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outubro 31, 2004
Socorro
A minha mãe gosta dos Maroon 5.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:54 PM | Comentários (11)
Leite chocolatado e bolachas de aveia II
Naquelas férias de Verão, à noite, quando eu e o Manel nos fartávamos
o que não era fácil
de tentar descobrir a mística oriental de bater punhetas bucólicas no lado oculto dos campos, íamos solidários ver meu irmão e
porque não dizê-lo desde já
apalpar a minha cunhada. A visita era de médico. Dizíamos olá ao mano - eu ia um pouco mais além, sorrindo-lhe fraternalmente e apertando-lhe por vezes uma bochecha – e, depois, toca a ir ter com a Rosa, que era aquilo que a nossa libido de adolescentes nos pedia com urgência. Ela esperava-nos tranquila, serena, natural. Invariavelmente, arranjava algo para fazer na banca, umas batatas para descascar, uma loiça para lavar, uma galinha para depenar, e nós os dois fazíamos as mãos percorrerem seu corpo rijo, forte e macio de trinta anos bem passados. Não havia grande método no rito: arranjávamos sempre maneira de dividirmos em silêncio as áreas a explorar a fim de evitar um indesejável congestionamento de dedos num local em particular. Ninguém se magoava. Era da praxe ele ficar com a parte de cima e eu com a de baixo, mas também sabíamos variar, até porque imaginação, podem acreditar, era coisa que não nos faltava. Ela, de costas voltadas para nós, nunca dava mostras do menor indício de prazer ou de desconforto. Ficava impávida a sincronizar a respiração com os movimentos regulares do pêndulo da sala, como se não estivéssemos ali a fazer o que avidamente estávamos. Fria e distante – uma mulher do caraças. Nós é que já não podíamos dizer o mesmo, e embora tenhamos aprendido a controlar o ímpeto de nossos gemidos ao longo das primeiras semanas, havia ocasionalmente um ou outro grito que era largado por um, o que de imediato originava o severo olhar de reprovação do outro. O pulso acelerado, a garganta seca e as tonturas é que não havia jeito da gente dominar, o que, para além de não nos ficar mal, apenas confirmava os atributos divinos daquela criatura de sonho. Nunca havia coito, nem a brincadeira ia para além de uns dedos na vagina, de uma ferradela nas nádegas, ou de uma saliva num mamilo. Lembro-me que houve uma vez em que o Manel, empolgado pela volúpia, começou a retirar-lhe as calcinhas com os dentes. Como esperava, a reacção dela foi fulminante. Desferiu semelhante coice na zona onde o seu entusiasmo era mais evidente que o desgraçado esteve dois dolorosos dias a urinar uivos de sangue. Até metia dó. O esfreganço acabava quando um de nós sentisse que vinha mangueirada. Aí, o mais excitado
quase sempre o Manel
desatava a correr pela cozinha para regar as plantas ao luar ou fora dele, e o outro
quase sempre eu
acabava de lhe compor a roupa, endireitando a saia, apertando um botão esquecido da blusa ou passando-lhe os dedos pelo cabelo, e voltava a colocar-lhe nos bolsos as conchas do mar que, entretanto, tinham caído ao chão. Nestes momentos embaraçosos, tentei inúmeras vezes adivinhar-lhe uma lágrima ou um sorriso. Jamais o consegui. Afastava-me finalmente, as pernas bambas, dizendo-lhe até logo baixinho. Ela, mergulhada numa morna passividade, nunca respondia.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:42 AM | Comentários (6)
Leite chocolatado & bolachas de aveia
A primeira vez que a alma se desprendeu do meu corpo, eu não estava à espera. Tinha comido duas grandes pratadas de feijão fradinho com atum e, quando me ia levantar, uma pontada no baixo ventre fez-me dar um peido ruidoso que libertou um cheiro que classificaria de interessante e a dita alma, por demais inqualificável. Como todas as almas
suponho eu
a minha era invisível e planava no ar sobre a mesa da sala, o que me dava uma panorâmica bastante engraçada da coisa. A minha avó ficou escandalizada com tamanho descuido e abriu a boca de espanto. O avô era meio surdo e, portanto, estava a leste. Ela olhou para mim
quero dizer, para o meu corpo
e perguntou-me se isto se fazia à mesa. Não respondi, visto que um humano sem alma é como um fantoche sem titereiro. Tornou a fazer a mesma pergunta, articulando as palavras com uma tensão que
sinceramente
me pareceu exagerada naquele contexto de confraternização familiar. Ainda tentei responder de lá de cima, mas percebi que as almas quando estão livres não podem falar, o que é uma chatice e eu não gosto delas, sobretudo quando são grandes como era o caso.
O sangue subiu-lhe às faces e voltou, desta vez aos berros, a fazer-me a mesma pergunta, ao que o avô respondeu que não, que não queria mais sopa. Eu, assim suspenso, começava a ficar atrapalhado e também a dar conta de que a careca dele era bem maior que aquilo que pensava. Ela levantou-se, o avô disse
- Caralho, Maria, já te disse que não quero mais sopa.
e o meu corpo, esse, continuava mudo, inerte, de olhos abertos a olhar de um jeito meio estranho e alucinado para eles. Confesso que tinha um ar um tanto ao quanto ridículo. Chamou-me malcriado e disse-me que se não respondesse de imediato levaria com um prato nos cornos. Meu avô olhou-a espantado e deu um arroto sem que, no entanto, a alma saísse pela boca, o que na altura até teria dado um certo jeito, ou talvez não. Ela, furibunda, agarrou num prato; ele, desautorizado, agarrou na bengala; e eu, desesperado, não agarrei em nada, o que também não é muito grave, visto que não é que não era bem isto que vos queria contar.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:41 AM
Esclarecimento
Há cerca de um mês (24/09/2004), publiquei aqui neste blog um pequeno post intitulado «A primeira vez que a alma se desprendeu do meu corpo». A ideia era escrever uma série de posts que desenvolviriam esse texto inicial, mas acabei por desistir do intento, não sei muito bem porquê. Devido aos gentis comentários da Riacho e do Ricky G. (uns queridos), resolvi retomar a iniciativa sob o título genérico «Leite Chocolatado e Bolachas de Aveia». Repito o post inicial, para não perderem o fio à meada, e acrescento um segundo episódio. Nos próximos dias, sairão os restantes capítulos.
Espero que gostem.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:40 AM | Comentários (2)
outubro 30, 2004
Mutts #10

Dedicado ao pobre peixe da Etelvina. Se ele ainda estiver vivo, é claro.
Publicado por João Pedro da Costa às 08:57 PM | Comentários (3)
Exercício de auto-crítica e respectiva correcção
Toda a gente me diz que os meus posts são compridos de mais e que deveria escrever coisas mais pequenas. Concordo. Fica este como um primeira tentativa de correcção. Toda a gente me diz que os meus posts são compridos de mais e que deveria escrever coisas mais pequenas. Concordo. Fica este como um primeira tentativa de correcção. Toda a gente me diz que os meus posts são compridos de mais e que deveria escrever coisas mais pequenas. Concordo. Fica este como um primeira tentativa de correcção. Toda a gente me diz que os meus posts são compridos de mais e que deveria escrever coisas mais pequenas. Concordo. Fica este como um primeira tentativa de correcção. Toda a gente me diz que os meus posts são compridos de mais e que deveria escrever coisas mais pequenas. Concordo. Fica este como um primeira tentativa de correcção. Toda a gente me diz que os meus posts são compridos de mais e que deveria escrever coisas mais pequenas. Concordo. Fica este como um primeira tentativa de correcção. Toda a gente me diz que os meus posts são compridos de mais e que deveria escrever coisas mais pequenas. Concordo. Fica este como um primeira tentativa de correcção. Toda a gente me diz que os meus posts são compridos de mais e que deveria escrever coisas mais pequenas. Concordo. Fica este como um primeira tentativa de correcção. Toda a gente me diz que os meus posts são compridos de mais e que deveria escrever coisas mais pequenas. Concordo. Fica este como um primeira tentativa de correcção. Toda a gente me diz que os meus posts são compridos de mais e que deveria escrever coisas mais pequenas. Concordo. Fica este como um primeira tentativa de correcção.Toda a gente me diz que os meus posts são compridos de mais e que deveria escrever coisas mais pequenas. Concordo. Fica este como um primeira tentativa de correcção.Toda a gente me diz que os meus posts são compridos de mais e que deveria escrever coisas mais pequenas. Concordo. Fica este como um primeira tentativa de correcção.Toda a gente me diz que os meus posts são compridos de mais e que deveria escrever coisas mais pequenas. Concordo. Fica este como um primeira tentativa de correcção.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:03 AM | Comentários (13)
outubro 29, 2004
Sunbathing session
A primeira vez que ouvi falar de SMILE foi há cerca de dez anos. Estava a passar pela minha fase Beatles / Beach Boys e a tentar decidir para qual dos lados da barricada haveria de me posicionar (um certo álbum branco acabaria por desfazer um empate que considero técnico). Na altura, fiquei logo a saber aquilo que praticamente sei hoje: que SMILE era para ser o disco que sucederia a PET SOUNDS na discografia dos Beach Boys e que «Good Vibrations» (um dos raros temas a ver a luz do dia) era um single órfão, na medida em que Brian Wilson acabaria por abortar a saída do álbum. As razões apontadas eram várias (o lançamento de SARGEANT PEPPER, a complexidade do disco, o enloquecimento do autor, etc...), mas não me interessavam para nada: o importante é que um dos mais visionários compositores de sempre da pop tinha deixado de lado um disquito que o próprio considerava ser a sua «obra-prima» e tudo isso era terrível, fascinante e belo como só a música sabe ser.
Nos últimos anos, tomei conhecimento de discos paratas e de outros produtos vários que pretendiam levantar a ponta do véu. Como é óbvio, fiz sempre questão de me afastar cuidadosamente deles, pois o que o me interessava era ouvir o SMILE verdadeiro, completo e inteiro, devidamente caucionado por Brian Wilson e não um placebo qualquer. Ou se calhar, nem isso. Na verdade, quando há alguns meses começaram a circular os primeiros rumores de que Brian Wilson teria pegado a sério nas bobines originais e que estaria, finalmente, a concluir SMILE, não pude deixar de pensar: «Caramba, está tudo fodido, não acredito que o gajo vai fazer uma cagada dessas. Porquê trocar a imortalidade na historiografia da música pop pela efemeridade de apenas mais um disco, que, para mais, devido às expectativas criadas ao longo de quase quatro décadas, toda a gente vai ser implacável a criticar?»
Há três semanas, sai o disco. Procuro ter calma. Passo por uma FNAC e sou apanhado desprevenido por um expositor repleto

de objectos proíbidos. Pego num, estranho o facto de ele ser feito de matéria palpável e (num dos gestos que considero dos mais heróicos da minha vida) volto a pousá-lo e resolvo ignorar a sua existência sem contemplações. Depois, começam a chover as críticas. Blitz, Y, Mojo e Uncut. Todas são unânimes. Começo a ficar impaciente e consulto a net. A unanimidade mantém-se: toda a gente considera o disco uma absoluta obra-prima e, nesse momento, a impaciência dá lugar à inquietação. A semana passada, volto a ir à FNAC (muitas vezes vou eu lá, caramba) e resolvo analisar melhor a capa. Cores quentes e vibrantes, design cuidado. Adoro a capa. Olho desesperadamente para o preço e penso (com uma pontinha de alívio que não irei aqui negar) que a merda do disco é muito caro, que tenho de ter juízo e que a compra pode esperar.
Maurice Blanchot deixou escrito que o desejo é a distância tornada sensível. Talvez estivesse a prolongar artificialmente a distância, não sei, mas a verdade é que o desejo ia crescendo devagar em mim, feito bichinho, e quando dou por mim já estou a sonhar com o disco. Na terça-feira passada, volto à FNAC (eu sei), dessa vez com o meu melhor amigo, que estranha muito o facto de ainda não ter adquirido o disco fétiche. Tenho ainda um momento de esperança quando vejo que o expositor tinha sido entretanto retirado, mas, na ordenação alfabética, lá jazia um saudável exemplar de SMILE. Assumo a derrota e pago com Multibanco.
É óbvio que quem não gosta do trabalho dos Beach Boys, também não irá gostar deste disco. Contudo, não deixo de me perguntar o que haverá de tão intemporal em SMILE que faça com que, após o termos ouvido, fiquemos com a sensação que este é um álbum que é tão pertinente hoje em dia, como o teria sido na década de 60 (nunca saberemos é o rumo que a música pop teria tomado, caso o disco tivesse sido, de facto, publicado em 1967). Posso arriscar algumas razões. Em primeiro lugar, a produção: o que Brian Wilson conseguiu fazer aqui a nível de engenharia e de mistura, é um autêntico «wall of sound», uma textura elaboradíssima de sons e ruídos que faz com que o disco seja paradoxalmente complexo e de imediata fruição. Depois, a estrutura do álbum, que faz com que o ouvinte não se aperceba da mudança dos temas, tal é a forma sublime como as melodias se encadeam. Finalmente, o irresistível sentido de humor das letras de Van Dyke Parks e o «locus amenus» para onde nos transporta as composições de Brian Wilson. O que temos aqui é pura vitamina C, canções solarengas e bem-dispostas, um absoluto antítodo para a melancolia e a tristeza, como que a fazer jus ao belíssimo título que ostenta (que interpreto como um imperativo e não como um substantivo).
Está visto que este é um assunto de bem-estar nacional. E, por isso, se já estiverem fartos deste tempo de merda que assola o país, e quiserem ter o sol a brilhar no vosso quarto, façam como eu e comprem o disco. Para os mais cépticos, também há uma solução: arranjem lá 3,5 Mb no vosso e-mail que eu terei todo o gosto de vos enviar o tema «Heroes and Villains» para tomarem o gosto à coisa. Já sabem onde deixar os comentários.
Publicado por João Pedro da Costa às 10:22 PM | Comentários (5)
O meu coelho suicida #17

