já tinha deixado o seu nome para sempre gravado nos anais da música pop com o seminal SCREAMADELICA (1991), manifesto definitivo da cultura indie, das raves e do ecstasy, onde a junção da pop com a música de dança (acid-house e tecno) lançou definitivamente para o mainstream as fórmulas já experimentadas por bandas como os Happy Mondays ou os já referidos Stone Roses. A entrada de Mani na banda, contudo, deu-se num momento em que os Primal Scream estavam num impasse: a edição, em 1994, de GIVE OUT BUT DON'T GIVE UP (um exercício anacrónico de hard rock, que fazia lembrar os Rolling Stones vintage da década de 70) tinha sido recebido com grande frieza pela crítica e pelo público, resultando num fracasso comercial. Com Mani na banda, a revolução começa. Desde logo ao comporem o tema título do marco cinematográfico do ano, TRAINSPOTTING, e editando, a par de OK COMPUTER dos Radiohead, um dos dois discos mais marcantes de 1997: VANISHING POINT. Estava consumado um regresso à fórmula dançante de SCREAMADELICA, mas numa abordagem mais experimentalista, onde o baixo de Mani começa a pautar a dimensão mais obscura dos temas de Primal Scream. Ano zero, portanto.

EXTERMINATOR (2000) foi o primeiro disco de rock do séc. XXI. E, se calhar, é ainda o único editado até hoje digno desse nome. Não me refiro, como é óbvio, ao ano de edição, mas a uma concepção inovadora do que é rock'n'roll, a milhas de distância da visão revivalista de bandas como os White Stripes, só para citar um exemplo (e eu até sou um fã). O disco, de resto, parece apostado em cobrir o largo espectro do género musical ao açambarcar outros influências como as Big Beats (os Chemical Brothers têm a honra de ver a sua remistura de «Swastika Eyes» integrar o alinhamento do álbum), o Hip-Pop («Pills») e o Jazz («Blood Money»), ao mesmo tempo em que dá um novo alento à visceralidade das guitarras eléctricas («Accelerator», ironicamente o último single a ser lançado pela Creation). E em todos os temas vêm à tona a importância do baixo cheio de swing de Mani, sempre de uma forma sóbria e em constante diálogo com os restantes instrumentos e a inconfundível voz de Bobbie Gillespie, não obstante momentos de virtuosismo como «Kill All Hippies», «Exterminator» ou aquele que considero o mais incendiário tema rock dos últimos vinte anos: «Shoot Speed / Kill Light».

EXTERMINATOR é um disco nervoso e palpitante, uma autêntico manifesto lírico e sónico, cuja produção e dinâmica vanguardista abriu largas avenidas por onde o rock'n'roll poderia (e deveria) ter seguido. Pena que ninguém (a não ser os próprios Primal Scream, que continuaram a debravar caminhos com EVIL HEAT de 2002) tenha ligado puto ao convite.

(Uma nota final: esta é, de longe, a capa que mais adoro de toda a história da pop. E aproveito para uma correcção: o título do disco é mesmo «EXTERMINATOR» e não «XTRMNTR», como muita gente teimosa insiste em designá-lo: a ausência de vogais é uma mera opção gráfica do brilhante design, até porque, que eu saiba, a banda continua a chamar-se Primal Scream e não «Prml Scrm».)

Publicado por João Pedro da Costa às 04:16 PM

Quando a realidade copia a literatura

Do primeiro parágrafo de CEM ANOS DE SOLIDÃO:

«Um cigano corpulento, de barba ferina e mãos de pardal-dos-telhados, que se apresentou com o nome de Melquíades, fez uma truculenta demonstração daquilo que ele próprio denominava de oitava maravilhava dos sábios alquimistas da Macedónia. Foi de casa em casa a arrastar dois lingotes metálicos, e toda a gente ficou espantada ao ver como [...] os objectos perdidos há muito tempo apareciam por onde mais se procurara e arrastavam-se em debandada turbulenta atrás dos ferros mágicos de Melquíades.»

A realidade: o novo Object Finder da Sharper Image.

Publicado por João Pedro da Costa às 01:25 PM

Bunny suicides #2

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(Um dos meus favoritos: por favor, reparem no promenor do coelhinho a agarrar as patas de trás com as da frente)

Publicado por João Pedro da Costa às 01:30 AM

setembro 19, 2004

Mutts #3

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Publicado por João Pedro da Costa às 02:21 PM

O meu coelho suicida

Para não me acusarem de apenas usar desenhos alheios e motivado por uma experiência traumática já relatada neste blog, resolvi desenhar o meu próprio BUNNY SUICIDE. Dedico-o à Manela, que sofreu comigo na sala de cinema.

meu coelho suicidia.jpg

(Faço questão de deixar aqui registado que, para fazer este desenho, tive de dar cabo de uma magnífica Pigment Liner 03 da STAEDTLER. E quem me deu esta, não me dá outra.)

Publicado por João Pedro da Costa às 02:37 AM | Comentários (2)

Bunny suicides #1

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Eu ainda vou parar à cadeia por violação dos direitos de autor...

Publicado por João Pedro da Costa às 01:01 AM

Coelhos suicidas

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É o que dá andar sempre a bisbilhotar a secção de importações de BD das lojas FNAC: de vez em quando, é impossível sairmos de lá sem gastar dinheiro.

O livro de Andy Riley é uma espécie de manual de instruções para coelhos que estão fartos da sua existência, oferecendo um leque de 70 soluções para a resolução do problema. A obra é de uma originalidade e de uma imaginação surpreendentes e consegue levar a bom porto a sua premissa imbatível (coelhinhos com desejos suicidas). Por vezes, os gags consistem numa só imagem contendo o resultado final do suicído ou o instante que lhe é imediatamente anterior; outras vezes, temos pequenas narrativas em que vem ao de cima a ferocidade do desejo sucídia e a tenacidade dos coelhos na sua concretização. A sobriedade e a crueza dos desenhos a preto e branco são extremamente eficazes na forma como ilustram a alucinação perversa de cada plano suicidário e, pessoalmente, o que mais me surpreende são mesmo os coelhos: jamais esses bichos foram desenhados com uma tão absoluta (e propositada) inexpressividade. Genial.

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Publicado por João Pedro da Costa às 12:33 AM | Comentários (2)

setembro 18, 2004

His name is Becho, José Becho

Chegou o momento de partilhar convosco o segredo mais bem guardado da imprensa portuguesa. Não conheço José Becho, nem dele possuo quaisquer dados biográficos, a não ser o facto de saber que ele é «formador» (evito aqui qualquer comentário sarcástico, seguro que este meu esforço de contenção não passará despercebido) e, sobretudo, o de ser o autor de umas prosas deliciosas intituladas «Formação» no BYTES, suplemento de informática do JN e do DN.

Todas as semanas, o José Becho tem um problema bicudo para resolver: preencher (palavra fundamental, como veremos de seguida, na poética subjacente aos seus escritos) uma página inteira do dito suplemento com um texto de 1500 palavras. Nesse texto, há sempre uma espécie de lição de moral sobre um determinado assunto informático que, na verdade, poderia ser enunciado numa ou duas frases. Que fazer, portanto? O José Becho não está com meias medidas e resolve narrar. Sim, narrar. Criar um mundo imaginário, com diálogos e tudo, onde interagem umas personagens-tipo do género «sobrinho-curioso-cheio-de-dúvidas», os «amigos-que-não-percebem-patavina-de-informática-e-que-só-fazem-merda» e, claro, o próprio «José-Becho-formador-malta-jovem-super-cool-que-sabe-tudo». Numa palavra: palha. Palhinha da grossa e da seca, daquela que pica e não nos deixa dormir. Paradoxalmente, é nessa «palhinha» que nasce o meu verdadeiro interesse (quase fascínio) pelos textos de José Becho: o senhor é o mais profissional enchedor-de-chouriças existente em Portugal, capaz mesmo de rivalizar com esta figura mítica e arquétipa que foi Alexandre Dumas.

