« Curiosidade | Entrada | Um verso »
setembro 29, 2004
Poema Para Pesar Maçãs
Às vezes ainda fecho os olhos, mas já não funciona tão bem.
Outrora, podia pensar fosse no que fosse e cerrar
os olhos que de imediato havia uma similitude entre o que pensava
e a imagem que surgia na escuridão. Hoje em dia, nem isso.
Posso, por exemplo, pensar em ti com muita força
e, acto contínuo, fechar os olhos que me aparece (olha,
quem diria) a motorizada do meu pai.
Mas eu, de olhos abertos, faz-me pensar mais no teu filho
do que nos cisnes. Uma pessoa nasce e cresce.
Conhece um pai e uma mãe, aprende a falar e a escrever
«mãe» e «pai» e outras palavras mais em idiomas diversos.
Há um dia em que nos deixamos tomar por alguém
pela primeira vez e ocasionalmente a gente apaixona-se
que é o momento da vida em que duvidamos do Newton
e optamos pela incerteza e seus princípios de suprema relatividade,
na medida em que verificamos que o centro de gravidade nem
sempre é a Terra: todas as maçãs passam a cair na cabeça da pessoa amada,
esteja ela onde estiver. Viveste tudo isso (ou talvez um pouco mais)
para chegares a uma tarde em que estás sentada na relva
em frente a um lago e olhas para o lado
e vês um rapaz. E eu imagino que, pela primeira vez,
te apercebes que aquele miúdo (para além de ter todas as maçãs do mundo
a cair-lhe em cima da cabeça) surgiu algures, como quem não quer
a coisa, numa curva mais apertada da tua existência.
Fomos dotados de um poder do qual somos indignos
que é trazer para o mundo um ser apto a detonar
todos os verbos que conjugámos no passado.
Tudo isto é inimaginável e terrível, embora não deixe
de ser belo até à comoção, que é normalmente o nome predicativo
de todos os sujeitos terríveis e distantes.
Lembro-me igualmente de quando te fui visitar ao hospital
e recordo ainda com maior exactidão a vontade
que tinha em te ver, pois para mim era óbvio que era outra
a rapariga que ali estaria. Tinhas dado um salto. Pisado um risco.
Nitidamente entrado para outra divisória. Esperava adivinhar-te
transfigurada, na plena posse do teu poder criador,
e não deixava de ter um pouco de medo ao pensar na possibilidade
tão verosímil de não admitires uma presença profana
(inclino agora um pouco o pensamento para os cisnes,
pois era o que me faziam lembrar as enfermeiras ao deslizarem
silenciosas e elegantes, os corredores infinitos). Entrei no quarto e vi-te.
Estavas bem bonita, sabes. Despojada do teu milagre –
mas bonita. Olhavas para a luz que era a única forma de matéria
que deverias reconhecer naquela altura. Chamei-te pelo nome,
olhaste para o vazio. Estavas cansada e sorriste.
Fecho os olhos e não vejo o teu sorriso. Porém,
na memória, um odor a maçãs e outros cisnes.
Publicado por João Pedro da Costa às setembro 29, 2004 01:36 AM
Comentários
Para quem não queria poemas no seu blog não está mal! Adoro este poema e foi uma óptima surpresa encontrá-lo aqui!
Publicado por: Ângela Carvalho em setembro 29, 2004 10:29 PM
Pois é, Ângela, em minha defesa apenas posso argumentar o facto de estar charrado quando o mandei para o blog. Ou é impressão minha, ou este não será o último...
Publicado por: João Pedro da Costa em setembro 29, 2004 11:21 PM
Que estalo...
Publicado por: Pedro em setembro 30, 2004 12:55 PM