IMPORTANTE
Os coelhos suicidas não são meus, mas de Andy Riley que já publicou dois livros fantásticos (para mais informações, consultem pf os últimos posts). Para dizer a verdade, este coelho em particular não é dele, mas meu. Digo: não é minha a personagem (é de Riley), mas o desenho em causa foi feito por mim a partir de uma ideia original que também é minha. No entanto, o Tetris é um jogo de computador muito popular e engraçado que não foi inventado por mim, mas por dois engenheiros informáticos russos, Alexey Pajitnov e Dmitry Pavlovsky, em 1985, no Centro Computacional da Academia Russa de Ciências. Para desenhar este coelhinho, utilizei o programa Excel (por causa das quadrículas) que também não foi criado por mim, mas pela Microsoft Corporation em 1984, a partir de uma ideia original de dois estudantes da Universidade de Harvard, Daniel Bricklin e Bob Frankston, que, em 1979, criaram o VisiCalc. O gozo que me dá desenhar esses coelhos terá sido pela primeira vez filosoficamente teorizado pelo ateniense Epicúrio, no século IV a.c. Finalmente, devo dizer que devo a minha existência a uma distracção dos meus queridos pais e que o ar que respiro neste momento se deve, muito provavelmente, aos oito belíssimos castanheiros que tenho no meu quintal.
(Ah, todas as palavras utilizadas neste post foram retiradas do compêndio lexicológico intitulado Novo Aurélio séc. XXI - Grande Dicionário da Língua Portuguesa, da autoria de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e superiormente coordenado por Margarida dos Anjos e Marina Baird Ferreira).
Publicado por João Pedro da Costa às 03:42 PM | Comentários (11)
Voltemos à vaca fria (para uns) e sagrada (para outros)
Vejam lá se conseguem adivinhar qual foi o livrito que vi hoje à venda numa FNAC da cidade invicta e que consegui devorar por inteiro antes de chegar à caixa para pagar?

Nem mais.
A grande novidade neste segundo volume é o facto de Andy Riley ter desenhado gags que se prendem com a actualidade (seja ela política ou cinematográfica), o que dá uma particular acutilância a esses coelhinhos maravilhosos. Confesso que o primeiro livro continua a ser para mim imbatível, mas é surpreendente os requintes de malvadez que Riley atinge neste segundo volume.
O meu favorito? Este:

Não se ponham finos, não, e depois venham práqui dizer que os livros esgotaram...
Publicado por João Pedro da Costa às 12:05 AM | Comentários (11)
outubro 28, 2004
Aviso à navegação
Nos próximos dias (semanas?), irei publicar aqui neste blog circular, uma pequena narrativa em folhetins. Será assim uma cena muito porquinha, entre o porno e o puro terror, à qual será preciso acrescentar uma bolinha vermelha.
Ainda estou a trabalhar na reescrita do texto (que comecei há cerca de oito anos, quando era novo e inconsciente), mas a coisa deverá estrear até ao final da semana e chamar-se-á PEIXINHOS VERMELHOS. Escrevo isto para não estranharem o eventual conteúdo e para precaver mentes mais sensíveis.
Wait and see.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:34 PM | Comentários (6)
1967 - 2004
É surpreendente que 37 anos e 85 sessões de gravação depois, este disco

veja a luz do dia. Inacreditável é que ele seja uma absoluta obra-prima, como se o tempo não tivesse passado por aqui...
Publicado por João Pedro da Costa às 11:39 AM | Comentários (1)
Da catarse e outras aplicações da nicotina
Venho cá para fora. Um maço de tabaco na mão. Por encetar. A noite fria. De Inverno. A lua está prenhe de uma brancura gordurosa. Escapa-lhe uma luz poeirenta que confere uma existência de neblina às coisas que não estão aqui. O pátio, as árvores despidas, ao longe umas casas. Não se vê o mar. Abro o maço, dou razão de ser ao isqueiro, acendo o primeiro cigarro. Está frio. Noite de Inverno. Não sei se neva, não interessa. Liberto o fumo numa emancipação que me devia libertar do mundo, mas não. A Lua branca, redonda. O fumo expande-se numa cor que não lhe pertence sobre a escuridão corrompida. Tudo falso, tudo mentira. Há imagens que se formam breves no outro lado da luz. Têm algo para dizer. Não ouço nada. Talvez o mar. Um desconforto na extremidade dos dedos, uma ardência nos lábios. Cerrar os olhos agredidos. Acendo um novo cigarro. Noite branca pela Lua. Redonda porque a noite. Não sei. Mas está frio. Fecho o casaco atento para não apagar me queimar com o cigarro. Um cuidado excessivo. De velho senil. Poder guardar o calor que alguém roubou ao dia. O que é que significa estares aqui? Não dizes nada. A noite também não. Umas calças de ganga preta, os sapatos de sempre. Grato por esconderem este corpo que não te diz nada. Como é que havia de dizer?, estais tão longe um do outro. Mais um cigarro, urgência de. Nódoas negras sujam a Lua. Parece que a noite a leva de vencida. Parece que a noite a contamina. O maço de tabaco fica bonito, assim, filtrado por esta luz pálida. Faixas amarelas sobre um fundo desbotado. Quadradinhos negros, letras azuis. Se calhar o frio tem alguma coisa a ver com isso. Provavelmente não. O cartão humedecido. Não sabes. Já vais no sexto pela chama do isqueiro. Tenho um frio branco que me enxerta. Vais deixá-la acesa. Assim. É um vórtice que aspira a pertinência do mundo. O céu de carvão, as estrelas em brasa. As casas fechadas na distância – onde está o mar? Não há forma de saber se estou a libertar o fumo ou somente a expirar o ar quente dos pulmões. Isso sim, seria importante saberes. Porque o frio. Lua redonda, branca, enorme. Gigantesca altiva simples. Ainda tanto para queimar. Fumo dois ao mesmo tempo. Tens pressa. Pressa para seres, para acordar o desconhecido que não sabes se existe em ti. Mas no entanto. Contudo. Não obstante. Porém. A lua, a noite, o frio. Será Inverno? Procuro mais um. A ponta dos dedos gelada. Não sabes. E é justo. Para quê saberes? Tem calma. Mas se ao menos o mar. Reparar no anel de brasas que consome o cigarro. Achas tudo isso muito belo. Talvez me comover. Procurar encontrar algo na tristeza de ti, tão alheia a este corpo estranho. Um buraco lá no alto. Que sofrer não chega para seres, sabe-lo tão bem, mas por vezes (na boca, o cigarro) ser suficiente. O vento aviva a combustão. Rajadas de tempo envelhecem o corpo que te transporta. Os ramos tremem. A dor dormente. E depois? Não saber se não sabes que não sei, que é tudo a mesma merda. É verdade, o silêncio. Material espesso ascoroso. Será do frio? Será da luz? Será de ti? Não importa, acender um cigarro. Envolver a chama com a mão. O silêncio do vento sobre um corpo de tempo envelhecido. Inverno que antecipas. Aproveitar esta abstracção para fazer contas àquilo que os outros dizem ser a vida, neste caso a tua. Está bem. Estás bem. Confortável sentado emancipado e não sei que mais. Não se vê o mar. O filtro manchado de nicotina. Ou será da noite? Confessa. É o último. Não deitar o maço vazio fora. Vazar por fora o maço de tanto vazio. Como esta luz de gesso, fazer parte de ti. Mas o que sou eu para integrar seja o que for naquilo que não sei se ser? Paneleirices, não. Por favor. Não. Cala-te acalma-te ata-te. Ao silêncio. É o último, tens que aproveitar. Ainda está frio? Tirar dele o excesso de ti que não vos pertence. Pareces uma criança. Imagens de fumo brinquedos. Falam para mim. O Inverno é frio, a luz é branca e a noite projecta ser no espaço em que não é. Estás estou estamos tontos. Não estar. Não sentir os dedos. Não fazer mal. Mas encontrar o mar. Repara, também não sentes as árvores, e elas são bem mais reais que tu. Elas são. Sossega. Na imobilidade que seria tua se não fosse de ti. Olho em volta, pastagens de cinza, arvoredos de beatas. E mais uma. Não te comovas. Ridículo, não. Vestígios de ti sobre o chão. O silêncio de ninguém. Angústia, não do tempo perdido mas do que ainda há para viver. Está bem, para encher. O frio, a noite, a lua. A roupa. O prenúncio do amanhecer. Não sabes o que dizes. Que dizer é pelo menos um esforço para saber, mas tu não. Sabes perder o vivido que encho com o tempo dito. E pouco mais que nem isso. Estou cá fora. Fora de casa, à margem de mim. A noite funda e o mar longínquo. O isqueiro na escuridão sob a lua através do frio. Intenso. Um novo maço de tabaco na mão.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:27 AM | Comentários (8)
outubro 27, 2004
O meu coelho suicida #16

Este coelhinho é empírico: estou a sentir isto na pele...

Publicado por João Pedro da Costa às 03:20 PM | Comentários (8)
Nem de propósito
Acaba de sair, a semana passada, o novo livro dos Bunny Suicides!!!

Já sabem: toca a inundar a FNAC com pedidos de encomenda a ver se os gajos importam o livro em massa. A julgar pela capa, a coisa promete.
NOTA
Dedico este post ao José Carlos, que é um leitor com a qual tenho travado uma acesa polémica nos comentários de «O meu coelho suicida #15». Não vou entrar em pormenores, bastará para isso irem lá ler. Há dois factos que são indiscutíveis: 1) ele não gosta dos meus coelhos e 2) é, no mínimo, injusta a acusação de «plágio» quando a) o primeiro post que escrevi sobre os coelhos suicidas era exactamente a divulgar o primeiro livro do Andy Riley; b) os coelhos que aqui surgem são criações minhas que desenho porque ba) me dão prazer; bb) são uma forma de publicitar a obra de Riley (que adoro) e bc) porque tenho recebido estímulos por parte dos leitores para continuar.
Devo, contudo, reconhecer que o Zé Carlos tem razão num ponto sobre o qual nunca tinha pensado. Em que medida os novos leitores do blog se dão ao trabalho de irem à procura de todos os coelhos suicidas até chegarem às três referências (sim, Zé Carlos, já foram três) que fiz ao livro original do Andy Riley? Parece-me óbvio que nem todos. E, por isso, engulo o meu orgulho e agradeço-te, Zé Carlos, pela chamada de atenção e, mais, prometo que irei seguir a tua sugestão: caso venha a publicar mais algum coelho suicida (neste momento, tenho sérias dúvidas) irei fazer sempre uma referência no próprio post aos dois livros do Andy Riley.
A única coisa que me «magoa» (até poderia retirar as aspas, porque é mesmo isto que sinto: sou um sensível da merda) não é o facto de não gostares dos meus coelhos, Zé Carlos, mas me teres atribuído intenções que nunca tive. Aos estranhos, pelos vistos, já não se dá o benefício da dúvida. E acredita que, se agora te mando um abraço e te peço desculpa por algum excesso fruto do ardor da polémica, é apenas porque estou a ser sincero.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:18 PM | Comentários (11)
SOS gatos
Como bom consumidor que sou, posso gabar-me de ter comprado muitos objectos sem qualquer utilidade, a não ser a de alimentar a minha febre consumista. Ele é discos maus que apenas ouvi uma vez, roupa que possui a particularidade de parecer óptima numa loja e que depois perde essa característica mal chegue a casa (eu deconfio que todas as lojas de roupa possuem uma iluminação e espelhos que têm o dom de nos pôr a alucinar), pequenos periféricos que o computador não reconhece, enfim, objectos vários com finalidades diversas que depois nunca chego a dar uso. No entanto, nenhum chega aos calcanhares deste:

que custa perto de €12,00 e cujo único dom parece ser o de pôr os meus gatos a coçarem-se como desalmados e a ficarem desconfiados sempre que me aproximo deles com falinhas mansas.
Já me perguntei diversas vezes se utilizo o produto correctamente e até ando a equacionar a possibilidade de colar esses autocolantes

nas suas cabecinhas para ver se é desta forma que as pulgas morrem. A ironia reside no facto de todos os donos de gatos que conheço (e já nem falo de veterinários ou farmacêuticos) me assegurarem que este é a melhor coisinha à venda no mercado. Haverá alguém por aí que partilhe comigo esta angústia e (sobretudo) que conheça soluções alternativas? Os meus gatos agradecem.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:52 AM | Comentários (4)
outubro 26, 2004
O fim do Copy Control