Exemplifiquemos. Na crónica (crónica?) de ontem, José Becho resolveu dizer-nos esta coisa que jamais nos passou pela cabeça que é o facto dos toners das impressoras serem «altamente tóxicos e perigosos se forem inalados». Como vêem, são sempre informações úteis e que, pessoalmente, já me convenceram a desistir da ideia de mamar ao lanche uma sandes de paio com dois toners HP (um 15/845c preto e um 17/845c a cores). O José Becho salva vidas e bastaria isso para ser merecedor da minha (nossa?) consideração.

Mas o melhor vem a seguir. Faltam, na boa, mais 1480 palavras para o texto estar completo e aqui é que a escrita de José Becho se torna seráfica. Temos pérolas do género:

«Quando chegámos, o funcionário que nos atendeu, o senhor [este «senhor» é semiotiquíssimo e refere a ausência de formação académica da personagem] Paulo Renato, olhou fixamente para o Saraiva e disse-lhe: "Eu acho que o conheço de qualquer lado...", e o Saraiva: "É natural, venho muitas vezes a casa do meu amigo Bernardo e também morei aqui até aos dez anos", de repente o senhor Paulo lembrou-se: "GILDINHO!!! Tu és o Gildinho, não és?", e antes do Saraiva poder sequer responder, deu-lhe um abraço e umas palmadas tão fortes nas costas, que até deixaram o Saraiva um bocado azul».

Como podem ler, isto é puro teatro grego. Confrontação, reconhecimento e catarse. E penso que não vos terá escapado a insinuação por parte do narrador de uma pulsão homossexual mal reprimida por parte da personagem que se dá pelo nome de «Saraiva». E, sobretudo, e isto é que é fundamental, nada do que se narra aqui é relevante e serve apenas para atingir o objectivo das 1500 palavras.

No texto em causa, nota-se que José Becho despachou o que queria dizer (não se deve comer toners) muito cedo e que ainda lhe faltam cerca de 400 palavras para receber o cheque pelo correio. Eu imagino-o em casa, em cuecas, a suar e de cigarro na boca, a accionar o contador de palavras do processador de texto e acrescentar um adjectivo aqui, um advérbio ali, ou uma frase catita acolá. Mas 400 palavras é muita coisa e aí, o nosso formador tem uma ideia genial que vem muito a caso num texto que trata da problemática da toxicidade dos toners das impressoras, a Moldávia:

«Deixamos então a impressora para reparação e a caminho de casa, o tio Alberto convidou-me para ir passar umas semanas de férias à Moldávia, a terra da tia Vika [genial]. Eu disse logo que sim [bruxo], e o tio Bernardo atirou à sua maneira: "Então os moldavos vêm para cá e tu vais para a Moldávia?" [apontamento fascista: todos os formadores são fachos], o tio Alberto saiu em minha defesa e disse-lhe: aquilo é um país espectacular, Bernardo. É pena que a economia esteja de rastos e origine tanta corrupção. De resto, é um país lindo: uma imensa planície com campos de trigo e girassol [ah, Cesário!]. Pinhais. Um jardim! E as pessoas? As pessoas são afáveis e generosas, são solidárias e convivem imenso. Quando lá chegas pela primeira vez, estranhas - os restos do passado recente estão bem presentes [eu não disse que ele era facho?] - mas depois de conviveres com aquele povo [e pimba], não queres sair de lá...».

Palavras para quê? É um artista português.

Publicado por João Pedro da Costa às 02:59 PM | Comentários (2)

A propósito...

O cartaz do filme também é feio bicho, caramba.

Publicado por João Pedro da Costa às 03:16 AM | Comentários (2)

Quem avisa meu amigo é

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Eu até andava a achar alguma piada ao gajo. AI e MINORITY REPORT foram dois belos filmes de ficção científica que apenas se iam abaixo nos últimos trinta minutos; e CATCH ME IF YOU CAN, com o seu ritmo e apurado sentido estético, o primeiro filme de Spielberg que recomendei aos meus amigos em idade adulta. Confesso que, por isso, as expectativas eram altas. É bem feita.

Não há outra forma de dizê-lo: TERMINAL é uma valente merda. De longe, o pior filme que o nosso amigo alguma vez realizou. É mesmo mau de mais para ser verdade. É lento, chato e comprido. O argumento é uma manta de gags sem pés nem cabeça. Os diálogos são tão supérfulos e vazios que fiquei com a sincera impressão que todas as personagens sofriam de Alzheimer. O Tom Hanks sóbrio e subtil de CATCH ME IF YOU CAN desapareceu completamente (foi um ar que lhe deu) e temos de novo o habitual palhaço histérico em constante over-acting (cf. FORREST GUMP). Quanto à Zeta-Jones, bem, é melhor nem falar nela. De resto, depois deste filme e dessa autêntica tragédia que foi INTORELABLE CRUELTY dos irmãos Cohen, espero ter aprendido a lição e nunca mais ir ver um filme em que o nome dela surja no elenco. Até a banda sonora (um dos pontes fortes de todos os trabalhos de Spielberg) constitui provavelmente das coisas mais fracas jamais feitas por John Williams. Mas o que me doeu mais foi mesmo ver Kumar Pallana (o actor fetiche de Wes Anderson que personificou, por exemplo, o impagável Mr. Pagoda de THE ROYAL TENENBAUMS) a ser usado por Spielperg de uma forma que roça a crueldade.

Sofri a bom sofrer. Quem avisa meu amigo é.

Publicado por João Pedro da Costa às 02:46 AM | Comentários (4)

setembro 17, 2004

Cem anos de solidão

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Eu sei que está na moda desdenhar o CEM ANOS DE SOLIDÃO de Gabriel García Márquez. Afinal de contas, este é um daqueles clássicos que tiveram (e continuam a ter) uma demolidora adesão popular - calcula-se que a obra tenha vendido mais de 30 milhões de exemplares nos 35 idiomas em que foi traduzida -, é um livro «cool» e «divertido», que se presta a uma razoável amplitude de leituras, é daquelas obras que são usadas como sinais exteriores de cultura e tudo isso incomoda muita gente que prefere citar livros porventura mais obscuros ou inacessíveis como, sei lá, O HOMEM SEM QUALIDADES de Musil, o ULISSES de James Joyce ou A VIDA, MODO DE USAR de Georges Perec (atenção, tudo livros geniais). Trabalhei durante três anos em duas livrarias e lembro-me que havia sempre algo que anoitecia em mim, quando uma «tia» me dava sinais de hesitação entre a compra da obra máxima de Gabriel García Márquez e o FERNÃO CAPELO GAIVOTA de Richard Bach (pffff...). Ninguém está a ver este tipo de dilema com A PESTE de Camus ou a ALEGRIA BREVE de Vergílio Ferreira...

Ora aí vai um lugar comum: CEM ANOS DE SOLIDÃO foi um livro que mudou a minha vida. Li-o aos 19 anos, em dois dias intercalados por uma noite de insónias povoada pelos espectros do coronel Aureliano Buendía, de Úrsula, de José Arcadio, dos irmãos gémeos Segundo, de Pilar Ternera, de Amarante, de Rebeca, de Melquíadas e do menos referido (mas para mim fascinante) Maurício Babilónia. De vez em quando releio-o, mas nem sequer posso dizer que é a obra que mais reli do autor columbiano (esse epíteto vai ou para CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA ou para O AMOR EM TEMPOS DE CÓLERA). Ando há três dias a reler CEM ANOS de SOLIDÃO e é incrível como o romance não perdeu nem um pouco do encanto que senti quando o li pela primeira vez. Pelo contrário, acho que estou a adorá-lo mais do que nunca. É extremamente difícil para mim (ou assombrosamente fácil, o que vai dar ao mesmo) escolher em particular uma passagem que possa exemplificar o domínio que Márquez possui da técnica narrativa, mas resolvi escolher a que se segue porque a considero uma das mais brilhantes utilizações da focalização interna de uma personagem: estou a falar do massacre dos três mil grevistas da companhia bananeira na estação de comboio de Macondo e da forma como José Arcadio Segundo «vê» a chacina perpetuada pelo Exército.

