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setembro 18, 2004
His name is Becho, José Becho
Chegou o momento de partilhar convosco o segredo mais bem guardado da imprensa portuguesa. Não conheço José Becho, nem dele possuo quaisquer dados biográficos, a não ser o facto de saber que ele é «formador» (evito aqui qualquer comentário sarcástico, seguro que este meu esforço de contenção não passará despercebido) e, sobretudo, o de ser o autor de umas prosas deliciosas intituladas «Formação» no BYTES, suplemento de informática do JN e do DN.
Todas as semanas, o José Becho tem um problema bicudo para resolver: preencher (palavra fundamental, como veremos de seguida, na poética subjacente aos seus escritos) uma página inteira do dito suplemento com um texto de 1500 palavras. Nesse texto, há sempre uma espécie de lição de moral sobre um determinado assunto informático que, na verdade, poderia ser enunciado numa ou duas frases. Que fazer, portanto? O José Becho não está com meias medidas e resolve narrar. Sim, narrar. Criar um mundo imaginário, com diálogos e tudo, onde interagem umas personagens-tipo do género «sobrinho-curioso-cheio-de-dúvidas», os «amigos-que-não-percebem-patavina-de-informática-e-que-só-fazem-merda» e, claro, o próprio «José-Becho-formador-malta-jovem-super-cool-que-sabe-tudo». Numa palavra: palha. Palhinha da grossa e da seca, daquela que pica e não nos deixa dormir. Paradoxalmente, é nessa «palhinha» que nasce o meu verdadeiro interesse (quase fascínio) pelos textos de José Becho: o senhor é o mais profissional enchedor-de-chouriças existente em Portugal, capaz mesmo de rivalizar com esta figura mítica e arquétipa que foi Alexandre Dumas.
Exemplifiquemos. Na crónica (crónica?) de ontem, José Becho resolveu dizer-nos esta coisa que jamais nos passou pela cabeça que é o facto dos toners das impressoras serem «altamente tóxicos e perigosos se forem inalados». Como vêem, são sempre informações úteis e que, pessoalmente, já me convenceram a desistir da ideia de mamar ao lanche uma sandes de paio com dois toners HP (um 15/845c preto e um 17/845c a cores). O José Becho salva vidas e bastaria isso para ser merecedor da minha (nossa?) consideração.
Mas o melhor vem a seguir. Faltam, na boa, mais 1480 palavras para o texto estar completo e aqui é que a escrita de José Becho se torna seráfica. Temos pérolas do género:
«Quando chegámos, o funcionário que nos atendeu, o senhor [este «senhor» é semiotiquíssimo e refere a ausência de formação académica da personagem] Paulo Renato, olhou fixamente para o Saraiva e disse-lhe: "Eu acho que o conheço de qualquer lado...", e o Saraiva: "É natural, venho muitas vezes a casa do meu amigo Bernardo e também morei aqui até aos dez anos", de repente o senhor Paulo lembrou-se: "GILDINHO!!! Tu és o Gildinho, não és?", e antes do Saraiva poder sequer responder, deu-lhe um abraço e umas palmadas tão fortes nas costas, que até deixaram o Saraiva um bocado azul».
Como podem ler, isto é puro teatro grego. Confrontação, reconhecimento e catarse. E penso que não vos terá escapado a insinuação por parte do narrador de uma pulsão homossexual mal reprimida por parte da personagem que se dá pelo nome de «Saraiva». E, sobretudo, e isto é que é fundamental, nada do que se narra aqui é relevante e serve apenas para atingir o objectivo das 1500 palavras.
No texto em causa, nota-se que José Becho despachou o que queria dizer (não se deve comer toners) muito cedo e que ainda lhe faltam cerca de 400 palavras para receber o cheque pelo correio. Eu imagino-o em casa, em cuecas, a suar e de cigarro na boca, a accionar o contador de palavras do processador de texto e acrescentar um adjectivo aqui, um advérbio ali, ou uma frase catita acolá. Mas 400 palavras é muita coisa e aí, o nosso formador tem uma ideia genial que vem muito a caso num texto que trata da problemática da toxicidade dos toners das impressoras, a Moldávia:
«Deixamos então a impressora para reparação e a caminho de casa, o tio Alberto convidou-me para ir passar umas semanas de férias à Moldávia, a terra da tia Vika [genial]. Eu disse logo que sim [bruxo], e o tio Bernardo atirou à sua maneira: "Então os moldavos vêm para cá e tu vais para a Moldávia?" [apontamento fascista: todos os formadores são fachos], o tio Alberto saiu em minha defesa e disse-lhe: aquilo é um país espectacular, Bernardo. É pena que a economia esteja de rastos e origine tanta corrupção. De resto, é um país lindo: uma imensa planície com campos de trigo e girassol [ah, Cesário!]. Pinhais. Um jardim! E as pessoas? As pessoas são afáveis e generosas, são solidárias e convivem imenso. Quando lá chegas pela primeira vez, estranhas - os restos do passado recente estão bem presentes [eu não disse que ele era facho?] - mas depois de conviveres com aquele povo [e pimba], não queres sair de lá...».
Palavras para quê? É um artista português.
Publicado por João Pedro da Costa às setembro 18, 2004 02:59 PM
Comentários
É pena ele já ter descoberto a cena dos tinteiros, porque um bocadinho de tinta tóxica na sua linda boquinha não faria mal a ninguém.
Publicado por: EU má em setembro 18, 2004 10:08 PM
O meu palpite é que ele snifa tinteiros quando escreve os seus textos.
Publicado por: João Pedro da Costa em setembro 19, 2004 02:44 AM