Até que enfim uma boa notícia: um tribunal francês acaba de condenar a EMI pela venda de um disco protegido contra cópia sem ter alertado o consumidor para as restrições tecnológicas que impedem a sua audição em suportes diferentes. A procissão ainda vai no adro, eu sei, mas a Sony Internacional já veio afirmar que, a partir de Novembro, irá retirar o seu sistema de protecção contra cópias de todos os CDs em produção.
Pessoalmente, o Copy Control nunca me afectou muito, na medida em que cedo me deram a dica para ultrapassar o sistema de protecção (que consiste em utilizar o Easy CD Creator com ambos os drives de leitura/gravação de CDs em «slave»), mas conheço muita boa gente que, devido ao facto de apenas ter um PC para ouvir música, não conseguia ouvir os discos acabadinhos de comprar. Well done, portanto.
(Agora, peço desculpa, mas tenho uns CDs do Elliott Smith para piratear...)
Publicado por João Pedro da Costa às 04:31 PM | Comentários (5)
O meu coelho suicida #15 (apanhado entre dois posts)

Publicado por João Pedro da Costa às 02:50 AM | Comentários (31)

NOTA: eu não tenho culpa. O coelhinho é que saltou da área do post no preciso momento em que o ia publicar...
Publicado por João Pedro da Costa às 02:49 AM | Comentários (13)
outubro 25, 2004
Ilustração do 2.º Princípio Hermético
«O que está em cima é igual ao que está em baixo, e o que está em baixo é igual ao que está em cima.»
HERMES, o Trimegisto, 2.700 a.C

(Obrigado à Manela, por partilhar connosco os seus gatos alquimistas.)
Publicado por João Pedro da Costa às 05:50 PM | Comentários (11)
Peço desculpa pela insistência
mas, caramba, se puderem, comprem este disco

que é mesmo do caralhão. Quando mais o ouço, mais me vicio. Para além de «Go» dos Sparklehorse e dos Flaming Lips, o disco de versões tem temas absolutamente geniais (os meus favoritos: Mercury Rev, M. Ward, Death Cab for Cutie, Calvin Johnston, Starlight Mints, Beck, Gordan Gano e Eels). Depois, há oportunidade única de compararmos as versões com os originais de Daniel Johnston e esse exercício tem-se revelado como uma das coisas que me tem dado mais prazer fazer em 2004 (e já estamos em Outubro, não é?).
Sei que as lojas FNAC apostaram forte e feito no álbum e que há bastante exemplares em todas as lojas. A sério, são apenas €19,00 para mais de duas horas de música, está aí o fim do mês, caramba, cravem os vossos namorados ou namoradas, chulem vossos pais e amigos, digam que já conta para a prenda de Natal ou peçam um subsídio ao Estado: DESENRASQUEM-SE, mas, por favor, não deixem de comprar este disco. Ou arderão para sempre no Inferno.
(Para grandes males, grandes remédios.)
Publicado por João Pedro da Costa às 04:37 PM | Comentários (4)
Listening Sessions #10

O que mais surpreende na discografia de Elliot Smith (e bem poderia incluir aqui o recente e póstumo FROM A BASEMENT ON THE HILL) é a regularidade: todos esses discos, meus amigos, são absolutamente fenomenais e é impossível destacar um sem cair numa injustiça. Não há aqui, contudo, imobilismo: muito pelo contrário, consegue-se facilmente detectar uma linha de evolução, que se torna particularmente visível se compararmos o disco de estreia com o último que ele publicou em vida. Perdem-se algumas coisas e ganham-se outras, o que faz com que, no final, os pratos da balança tendam impreterivelmente para o equilibro.
Os dois primeiros álbuns, ROMAN CANDLE (1994) e ELLIOTT SMITH (1995), são dois trabalhos onde Elliott Smith compõe, canta, toca e co-produz tudo. São canções gravadas em casa, à flor da pele. Elliott Smith costumava dizer que ficava surpreendido quando lhe diziam que as suas canções eram tristes, pois escrevê-las e tocá-las lhe dava sempre uma imensa alegria. Não há, contudo, nada que enganar: ouça-se, por exemplo, o título tema do primeiro disco e o que temos é um homem-bomba ambulante a cantar uma das mais inacreditáveis canções de ódio jamais gravadas, assim uma coisa a fazer lembrar um Leonard Cohen, colheita 1971. É também inevitável falar aqui de Nick Drake, sobretudo pela forma envolvente com que Elliott Smith ataca a guitarra acústica e pela melodia contagiante dos temas: «Needle in the hay» (tema que teve o seu momento de glória no celulóide pela mão de Wes Anderson, no seu genial THE ROYAL TENENBAUMS) é aqui particularmente eloquente.
Não deixa de ser irónico que tenha sido aos outakes do 3º disco, EITHER / OR (1998), que Gus Van Sant foi buscar «Miss Misery» para o seu (fraquíssimo) GOOD WILL HUNTING, tema que catapultou Elliott Smith para uma fama efémera: a canção foi nomeada para um Óscar, e foi verdadeiramente surreal vê-lo tocar, sozinho em palco, durante a cerimónia de entrega dos prémios. Qualquer canção de EITHER / OR supera «Miss Misery», não fosse este disco a sua obra-prima absoluta. É neste álbum que Elliott Smith atinge o ponto mais alto da sua carreira, graças a uma sucessão de temas intemporais como «Alameda», «Ballad of Big Nothing», «Between the bars» e «Angeles». Vem igualmente ao de cima, graças a uma produção mais ambiciosa e aos arranjos vocais, o lado mais marcadamente pop da sua música: é impossível ouvir este disco sem pensarmos numa filigrana não muito distante dos Beatles ou dos Beach Boys.
Nos dois últimos discos, XO (1998) e FIGURE 8 (2000), pode-se ouvir um Elliott Smith vintage, mestre absoluto da sua arte, e com meios para produzir dois discos majestuosos e acessíveis, diria que a roçar o «mainstream». A produção hi-fi, os arranjos orquestrais, o uso de metais e o «friendly-listening» dos temas não conseguiu, contudo, fazer com que ele alcançasse o que parecia inevitável: o sucesso comercial. Apesar de nunca a crítica ter sido tão unânime em proclamar um disco seu como o foi XO, a Dreamworks rapidamente percebeu que Elliott Smith não era produto para as massas e quando o fortíssimo investimento da companhia em FIGURE 8 não teve retorno esperado, era óbvio para todos que tinha terminado a sua aventura numa multinacional. Entre 2002 e 2003, Elliott Smith viu aquele que seria o seu 6.º álbum ser recusado duas vezes pela sua editora, que invocava o facto do mesmo ser «desmasiado sombrio» (sic) e o contrato discográfico impediu a saída do disco noutra editora. Acabou de ser publicado a semana passada, pela mão da Domino Records, um ano após o suicídio.
Escusado será dizer que a edição deste disco póstumo fez com que a minha última semana fosse particularmente fértil no que diz respeito a audições de canções de Elliott Smith. Desse exercício (que recomendo a todos vivamente), acabei por elaborar uma pequena compilação de 10 temas (deixo de fora FROM A BASEMENT ON THE HILL, que facilmente poderão ouvir em qualquer loja de discos digna desse nome), que espero poder servir de pequena introdução aos que porventura não conhecem o seu trabalho e que, claro, estejam praí virados:
1) Roman Candle (Roman Candle, 1994)
2) Needle In The Hay (Elliott Smith, 1995)
3) Christian Brothers (Elliott Smith, 1995)
4) Speed Trials (Either/Or, 1998)
5) Alameda (Either/Or, 1998)
6) Ballad Of Big Nothing (Either/Or, 1998)
7) Pictures Of Me (Either/Or, 1998)
8) Tomorrow Tomorrow (XO, 1998)
9) I Better Be Quiet Now (Figure 8, 2000)
10) Can't Make a Sound (Figure 8, 2000)
Tenho cinco cópias para oferecer: fico à espera do endereço dos interessados via e-mail.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:43 AM | Comentários (5)
outubro 24, 2004
Meet Ziggy & Xico
Chegou o momento de vos apresentar

a Ziggy (à esquerda) e o Xico (à direita), os meus dois gatinhos. A fotografia que podem ver foi tirada há cerca de quatro horas, da janela do meu quarto que dá para o telhado do meu vizinho das traseiras e, como podem verificar, um dos passatempos favoritos dos meus gatinhos é estudarem abordagens diversas para entrar subrepticiamente no meu quarto. Devo dizer que muitas vezes têm sucesso.
Alguns dados biográficos:

NOTA: algumas das patologias referidas já se encontram tratadas: nem a Ziggy continua a beber 0,8l de água por dia, nem o Xico tem uma bala nas costas. Ambos continuam na plena posse das suas capacidades reprodutivas o que, nos tempos que correm, não deixa de ser um facto assinalável (mas não por muito tempo, pois parece-me haver ali entre os dois uma empatia crescente que não augura nada de bom...)
Publicado por João Pedro da Costa às 07:14 PM | Comentários (10)
Mutts #8 e #9