Com a devida vénia (tradução de Margarida Santiago):

«- Cabrões! - gritou. Oferecemo-lhes o minuto que falta.
No fim do seu grito aconteceu algo que não lhe causou espanto, mas uma espécie de alucinação. O capitão deu a ordem de fogo e catorze ninhos de metralhadoras responderam de imediato. Mas tudo parecia uma farsa. Era como se as metralhadoras estivessem carregadas com artifícios de pirotecnia, porque ouvia-se o seu matraquear ansioso e viam-se os seus escarros incandescendentes mas não se via a mais leve reacção, nem uma voz, nem sequer um suspiro entre a multidão compacta que parecia petrificada por uma invulnerabilidade momentânea. De repente, de um dos lados da estação, um grito de morte desfez o encantamento: «Aaaai, minha mãe». Uma força sísmica, um hálito vulcânico, um rugido de cataclismo estalaram no meio da multidão com uma descomunal potência expansiva. José Arcadio só teve tempo de levantar uma criança enquanto a mãe, com a outra, era absorvida centrifugada pelo pânico.»

Publicado por João Pedro da Costa às 03:48 PM | Comentários (2)

Referências insólitas na música pop

Num post intitulado «Alvíssaras», Pedro Mexia dá dois exemplos (bem malhados) de referências insólitas na música pop: uma a «Cromwell» no primeiro single do último álbum de Morrissey e outra aos «Toblerones» da responsabilidade dos Belle & Sebastian. Como o citado blog é fechado a comentários, deixo aqui a minha (modesta) contribuição e fica o convite para colaborarem. Quem sabe se isto não dá um livro?

«Going Down» in TURNS INTO STONE, The Stone Roses (1992)
«I don't care i taste Ambre Solaire»

«Collect call (from Ibiza)» in PARIS, Sue Daniels (2001)
«Expecting a message, a collect call from Ibiza
My friends are over there, living on acid, Redbull and pizza»

«Morning Bell» in KID A, Radiohead (2000)
«Pokemon...» (repetido ad eternum na parte final da canção)

«The death of Ferdinand de Saussure» in 69 LOVE SONGS (2000), The Magnetic Fields

Publicado por João Pedro da Costa às 01:50 PM | Comentários (1)

setembro 16, 2004

No que o Conselho de Administração do Metro do Porto anda a gastar (o nosso) dinheiro

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Como residente da área metropolitana do Porto, penso que não estarei sozinho se disser que o Metro foi a melhor coisa que nos aconteceu nos últimos anos. Aquilo é rápido, prático, pontual, seguro e confortável e não vejo a hora das linhas em construção estarem concluídas para que a travessia do Rio Douro deixe de ser uma espécie de penosa peregrinação por filas intermináveis de trânsito. Gostaria de poder dizer o mesmo em relação ao preço das viagens, mas, enfim, a qualidade tem um preço e acredito que, quando a totalidade da rede estiver operacional e o n.º de passageiros aumentar, seja possível baixar as taxas que são, de facto, um pouco exageradas. Portanto, o que vou escrever de seguida não visa pôr em causa o meritório trabalho da equipa responsável pelo Metro do Porto. Queria deixar esse ponto bem claro.

O que motiva este post foi a leitura diagonal da secção de necrologia do JN (não, não sou necrófilo), na qual me chamou a atenção um anúncio «king size» do Conselho de Administração (CA) do Metro do Porto, onde se agradecia todas as manifestações de pesar pela morte do pai do Presidente do Conselho Executivo daquele organismo.

Sei que me movo em terrenos movediços. Mas quem pisou em primeiro lugar esse pântano foi o CA do Metro do Porto ao publicar com o dinheiro desta empresa pública um anúncio cuja pertinência me parece absolutamente questionável. Senão vejamos:

a) A pessoa que faleceu, que eu saiba, nunca fez parte da empresa.

b) Se fosse o pai de qualquer outra pessoa da empresa como, por exemplo, um condutor de carruagens ou um fiscal, o CA teria publicado aquele anúncio?

c) Se os membros do CA do Metro do Porto queriam, de facto, agradecer as manifestações de pesar que eventualmente chegaram à empresa, e supondo que pudesse haver (legítimas) motivações pessoais, porque é que eles não o publicaram pagando o anúncio do seu bolso?

d) Qual é a fronteira existente na cabeça dos membros do CA para julgarem pertinente a publicação, a custas do erário público, deste tipo de anúncios? Apenas os quadros superiores da empresa? E o grau de parentesco? Só se forem pais e filhos? E se fôr um tio? Ou uma cunhada?

Acabo de reler o que escrevi e abomino o que leio. Porque por detrás daquilo que me parece ser um abuso, há a morte de uma pessoa e o luto de uma família e de amigos. Há a morte de um pai e eu sei o que isso é. Mas é exactamente por esta razão que, após alguma hesitação, resolvi publicar esta entrada. Ao procurarem homenagear uma pessoa desaparecida, o CA do Metro do Porto acabou por presenteá-la com um abuso de competências que roça a ilegalidade. O que é de lamentar.

Publicado por João Pedro da Costa às 07:48 PM | Comentários (4)

Mutts #2

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Publicado por João Pedro da Costa às 02:05 PM

As minhas aventuras pela Sapo ADSL

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Um post da Ana intitulado «Ser ou não ser cliente da PT - eis a impossibilidade» forneceu-me o alento para relatar a minha aventura recente pelos meandros dos serviços da Sapo ADSL. Começo à boa maneira homeriana, in media res, reproduzindo aqui a carta que escrevi a esses senhores no passado dia 28 de Dezembro de 2003. O que se segue não é recomendável a mentes sensíveis.


«Ex.mos(as) Senhores(as)

No passado dia 8 de Dezembro adquiri por €50,00 no hipermercado Jumbo do Arrábida Shopping em Vila Nova de Gaia um kit de instalação do SAPO ADSL. Antes de adquirir o mesmo, certifiquei-me através do 16 200 e do 808 20 21 21 de que a minha linha telefónica tinha cobertura ADSL e inquiri o prazo necessário até garantirem o meu acesso à Internet através deste serviço. As respostas que obtive (a minha linha tinha cobertura ADSL e o prazo após o pedido de activação seria entre os 5 e os 8 dias úteis) vieram ao encontro das minhas expectativas e resolvi, por isso, adquirir o referido kit. Quando cheguei a casa, no mesmo dia, procedi de imediato à activação do serviço fornecendo todos os dados necessários que reproduzo de seguida:

[...]

Nesse contacto para o n.º 808 20 21 21, voltaram a confirmar a informação que tinha obtido horas antes (cobertura da linha e prazo para o funcionamento do serviço) e até aqui (dia 8 de Dezembro) tudo parecia correr lindamente. Hoje, 27 de Dezembro de 2003, quase três semanas após o pedido de activação (16 dias úteis depois, ou seja, o dobro do limite máximo do prazo que me fora fornecido inicialmente) continuo sem o serviço ADSL activo. Contudo não é apenas este dado objectivo (mais do que suficiente para me sentir defraudado e enganado pela vossa publicidade enganosa) que motiva a presente reclamação, mas tudo aquilo que se passou entre o dia 9 e o dia em que vos escrevo. Passo a descrever.

