« Um prenda para os fãs de THE OFFICE | Entrada | Há dois tipos de pessoa: »

setembro 30, 2004

Post policial

Esta noite, quando a Manela e eu chegamos a casa dela (a formação correu lindamente, thanks for asking) tivemos uma surpresa desagradável. Jazia no chão, partido em bocados, um belíssimo prato pintado pela Amanda Passos. A Manela ficou em estado choque e disse

- Ó.

e eu, claro, tentei reconfortá-la invocando o facto de ela possuir mais dois belos trabalhos da dita pintora (funcionou) e de, pelo menos, o prato não ter caído na cabeça de ninguém (aqui, nem por isso). Como é óbvio, após o nosso choque inicial (a Manela gosta muito da Amanda Passos e eu gosto muito da Manela), tentamos apurar o que teria sucedido. Inspeccionámos o prego da parede onde o prato estava exposto, avaliámos a distribuição dos móveis pela sala, analisámos um jogo de xadrez interrumpido (de qualquer forma, as pretas sofreriam mate em duas jogadas), medimos a temperatura ambiente e, como é óbvio, procurámos impressões digitais. A conclusão da Manela apontava para uma conjuntura em que a inevitabilidade da lei da gravidade de Newton se aliava à duvidosa qualidade do prego comprado no Aki: numa palavra, azarito.

Servi-me de um uísque de 20 anos e sentei-me no sofá. Sabia que, mal chegasse a casa, conseguiria apurar a sequência cronológica dos factos e eventuais nexos de causalidade, mas, de qualquer forma, estava resoluto a aplicar deduções, induções e abduções para a resolução do mistério e, enquanto a Manela se sentou no computador com um ar tristonho (Amanda Passos) a peparar uns slides no Powerpoint, resolvi ignorar a jornada europeia e dirigir-me ao que, na altura, já suspeitava ser o local não de um acidente mas de um crime. Foi só então que me apercebi da ausência do Minorca. O Minorca, para quem não sabe, é o gato da Manela. Foi encontrado há dois anos, em Moledo, e a Manela fez o que lhe competia: deu-lhe de comer, ofereceu-lhe um abrigo, fez-lhe votos de amor eterno e, claro, mandou-o capar (com as cortinas não se brinca). Pois bem: o Minorca é um daqueles gatos que adivinha sempre a chegada da dona a casa e que não arreda pata enquanto não receber a sua dose (merecida?) de mimos. Porém, hoje, ele não apareceu. Passei pelo corredor (onde vi a Xana, uma gata velhíssima e sedentária que tem a virtude de se confundir com os móveis) e entrei no quarto onde estava o Minorca, deitado na cama, a olhar para mim.

Não sei ler o olhar de felinos. O dos cães é-me transparente e penso que não será gabar-me em excesso se vos disser que os anos me ensinaram a compreender a cadência das noites no olhar das mulheres. No que diz respeito ao dos gatos (confesso que nunca tentei ler o olhar de um tigre, o que por acaso até é grave para um borgesiano como eu), no que diz respeito ao dos gatos, dizia eu, confesso aqui a minha incapacidade, quiçá ignorância. Sentei-me na cama e enrolei mais um cigarro. O Minorca pareceu-me inquieto. Dei uma passa e, ainda com o o fumo nos pulmões, atirei a pergunta:

- Foste tu, Minorca?

Ele ignorou-me. Peguei no DVD de LOST IN TRANSLATION que estava em cima da secretária (e que logo logo me encarreguei de desviar para o meu saco) e comecei a ler os extras:

- Documentário, trailer, teledisco de «City Girl», cenas cortadas, entrevista... foste tu, Minorca?

Desta vez, ele não consegui fugir à pergunta:

- Miau.
- Também me pareceu.