A piada é que me parece que essa divisão também pode ser aplicada às pessoas. Não acham?
Publicado por João Pedro da Costa às 04:00 PM | Comentários (8)
outubro 23, 2004
Um Martini e o Mar III
CENA ÚNICA
Uma mesa e duas cadeiras no centro de uma sala. Sobre a mesa, uma caneta e algumas folhas de papel. O resto da sala está vazio. As duas personagens estão sentadas de perfil para o público: O VENDEDOR DE PALAVRAS à direita e O CLIENTE à esquerda. Ambos têm os braços cruzados e olham-se fixamente nos olhos. De repente, o Vendedor de Palavras pega na caneta e olha para a folha. O Cliente baixa os olhos e coloca as mãos entre as pernas cruzadas: tem um ar tímido e apalermado.
O CLIENTE
E pronto, no fundo é isto. Já lhe contei tudo o que havia para contar...
O VENDEDOR DE PALAVRAS
Muito bem. Portanto, o que nós temos aqui é uma pequena recordação de infância, não é verdade?
O CLIENTE, levantando um pouco os olhos.
Sim, é isso. Assim, na conversa, não me custa nada contar o que se passou. O problema é que preciso de um texto escrito. Foi por isso que vim até aqui. Preciso da sua ajuda...
O VENDEDOR DE PALAVRAS
Muito bem, muito bem. Recapitulemos. Quando o Senhor era novo, uma criança para dizer a verdade, o seu pai levava-o todos os dias para a praia para beber um martini...
O CLIENTE
O meu pai.
O VENDEDOR DE PALAVRAS, após uma pausa.
O que é que tem o seu pai?
O CLIENTE, lentamente.
Era o meu pai que ia beber um martini, não era eu. Como disse, eu ainda era uma criança.
O VENDEDOR DE PALAVRAS
Claro, o seu pai, eu tinha percebido. O seu pai ia à praia beber um martini, e levava-o com ele.
O CLIENTE, sorrindo.
Nem mais.
O VENDEDOR DE PALAVRAS
E, se percebi bem, ele levava-o por causa da sua mãe. Sejamos claros: o seu pai era alcoólico. E a sua mãe sabia-o. Portanto, ele utilizava-o. O Senhor era o perfeito álibi.
O CLIENTE, baixando os olhos constrangido; há pausas e hesitações entre as frases.
Sim... mas... sabe, na altura, eu não tinha consciência disso. Era uma criança. Amava o meu pai. E acreditava, ou pelo menos queria acreditar, que ele me levava para que eu pudesse brincar um pouco à beira da água. Ainda hoje, gostaria ainda de poder...
O VENDEDOR DE PALAVRAS
Muito bem, muito bem, a gente já volta aos seus desejos. Mas agora, adiante: já deu para perceber que o mar para si era algo... digamos... de importante. Ou, pelo menos, causava-lhe um certo impacto. Gostava bastante do mar, não é verdade?
O CLIENTE, sorrindo de novo.
Sim, gostava muito. Mas, não sei se está a ver, o mar, para mim, nunca foi um sítio, um local onde se pudesse estar: era mais um evento. Uma coisa que acontecia, uma espécie de espectáculo a que se poderia assistir sem lá estar verdadeiramente...
O VENDEDOR DE PALAVRAS
Muito interessante, muito interessante (escreve na folha). O Senhor disse que o mar, e estou a citá-lo, era (gesticulando) «algo de muito grande e de muito azul, com a espuma das ondas e o ruído das gaivotas... e, caralho, as gaivotas, cheirava muito a gaivotas...». Não se importa que mude este palavrão por um outro, pois não?
O CLIENTE
Não, não, claro que não. Aliás, é esse precisamente o seu trabalho, não é? Vender-me novas palavras.
O VENDEDOR DE PALAVRAS, muito sério.
Nada disso, meu caro amigo, está redondamente enganado: eu apenas utilizarei palavras que tenham sido ditas por si. Eu não sou um dicionário ou um lexicólogo. O meu trabalho, aqui, não é vender-lhe palavras, mas dar, às suas palavras, uma nova ordem. De resto, se eu lhe vendesse, como disse, «novas palavras», bem gostaria de saber o que é que faria com elas... Enfim, em todo caso, não pude deixar de reparar que as gaivotas também o impressionavam muito...
O CLIENTE
É. Sabe, como é que eu hei-de explicar, se o mar fosse uma... uma peça de teatro, as gaivotas seriam as três pancadas de Molière... Acontecia-me muitas vezes ser apenas neste momento que me apercebia de estar à beira mar. Ou melhor: me dava conta que o mar tinha começado. (Pausa; baixa os olhos) De qualquer forma, eu gostava muito das gaivotas, gostava muito...
O VENDEDOR DE PALAVRAS, interrompendo.
...das gaivotas e da água. Aproveitava o facto do seu pai estar distraído para ir para a água. E é essa, no fundo, a sua história: a atracção pela água...
O CLIENTE, levantando o dedo timidamente.
Não, não, nada disso...(Pausa) Quero dizer, não é bem isso. A minha história é mais a parte em que mijei nos calções. É esta a parte engraçada. Pelo menos, acho que tem alguma piada (começa a rir um pouco, mas cala-se de imediato). E, para além do mais, parece-me que é disto que o blog precisa: uma história engraçada que me tenha acontecido, em poucas páginas.
O VENDEDOR DE PALAVRAS, irritado.
Tudo bem, tudo bem. O cliente tem sempre razão. Vamos lá então à sua história de mijo... Diga-me, por que é que se mijou todo? O Senhor estava assim tão à rasca?
O CLIENTE
Quero dizer... estava e não estava... Olhe, não quero que fique a com a impressão de que eu era um mau rapaz... Era apenas distraído, só isso. Olhava para um barco e imaginava-o logo a levantar voo em direcção ao céu... E depois, há também que ter em conta o barulho da água. A água a correr, não sei se consigo é o mesmo, mas a mim dá-me vontade de mijar...
O VENDEDOR DE PALAVRAS, cada vez mais impaciente,
esfregando as mãos sobre o rosto.
Certo, certo, mas aqui, a gente, ou pelo menos eu, estou a tentar escrever um texto sério. E eu não vou enchê-lo de mijo, caramba. «O mijo e o mar», agrada-lhe o título?
O CLIENTE, timidamente.
Bem... é uma ideia...
O VENDEDOR DE PALAVRAS
É isso é... uma ideia. (Põe a caneta na boca e olha para os apontamentos durante algum tempo.) Diga-me, o que é sentiu, ou melhor, o que é que lhe agradou mais quando mijou na água?
O CLIENTE, surpreso.
O alívio, talvez. Sim, o alívio e o conforto da urina quente sobre a pele.
O VENDEDOR DE PALAVRAS
Só isso?
O CLIENTE, pensativo.
Sim, só isso... Isso e talvez o prazer do interdito. É. Sem dúvida, também isso: o saber que estava a fazer algo que não podia fazer. O prazer da transgressão. Às vezes, o que corria mal era ter que ouvir a minha mãe quando chegava a casa. Mais do que uma vez, ficava de castigo sem almoçar. E ela fazia cá uns assados...
O VENDEDOR DE PALAVRAS
E é assim que termina a sua história? É assim a cair pró fracote, não acha?

Não, não, não pode ser. Assim, não dá... Ouça: se quer que eu faça uma omelete, tem, pelo menos, que me dar os ovos…
O CLIENTE, encolhendo os ombros.
Mas o que lhe contei é a verdade. Não tenho mais a nada a acrescentar.
O VENDEDOR DE PALAVRAS, gesticulando.
A verdade, a verdade... A gente está-se a cagar para a verdade. Ou melhor, também lhe pode mijar em cima, que não precisamos dela para nada. (Pousa a caneta na mesa e olha o cliente nos olhos) Repare: o que a gente precisa é de verosimilhança. Nada mais do que isso. Sabe, talvez a memória seja o sítio onde as coisas acontecem pela segunda vez, mas a escrita é sempre uma traição à memória. A gente bem pode tentar tudo e mais alguma coisa para lhe ser fiel, mas será sempre em vão... Quando se quer escrever sobre uma coisa, acaba-se sempre por escrever sobre outra. É sempre uma «première». Mesmo quando relemos um texto pela décima vez, é sempre um novo mundo que nasce perante os nossos olhos. Olhe, não sei, pense em Leibniz, pense nos idealistas, pelo amor de Deus. Escrever sobre alguma coisa é, no mínimo, alterá-la. Por isso, o meu conselho é que devemos tirar proveito disso. É preciso sonhar quando se escreve: é preciso ser feliz.
O CLIENTE, coçando a cabeça.
Vai-me desculpar, mas não estou a perceber...
O VENDEDOR DE PALAVRAS
Ouça: como é que mudaria a sua história para que ela pudesse ser uma boa recordação? Haveria nela lugar para um pai alcoólico que não liga puto ao filho?
O CLIENTE, baixando os olhos.
Não... não haveria.
O VENDEDOR DE PALAVRAS
Então...?
O CLIENTE
Gostaria que ele viesse ter comigo à beira da água. Quando a água começava a arrefecer, sentia-me muitas vezes só e melancólico... Triste, posso dizer que ficava triste...
O VENDEDOR DE PALAVRAS, tirando apontamentos.
Muito bem, continue...
O CLIENTE
Gostaria... gostaria de poder senti-lo ao pé de mim, tal como era capaz de sentir as gaivotas. Às vezes sentia-me tão vazio. Sentia-me oco por dentro. Tinha a impressão de ter espaço suficiente dentro do corpo para poder engolir o mar inteiro. Mas a culpa não era bem dele: deveria ter-lho dito. Não era tarde demais, deveria tê-lo dito. Mas as palavras, sabe, nunca tive jeito com as palavras... E durante muito tempo, pensei que não tinha dito nada por pudor ou cobardia. Mas não. As palavras, puta que pariu as palavras. Mesmo que tivesse tido coragem, não teria sido capaz de as encontrar...
O Vendedor de Palavras continua a escrever sobre a folha durante alguns segundos.
O VENDEDOR DE PALAVRAS
Gosta de martini?
O CLIENTE
Nem por isso...
O VENDEDOR DE PALAVRAS
Tudo bem, não tem importância....
Escreve ainda uma ou duas linhas. Pouco depois, sorri.
O VENDEDOR DE PALAVRAS
Está pronto. Pode ler.
O Vendedor estende ao folha ao Cliente. Este olha para ela. Pausa. O Cliente coça a cabeça novamente.
O VENDEDOR DE PALAVRAS, com um ar paternalista.
Ao contrário…
O CLIENTE
Como...?
O VENDEDOR DE PALAVRAS
Ao contrário. Tem a folha ao contrário…
O Cliente faz um sorriso embaraçado e roda a folha. Abre a boca e ouve-se, em off, a voz do Vendedor:
«Aos domingos de manhã o meu pai levava-me à praia para tomar um martini e antes do assado da minha mãe havia o mar. Haver o mar era então despir-me lentamente da criança que eu era e esboçar sobre a areia ainda fria diagonais insuspeitas em direcção à água, enquanto o meu pai se ia afogando na leitura cinzenta de pesadíssimos jornais. Neste preciso momento em que a mão me trai e escreve com urgência, o que se me encosta à memória é a imagem de uma imensidão quase azul a espumar-se de brandos rumores salgados e o cheiro a asas. O grito das gaivotas, meu deus, lembro-me tanto do grito das gaivotas. É um grito alado, distante de agudeza, e que apenas é plausível ali, à beira do mar: de outra forma não o ouviríamos: de outro modo não estaríamos lá. Eu demorava sempre, no ritmo pendular do meu pai, meio martini até introduzir os pés na água. Depois era fazer os possíveis para que as ondas nunca molhassem os calções e sintonizar o olhar (hoje, a memória) na mancha efémera de um barco qualquer que desfiasse a minha imaginação ao levitar-se trémulo um pouco acima do limite do mar. Lembro-me que houve uma vez em que eu, embriagado pelo ressoar contínuo das águas, me distraí e me mijei todo. Recordo o líquido quente a correr pelas pernas e como aquilo tudo (pelo alívio, pela transgressão e pelo conforto) me soube estupidamente bem. Poderia lá ficar durante alguns breves minutos ou até quase uma hora, mas uma coisa era certa: no instante em que me sentisse a resvalar para a melancolia, no meu ombro vinha poisar em silêncio a mão do meu pai. E aos domingos de manhã, quando o meu pai me levava à praia para que em mim houvesse o mar e antes do sermão da minha mãe, vinha à tona de nós uma palavra que não me atrevo a escrever porque na minha família há uma coisa que se chama «pudor nos sentimentos» e até porque (vejam só) o meu martini e este pôr-do-sol estão, sinceramente, a acabar.»
O PANO CAI SOBRE O PALCO
Pausa durante alguns segundos (palmas, palmas). Depois, por detrás do pano, ouve-se:
O CLIENTE
Mas... apesar de tudo, estas palavras...
O VENDEDOR DE PALAVRAS
Sim...?
O CLIENTE
Não são minhas, estas palavras...
O VENDEDOR DE PALAVRAS
Não se preocupe. As palavras, a gente pede-as emprestadas: mesmo na sua desordem, elas não pertencem a ninguém...
Publicado por João Pedro da Costa às 10:11 PM | Comentários (7)
A propósitio de necrofilia
este disco

parece ser uma excepção à regra da mediocridade das edições póstumas.
Para quem não sabe, Elliott Smith foi um dos maiores compositores norte-americanos da década de 90, deixando-nos cinco álbuns (com este seis) que são autênticos marcos na história da música alternativa. Há cerca de um ano, Elliott Smith pôs termo à vida de uma forma brutal e inusitada: duas facadas no coração, a sangue frio (isto apesar de haver os habituais rumores de homícidio). FROM A BASEMENT ON A HILL, para além do título premonitório, aproximar-se-á bastante daquilo que o compositor queria que fosse o seu derradeiro disco: não há aqui demos, nem temas impróprios para consumo, como costuma ser da praxe das edições póstumas (lembro-me aqui particularmente do (SKETCHES FOR) MY SWEETHEART, THE DRUNK de Jeff Buckley). Ao ouvir o disco pela primeira vez, há cerca de dez minutos, surpreendeu-me sobretudo que uma voz tão límpida e clarividente possa ter desaparecido e registo o facto de não haver qualquer referência à morte do autor no inlay do álbum. Esta sobriedade, no mundo em que vivemos, quer dizer muita coisa.
(Fica a promessa de voltar aqui depois.)
Publicado por João Pedro da Costa às 07:53 PM
outubro 22, 2004
O meu coelho suicida #14