No dia 9 de Dezembro sou contactado pelos V. Serviços para me informar que haveria uma «incompatibilidade» entre um serviço PT da minha linha telefónica e o serviço de banda larga. De imediato contacto o 16 200 e peço a anulação do mesmo (esse serviço, identificação do custo de chamadas, jamais foi por mim requerido e nem sequer o usufruía – mas adiante). A PT informa-me que num prazo máximo de 48 horas, teria o mesmo «serviço» desactivado e que não necessitaria de contactar a Telepac para os informar da desactivação. No outro dia (10 de Dezembro) ligo para a PT, onde sou informado da cabal desactivação do serviço que causava a incompatibilidade. Apesar das indicações em contrário, resolvo ligar na mesma para o 808 20 21 21 a fim de transmitir a informação e pedem-me (como «medida de precaução») para fazer o mesmo para o número 707 22 72 76. Estranho o pedido, mas executo-o. No outro lado da linha, o técnico estranha igualmente esta minha «démarche» mas regista a ocorrência. Em ambos os contactos, informam-me que o prazo de activação recomeçaria a ser contado a partir do dia 10 de Dezembro (contive o meu descontentamento) e que «na pior das hipóteses» o serviço estaria activo no próximo dia 19.
O dia 19 de Dezembro chega e continuo sem ADSL. A partir desse dia até à data desta minha mensagem começo uma saga inacreditável para saber o que se passa com o meu pedido de activação. Contabilizei mais de 30 chamadas para o 808 20 21 21 e para o 707 22 72 76. As respostas que sucessivamente obtive foram sempre do tipo:
1) «Pedimos desculpa mas o sistema está em «off», ligue mais tarde»;
2) «O seu pedido está em provisão, terá de aguardar»;
3) «Há uma incompatibilidade registada no seu pedido que ainda não foi resolvido» (esta resposta foi-me dada sete vezes e em cada uma delas explicava que a incompatibilidade já tinha sido resolvida no dia 10 de Dezembro e após cada uma dessas minhas explicações diziam-me que iam registar essa informação. Fiz isso sete vezes, senhores, sete vezes!!! Por muito que tentem, apenas conseguirão ter uma pálida ideia do grau de irritação que esses episódios me causaram);
4) «O seu serviço estará activo nas próximas 24 horas» (boa forma de despachar um cliente insatisfeito);
5) «Terá de ligar para o 707 22 72 76» (quando ligava para o 808 20 21 21) ou «Terá de ligar para o 808 20 21 21» (quando ligava para o 707 22 72 76);
6) Em pelo menos três chamadas, a linha foi abaixo, enquanto me encontrava em espera.

Há ainda dois episódios inacreditáveis que passo a narrar. O primeiro foi uma vez em que, por engano meu, marquei duas vezes seguidas o mesmo número e acabei por falar duas vezes com a mesma operadora tendo a mesma se identificado com um nome diferente (Sandra Pereira na 1ª chamada e Alexandra Azevedo na 2ª). Foi a própria operadora que me disse que tinha «há segundos» falado comigo e quando a confrontei com o facto de ela utilizar dois nomes diferentes ela simplesmente (pasme-se) desligou o telefone. O segundo episódio, há quatro ou cinco dias, foi quando uma operadora do 808 20 21 21 me disse, para gáudio meu, que o serviço ADSL estava finalmente activo. Instalei o software e o Modem no meu PC e nada, não conseguia aceder à Internet. Ligo para o 707 22 72 76 e aí dizem-me com toda a naturalidade que tinha sido mal informado, pois o meu pedido continuava em (muitas vezes ouvi eu esta palavra!) «provisão». Dá para acreditar?
No dia 24 de Dezembro, fornecem-me (e após mais de 20 telefonemas) um terceiro número de telefone que segundo o operador seria a panaceia de todos os meus males: o 800 20 00 79. Ligo para lá, narro tudo aquilo que me tem acontecido e exijo falar com algum supervisor. Meu pedido é negado e sou igualmente informado que as reclamações apenas podem ser feitas por e-mail ou fax (como se todos os portugueses possuíssem um fax em casa ou – ironia das ironias – eu tivesse ligação à Internet). De qualquer forma, esse vosso simpático funcionário, informa-me que iria fazer uma «nota interna» a expor os «factos inacreditáveis» (palavras dele) que tenho vivido nesta minha saga de apenas querer ligar o meu PC ao serviço Sapo ADSL. Desligo o telefone irritado e descrente, mas, e perante a eficiência e o tom profissional do vosso funcionário, acredito vislumbrar uma luzinha no fundo do túnel.
Ingenuidade minha. No dia 27 de Dezembro (ontem) volto a ligar para o 800 20 00 79 (o tal número que teria propriedades quase mágicas) e falo com um operador expondo, de novo, a minha epopeia. A gota de água surge quando ele me disse que não havia nenhuma nota interna feita para o meu caso. Respiro fundo e ouço violinos. Esse operador diz-me que vai fazer mais uma nota interna e fornece-me o número da mesma (148418) e adeus que já se faz tarde.

A verdade, meus queridos amigos, é que já não acredito em vocês. Sinto-me enganado, mal tratado e conduzido a um grau de irritação que quase estragava a quadra natalícia. O acesso à Internet é para mim algo de fundamental na minha actividade profissional, nem que seja para aceder à minha caixa de correio electrónico na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Há ainda um apontamento sarcástico a acrescentar: ao longo das últimas duas semanas, fui contactado (isto até dá-me vontade de rir) pela PT ou pela Telepac, já não sei, pelo menos umas quatro vezes para aderir ao magnífico conceito «Casa sem fios»... Em cada uma dessas vezes, tive de invocar as musas da paciência e da boa educação para não proferir um grandessíssimo palavrão. E o facto de eu não saber onde acaba a PT e começa a Telepac também é sintomático: para efeitos de marketing e de publicidade, as duas entidades são contíguas, quando não impossíveis de dissociar, mormente quando me contactam por telefone para querer impingir um produto ou utilizam o envelope em que vem a minha factura da PT para lá colocarem desdobráveis alusivos a serviços da Telepac. As duas entidades tornam-se absolutamente distintas e independentes (e sem qualquer possibilidade de vasos comunicantes) quando se tenta resolver algum problema: aí ou me dizem «isto é com a PT» quando estou a falar com a Telepac ou «isto é com a Telepac» quando (é claro) estou a falar com a PT. E um pouco de vergonha na cara, meus senhores, será que não vos faria bem? Como é que se atrevem em contactar às 20, 21 ou 22h um cliente para lhe venderem um produto ou um serviço quando este mesmo cliente está desesperado para conseguir obter uma resposta cabal aos seus problemas relativamente a ao outro produto vosso? Será que nunca ouviram falar de cruzamento de informação? Custaria muito terem a delicadeza em verificar se o cliente que estão agressivamente a contactar não tem nenhum assunto pendente com a vossa empresa? Serão estes os resultados inevitáveis de situações de quase monopólio?

Mas foquemo-nos no essencial. Com esta minha mensagem pretendo não apenas dar-vos a conhecer a forma como a V. Empresa trata os seus clientes, mas também obter coisas concertas. Passo a enumerar:
1) quero que todas as chamadas que fiz para o 707 22 72 76 (chamadas de valor acrescentado, vim eu saber depois) não me sejam imputadas na minha conta telefónica. Em nenhuma delas me foi prestada qualquer informação útil e em quase metade delas o sistema estava em «off». O mesmo se aplica para as chamadas que fiz para o 800 20 00 79 (quanto ao 808 20 21 21 penso que as chamadas serão grátis).
2) exigo que a V. Empresa deixe de me enviar por correio, quer através do envio da minha factura da PT quer por outro meio qualquer, qualquer informação de propaganda dos vossos produtos e proíbo-vos de me telefonarem para impingir qualquer produto ou serviço que não tenha solicitado.
3) dou-vos 72 horas para me activarem o serviço ADLS (até à manhã de 3ª-feira, dia 30 de Dezembro). Caso contrário exijo o reembolso dos €50,00 que paguei pelo kit e abdico dos vossos pretensos serviços.

Como é óbvio se até 3ª-feira não tiverem entrado em contacto comigo e não satisfeito os meus pedidos avançarei para a DECO e para a comunicação social. Como é óbvio, não abdicarei em nenhuma circunstância do que sei serem os meus direitos, nem que para isso tenha de recorrer às entidades judiciais competentes.

Acabo de reler a minha mensagem e garanto-vos que jamais escrevi algo de tão agressivo em toda a minha vida. Os meus parabéns por conseguirem despertar esses sentimentos num vosso cliente.

