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setembro 20, 2004

Listening Session #5

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Quando em 1995, os Stone Roses chegaram ao fim (um ano após o magnífico SECOND COMING, um dos mais injustiçados álbuns da história da pop), cheguei a fazer apostas com o meu melhor amigo (olá, José Gentil, como vai a vida em Bragança?) sobre quem iria ter mais sucesso após o rompimento da banda. Como é óbvio, Ian Brown e John Squire eram, para nós, os mais cotados. O tempo viria a demonstrar que, afinal, estávamos errados: tanto o vocalista como o guitarrista perder-se-iam para sempre e nenhum dos elementos da dupla de compositores dos Stone Roses voltaria a escrever uma página de ouro da história da música pop. Os Seahorses apenas deixaram dois singles pouco mais que aceitáveis («Love is the law» e «Blinded by the sun») retirados de um álbum francamente medíocre (DO IT YOURSELF, 1997), e tanto os álbuns a solo de Ian Brown (apesar de algumas boas ideias) e de John Squire (maus de mais para almas sensíveis) são exercícios desaconselháveis para quem vibrou com canções como «I wanna be adored», «Fool's gold» ou «Love spreads».

Vem esta introdução a propósito dos Primal Scream e da (muito pouco assinalada) importância que Mani (Gary Mounfield), o ex-baixista dos Stones Roses, viria a ter no percurso musical da banda escocesa com a sua entrada em 1996. Creio que se pode mesmo falar de um momento «AC/DC», isto é, há duas bandas sob o nome de Primal Scream: uma «pré-Mani» e outra «pós-Mani». A primeira já tinha deixado o seu nome para sempre gravado nos anais da música pop com o seminal SCREAMADELICA (1991), manifesto definitivo da cultura indie, das raves e do ecstasy, onde a junção da pop com a música de dança (acid-house e tecno) lançou definitivamente para o mainstream as fórmulas já experimentadas por bandas como os Happy Mondays ou os já referidos Stone Roses. A entrada de Mani na banda, contudo, deu-se num momento em que os Primal Scream estavam num impasse: a edição, em 1994, de GIVE OUT BUT DON'T GIVE UP (um exercício anacrónico de hard rock, que fazia lembrar os Rolling Stones vintage da década de 70) tinha sido recebido com grande frieza pela crítica e pelo público, resultando num fracasso comercial. Com Mani na banda, a revolução começa. Desde logo ao comporem o tema título do marco cinematográfico do ano, TRAINSPOTTING, e editando, a par de OK COMPUTER dos Radiohead, um dos dois discos mais marcantes de 1997: VANISHING POINT. Estava consumado um regresso à fórmula dançante de SCREAMADELICA, mas numa abordagem mais experimentalista, onde o baixo de Mani começa a pautar a dimensão mais obscura dos temas de Primal Scream. Ano zero, portanto.

EXTERMINATOR (2000) foi o primeiro disco de rock do séc. XXI. E, se calhar, é ainda o único editado até hoje digno desse nome. Não me refiro, como é óbvio, ao ano de edição, mas a uma concepção inovadora do que é rock'n'roll, a milhas de distância da visão revivalista de bandas como os White Stripes, só para citar um exemplo (e eu até sou um fã). O disco, de resto, parece apostado em cobrir o largo espectro do género musical ao açambarcar outros influências como as Big Beats (os Chemical Brothers têm a honra de ver a sua remistura de «Swastika Eyes» integrar o alinhamento do álbum), o Hip-Pop («Pills») e o Jazz («Blood Money»), ao mesmo tempo em que dá um novo alento à visceralidade das guitarras eléctricas («Accelerator», ironicamente o último single a ser lançado pela Creation). E em todos os temas vêm à tona a importância do baixo cheio de swing de Mani, sempre de uma forma sóbria e em constante diálogo com os restantes instrumentos e a inconfundível voz de Bobbie Gillespie, não obstante momentos de virtuosismo como «Kill All Hippies», «Exterminator» ou aquele que considero o mais incendiário tema rock dos últimos vinte anos: «Shoot Speed / Kill Light».

EXTERMINATOR é um disco nervoso e palpitante, uma autêntico manifesto lírico e sónico, cuja produção e dinâmica vanguardista abriu largas avenidas por onde o rock'n'roll poderia (e deveria) ter seguido. Pena que ninguém (a não ser os próprios Primal Scream, que continuaram a debravar caminhos com EVIL HEAT de 2002) tenha ligado puto ao convite.

(Uma nota final: esta é, de longe, a capa que mais adoro de toda a história da pop. E aproveito para uma correcção: o título do disco é mesmo «EXTERMINATOR» e não «XTRMNTR», como muita gente teimosa insiste em designá-lo: a ausência de vogais é uma mera opção gráfica do brilhante design, até porque, que eu saiba, a banda continua a chamar-se Primal Scream e não «Prml Scrm».)

Publicado por João Pedro da Costa às setembro 20, 2004 04:16 PM