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setembro 28, 2004

Ponto de situação

Tenho dedicado uma boa parte dos últimos dois dias a ouvir dois discos recém-editados: HIGH dos The Blue Nile e LOVE SONGS FOR PATRIOTS dos American Music Club. Vamos por partes:

i) o álbum dos The Blue Nile é uma semi-desilusão. De facto, o tema «Soul Boy» (cuja audição motivou a compra do álbum) é, de longe, o melhor do disco. As composições de Paul Buchanan tem o seu encanto, seduzem pelo bom gosto nos arranjos e pela forma despojada como se insenuem no ouvido, mas são um pouco enfadonhas de mais para o meu gosto. Falta-lhe garra, cuja medição (como é óbvio) não passa pelo nível de decibéis. É música adulta, mas num sentido que não faz vibrar a minha corda sensível. Quem sabe, daqui uns anos...

ii) o trabalho dos AMC é, para mim (e que o Diabo seja cego e surdo), o melhor disco que ouvi em 2004. O mérito vai muito para além da inegável capacidade de composição de Mark Eitzel: nota-se que é o disco de uma banda, onde o todo é imensamente maior que a soma das partes e que até tem mérito de pôr em pespectiva o seu trabalho a solo. Quem esperava um disco calmo com temas lânguidos e arrastados, enganou-se redondamente: é um disco de rock (americano, é claro) que cumpre na perfeição uma das missões mais nobres do género: um olhar lúcido sobre a realidade, sem jamais cair no panfletismo descartável que por vezes tanto prejudica a fruição da música de outras bandas (os Manic Street Preachers são aqui um bom exemplo). No fundo, é tudo uma questão de subtileza, bem ilustrada nos versos de «Mantovani, the mindreader» destinados a George W. Bush:

«What kills your soul is the pain you make
the fights you faught, the love you fake.
And at the end of your show
I hope you'll have a marvelous goodbye
A shotglass melody for a timpani sky.»

Publicado por João Pedro da Costa às setembro 28, 2004 01:36 AM