Para quem tinha uma ligação paleolítica a 56kbs/s, confesso que a Netcabo é uma absoluta panaceia.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:11 PM | Comentários (2)
Um Martini e o Mar II
Meus caros irmãos,
este sermão irá, sem dúvida, ser do vosso agrado. Não digo isto apenas por pensar que as minhas anteriores incursões oratórias tenham provocado em vós fastio ou enfado, mas também porque irei hoje versar sobre um acontecimento fulcral da minha humilde existência de cristão que encerrará, em si, a explicação para algumas das alterações que tenho vindo a proceder no espaço e nos ritos da nossa igreja desde a minha chegada a esta, em inúmeros níveis, encantadora paróquia. Apesar de já ter a idade com que morreu Jesus Cristo, Nosso Amado Salvador, estou ciente de que vocês, meus caros irmãos, terão atribuído à minha relativa juventude a principal causa de um certo espírito inovador que parece guiar as minhas celebrações dominicais. Afinal de contas, colocar em cima do Santo Altar uma garrafa de martini e ter substituído, numa operação que exigiu a perícia dos mais delicados e elegantes artesãos da capital, as pombas dos murais da igreja por gaivotas constituem, confesso-o na minha vil condição de pecador, uma aparente violação das tradições que são os pilares sobre o quais assenta a Nossa Santa Madre Instituição Católica. Estando consciente da justificação de que vos sou devedor, e antes de abordar em concreto o episódio biográfico que irá, estou certo disso, saciar a vossa curiosidade, gostaria, se mo permitissem, de vos relembrar uma ou duas coisas.
Em primeiro lugar, que os símbolos que usa a Igreja Católica são exactamente isso: símbolos, e apenas símbolos. Com isto quero dizer que mais importante do que a parte visível ou corpórea do símbolo é, sem sombra de dúvida, o que ele, enquanto símbolo que é, representa. Pois bem, não obstante o inegável facto de ter substituído neste espaço sagrado o vinho pelo martini e as pombas por gaivotas, continuo a atribuir-lhes as suas, essas sim, santas e sagradas significações que são, como com certeza sabem, o sangue de Cristo e o Espírito Santo, respectivamente. Para além do mais, deverão de igual modo reconhecer que mesmo aí, na alteração da parte visível da nossa simbologia, não procedi de forma brusca ou arbitrária: o martini, como o vinho, é uma bebida alcoólica; e uma pomba ou uma gaivota são, por mais voltas que lhes queiramos dar, aves. Quero dizer com isto que, apesar de tudo, ainda se mantêm intactos os elos que garantem a correcta eficácia dos símbolos: a gaivota, sendo um pássaro que desafia a lei da gravidade, continua a simbolizar com rara felicidade a natureza etérea e celeste do Espírito Santo; e o martini, pelo seu estado físico e cor, continua a representar o sagrado sangue do Nosso Salvador.
(Vejo, pelo sorriso de alguns, que a vossa aguda perspicácia terá apreendido nas minhas palavras uma crítica velada aos meus colegas de sacerdócio que teimam em celebrar a missa com vinho branco. Têm razão. Mas a verdade é apenas uma: o sangue, quer o que impunemente corre nas nossas veias, como o glorioso de Jesus Cristo, ou até mesmo o pretérito dos reis, sempre foi, é, e não há nenhuma razão para crermos que num futuro próximo deixará de o ser, encarnado.)
Quanto ao facto de o Filho de Deus não ter utilizado a mesmo simbologia que eu, o que poderá levantar uma dúvida pertinente sobre a legitimidade dos meus actos, devo recordar-vos que o Salvador foi por Nosso Senhor enviado ao mundo numa altura em que o martini ainda não tinha sido comercializado, ou sequer inventado, e que no céu da Galileia, terra gloriosa porém inóspita e deserta, não abundavam gaivotas. Tivesse Deus mandado o Seu Filho nos dias de hoje para a nossa humilde aldeia à beira-mar, e seria bem provável que a Sua escolha fosse idêntica à minha. Enfim: quem não teve cão com gato se viu obrigado a caçar e, apesar dos pesares, os resultados não deixam de estar à vista de toda a gente.
A segunda coisa que gostaria de vos dizer, antes de contar a minha história, são as fortes dúvidas que se me levantam relativamente à justeza do uso pio da pomba. Estou a falar da tão apregoada «candura» ou «pureza» que se atribui a esta ave singela. Antes de mais, não nos deveremos de esquecer que as pombas provêm do Chipre, ilha consagrada a Vénus, deusa do amor pagão. Anacreonte refere que, no monte Érice, se celebrava uma festa aquando da passagem da deusa pela Líbia: nesse dia, não se viam pombas em toda a Sicília, porque todas haviam atravessado o mar para fazerem o cortejo em homenagem à deusa. Mas nove dias depois, do horizonte longínquo desta terra de infiéis, chegava a Trinácria uma pomba vermelha como o fogo (Porpórea era um dos inúmeros nomes de Vénus) e atrás dela vinha a multidão das outras pombas. Nesse mesmo dia, referem as crónicas, todas as mulheres eram possuídas por um inconsolável desejo de fornicar que levava algumas delas à auto-mutilação, quando não à morte. Mas este dado histórico marca apenas o primeiro passo da longa saga da pomba na simbologia do ocidente e da sua excessivamente esquecida identificação com o amor lascivo e carnal que será, de resto, celebrada por poetas como Salomão, Homero, Petrarca, Bandello, Camões ou Vítor Hugo, apenas para citarmos os mais ilustres. Já Plínio referia que as pombas idem cantus gemitusque, ou seja, que as pombas choram ou gemem em vez de cantar como se tanta paixão satisfeita jamais as deixasse saciadas. Apenas para citar mais um exemplo da dimensão luxuriante desta ave, os Assírios representavam Semiramis sob a forma de pomba, pois por elas fora criada, e porque depois a própria viria a ser convertida em pomba. Esta mulher era, digamo-lo assim, de costumes não irrepreensíveis, de tal forma que depois de ter casado com Escaurobates, o rei da Assíria, não passava um só dia sem cometer o pecado mortal do adultério e o historiador Iuba diz que ela até se apaixonou por um cavalo...
Depois do que acabo de dizer, os meus irmãos concordarão comigo se afirmar que a pomba não é, de facto, a melhor ave para representar a candura e a pureza do Espírito Santo. Como é óbvio, não ignoro o importante papel que foi reservado à pomba no Antigo Testamento. Recordo, por exemplo, a columbina simplicitas recomendada pelos profetas e sobretudo o famoso episódio do Dilúvio em que coube a esta ave anunciar a paz, a bonança e as novas terras emersas. Porém, pergunto-vos: nos séculos que seguiriam ao Génesis, que ave teria por excelência esta conotação positiva? Pois é. Lembremo-nos das kenningar ou do relato das navegações de Vasco da Gama, Cristóvão Colombo ou Fernão de Magalhães. Seria a gaivota, meus irmãos, que viria a assumir a responsabilidade de anunciar ao navegador a proximidade da terra ou então, para o que aqui nos interessa, de prometer a Salvação ao pecador.
Após estas considerações preliminares, gostaria de, finalmente, e sem mais delongas, abordar o episódio biográfico a que fiz alusão no início deste sermão. Esta história, para além de ir lançar (assim o espero) uma luz definitiva sobre as razões profundas que me levaram a fazer esta apologia da gaivota e do martini, esta história, dizia eu, marcou igualmente o momento da minha Revelação ao Altíssimo e do conhecimento dos nobres desígnios que Ele me tinha traçado. Estou a falar, como já perceberam, da minha vocação para o sacerdócio. Tudo se passou na minha terra natal, também ela uma aldeia onde, como esta, se podia desfrutar dos encantos da simplicidade das gentes do campo e da proximidade do mar. Eu tinha oito anos e era uma manhã de domingo. Os meus domingos não eram então ainda dedicados à devoção e à comunhão: os meus pais eram, que Deus lhes perdoe e os tenha em eterno descanso, avessos à religião e o meu pai, esse, levava-me para uma taberna à beira mar onde ele e os seus amigos sucumbiam aos efémeros prazeres e às vicissitudes que fazem do jogo e do álcool uma terrível tentação e que, na época, não eram para mim nada mais do que tediosos ritos do que hoje sei ser o profano. Como é óbvio, o que me levava para lá era o mar, cujos encantos me estavam formalmente proibidos. Estou a referir-me, por exemplo, à imensidão das águas, ao murmúrio das ondas ou ao penetrante odor da maresia. Aproveitava sempre uma qualquer fase mais melindrosa de um naipe desequilibrado para fugir cá para fora e começar a esboçar sobre a areia ainda fria diagonais insuspeitas em direcção à água. Depois, era o tempo de duas disputadas partidas ou de quatro ou cinco copos de vinho e, upa, já tinha os pés no mar. Nesse dia, estava um barco a desfiar-me a imaginação ao levitar-se trémulo um pouco acima da linha do horizonte, quando, de repente, pousou em silêncio no meu ombro uma gaivota. Não era, contudo, uma gaivota qualquer. Toda a plumagem desta ave parecia estar em chamas e dessa combustão emanava uma luz branca e um cheiro que ainda hoje identifico com os assados da minha mãe. Recordo ainda a expressão quase sobre-humana dos seus olhos e o terror que invadiu o mais profundo do meu ser. No momento em que ia gritar, milagre dos milagres, a gaivota virou-se subitamente para mim e disse com uma voz grave e genesíaca que só podia vir dos primórdios da invenção:
– Eu sou aquele que voa.
Logo de seguida, num voo rápido e lancinante, desapareceu no horizonte. Ainda estava eu a tentar recompor-me de todo este prodígio quando, de repente, vejo a boiar sobre as águas o corpo do meu pai. Atónito, olhei para a sua cara e dos seus lábios emergiu um sorriso que foi até hoje o mais perfeito resumo de todas as coisas boas que conheci neste mundo. Foi neste preciso momento, meus irmãos, que uma sensação de calor começou a acariciar-me as pernas submersas. Olhei para baixo e vi, com certeza devido ao pânico incutido por todas as maravilhas de que era a única testemunha, que me tinha mijado. Porém, não tinha mijado urina: na água salgada, alastrava uma nuvem encarnada que saía dos meus calções: era sangue. Desatei a correr para a areia e pude ver com estes olhos que a terra há de comer um dia que, na extremidade do meu sexo, uma chaga sangrava incessantemente. Sentei-me na areia e comecei a chorar. Foi então no meio das lágrimas que o meu espírito se iluminou: apercebi-me finalmente que estava na presença da Santíssima Trindade: do Pai (o meu pai, cujo corpo também já se afastava, levado pela maré), do Filho (este vosso humilde pastor) e do Espírito Santo (materializado naquela assombrosa gaivota). Tinha tido uma Revelação. Deus tinha-me escolhido para Seu mártir.
A minha história, no entanto, não termina aqui. Quando voltei para a taberna, pude constatar que, afinal, o meu pai continuava a jogar às cartas com os seus colegas como se nada tivesse acontecido. Sentei-me ao seu lado, já na firme resolução de não lhe contar nada, quando ele cuspiu para a mesa o líquido que tinha acabado de levar à boca. «Mas o que é esta merda?», disse indignado. Eu não queria acreditar no que os meus olhos viam: nos quatro copos da mesa, o vinho tinha sido, como que por encanto, substituído por uma bebida agridoce que era desconhecida ao meu pai, mas que um companheiro (assíduo frequentador da noite citadina) identificou de imediato com o martini.
Não julgo necessário, meus irmãos, alongar-me muito mais sobre o resto da história, visto que de certo modo vocês já adivinham o seu desfecho. A partir daquele dia, dediquei-me à leitura e ao estudo das Escrituras, e aos doze anos fui para o Seminário, onde árduas semanas de austeridade e privação me prepararam para o Santo Ofício. Em frente à taberna, podia ler-se

e o meu pai, há oito anos, apareceu morto à beira-mar. Dizem as pessoas que o encontraram, que o seu cadáver incorrupto boiava calmamente sobre as águas: tinha os olhos abertos e sorria. Quando, há quase um ano, me foi atribuída esta paróquia de São Martinho, logo percebi, pela familiar ressonância do nome, a tarefa de que Deus me tinha incumbido. Com a minha persistência e a vossa paciência, foi-me possível proceder na igreja às alterações que, nos últimos meses, vos causaram estupefacção. Espero que compreendam agora que NADA FOI FEITO POR ACASO ou por capricho: tratava-se apenas de cumprir a vontade do Nosso Senhor. Os Seus desígnios são, de facto, insondáveis.
Em nome do pai, de mim mesmo e das gaivotas em brasa: Ámen.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:46 PM | Comentários (3)
A melhor música pop...
...para se ouvir charrado é «Butterflies & Hurricanes» dos MUSE. Se vocês se charram e não conhecem a música, façam o favor de confirmar. Se vocês conhecem a música e não se charram, ora aqui está um bom motivo para começarem. Se vocês não se charram, nem conhecem a música, deixem lá, façam de conta, não se passou nada aqui, cof cof, a emissão prossegue dentro de momentos.