Abri a janela do quarto (não é suposto um ser humano fumar no quarto da Manela) e fui ter com ela, que continuava sentada no computador, às voltas com os ISO 9000. Arrisquei um

- Não terá sido o gato?
(silêncio)
- O gato o quê?
- Que partiu o prato.
(suspiro)
- O Minorca?
(hesitação)
- Sim, o Minorca.
(silêncio novamente)
- Tem juízo, aquilo foi um acidente.

Sorri e retirei-me de fininho. Na sala, apeteceu-me pôr música. Algo de épico. No entanto, contive o desejo e resolvi sentar-me de novo no sofá. Folheei uma revista e olhei, através a janela, para o luar. Bem bonito. Preparava-me para enrolar um cigarro, quando a Manela

- Vamos. Levo-te a casa.

A viagem foi feita em silêncio. Eu sabia que ela sabia que ambos sabíamos a razão daquele silêncio. Ainda tentei dizer umas frases espirituosas, mas em vão. Silêncio. Quando chegámos ao portão da minha casa, despedimo-nos como duas pessoas civilizadas e, antes de eu fechar a porta, já estava eu cá fora, ela disse:

- Foi um acidente.
(silêncio)
- Eu sei.

Não fui de imediato ver as gravações. Antes, verifiquei se tinha mensagens no voice-mail, despi-me e ouvi cinco vezes, em bendito repeat, o tema «Girls» dos Death in Vegas. Deu para enrolar e fumar mais um cigarro, mas daqueles que gosto (grossos e apertadinhos com dupla mortalha), e fazer apostas comigo mesmo. Confesso que adiei o momento. Retirei a bobine do gravador e coloquei-o no leitor da sala.

Devo aqui fazer um parênteses. Há quatro anos que filmo a casa da Manela e ela, claro, não o sabe. Não o faço por ser perverso ou por ter uma paranóia com a intimidade dos outros. Apenas gosto de proteger os que amo e foi esta a forma que encontrei para o fazer. Gastei imenso dinheiro no equipamento, tudo tecnologia japonesa, e penso que me compreenderão se vos disser que tenciono levar comigo para o túmulo o nome do técnico que contratei para instalar as onze mini-câmaras, os cinco sensores de movimento e os emissores / receptores de feixes hertzianos. Não faz parte do meu feitio julgar os outros: apenas peço que façam o mesmo em relação a mim. Fim de parênteses.

Apaguei as luzes e carreguei no botão.

PLAY.

Não houve surpresas. Não, não houve. Nem vou entrar aqui em pormenores que considero desnecessários. Penso que bastará esta imagem

fotogatopassos.jpg

para perceberem o que quero dizer. Enganam-se os que pensam que senti algum prazer por verificar que tinha razão. Afinal de contas, a Amanda Passos é a Amanda Passos e, podem acreditar, a minha humilde existência dispensa bem mais um dilema: devo, ou não, contar-lhe a verdade?

Publicado por João Pedro da Costa às setembro 30, 2004 03:08 AM

Comentários

Ela já "tem" um nome que é tornado público. E assume de forma clara a sua paixão: «(...)eu gosto muito da Manela (...)». Sabe que a sua Scarlett consulta este blogue. Vai no bom caminho, mas terá que insistir e ser directo e mais pessoal, pois ela irá actuar como se não tivesse percebido... Insista!

Tal como foi proposto AQUI, no que me for possível, estou disponível para colaborar para o deleite amoroso do casal que se admira. Mas, em contrapartida, (provavelmente) lhe pedirei o espaço de um post neste blog. O que me diz?!

Publicado por: Explícito em setembro 30, 2004 10:16 AM

Ai, ai.
Como se não bastasse ter-me enterrado na treta da formação (os 88 anos dificultam a coisa), agora também tenho de:
1. ler falsas acusações a um gatinho lindo e inocente;
2. lidar com um complicadíssimo sistema de câmaras que me controla noite e dia;
3. acompanhar os explícitos conselhos para me fazerem investidas amorosas;
4. ver o meu bom-nome associado à Scarlett (que é uma moça jeitosa, sem dúvida, mas que aposto que não é formadora);
5. ver o meu bom nome escarrapachado descaradamente e sucessivamente num espaço público da internet.
Que tal introduzires um post sobre as dificuldades da vida e outras crises existenciais?