Os melhores cumprimentos
João Pedro da Costa»


Como é óbvio, eles cagaram de alto para os meus ultimatos. Em meados de Janeiro, devolvi o kit de instalação para uma Remessa Livre e, surpresa, em meados de Fevereiro recebo uma factura a cobrar €35,00 pela assinatura mensal do serviço. Abreviando a história, tive de escrever mais duas cartas (uma delas à Anacom), fazer mais uns 20 telefonemas e aguardar dois meses para um belo dia receber um cheque com a devolução do valor do kit (valor amortizadíssimo pelas despesas que tive com a devolução do mesmo e os cerca de 564 821 telefonemas que precisei para livrar deste sapinho que gosta de tirar fotocópias ao rabiosque).

O que me irrita mais nesta história é que continuo sem ADSL. Cheguei a pensar na Netcabo, mas descubro que ela também tem ligações com a PT e eu quero fugir dessa gente como o Paulo Portas foge do caso da Moderna. E, portanto, termino com o seguinte apelo: que fazer?

Publicado por João Pedro da Costa às 01:19 PM | Comentários (7)

setembro 15, 2004

Paulo Portas antecipa-se às futuras acções da «Women on Waves»

A Marinha de Guerra Portuguesa vai incorporar duas novas fragatas na sua força naval, que constituirão os maiores navios de guerra ao serviço do país.

Com as holandesas não se brinca.

Publicado por João Pedro da Costa às 04:57 PM | Comentários (2)

Já tem capa e tudo...

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E que bela capa.

Publicado por João Pedro da Costa às 03:38 PM | Comentários (3)

Listening Sessions #4

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Tive a oportunidade de ver Mark Eitzel ao vivo pela segunda vez na última edição do Festival de Paredes de Coura. Os deuses, este ano, não foram muito favoráveis ao evento e choveu durante os quatro dias, transformando o (belíssimo) recinto num lamaçal, mas enfim, fez tudo parte do espírito festivaleiro. Outra consequência da intempérie foi o fecho do pequeno palco SONGWRITERS onde era suposto actuarem Mark Eitzel, Josh Rouse e os Old Jerusalém, passando esses a actuar no palco principal. A organização do festival esteve nesse ponto bastante mal. Às 19:00 abriram as portas do recinto principal e às 19:10 lançaram o Mark Eitzel às feras, que na circunstância eram apenas cerca de 50 gatos pingados (felinos são felinos e quem tem gatos sabe que não os devemos substimar). E o que Mark Eitzel fez foi absolutamente memorável. Riu-se da situação, falou com o público, foi um absoluto entertainer e deu um magnífico concerto. Um senhor.

Já tinha tido o meu momento de redenção há dois anos quando ele veio tocar ao Porto n'O MEU MERCEDES É MAIOR DO QUE O TEU, um bar minúsculo e soturno, boa onda, onde a proximidade do público revelou ser o habitat natural para um concerto do trovador americano. O Mercedes esteve à pinha e Mark Eitzel deu simplesmente o melhor concerto que vi na minha vida. Nem mais.

O gajo anda nisto há mais de vinte anos. Primeiro com a sua banda American Music Club (AMC) que gravou alguns dos discos que mais ouvi na minha vida, caso de CALIFORNIA (1988), MERCURY (1993) e SAN FRANCISCO (1994). Depois, o fracasso comercial ditou a ruptura da banda (se bem que agora esteja aí a estoirar um novo disco, miam, intitulado LOVE SONGS FOR PATRIOTS) e Mark Eitzel iniciou uma solenemente ignorada carreira a solo, não deixando apesar disso de editar grandes discos como 60 WATT SILVER LINING (1996), CAUGHT IN A TRAP... (1998), INVISIBLE MAN (2001) ou o distintíssimo MUSIC FOR COURAGE AND CONFIDENCE (2002).

LOVE SONGS LIVE (1991) é o primeiro disco a solo de Mark Eitzel, no qual ele toca ao vivo o na altura existente reportório dos AMC (integralmente escrito por ele) e ainda dois temas inéditos, tendo um deles vindo a ser regravado com um outro título pela banda no disco MERCURY. De certa forma, Mark Eitzel é a negação completa de Jeff Buckley. O seu negativo. Onde o último é virtuoso e subtil, o primeiro é trapalhão e demolidor. Onde Jeff Buckley era um predestinado e revelava uma tendência quase (sobre)natural para o palco, Mark Eitzel é um sobrevivente que tem de lutar constantemente contra a amplitude da sua voz e contra uma timidez que o impossibilita de planear o alinhamento de um concerto e o força a atender o mínimo pedido proveniente da assistência. Finalmente, onde Jeff revelava um certo constrangimento em compor temas originais e brilhava na forma pessoalíssima como cantava temas alheios, Mark Eitzel revela-se um dos mais profícuos compositores americanos, tendo escrito e gravado quase duas centenas de temas nos últimos vinte anos.

Não é fácil encontrar esta pérola em Portugal. Contudo, sei que aqui poderão encomendá-lo e, caso não sejam do Porto, eles até o enviam por correio. Façam o favor de aproveitar. Até lá deixo-vos aqui um pequeno aperitivo:


TAKE COURAGE (Mark Eitzel)

We’ll take the rings of your fingers as if they were tears
Find a new silver lining to put a polish on your golden years
All the clever talk and the glamour: bright lies you don’t hear anymore
You got so far out, all you want is a tide to take you back to the shore

«Take courage, take courage», said the sign
You used to wait for it every morning

Now you’re looking so dumb and they don’t see us standing there
Trying to figure out why all your promises left you hanging in mid-air
And you lost your war of words – oh, but your heart was strong
You say: «the dirt can have my pretty things, but to the earth my heart does not belong»

(If we walk without our crutches, would we have anything to offer them?
If we can walk without our crutches, would they have anything to see?)

We’ll take the rings of your fingers as if they were tears
Cause the diamonds are hollow and ring painfully in our ears
And if you ask someone to help you, well, don’t let them get carried away:
Last thing you need right now is a lesson in humility

«Take courage, take courage» – said the sign
I used to wait for it every morning
But now I know that it was just another warning.

Publicado por João Pedro da Costa às 03:27 PM | Comentários (6)

Já vos tinha dito que esta jovem fez parte do júri do Festival de Veneza?

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Publicado por João Pedro da Costa às 12:02 AM | Comentários (5)

setembro 14, 2004

Isabel Figueira à beira do abismo

O BLITZ, às vezes, ainda tem piada e a transcrição que se segue justifica, só por si, a compra do jornal (pelo menos esta semana).

Deixem-me contextualizar. No âmbito de uma entrevista a John Hassall e a Gary Powell, baixista e baterista dos Libertines (a propósito, o single «Can't Stand Me Now» não me sai da cabeça), Rita Guerreiro narra a seguinte passagem:

«Despachada a imprensa, é altura de Hassall e Powell falarem com as televisões, agora na varanda do Paradise Garage. Encantado com a reporter do TOP +, Barât [vocalista sobrevivente da banda] insiste em participar, deixando os elementos da editora aflitos. O baixista e o baterista não sabem se hão-de rir ou ficar embaraçados quando, mais uma vez, Barât demonstra dificuldades em articular duas frases completas seguidas e se põe a dizer asneiras em Português para a câmara. A jornalista dá por terminada a entrevista quando ele decide pegar-lhe ao colo. Há um momento de pânico quando, ainda com ela ao colo, se aproxima perigosamente da grade da varanda. É apenas rock'n'roll? Nem sempre.»