Publicado por João Pedro da Costa às 12:12 AM | Comentários (6)
outubro 21, 2004
Um Martini e o Mar
Aos domingos de manhã o meu pai levava-me
à praia para tomar um martini e antes do assado da minha mãe
havia o mar. Haver o mar era então despir-me lentamente
da criança que eu era e esboçar sobre a areia ainda fria
diagonais insuspeitas em direcção à água, enquanto o meu pai
se ia afogando na leitura cinzenta de pesadíssimos jornais.
Neste preciso momento em que a mão me trai
e escreve com urgência, o que se me encosta à memória
é a imagem de uma imensidão quase azul a espumar-se
de brandos rumores salgados e o cheiro a asas. O grito
das gaivotas, meu deus, lembro-me tanto do grito das gaivotas.
É um grito alado, distante de agudeza, e que apenas é plausível ali,
à beira do mar: de outra forma não o ouviríamos:
de outro modo não estaríamos lá.
Eu demorava sempre, no ritmo pendular do meu pai,
meio martini até introduzir os pés na água. Depois,
era fazer os possíveis para que as ondas nunca molhassem
os calções e sintonizar o olhar (hoje, a memória) na mancha
efémera de um barco qualquer que desfiasse a minha imaginação
ao levitar-se trémulo um pouco acima do limite do mar.
Lembro-me que houve uma vez em que eu, embriagado pelo
ressoarcontínuodaságuas, me distraí e me mijei todo.
Recordo o líquido quente a correr pelas pernas
e como tudo aquilo (pelo alívio, pela transgressão,
pelo conforto) me soube estupidamente bem.
Poderia lá ficar durante alguns breves minutos
ou até quase uma hora, mas uma coisa era certa: no instante
em que me sentisse a resvalar para a melancolia, no meu ombro
vinha poisar em silêncio a mão do meu pai.
E aos domingos de manhã, quando o meu pai me levava à praia
para que em mim houvesse o mar e antes do sermão
da mãe, vinha à tona de nós uma palavra
que não me atrevo a escrever, porque na minha família
há uma coisa que se chama «pudor sentimental»
e até porque (vejam só) o meu martini
e este pôr-do-sol estão
sinceramente
a acabar.
Publicado por João Pedro da Costa às 05:07 PM | Comentários (4)
Daniel Johnston

Há anos que ando para ouvir a música deste senhor. A primeira vez que ouvi falar dele foi através duma entrevista de Kurt Cobain, na qual ele o considerava um dos maiores compositores americanos dos últimos 20 anos. Depois, o ano passado, soube que Mark Linkous, a alma criativa dos Sparklehorse, tinha produzido e tocado no seu último álbum (nunca consegui encontrar o disco à venda). Descubro hoje que foi necessário o gajo morrer para publicarem um colectânea e, ao comprar o disco, não deixei de sentir que estava a contrubuir para a merda da necrofilia.
Mas a compra vale bem a pena. O álbum é duplo e o primeiro disco é uma sequência imbatível de versões com os respectivos originais no segundo disco. As canções de Daniel Johnston são a crueza e a simplicidade tornadas canções, um autêntico muro no estômago. Quanto às versões, bastará enumar algumas das ilustres pesrsonagens que participam na homenagem: M. Ward, Mercury Rev, Tom Waits, Beck, Vic Chesnutt, Eels, Teenage Fanclub e Jadfair.
E depois há uma perolazinha: os Flaming Lips juntam-se aos Sparklehorse para fazer uma versão de «Go». Meu Deus, vocês não estão a ver o que é ter as vozes de Mark Linkous e de Wayne Coyne a coabitar num mesmo tema. É tão simplesmente a melhor canção que ouvi este do ano (se houver por aí malta com 3,5 Mb livres na sua conta de e-mail, façam-me um sinal que eu ouvio o respectivo MP3).
RIP, Daniel Johnston. E gratias, amigo.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:16 PM | Comentários (13)
Alerta verde
A Netcabo já cá canta e acabo agora mesmo de dar os últimos retoques à merda do manual de formação. Mas, o importante mesmo, é que estou a um levíssimo movimento do indicador direito para poder, finalmente,
(clic)
ir dormir.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:34 AM | Comentários (2)
outubro 20, 2004
O meu coelho suicida #13 (continuação: alerta vermelho)

Fase IV: agora, mesmo que quisesse, não conseguiria dormir. Dores no cachaço e slow motion vision. A minha gata ganha contornos de colchão Pikolin.
Os gajos da Netcabo? Nada. Nem um telefonema.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:37 PM | Comentários (5)
O meu coelho suicida #13 (alerta laranja)

Fase III: Tou aqui, tou a mandar essa malta da Netcabo para um sítio que cá sei...
NOTA: desenho feito ao som de «Let's Pretend We're Bunny Rabbits» dos THE MAGNETIC FIELDS, que esta noite (sortudos) vão tocar em Lisboa, na Aula Magna. Não sejam tonantes como eu e façam o favor de os ir ver.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:04 AM | Comentários (3)
Fase II (alerta amarelo)
Esta noite choveu que se fartou. A cidade do Porto está um caos, a linha do Metro está fechada, há inundações, a Circunvalação está entupida e na Ponte da Arrábida ninguém passa. 'Tá-se mesmo a ver que os gajos da Netcabo não vão cá pôr os pés tão cedo.
Quando a mim, acabo de entrar na fase II dos efeitos induzidos por uma directa: começou a fase dos tremeliques e das alucinações (acabo de ver a minha gata a executar um número de sapateado em cima do frigorífico).
A ver vamos.
Publicado por João Pedro da Costa às 10:33 AM | Comentários (2)
Fazer uma directa...
...foi a solução encontrada pela minha cabecinha para resolver um problema que resultava do facto de eu:
a) ter de malhar durante a noite num manual de formação que é suposto ser entregue na sexta-feira;
b) ter cá hoje em casa, às 10h00, a malta da TV Cabo para me instalarem o acesso à Internet.
Escusado será dizer que estou a-re-pen-di-di-si-mu. Ainda faltam mais de 3 horas e já ouço a minha gata a falar Islandês: karálhuchmefôdam.
De qualquer forma: bom dia para todos (e um beijinho prá Manela).
Publicado por João Pedro da Costa às 07:01 AM | Comentários (2)
Os meus leitores norte-americanos
Não haja dúvidas que aquilo que dá vida a um blog são os seus leitores e os comentários. Quando me meti nisto, não nego que tinha algumas esperanças de poder vir a estabelecer contacto com gente interessante (confirma-se), mas nunca pensei que As Ruínas Circulares pudessem ser visitadas por gente que não fosse portuguesa. Pois é. A blogosfera é mesmo assim: uma caixinha de surpresas.
Tudo começou há cerca de duas semanas, quando reparei que o n.º de comentários do blog tinha disparado. Fui ao Movable Type, cliquei em «comentários» e o que vi e li de seguida fez com que tudo à minha volta parasse sob um choro de violinos. Passo a explicar. As Ruínas Circulares são lidas por um grupo de trabalhadores norte-americanos que trabalham num casino virtual alojado na Internet. Os gajos são gente boa (uns porreiraços) e, apesar de, pelos vistos, conseguirem ler em Português, não se devem lá sentir muito à vontade com os seus conhecimentos ortográficos e preferem deixar pequenos comentários em Inglês (o que até dá um «touch» internacional ao blog que pessoalmente muito aprecio e, a propósito, para quando o primeiro comentário em Islandês?).
Os comentários. Os comentários que essa malta escreve são das cenas mais simpáticas e generosas que já alguma vez li na minha vida. Eles são palavras amigas, frases de apoio e incentivo, interjecções de regozijo, estímulos animadores, enfim, pequenas pérolas que, apesar de virem do outro lado do Atlântico, conseguem sempre fazer vibrar a minha corda sensível. Alguns exemplos:
«Thank you, I just wanted to give a greeting and tell you I like your blog very much» (um gentleman)
«Hi, just popped in here through a random link. Cool site, keep this good work up, mate! :-)» (comentário animador de um gajo ocupadíssimo que se deixa guiar pelo acaso e que, apesar de ter mais que fazer, não conseguiu resistir ao elogio)
«Congrats mate! Fine job and fine site!» (o entusiasmo fraterno feito pessoa)
«Excellent, that was really well explained and helpful.» (o analítico conciso e pragmático)
«WOW!!!! This is a great website.» (o internauta apanhado de surpresa)
«My friend told me about your web site and I really enjoyed it. Very nicely done. Very interesting!» (o amigo do seu amigo)
«Hello! Super work performed. Top PAGE, further so!» (a juventude consciente, de gostos elaborados, que sabe quando e como utilizar as maiúsculas)
«Very informed and interesting comments! Greetings.» (o paradigma da simpatia)
«I've been searching for a blog like this for quite a long time. You website is very good! I will come next time!» (o freguês entusiasta e fiel)
«I have always looked for a possibility to find information as quick as I can. Now there is the internet. And I really appreciate people like you who take their chance in such an excellent way to give an impression on certain topics. Thanks for having me here.» (o contador de histórias, grato e servil)
Caramba, ponham-se no meu lugar: isto não é de fazer derreter o coração a qualquer um? Apesar de eles trabalharem num sítio que, de facto, deve ter a sua piada

