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setembro 17, 2004

Cem anos de solidão

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Eu sei que está na moda desdenhar o CEM ANOS DE SOLIDÃO de Gabriel García Márquez. Afinal de contas, este é um daqueles clássicos que tiveram (e continuam a ter) uma demolidora adesão popular - calcula-se que a obra tenha vendido mais de 30 milhões de exemplares nos 35 idiomas em que foi traduzida -, é um livro «cool» e «divertido», que se presta a uma razoável amplitude de leituras, é daquelas obras que são usadas como sinais exteriores de cultura e tudo isso incomoda muita gente que prefere citar livros porventura mais obscuros ou inacessíveis como, sei lá, O HOMEM SEM QUALIDADES de Musil, o ULISSES de James Joyce ou A VIDA, MODO DE USAR de Georges Perec (atenção, tudo livros geniais). Trabalhei durante três anos em duas livrarias e lembro-me que havia sempre algo que anoitecia em mim, quando uma «tia» me dava sinais de hesitação entre a compra da obra máxima de Gabriel García Márquez e o FERNÃO CAPELO GAIVOTA de Richard Bach (pffff...). Ninguém está a ver este tipo de dilema com A PESTE de Camus ou a ALEGRIA BREVE de Vergílio Ferreira...

Ora aí vai um lugar comum: CEM ANOS DE SOLIDÃO foi um livro que mudou a minha vida. Li-o aos 19 anos, em dois dias intercalados por uma noite de insónias povoada pelos espectros do coronel Aureliano Buendía, de Úrsula, de José Arcadio, dos irmãos gémeos Segundo, de Pilar Ternera, de Amarante, de Rebeca, de Melquíadas e do menos referido (mas para mim fascinante) Maurício Babilónia. De vez em quando releio-o, mas nem sequer posso dizer que é a obra que mais reli do autor columbiano (esse epíteto vai ou para CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA ou para O AMOR EM TEMPOS DE CÓLERA). Ando há três dias a reler CEM ANOS de SOLIDÃO e é incrível como o romance não perdeu nem um pouco do encanto que senti quando o li pela primeira vez. Pelo contrário, acho que estou a adorá-lo mais do que nunca. É extremamente difícil para mim (ou assombrosamente fácil, o que vai dar ao mesmo) escolher em particular uma passagem que possa exemplificar o domínio que Márquez possui da técnica narrativa, mas resolvi escolher a que se segue porque a considero uma das mais brilhantes utilizações da focalização interna de uma personagem: estou a falar do massacre dos três mil grevistas da companhia bananeira na estação de comboio de Macondo e da forma como José Arcadio Segundo «vê» a chacina perpetuada pelo Exército.

Com a devida vénia (tradução de Margarida Santiago):

«- Cabrões! - gritou. Oferecemo-lhes o minuto que falta.
No fim do seu grito aconteceu algo que não lhe causou espanto, mas uma espécie de alucinação. O capitão deu a ordem de fogo e catorze ninhos de metralhadoras responderam de imediato. Mas tudo parecia uma farsa. Era como se as metralhadoras estivessem carregadas com artifícios de pirotecnia, porque ouvia-se o seu matraquear ansioso e viam-se os seus escarros incandescendentes mas não se via a mais leve reacção, nem uma voz, nem sequer um suspiro entre a multidão compacta que parecia petrificada por uma invulnerabilidade momentânea. De repente, de um dos lados da estação, um grito de morte desfez o encantamento: «Aaaai, minha mãe». Uma força sísmica, um hálito vulcânico, um rugido de cataclismo estalaram no meio da multidão com uma descomunal potência expansiva. José Arcadio só teve tempo de levantar uma criança enquanto a mãe, com a outra, era absorvida centrifugada pelo pânico.»

Publicado por João Pedro da Costa às setembro 17, 2004 03:48 PM

Comentários

É preciso não esquecer que os livros do Márquez são para ler e devolver.

Publicado por: Hei em setembro 18, 2004 10:17 PM

Não será esquecido. :(

Publicado por: João Pedro da Costa em setembro 19, 2004 12:49 AM