Publicado por João Pedro da Costa às 06:42 PM | Comentários (5)

Big Bush strikes again

Ele até andava sossegadinho, mas foi tudo sol de pouca dura. George W. Bush acaba de recusar a renovação da lei aprovada em 1994 por Bill Cinton que proibia a venda ao público de armas semiautomáticas. Quer dizer que agora qualquer cidadão americano com mais de dezoito anos tem finalmente livre acesso a esses bens fundamentais de consumo que são as Uzi, as Kalashnikoves AK-47 e as pistolas de assalto TEC de 9 milimetros, muito úteis para coçar o cu, acender churrascos, afugentar os gatos da vizinhança e para entreter as crianças quando os pais estão fora de casa. Já se ouvem mentes malévolas que vêm dizer que esta medida tem a ver com o facto da NRA (National Rifle Association) ter contribuído com 20 milhões de dólares para a campanha de Bush para as presidenciais de Novembro, mas os cães ladram e a caravana passa, parece incrível que ainda haja pessoas que nunca ouviram falaram de coincidências e que têm a mania compulsiva de estabelecer nexos de causalidade com todos os factos que lhes surgem pela frente.

Esta medida do nosso «querido Bush» acaba de fazer uma entrada no TOP 10 dos feitos mais significativos (a nível interno) do seu mandato. Para os mais distraídos, reproduzo-as aqui com a amável autorização da Billboard:

1) Retirada dos EUA do Protocolo de Kyoto assinado em 1997 por mais de 178 países e que continha um plano concertado de acção para combater o sobreaquecimento global do planeta;

2) Revogação das leis sobre a ergonomia no trabalho, que pretendiam proteger a segurança e a saúde dos trabalhadores;

3) Corte de 50% dos fundos de investigação para a pesquisa de energias renováveis;

4) Revogação da lei que ímpedia o governo americano de assinar contratos com empresas que violassem leis federais;

5) Esquecimento da promessa eleitoral feita em 2001, de que gastaria anualmente 100 milhões de dólares por ano na conservação das florestas;

6) Proposta para e eliminação do programa READING IS FUNDAMENTAL, que fornece gratuitamente livros a crianças economicamente carenciadas (a proposta foi recusada pelo Congresso, mas a mera tentativa é digna de referência);

7) Fecho do gabinete sobre a SIDA existente na Casa Branca;

8) Aprovação de uma lei que impede o concurso a bolsas de estudo a estudantes que tenham sido condenados por consumo de drogas (estudantes condenados por assassínio ou violação ainda podem concorrer);

9) Autorização para a extracção de petróleo e gás natural na reserva ecológica do Alaska;

10) Redução em 86% dos fundos do COMMUNITY ACCESS PROGRAM, que garantia os serviços mínimos de saúde às pessoas sem seguros de saúde.

Poderão encontrar detalhes sobre esta magnífica iniciativa de Bush aqui.

Voltando a citar Morrissey: will «November spawn a monster»?

Publicado por João Pedro da Costa às 02:56 PM | Comentários (2)

Ah, e esta miúda fazia parte do júri...

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Publicado por João Pedro da Costa às 01:23 AM | Comentários (2)

Plano para salvar Veneza

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Chegam-me óptimas notícias de Veneza, onde Mike Leigh arrebatou com VERA DRAKE o Leão de Ouro da 61ª edição do mais antigo festival de cinema do mundo. Segundo rezam as crónicas, o filme debruça-se sobre a vida de uma doméstica na Inglaterra dos anos 50 que, ao arrepio da lei e às escondidas da família, ajuda mulheres a abortar (se fosse rodado em Portugal, Mike Leigh não necessitaria de fazer um filme histórico...).

E são óptimas notícias, porque o prémio parece indicar que temos de novo um Mike Leigh em boa forma, depois da desilusão que foi o seu último ALL OR NOTHING de 2002. Reparem que não estou a pedir algo do calibre de NAKED ou SECRETS & LIES (que lhe valeram o prémio de melhor realizador e a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1994 e 1997, respectivamente). Nada disso. Apenas um filme razoável, assim do género de TOPSY TURVY (que lhe valeu um Óscar para melhor figurino em 2000) e já me dou por satisfeito. É que há já mais de dois meses que não vejo um filme de jeito no cinema e cheira-me que este filme poderá ser um bom plano para me salvar de tanta pobreza...

Publicado por João Pedro da Costa às 12:51 AM

setembro 13, 2004

Ich heisse super fantastische

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Depois de já terem vendido mais de 600 mil discos no Reino Unido e ultrapassado a fasquia do milhão no mundo inteiro, os Franz Ferdinand acabam de ganhar o mais prestigiado prémio da música britânica, passando a fazer parte da ilustre galeria de vencedores do Mercury Prize, onde figuram nomes como Primal Scream, Suede, Portishead, Pulp, Gomez, Badly Drawn Boy e P. J. Harvey.

Devo confessar que não era pelos Franz Ferdinand que o meu coração torcia: na minha ingenuidade, cheguei a pensar que fosse possível ver o Robert Wyatt arrebatar o prémio com o seu magnífico CUCKOOLAND. Mas também, não é por aí que o gato vai às filhós: o álbum dos Franz Ferdinand é um daqueles registos que nos faz sempre (re)acreditar na pertinência da pop britânica. Verão que o tempo o fará tão grande quanto o primeiro álbum dos Stone Roses ou o DIFFERENT CLASS dos Pulp.

Publicado por João Pedro da Costa às 11:09 PM | Comentários (2)

PRIMEIR@PROVA

Eu já devia ter falado nisto há mais tempo, mas mais vale tarde do que nunca. O Departamento de Estudos Portugueses e Românicos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto tem na rede, há cerca de quatro meses, uma revista electrónica: a PRIMEIR@PROVA. Tenho a honra de fazer parte da sua Redacção Editorial ao lado de pessoas como a Rosa Maria Martelo e o Francisco Topa. De momento, apenas saíu o n.º 0 mas, e apesar do arranjo gráfico deixar ainda um pouco a desejar, consideramos o resultado final bastante aceitável, sobretudo devido ao nível das colaborações que recebemos em áreas como a prosa, poesia, ensaio, tradução e recensões críticas. Para além de nomes (já pesados) como o Luís Adriano Carlos, a Ana Luísa Amaral, a Regina Guimarães, o Daniel Jonas ou o Pedro Eiras, estou certo que poderão encontrar algumas surpresas agradáveis (colaboram na revista tanto alunos como professores). Façam o favor de se juntarem às mais de 3000 visitas que a revista teve até agora. Não se irão arrepender.

Em Dezembro sai um novo número.

Publicado por João Pedro da Costa às 09:54 AM | Comentários (2)

Ensino Superior

Sairam hoje as primeiras listas de colocação dos novos alunos no ensino superior. Este ano, apenas fazia figas por uma pessoa e a coisa correu lindamente (parabéns, Margarida). Por isso, imagino que haverá hoje alguns milhares de jovens portugueses em estado de graça ou, pelo menos, com um sorrisito nos lábios. É um dia importante. Não apenas para os que entraram (eu lembro-me do quanto esse dia foi importante para mim e já lá vão quase dez anos), mas também para todos aqueles que são sensíveis à felicidade dos outros. Há hoje, em Portugal, milhares de jovens mais felizes, caramba, cheio de projectos e expectativas e apetece-me sair de casa de repente, encontrá-los na rua e dar-lhes os parabéns. E sobretudo dizer-lhes para não ligarem a bocas do tipo «tudo isto é uma ilusão», «agora é que vais ver o que te espera» ou «a parte complicada começa agora» - não porque essas frases sejam totalmente impertinentes, mas porque a felicidade é um estado absoluto que deve ser apreciado com esperança, ingenuidade e inconsciência. É pelo menos o que eu faço.

Parabéns.

Publicado por João Pedro da Costa às 12:41 AM | Comentários (1)

setembro 12, 2004

Mutts #1

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Publicado por João Pedro da Costa às 10:52 PM

Listening Sessions #3

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Anda uma banda há dez anos a traçar um dos caminhos mais singulares e consistentes da música alternativa americana, a publicar oito álbuns (tendo o último TRUST marcado presença em quase todas as listas de «melhores discos de 2003») e a coleccionar mais de cinquenta b-sides e temas inéditos, reunidos há cerca de dois meses na belíssima caixa A LIFETIME OF TEMPORARY RELIEF, para eu agora ignorar tudo isto e vos falar do primeiro disco.