(Vou preparar a formação de hoje)

Publicado por: Manela, Manela, Manela em setembro 30, 2004 12:34 PM

Belo!
Candidato ao melhor post do mês!

Publicado por: Monty em setembro 30, 2004 12:36 PM

Parece que estão a esquecer o verdadeiro drama desta história toda que é o facto de ser perdido para sempre um (por sinal) belo trabalho original da Amanda Passos. Posso ficar com os cacos?

(parabéns pelo post)

Publicado por: Mortimer em setembro 30, 2004 01:47 PM

Parabéns pelo post... Ao melhor estilo policial, até com um subtil toque de negro... A Emiéle de certeza que vai adorar (ela também lia a coleccão vampiro...)
E o Minorca é mesmo parecido com a minha Mignonne!! Que também me partiu um prato há dois dias... Tenho que a disciplinar!! ; )

Publicado por: M. em setembro 30, 2004 02:18 PM

Só uma pergunta de retórica: o admirador e Manela, não são a mesma pessoa?

O estilo é muito idêntico...

Publicado por: Explícito em setembro 30, 2004 04:20 PM

Tu és bipolar, não és? Alternas euforia e disforia a um ritmo alucinante...

(«Tranforma-se o amador na cousa amada», já dizia o outro)

Publicado por: João Pedro da Costa em setembro 30, 2004 06:18 PM

Têm o mesmo estilo... Ou seja, foram feitos um para o outro!

Olha lá JPC, que tal a minha proposta?

Publicado por: Explícito em setembro 30, 2004 10:26 PM

Aceito. Manda-me o post por e-mail e prometo que o publico logo logo no blog.

Publicado por: João Pedro da Costa em outubro 1, 2004 12:09 AM

Bons dias, caro JPC!

Ainda não tenho nada preparado, e só mais tarde precisarei da sua colaboração.

Diga-me uma coisa: não necessita de renovar os seus conhecimentos e alargar horizontes? Que tal uma formação com alguém competente? Parece que a manela é do melhor que há...

Publicado por: Explícito em outubro 1, 2004 10:45 AM

Bem, meu amigo, eu ando a ler os FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO do Barthes, não sei se poderá ser útil... O que aconselhas?

Publicado por: João Pedro da Costa em outubro 1, 2004 12:23 PM

"A confissão de Lúcio" - Mário Sá Carneiro

Publicado por: Explícito em outubro 1, 2004 02:38 PM

Bem, estamos mal: eu abomino esse conto do Mário de Sá-Carneiro (esse e os outros). Isso é leitura adolescente e ele até costuma ser uma espécie de autor-teste para eu saber se me vou dar bem com uma pessoa...

Parece que és uma excepcão - ou então queres mesmo me desgraçar!

Publicado por: João Pedro da Costa em outubro 1, 2004 06:59 PM

Dei-lhe uma sugestão para animar a moral! Não há livro que valha em assuntos do coração. O melhor mesmo é ir tentando, insistindo. Ou seja, apalpar o terreno... Umas gostam de persistentes, outras consideram-nos doentios. Arriscar, tal como a vida.

E Manela formadora, como é que ele está perante esta situação? A rapariga é comprometida, ou nem por isso? Se for, vai ter que subir a fasquia...

Publicado por: Explícito em outubro 1, 2004 09:22 PM

Bem, ela celebrou há pouco as bodas de diamante (foi obrigado a casar aos 13), no passado dia 3 de Maio. Teve quatro filhos, mas já morreram todos. Netos, teve nove, estão vivos sete. Bisnetos, já tem dezasseis (todos vivinhos da silva). Pelos vistos, irá nascer um tetraneto em Dezembro.

Publicado por: João Pedro da Costa em outubro 1, 2004 10:29 PM