a verdade é que o patrão não deve ser flor que se cheire. Passo a explicar porquê. Os 42 (n.º obtido através da contabilização dos IPs) trabalhadores deste casino virtual vêm cá TODOS OS DIAS publicarem os seus simpáticos comentários e (passo agora à parte importante) o intervalo entre o 1.º e o último comentário publicado nunca ultrapassa os 15 minutos, que devem corresponder, é bom de ver, ao horário de almoço daquela malta. Isto é: o patrão não deve permitir que os seus funcionários naveguem na boa na Internet durante o horário de trabalho e aquele pessoal deve aproveitar a pausa do almoço não para se alimentarem ou para telefonar às suas mulheres e filhas, mas para lerem e comentar este meu humilde blog (a sério, isto até me dá vontade de chorar). Eu imagino o diálogo:
PATRÃO - Hey guys, why don't you leave anymore the fucking office during your lunchtime break? You know I won't be paying these extra-hours...
FUNCIONÁRIO - Sorry, Boss, but we stay here in order to read Juam Peytro's amazing website. We don't wanna be paid for doing it. Actually, it's us who should be paying him instead.
OS OUTROS 41 FUNCIONÁRIOS (em uníssono): Yeah, that's right, we should be paying him.
PATRÃO - Fucking assholes.
FUNCIONÁRIO (em surdina) - Suits yourself.
Alguns leitores nacionais (que também os há) d'As Ruínas Circulares já repararam na omnipresença desses comentários laudatórios e até a simpática Emiéle, do Afixe, teve a gentileza de me fornecer alguns dados suplementares sobre estes meus novos leitores (que, pelos vistos, também lêem o blog dela), afirmando que eles não passam de membros do SPAM (acrónimo do que presumo ser o Sindicato dos Profissionais das Apostas Monetárias). Querida amiga, permite-me aqui descordar: não é por eles serem sindicalizados, que eu vou deixar de os estimar.
Boys: keep swinging, que me fazem bem ao ego.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:15 AM | Comentários (12)
outubro 19, 2004
Post censurado
Avisam-se os leitores deste blog que um post aqui publicado neste mesmo local às 18h44 foi substituído às 22h56 pelo presente post, num acto que deverá ser visto como um saudável exercício de auto-censura.
Pedimos sinceramente descupla a todos aqueles que tiveram o infortúnio de ter lido o famigerado post nesse considerável intervalo de 4 horas e 12 minutos e adiantamos desde já que, numa reunião que tivemos com o provedor do weblog.com.pt, foi decidido compensar pecuniarmente todos os lesados, desde que os mesmos sejam capazes de comprovar a pretérita leitura do post censurado, devendo para isso reproduzir o respectivo conteúdo na caixa de comentários.
Como é óbvio, pedimos aos queixosos o favor de não lerem, caso existem, os eventuais comentários que entretanto venham a ser publicados, a fim de não cairem na tentação de reproduzir o conteúdo dos mesmos, o que, convenhamos, não seria lá muito correcto. E levaria este blog à falência.
Estamos seguros que tudo isto irá correr muito bem e que esta nossa decisão será vista no futuro como um passo decidido para a dignificação da blogosfera. Obrigado.
Publicado por João Pedro da Costa às 10:56 PM | Comentários (4)
Post outonal
É inevitável: o cheiro do Outono faz-me sempre recordar o odor dos amores proibidos.
Para que me entendam, preciso de vos dizer que o Paulo foi a primeira pessoa que aprendi a admirar na minha vida. Conheci-o no 8.º ano e ele destacava-se do resto da turma por diversas razões. Em primeiro lugar, o Paulo era negro, negríssimo, possuía uma tez de pele inacreditável, baça e escura como o carvão. Depois, o Paulo era mais velho do que o resto da turma uns bons três anos (nós tínhamos 13 e ele 17) e tinha pêlos no peito, facto que provocava em nós uivos de inveja que atingiram o zénite quando nos apercebemos do fascínio que ele despertava nas raparigas. O Paulo foi também a primeira pessoa que conheci que sabia falar com o sexo oposto. Ele não era como nós, que apenas sabíamos desdenhar e mandar «bocas»: o Paulo sabia-a toda. Tratava muito bem as meninas, cumprimentava-as com um beijo (sim, só um) na cara, cedia-lhes o lugar nos bancos dos recreios, interessava-se por assuntos da esfera feminina, sabia como elogiar as roupas, o prenúncio das maquilhagens, o halo de um perfume. Que raios, o Paulo foi o único homem que conheci até hoje capaz de pôr as meninas a falar de assuntos tão íntimos como o período ou a lingerie, sem que elas se sentissem intimidadas ou gozadas. É bom de ver que o Paulo foi igualmente o primeiro amigo que tive que não era (de facto) virgem e que se predispôs a falar das suas experiências sexuais sem a irritante ansiedade que costuma invadir o orador nos momentos pios. O Paulo iniciou-nos a todos na suprema arte da masturbação: numa primeira fase com o auxílio de revistas porno e depois (mérito dele) recorrendo apenas à imaginação. Houve uma vez em que o Paulo se dignou a partilhar connosco, meros e febris mortais, o seu número supremo. Parece que ainda foi ontem: estávamos sob um eucalipto da pedreira, junto à lagoa, e estava a chover. Ele baixou as calças e, de pé, as mãos atrás das costas, os olhos cerrados e sem se mexer, teve em menos de um minuto um orgasmo silencioso, assim uma coisa estupidamente carnal e animalesca, mas que (não me perguntem porquê) todos nós achamos linda de se ver.
Mas o Paulo foi, sobretudo, a primeira pessoa apaixonada que conhecemos. No início, não percebíamos muito bem o que aquilo era, a não ser talvez o sintoma de uma doença que não queríamos apanhar de forma alguma. O Paulo tinha vindo para Portugal um mês antes do começo das aulas, deixando em Angola a sua namorada, Maria do Céu de seu nome e prima direita de família. Foi o Paulo que descobriu a lagoa na pedreira que ficava a pouco mais de um quilómetro da escola e que nos convenceu a irmos lá tomar banho pela primeira vez. Foi ele o primeiro a mergulhar para a água de cabeça, quando ainda nos sentíamos intimidados pelas cobras que serpenteavam as águas em silêncio. Depois do banho, ele fazia sempre questão de nos brindar com alguns temas da sua autoria. Não é que as músicas fossem pérolas de composição, mas eram originalíssimas: eram acompanhadas por uma pequena harmónica que ele trazia sempre no bolso e glosavam o único tema que lhe dilacerava o coração: a Maria do Céu. Tudo isto durou apenas quatro meses, mas esses quatro meses foram mais do que suficientes para que todos nós nos apaixonássemos também por ela. Maria do Céu, a mulata dos cabelos negros. Maria do Céu, a vidente que lia a sina na palma das mãos. Maria do Céu, a deusa do sexo oral e da saliva quente. Maria do Céu: a vida de um homem só faz sentido se nela houver a fortuna de te conhecer.
Depois, a seguir às férias de Natal, o Paulo começou a faltar às aulas. Na segunda semana de Janeiro, a nossa professora de Português disse-nos que tinha recebido uma carta dos pais, vejam lá isto, uma coisa absurda, que os três tinha voltado para Angola, coisa de heranças e não sei que mais. A notícia apanhou-nos desprevenidos. O plano, dizia-nos ele, consistia sempre em trazê-la para cá e jamais numa viagem de regresso, até porque, lá, teriam de lidar com a chatice dos laços familiares que os unia. A coisa estava tão bem estudada que ele até nos mostrou uma vez a vivenda abandonada que ele um dia compraria para os dois e na qual haveria de crescer meia-dúzia de pretinhos foras como ele. Para consolo nosso, não deixamos de invocar a sua felicidade ao recriarmos na nossa cabeça o momento do reencontro, mas, caramba, a gente gostava tanto dele.
Há cerca de dois ou três anos, a Câmara demoliu a vivenda e construíu lá uma estrada. Cheguei a pensar em deixar lá algum recado, não fosse uma numerosa família angolana passar por lá e ser apanhada de surpresa. Sabes, Paulo, a casa onde moro não é lá muito grande, mas um gajo arranja sempre espaço para um pouco de alegria.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:10 AM | Comentários (6)
outubro 18, 2004
Das virtudes do e-mail

Hoje, recebi belíssimas coisas pelo e-mail, cortesia de alguns dos leitores deste blog. Não resisto a partilhar esta convosco (obrigado, Rui, ri-me que nem um perdido...)
Publicado por João Pedro da Costa às 06:41 PM
Libraries gave us power, then came work and set us free

São versos como este, que me fazem salivar por LIFEBLOOD, o novo álbum dos Manic Street Preachers. Haverá por aí alguém que já tenha ouvido o novo single «The Love of Richard Nixon»?
Publicado por João Pedro da Costa às 02:55 PM | Comentários (8)
Listening Sessions #7, #8, #9

Isto não deixa de ser uma pequena provocação. OK COMPUTER foi, para a minha geração, aquilo que o primeiro álbum dos Doors terá sido para a geração de 60, o álbum dos Sex Pistols para a de 70 e o terceiro dos Smiths para a de 80: a banda sonora perfeita das nossas vidas, um disco cuja simples audição não nos resgatava do «mal de vivre» (de resto, quem é haveria de querer um disco assim?), mas tornava-nos mais «cool», conscientes e orgulhosos dos tempos em que vivíamos, capazes de produzir uma banda como os Radiohead. Ao colocar GOOD MORNING SPIDER (1998) dos Sparklehorse e THE SOPHTWARE SLUMP (2000) dos Grandaddy no mesmo patamar estarei, portanto, a cometer uma pequena heresia. Mas a verdade é que esses três discos surgem sempre juntos no meu imaginário musical: é-me mesmo impossível ouvir um deles sem sentir a urgência de ouvir os outros de seguida. Idiossincrasias.
Pontos em comum? Vários. Em primeiro lugar são três álbuns de guitarra, esse instrumento cuja morte já foi decretada uma boa dezena de vezes nos últimos (vá lá) vinte anos. Depois, são três discos superiormente produzidos, nos quais é possível detectar uma textura musical que lhes é comum, mormente na forma como os elementos electrónicos se insinuam nas canções em segundo plano. Há também as vozes e as letras: Thom Yorke, Mark Linkous e Jason Lytle partilham, embora com registos tímbricos distintos, a mesma melancolia que, por ser planante, não chega a ser triste: chamar-lhe-ia euforia disfórica ou outra palermice qualquer que possa apontar para um estado de espírito que não estará assim tão distante do patológico. Finalmente, há as canções: se OK COMPUTER tem hinos como «Paranoid Android», «Let Down» ou «No Surprises», os Sparklehorse têm «Pig», «Painbirds» e «Ghost Of His Smile» e os Grandaddy «He's Simple, He's Dumb, He's The Pilot», «Crystal Lake» e «Miner At The Dial-A-View». Experimentem, por exemplo, gravar uma cassete com estes temas e depois venham me dizer se a coabitação não faz todo o sentido.
Como é óbvio, também há diferenças. Os Sparklehorse e os Grandaddy são bandas americanas e não é impunemente que se forma um banda do outro lado do Atlântico. O universo criativo de Mark Linkous, por exemplo, é obsessivamente rural e panteísta, e a música remete-nos muitas vezes para os delírios eléctricos de Neil Young. Os Grandaddy, por sua vez, são ecologistas e as letras de Jason Lytle fazem dele uma espécie de Marcovaldo, a famosa personagem de Italo Calvino, tal é a sua obsessão em descobrir manifestações rurais em contextos urbanos.
Porém, a verdadeira diferença entre os Radiohead e estas duas bandas reside no facto dos primeiros venderem milhões de discos, enquanto haverá muita boa gente que nunca sequer ouviu falar dos últimos. E isso, meus amigos, é uma pena.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:41 PM | Comentários (1)
O Verde da Pupila
Era no fundo do quintal que afinávamos
as cores para evitar confusões. Embora
eu fosse azul e o meu pai amarelo,
a verdade é que a luz nos ourava até
ao imo da pupila e não era assim fácil
esquecer que habitávamos um mesmo nome.
Como os melros, recuperávamos o silêncio
sob os castanheiros, porque era apenas
lá, naquela sombra delicada, que as coisas
fermentavam de opacidade. Sobra-me
ainda hoje um pouco desta claridade na
memória e, embora a minha mãe me jure o
contrário, acredito que se um dia me conseguir
subtrair à relva, quem sabe, o meu pai.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:10 AM | Comentários (5)
outubro 17, 2004
O meu coelho suicida #12 (para desopilar)

Com um orçamento de estado (OE 2004) que, para além de contemplar uma redução de 2,2% para a Educação, se sustenta em previsões de crescimento económico de 2,4% e do preço do crude a 37,8 dólares por barril, desconfio que o Bagão e o Pedro vieram aqui ao blog sacar um dos meus coelhos suicidas...
Publicado por João Pedro da Costa às 03:00 PM | Comentários (4)
Post à flor da pele
Ontem, pela primeira vez nos quarenta dias de existência deste blog, não publiquei qualquer post, facto facilmente verificável pelo calendariozito:

É óbvio que haverá mais dias em que As Ruínas Circulares ficarão em «branco» (uso as aspas porque há sempre alguém que tem a gentileza de deixar aqui um comentário), e, talvez por isso mesmo, já tinha há alguns dias na cabeça a ideia de me antecipar prepositadamente ao inevitável, desde que essa antecipação significasse algo que tornasse essa primeira vez num acontecimento especial.
Ontem, se o meu pai (um filho da puta de um bacano) estivesse vivo, ter-se-ia celebrado o seu octagésimo quinto aniversário. Desta forma, que se conste que, sempre que alguém pousar o olhar naquela data do calendário, essa mesma pessoa poderá encontrar dentro de mim um vazio que, de alguma forma, rima com a ausência de hyperlink.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:12 AM | Comentários (8)
O meu coelho suicida #11

Publicado por João Pedro da Costa às 12:00 AM | Comentários (3)
outubro 15, 2004
Olha eu que andava tão contente com o Público e com o Y e vão-me estes gajos fazer uma cagada destas

Não notam nada de estranho? Pois é. E não me venham dizer que foi um lapso, porque a imagem foi trabalhada digitalmente: reparem que «limparam» o preço das etiquetas. Para além de ser eticamente reprovável, esta publicidade encapotada é, antes de mais, uma violação da lei. Façam o favor de irem reler o vosso LIVRO DE ESTILO.
Nota: o meu obrigado ao funcionário da FNAC, meu amigo, que digitalizou e depois enviou para o meu e-mail a página do Público, sem a qual não conseguiria ilustrar este meu post (não digo o teu nome, porque sei que o patrão é chato e nessas merdas mais vale jogar pelo seguro). Tudo isto não deixa de ser duplamente delicioso: ele vinga-se um pouco da opressão da entidade empregadora e eu do indecente preço por minuto que esses chulos cobram para um cliente aceder à Internet (confesso que me afeiçoei um pouco a este monitor TFT: ele ficava mesmo bem no meu quarto...).
Publicado por João Pedro da Costa às 07:48 PM | Comentários (6)
Continuação do post anterior para que possa fazer jus à minha já lendária preocupação em manter absolutamente inteligível tudo o que escrevo aqui
st.
Publicado por João Pedro da Costa às 07:01 PM | Comentários (2)
Post a contra-relógio