Como é óbvio, não ignoro nada da brilhante carreira dos Low, mas I COULD LIVE IN HOPE, editado em 1994, é mesmo o disco fundamental deste trio americano, aquele que se deveria salvar em caso de um qualquer e hipotético holocausto musical. E nem sequer me interessa o facto de ser este o disco em que se nota menos digerida a influência dos Joy Division ou em que a munição da guitarra eléctrica de Alan Sparhawk é um decalque da usada por Angelo Badalamenti na série TWIN PEAKS de David Lynch. Nada disso me interessa, quando ouço as onze faixas e percebo que este é dos discos mais inatingíveis e equilibrados que já alguma vez ouvi e provavelmente o primeiro a ensinar-me, de forma tão brutal, que nada é mais misterioso que a simplicidade.

Um clássico.

Publicado por João Pedro da Costa às 10:17 PM

setembro 11, 2004

All animals except man know that the ultimate of life is to enjoy it (Samuel Buttler)

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Não deixa de ser profundamente irónico (e sintomático de um país como o nosso) que tenha sido um dos mais lamentáveis tabloides da imprensa portuguesa, o 24 HORAS, a adquirir os direitos de publicação da que é consensualmente considerada a melhor tira de banda desenhada dos últimos anos - pessoalmente, penso que é mesmo a melhor de sempre, embora seja capaz de admitir empates técnicos, se me falarem de nomes como a MAFALDA, o CALVIN & HOBBES e (vá lá) o DILBERT.

Estou a falar desta absoluta maravilha que são os MUTTS de Patrick McDonnell. Esta tira tem o condão de combinar pequenas histórias que são absolutas pérolas de humor zen com a simplicidade e a rapidez de um traço que consegue captar não a essência mas a existência concreta que cada tira confere às personagens: desafio qualquer um a encontrar dois desenhos de Earl (o cão) ou de Mooch (o gato) que sejam iguais.

A bizarraria da relação de Portugal com os MUTTS, contudo, não termina aqui. Em 1999, a editora BALEIA AZUL editou o primeiro volume das tiras e, no ano seguinte, o volume II. Até aqui tudo bem. O incompreensível é que nunca mais editou nada, quando estes últimos quatro anos foram os da consagração definitiva da tira (nos EUA, caminha-se já para as duas dezenas de títulos entre recolhas de tiras, edições especiais, ensaios e biografias). E nem sequer se pode argumentar o facto da tira não ter tido sucesso em Portugal, pois a BALEIA AZUL reeditou, no ano passado, o I volume, mas desta vez (manhosos) com uma capa completamente diferente, que fez com que muita boa gente (não é, Manela?) comprasse o dito a pensar que fosse um volume inédito em Portugal.

A alternativa é óbvia: comprar os originais pela rede (para mais agora que temos esta tentação que é o MBNet) ou convencer o pessoal da FNAC a encomendá-los (já comprei lá quatro álbuns) e, sobretudo, ignorar o facto do 24 HORAS publicar todos os dias uma tira com uma qualidade de impressão que é de bradar aos céus (eu nunca perdoarei ao PÚBLICO o facto de ter deixado escapar os MUTTS e de persistir na imcompreensível e monótona repetição do Calvin).

Fica aqui a promessa de publicar com uma certa regularidade tiras do MUTTS neste Blog. Os meus advogados já foram informados e para os tinhosos apenas tenho duas palavras: serviço público.

Yesh!

Publicado por João Pedro da Costa às 10:33 PM | Comentários (4)

Listening Sessions #2

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Embora a primeira edição em EP, com apenas quatro temas, já fosse um dos discos da minha vida (obrigado, Joana), refiro-me aqui à recente «LEGACY EDITION» com 34 faixas. É este, de resto, o único disco que vale a pena comprar para além do único álbum que ele editou em vida, o magnífico GRACE - tudo o resto, de qualidade e pertinência variável, traz a marca nojenta da necrofilia mórbida e raramente, muito raramente, faz juz ao imenso talento que o gajo tinha.

O que se pode ouvir em LIVE AT SIN-É são interpretações das canções que viriam a ser garavadas para GRACE, versões de Bob Dylan, Nina Simone, Nusrat Fateh Ali Khan, Van Morrisson ou Led Zeppelin e ainda monólogos de circunstância que talvez nos digam mais sobre o homem por detrás do músico do que qualquer biografia disponível no mercado. Tudo isto ao vivo, num café minúsculo de Nova Iorque, onde estariam todas as noites pouco mais do que vinte pessoas. Na altura (1992), quase ninguém o conhecia, ele não tinha ainda sequer gravado uma demo e era preciso um certo exercício de imaginação para se lhe adivinhar a excelência da sua árvore geneológica (e, mesmo assim, no mundo da pop, filho de peixe nem sempre sabe nadar). Ouvir este disco é assistir à calma e metódica detonação de um génio. Ouvir este disco é sempre ouvi-lo pela primeira vez: não há forma de nos anteciparmos à sua voz ou ao som da sua Telecaster. Ou se há, alguém que mo diga, que eu não conheço.

Amo este disco estupidamente. The way young lovers do.

Publicado por João Pedro da Costa às 12:51 AM

setembro 10, 2004

As mulheres na crista da onda e eu no fundo de desemprego

Finalmente, restabeleceu-se a ordem natural das coisas: as mulheres na crista da onda e eu no fundo do desemprego.

Publicado por João Pedro da Costa às 06:03 PM

A casa de banho dos outros

Em sequência do post sobre o «outdoor pissing», lembrei-me de uma história que me aconteceu há muitos anos e que, de certa forma, poderá explicar a minha aversão ao uso de casas de banho alheias.

Eu tinha doze anos e o Filipe era o meu melhor amigo. Eu era muito popular no liceu, não por razões intrínsecas à minha personalidade, mas pelo facto de ter nascido em França e de viver há apenas dois anos em Portugal, o que, como é óbvio, fazia de mim uma espécie de extraterrestre. Lembro-me de perguntas do género: «Vocês, em França, também bebem água?» (o que me dava sempre vontade de responder com algo do tipo: «Não, só bebemos mijo»). Também era, na altura, um dos melhores alunos da turma, o que, conjugado com a minha proveniência alienígena, sempre provocou nos pais dos meus colegas um sentimento misto de admiração e de curiosidade. Alguns deles acreditavam que se os seus filhos convivessem comigo, eles adquiririam (por mimese?) a minha apetência pelo estudo e as consequentes boas notas nos «testes de avaliação sumativa», exercício que jamais se revelou exequível (olho hoje para para todos os amigos que tive no liceu com uma certa culpa, pois todos eles, sem excepção, chumbaram sempre no ano em que os conheci).

O Filipe (meu melhor amigo) tinha uns pais pertencente à classe média-alta, o pai era neuro-cirurgião e a mãe (bem boa) professora de Filosofia no ensino secundário, e um dia fui surpreendido por um amável convite dos pais do Filipe para ir lanchar à casa deles. Sábado à tarde. Acedi (eu gostava muito do Filipe) e lá fui. Quando cheguei à casa deles (uma puta de uma vivenda onde poderiam viver, à vontade, mais umas sete famílias), fui surpreendido com aquilo que ainda hoje considero o mais espectacular lanche que jamais vi na minha vida: ele era sumos, leite, chá, croissants, queijos de todas as formas e feitios, pastelaria de silva vária em diferentes tamanhos, margarinas, compotas e geleias de frutos que possuíam nomes impronunciáveis - enfim, juro-vos que comi lá pela primeira vez coisas que nunca mais voltei a provar (lembro-me em particular de uma manteiga de amendoim que tinha a virtude de me provocar espiros de satisfação). Como podem calcular, fiquei um pouco intimidado, mas os pais do Filipe eram dois trintões simpatiquíssimos e jamais me esquecerei dos gestos intencionais do pai que, para me pôr à vontade, provava de tudo o que estava na mesa para depois me dizer «Mh, isto não está mau, ora prova lá a ver se concordas comigo», estendendo-me uma nata ou copo de sumo de maracujá. Miam.

