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setembro 27, 2004
Aproximação à fenomenologia dos «Projectos»
Nos últimos anos tenho reparado que quase todos os meus amigos «estão com um projecto». Desde logo, convem reparar no verbo utilizado neste predicado: um projecto não é algo que se possa «ter», mas algo com que se está. Como é óbvio, a diferença é enorme («the difference is huuuuuge» diria a Maria de Medeiros no PULP FICTION). «Ter um projecto» é uma coisa insignificante e não impressiona o ouvinte: todos nós temos vários ao mesmo tempo e todos eles residem no limbo das possibilidades remotas que poderão um dia, talvez, se o tempo for favorável e a gente estiver praí virada, se concretizar. «Estar com um projecto» é totalmente diferente. Temos o «projecto» ao nosso lado, a caminhar connosco de mão dada, e a nossa inegável existência serve de atestado à existência concreta do projecto, isto é, o «projecto» existe comigo, ou seja, a existência dele é tão real como a minha, resumindo: o projecto, caramba, existe mesmo e não estou aqui a falar do campo das possibilidades remótas, percebeste?
«Estar com um projecto» é diferente de «Ter um projecto» também pelo facto da primeira formulação topicalizar ou isolar de certa forma o projecto do sujeito da enunciação. O projecto é mais importante quando alguém está com ele do que uma mera relação de posse. «Estar com um projecto» também induz o ouvinte a concluir que o «projecto» já não é um mero «projecto»: no fundo, o bicho já tem uma espessura assinalável, de certa forma o gajo já existe, está em andamento, e de um dia para o outro ele vai nos estoirar nas fuças. O projecto é uma fatalidade, ele está na iminência de acontecer.
Claro que tudo isso é retórica. Quando ouço uma pessoa dizer «Estou com um projecto», acredito menos na viabilidade do mesmo do que um que esteja na posse de outrém. No fundo, quem diz esse tipo de frase também sabe que há uma probabilidade considerável do seu enunciado vir a bater no cepticismo de quem o ouve. É exactamente por isso que disparam o verbo «estar», que é suposto nos confundir e nos levar a pensar que a fase do «Ter um projecto» evoluiu para um estado mais ontológico de «estar» com ele. Até porque «Estar com um projecto» é um «estado» permanente, poderia quase ser traduzido por «Estou agora e sempre com um projecto porque o gajo é tão plausível e importante que me é impossível existir sem estar com ele ao meu lado: estou com o projecto de manhã quando tomo o pequeno almoço, ao longo do dia quando estou a trabalhar, ao serão quando vejo o Telejornal e à noite quando vou prá cama: é impossível pensarem em mim sem pensar no projecto com que estou, porque, no fundo, eu e o projecto somos a mesma coisa, a única e mesma pessoa».
Antigamente, conseguia manter uma conversa com os meus amigos sem nunca passarmos pelo tópico dos «projectos». Mas a gente envelhece, os sonhos que tínhamos, afinal, não se concretizaram e todos nós acabamos por arranjar um trabalho que não corresponde minimamente às nossas expectativas. Ele é um músico que terminou a gerir um restaurante; um poeta que vende seguros; um pintor que foi trabalhar para um talho no Reino Unido; uma ilustradora que está a tirar um curso de tai-chi. E porque em todos eles havia de facto algum talento, nenhum deles abandonou o sonho de lançar um disco, publicar um livro, montar uma exposição ou ilustrar todos os livros do mundo. Talvez seja por isso que, quando algum desses amigos (que amo profundamente) estão com alguém como eu que foi testemunha do seu talento e da forma como a vida os afastou daquilo que realmente queriam ser ou fazer, todos eles transpõem o seu sonho para os famigerados «projectos», espécie de sombra que os acompanha durante o dia e mesmo à noite quando o Sol se põe.
Na melhor série televisa de sempre, THE OFFICE, há uma cena do episódio 2 da 2ª série, em que a telefonista Dawn fala a David Brent, seu patrão, do seu sonho de ser ilustradora de livros para crianças. O texto é belíssimo e é no fundo uma pequena narrativa que ilustra na perfeição o que tenho estado aqui a dizer:
DAWN:«I always wanted to be a children's illustrator and when people said "What do you do?", i would say "Well, i'm an illustrator, but i do some reception work for a litlle bit of extra cash". So, for years, i was an illustrator who did some reception work. Then Lee [o namorado] thought it would be a good idea for us both to get full-time jobs. Then you're knackered after work and it's hard to do illustrating. Now, when people ask me what i do i say I'm a receptionist.»
É claro que tudo isto é patético (não confundir com «pateta») e que todos estes meus amigos, no fundo, sabem que eu sei que ambos sabemos que quanto mais se fala de um «projecto», menor é a possibilidade de ele acontecer realmente, pois o tempo passa, a vida apesar de ser às vezes porreira também sabe ser cruel, e um «projecto» não é uma coisa de que se fala, mas que se faz, a não ser que a gente comece a perceber que ele está cada vez mais longe de se concretizar e falar nele é uma forma desesperada de «manter o sonho vivo», como depois diz cruelmente David Brent:
DAVID BRENT: «Pipe dreams are good... in a way.»
DAWN: «Well, I still hope it will happen...»
DAVID BRENT: «Keep the dream alive, because otherwise one day you'll go "Oh, could i have made it?". If you keep trying, at least, one day (when it doesn't happen) you'll be able to say "Well, at least i had it a go", you know?»
Yeah, digo eu, we all do.
Publicado por João Pedro da Costa às setembro 27, 2004 03:50 PM
Comentários
Que revisão de vida tão melancólica.
Talvez que os nossos sonhos sejam sempre projectos grandes de mais, talvez que não saibamos viver como pequenos projectos as coisas boas que a vida nos dá ... não sei. Mas aceito que sou uma privilegiada, gosto muito do que faço, nesse aspecto a vida foi-me ´facilitada
abraço blogueiro
Publicado por: GIN em setembro 27, 2004 10:36 PM
Cara Gin: haverá com certeza algum (ou muito) mérito teu pelo facto de gostares muito do que fazes (presumo que profissionalmente). Porém, penso que não haverá apenas desmérito naqueles que não conseguiram transformar numa fonte de rendimento minimamente estável aquilo que realmente gostam de fazer. Como é óbvio, o tamanho dos sonhos também conta nesta história e, por exemplo, ter o sonho de ser músico, pintor ou ilusionista em Portugal é bem diferente (sem desprimor) de sonhar em ser banqueiro, polícia ou advogado: a dignidade do sonho é em absoluto a mesma, mas a viabilidade é bem diferente.
Confesso que, por vezes, ao reler os meus posts, também eu fico surpreendido com a quantidade de melancolia que por lá irradio. Mas estas pessoas existem, falo com elas regularmente e penso que também são merecedoras de que se falem delas. Mesmo que isso possa soar «melancólico».
Deixa-me apenas acrescentar que todos eles, sem excepção, são «felizes». E isto apesar de estarem com projectos reflexos de sonhos desmedidos. O ser humano é incrível, não achas? Há pessoas que, apesar não gostarem do que fazem profissionalmente (como tu), ainda assim são capazes de viverem com as coisas boas que a vida ainda tem para lhes dar. Até porque o engenho é aguçado pela necessidade.
(A propósito, gosto muito do teu blog.)
Abraço amigo
Publicado por: João Pedro da Costa em setembro 27, 2004 11:58 PM