Foi um lanche agradável e houve momentos em que desejei (a gula é a mãe de todos os defeitos) ser adopatado pelos pais do Filipe e ser irmão do Filipe, que não parava de me dizer, apesar das quantidades industriais de comida que ia ingerindo, que ainda não tinha comido nada. Como é óbvio, as misturas de sumo com leite e de marmelada com fiambre de perú não demoraram muito tempo a ter consequênciais nefastas no meu (na altura já) frágil aparelho digestivo. Tudo começou com uma risível e domável pontada no baixo ventre que em poucos minutos se transformou numa demonstração empírica das leis de Pascal sobre a pressão aplicadas ao intestino grosso. Tentei resitir. A sério que tentei. Cerrei os dentes e transpirei durante uns bons quinze minutos, pois não me parecia que conspurcar a casa de banho dos meus anfitriões fosse lá a melhor forma de lhes agradecer o lanche divinal que tinham acabado de me oferecer. Porém, a emenda (ou ementa?) começou a afigurar-se pior que o soneto quando as minhas entranhas começaram a fazer ruídos impossíveis de disfarçar.

Envelheci uns bons dois anos quando perguntei, a voz trémula e os olhos cabisbaixos, se podia usar a casa de banho. Os pais do Filipe «claro que sim» e o Filipe «podes usar a minha» (a mansão tinha mais do que uma casa de banho, o que constituía para mim uma absoluta novidade). Lá me fechei no templo, tentando ignorar apetrechos vários cuja existência não fazia sequer parte do meu horizonte de expectativas, casos de uma escova de dentes eléctrica e de um sabonete com a forma do primo Gastão. Assumi a posição (anglicanismo, eu sei) e o céu abriu-se para que centenas de valquírias cantassem em uníssono hosanas às virtudes do alívio corporal em momentos de aperto. Confesso epifanias e júbilos desmusurados quando ouvi os cânticos que pareciam dizer que não havia nada de mais natural do que usar a casa de banho dos outros se o momento fosse propício para tal. Levantei-me, abotonei as calças e, quando puxei o autoclismo, (e parafraseio aqui Borges) o universo físico parou.

Não havia água no autoclismo. Depois daquele dia, devo ter sonhado uma boa centena de vezes com aquele episódio e em todos esses sonhos encontrava uma solução verosímil para a resolução daquele problema como, por exemplo, encher o autoclismo da água com a ajuda do copo de lavar os dentes. Contudo, naquele momento, falhou-me a serenidade e a presença de espírito e não nego que talvez fosse o pânico ou a súbita vontade de chorar o que me levou a sair da casa de banho a correr e, sob o pretexto de uma qualquer descupla esfarrapada, sair da casa do Filipe deixando atrás de mim, à vista de toda a gente, os despojos daquele pesaroso dia.

Eu gostava muito do Filipe. Mas nunca mais voltei à casa dele.

Publicado por João Pedro da Costa às 05:46 PM | Comentários (3)

Listening Sessions #1

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Provavelmente, o primeiro álbum dos Fun Lovin' Criminals (COME FIND YOURSELF, 1996) até é melhor do que este 100% COLUMBIAN (1998), mas amo este segundo imensamente mais.

Sério candidato ao disco mais «cool» da década de 90 (e apenas conheço alguns discos antigos de Nina Simone, Marvin Gaye, Stewie Wonder ou de Curtis Mayfield com o mesmo «pedigree»), as suas treze canções refinam a lição de desbunda do primeiro disco (quem não se lembra dos riffs «Scooby Snacks» com samplers de RESERVOIR DOGS e PULP FICTION?), e projectam este trio nova-iorquino do grupinho de «esperanças com um disco de estreia porreiro» para o grupo restrito das «certezas confirmadas». A música dos Fun Lovin' Criminals é um caldeirão de soul com guitarras punk cheias de «groove» e isto apesar da opinião contrária da FNAC, que teima em colocá-los nas prateleiras do RAP / HIP-POP. Galicismos.

Uma sequência imaginária de canções tiradas deste álbum (burn, CD burn) como:

Up on the hill
Love unlimited
The view belongs to everyone
Back on the block
Sugar
We are all worried about you
All my time is gone
Mini bar blues

constitui a banda sonora ideal para aqueles serões onde o corpo nega-nos o ímpeto sincero de sair de casa (com a idade, estes serões tornam-se perigosamente numerosos). Depois, há ainda o funk de «Korean Bodega», o rock de «10th Street» (genial), «All for self» e do surreal «Big Night Out» com um refrão («I've got super-models on my dick») que Pedro Mexia não desdenharia. Super cool.

Confesso que depois deste disco, perdi-lhes um pouco o rasto, motivado em parte pelo som mais «mainstream» de singles como «Loco» ou «Run Daddy Run», mas, nos últimos dias, tem pairado sobre mim a suspeita de que, se calhar, tenho andado enganado...

To be continued.

Publicado por João Pedro da Costa às 01:58 PM

setembro 09, 2004

Das virtudes do «outdoor pissing»

Isto irá muito provavelmente cair em saco roto, sobretudo se quem ler isto for do sexo feminino, mas aí vai na mesma.

Por razões já aqui referidas, passei o dia de ontem e o de hoje em casa. Tenho a sorte de viver numa vivenda a cerca de cinco quilómetros da cidade do Porto e de aí ter um quintal de proporções apreciáveis. E nestes dias de «home, sweet home» tive a oportunidade de fazer uma coisa que adoro, que é mijar cá fora, ao ar livre, junto de um castanheiro ou num dos múltiplos lugares estratégicos que vão sendo usados de forma rotativa e paciente, a fim de evitar consequências nefastas ao cultivo das terras.

Normalmente, ir à casa de banho fora de casa é uma coisa que me deprime. Coisa que não se compreende, pois deveria de ser um momento de instrospecção por excelência e onde o corpo freme perante a iminência do alívio prometido. Mas não. Passo a explicar porquê.

As casas de banho públicas (num café ou no trabalho) sofrem sempre dos defeitos inerentes do que é público, isto é, as pessoas preocupam-se com o estado em que vão encontrar o recinto, mas raramente com o estado em que o vão deixar, o que traz consequências óbvias ao bem-estar do próximo utente. Depois, temos sempre (ou quase sempre) a presença do outro, cujo olhar perturba ou intimida, ou, pior ainda, a sua ausência recente quando esta deixa atrás de si um perfumado lastro a merda.

(Num único filme que Paul Auster realizou até agora, LULU ON THE BRIDGE, há um diálogo brilhante entre duas personagens, quando uma delas fala do dilema que sentiu ao encontrar, numa viagem de avião, um cagalhão na tampa da sanita da casa de banho, da qual tinha acabado de sair uma passageira (pelos vistos lindíssima). Que fazer? Denunciá-la? Ignorar a ocorrência e sair da casa de banho como se nada fosse? Ficamos a saber que a personagem acaba por limpar a porcaria, sem dizer nada a ninguém.)

Em casa, a coisa pia fino. O espaço é nosso e confiamos nele. Estamos em privado e sem pressões. Consoante o nosso estado de espírito, podemos (caso seja à noite) optar por acender a luz e pôr alguma leitura em dia, ou então ficar na escuridão, coisa que pessoalmente faço quando sinto que a operação se vai revelar difícil.

Acontece que eu, quando se trata de apenas fazer xixi, prefiro sempre o ar livre aos recintos fechados. A razão prende-se com o facto da esmagadora maioria das casas de banho, em Portugal, não terem urinóis e ter de fazer sempre pontaria (eu tenho péssima pontaria) para a sanita. Quando se mija cá fora, o horizonte é o limite. Podemos, inclusive, mijar de olhos fechados ou então %#!"$#&* (aqui, uma pequena auto-censura).

Penso que não é necessário ser um adepto fervoroso da filosofia de Rousseau para ser sensível ao «outdoor pissing»: para um homem, as vantagens são quase infinitas. Contudo, não nego razões genéticas ou familiares para esta minha «paixão». O meu irmão mais velho, sempre