Ai ai que só tenho apenas um minuto (chulos chulos chulos) no cartão da Internet para escrever este po
Publicado por João Pedro da Costa às 05:13 PM | Comentários (2)
Post inflacionado
1) Acabo de comprar um teclado LOGITECH sem fios + um rato óptico (o meu também estava a dar as últimas). Olhem para eles, que formosos que eles são:
2) Acabo igualmente de ler o suplemento Y do Público e lá vem uma magnífica recensão crítica de João Bonifácio ao último disco dos American Music Club (lembram-se de eu ter dito aqui há duas semanas que LOVE SONGS FOR PATRIOTS era, para mim, o disco do ano?);
3) O meu poeta favorito, António Franco Alexandre, tem um novo livro: ARACNE (Assírio & Alvim, 2004). Se pudesse, comprava toda a edição e oferecia um exemplar a todas as pessoas que conheço. Como não é possível, antecipo esses breves versos:
«De poucas horas feita a longa vida,
são estas as melhores e as mais justas;
está o filme a acabar, fica comigo até ao fim;
não sabes que te perdes, quando te perdes de mim?»
e não digam que vão daqui.
NOTA FINAL: estou a escrever no FNAC café da Rua Santa Catarina, no Porto. O preço por minuto para aceder à Internet é de €0,05 (chulos da merda), isto é, este post, para quem estiver interessado na sua compra, tem uma base de licitação de €1,25. O leilão termina amanhã às 23h55 (o teclado e o rato are not part of the deal).
Publicado por João Pedro da Costa às 03:24 PM | Comentários (6)

Publicado por João Pedro da Costa às 02:12 AM | Comentários (8)
outubro 14, 2004
Colecção Directors Work

Ora aqui estão três DVDs imperdíveis para quem se interessa pelo universo pop. A colecção DIRECTORS WORK é uma série de documentários sobre o trabalho dos mais importantes realizadores de vídeos musicais dos últimos anos e, para já, a escolha dos três primeiros autores não poderia ser mais acertada (faço figas para que o quarto volume seja dedicado ao Roman Coppola). A produção dos DVDs (que contou com a colaboração dos três realizadores) é um mimo de profissionalismo e de bom gosto. Não estamos aqui perante uma mera compilação de videoclips: há menus imaginativos e personalizados, entrevistas, curtas metragens, works in progress, sketches e, como bónus, cada DVD traz um preciosíssimo livro com desenhos, fotos e depoimentos dos realizadores. Como já disse, um mimo.
Começo pelo maior realizador de videoclips do mundo: Michel Gondry (realizador desse filme de culto que é HUMAN NATURE e do belíssimo ETERNAL SUNSHINE OF THE SPOTLESS MIND, ambos com argumentos do brilhante Charlie Kaufman). Basta citar alguns dos videos que ele realizou para ficarem inteirados: «Human Behavior», «Army of Me», «Isobel», «Hyperballad», «Bachelorette» e «Joga» da Björk; «Protection» dos Massive Attack; «Around the World» dos Daft Punk; «Everlong» dos Foo Fighters; «Let Forever Be» e «Star Guitar» (o meu favorito) dos Chemical Brothers; ou ainda o recente «The Hardest Button to Button» dos WHITE STRIPES. Para quem conhece esses vídeos, os denominadores comuns são bastante óbvios: efeitos especias, colagens, «trompe l'oeil»s de recorte profundamente cinematográfico (aqui, talvez o exemplo mais flagrante seja «Le Mia» dos I Am) e uma flagrante predominância do universo onírico e infantil. Michel Gondry já ganhou tudo o que havia para ganhar a nível de prémios publicitários, consta do GUINNESS BOOK OF RECORDS graças à sua publicidade da Levi's intitulado «Drugstore» (aquele anúncio a preto e branco do rapaz que compra, sem o saber, um preservativo ao pai da namorada) e, pessoalmente, ele é ainda o autor do mais deslumbrante spot publicitário que vi na minha vida: o «Smarienburg» da Smirnoff (aquele anúncio burtoniano, misto 007 e Indiana Jones, em que o vidro da garrafa fez o raccord entre as cenas de acção). É o melhor DVD da série e a mais completa: há um longo e divertidíssimo documentário com o realizador e os próprios menús são originalíssimos. Se puderem comprar apenas um, este é o «must».
Quanto a Spike Jonze, ele dispensa apresentações. A uni-lo a Michel Gondry está Charlie Kaufman (que também escreveu os argumentos dos seus dois filmes BEING JOHN MALKOVICH e ADAPTATION) e um sentido de humor que é absolutamente irresistível: bastará mencionar o vídeo de «Sabotage» dos Beastie Boys e o belíssimo «Weapon of Choice» de Fatboy Slim (no qual Christopher Walken escapa à lei da gravidade) para me fazer entender. Apesar de haver raridades bastante interessantes como curtas-metragens, entrevistas e um magnífico documentário sobre aquele que será porventura o seu mais emblemático trabalho (o clip de «Praise You» de Fatboy Slim), a verdade é que o DVD perde aos pontos se comparado com o de Michel Gondry. Vale sobretudo pelo «conteúdo», mas peca um pouco pela falta de imaginação do «embrulho».
Finalmente, o DVD de Michael Cunningham é o menos exaustivo (contrariamente aos anteriores, apenas tem um DVD), o que poderá ser explicado pelo facto desse realizador ter um currículo mais recente no universo da pop. Há uma brutal mudança de tom neste DVD, e confesso que, dos três, foi que me surpreendeu mais. Michael Cunningham é o realizador desse objecto negro que é o clip de «Come to Daddy» de Aphex Twin, um dos mais extremos e violentos exercícios imagéticos na música pop (a música de Richard James também dá uma grande ajuda), e de outros belíssimos trabalhos como «Only You» dos Portishead, «Frozen» da Madonna, «Come On My Selector» de Squarepusher e, last but not least, o antológico «All Is Full Of Love» da Björk. É o realizador mais «arty» da série, como um universo muito próprio e que (não faço a mínima ideia se isto é um defeito ou uma virtude) não parece se adaptar muito à música que ele procura ilustrar: é o seu trabalho que fornece uma leitura dos temas, arrastando-os para zonas sombrias (algumas vezes de puro terror) que constituem pessoalíssimos exercícios de hermenêutica. Para reforçar essa ideia, os extras contêm a instalação «Monkey Drummer» (ver para crer) e um estranhíssimo «Flex» que é uma espécie de abordagem finissecular ao universo literário de Georges Bataille. A mim, deixou-me de boca aberta.
Um nota final. Há cerca de dois anos, assisti na Feira do Livro do Porto a uma palestra (?) de Carlos Reis sobre aquilo que ele na altura definiu como sendo «a cultura do video-clip» (sic) e que pretendia designar a falta de esforço, concentracção e hábito de leitura que (segundo ele) caracterizava as novas gerações. Pois. É sempre triste quando se ouve alguém falar de uma coisa que, simplesmente, não conhece.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:46 PM | Comentários (4)
Se alguém tinha dúvidas sobre o discernimento de Quentin Tarentino...
...o filme que recebeu o Prémio de Melhor Realizador na última edição do Festival de Cannes vai calar os mais incrédulos. EXILS de Tony Gatlif (que estreará em breve em Portugal pela mão da LNK) é um filme absolutamente devastador e, para dizer a verdade, não é fácil para mim encontrar palavras para o descrever. Vamos por partes. É um road movie. Há um casal em viagem. França, Espanha, Marrocos e Argélia. Há música, muita música, ouvida e filmada. Há uma obsessão da câmara pela pele das personagens. Há magníficos planos: um campo de pessegueiros, um praça cheia de garrafas vazias, o Estreito de Gibraltar, as ruínas de uma cidade após um terramoto. E, no fim, uma cena de exorcismo musical com mais de vinte minutos filmada em sequência por uma handycam. Dito assim, assusta um pouco, mas vão por mim: é o melhor filme que vi este ano (desculpa lá, Michel Gondry).
Tudo isto cortesia da 5ª festa do Cinema Francês, este ano com um excelente programa que se estende a cinco cidades do país. Destaque óbvio para os novos filmes de Wong Kar Wai e de Laurence Ferreira Barbosa.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:31 AM | Comentários (15)
outubro 13, 2004
O canil das celebridades (versão pós-25 de Abril)
A liberdade de expressão a caminhar calmamente pelos prados da democracia:

Celebridades várias de olhar perplexo:

(Confesso estar particularmente orgulhoso do boneco do João Jardim...)
Publicado por João Pedro da Costa às 02:31 PM | Comentários (8)
Aviso de recepção

Os Correios de Portugal faculturam ao blog As Ruínas Circulares este pequeno post que deverá ser usado pelas seis pessoas a quem enviei os CDs com uma selecção de músicas do Devendra Banhart. Esperam-se recensões, perplexidades, críticas e comentários de silva vária. O meu obrigado.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:41 PM | Comentários (11)
outubro 12, 2004
Estão bem e recomenda-se

O que não deixa de ser uma (pequena) surpresa.
Publicado por João Pedro da Costa às 05:28 PM | Comentários (8)
O meu coelho suicida #10

(Eu, pelo menos, andei lá perto...)
Publicado por João Pedro da Costa às 01:36 PM | Comentários (9)
Poética II

Acabo de encontrar isto no meu disco rígido, na pasta onde guardo todas as minhas fotografias. Não reconheço o lugar, nem a autoria.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:59 AM | Comentários (3)
Poética
Quando viajas de comboio num findar de tarde,
há um momento em que, sentada à beira
da janela, deixas de ver a paisagem como se pode vê-la
através desta chuva oblíqua e passas a olhar para o reflexo
da cara no vidro, projectado pela luz incandescente
do interior. O vidro que, até à altura, fora transparente
(chegas, inclusive, a duvidar da sua presença)
transforma-se num espelho meticuloso em reflectir
as cores ou os movimentos que ardem no espaço interior.
Meu amor, a ilusão das visões é a mesma.
Pensas ver tão bem a paisagem lá fora como,
de seguida, identificas sobre o vidro o teu corpo, os outros
passageiros, ou qualquer outro pormenor proveniente
do interior da carruagem. A única diferença é que, quando a luz
do dia ainda não se pôs, o desfile de árvores e casas que atravessam
o campo de visão confere-nos a certeza que estás, de facto,
em movimento, enquanto que, após essa luz ter desaparecido,
a sensação é apenas transferida para o ruído
das rodas do comboio sobre os carris (muitas vezes,
somente te apercebes desse ruído no preciso momento
em que perdes qualquer contacto visual com o exterior). Um estado
de sonolência dá então lugar em ti a um sobre
salto que revigora a atenção.
Dir-me-ás que os dois estados do vidro,
nos quais emergem propriedades distintas (lê
opostas), são contíguos e ininterruptos. Tão depressa
deduzes o mar ou uma planície como de seguida
deparas com uma aparente simetria entre a textura
reflectida sobre a janela e o que intuis existir no interior.
Falar-me-ás igualmente de uma hipotética graduação
ou intermitência entre os dois estados consoante a acção
de variáveis como, e passo a citar-te, «a qualidade da luz solar,
a porosidade da iluminação eléctrica, ou a humidade
existente no interior do comboio». Poderá assim haver,
perguntas-me tu, um conjunto de condições que proporcione
a sobreposição, em planos diferentes, dos dois universos
sobre a superfície lisa do vidro? Sim. Contudo, tal osmose
é indesejável, na medida em que ela apenas perturba os efeitos
de um processo que pretendo – digo, que
pretendes – brusco e inequívoco. Chamaremos
desta forma, à conjuntura relatada,
uma imperfeição.
Reunidas assim as condições ideais para a
observaçãocontínuadofenómeno,
poderás reconhecer uma terceira propriedade
do vidro. Ela apenas se aflora numa ínfima fracção
de tempo e surge precisa no momento em que o vidro
deixa de ser janela, na verdadeira asserção da palavra,
para ser espelho. Assim, entre o estado de transparência e o
de reflexão, existirá um terceiro que serve de fronteira
aos dois precedentes, e ao qual daremos
a designação de opacidade, pois é apenas nele
que a apropriada focalização da luz te permite verificar
a verdadeira natureza constitutiva do vidro, que é
(como toda a gente sabe e ninguém o nega)
a areia. Olhamos para o vidro e vemos o vidro, mas não só.
Contrariamente ao que seria de esperar, este estado
é mais rico em imagens do que os outros, visto que a sua
materialidade sugere em nós a infinita reconstrução de paisagens
não sujeitas à efémera passagem de um comboio
e de interiores que não sejam os de uma carruagem.
A nitidez da visão é tão intensa que, com o meu esforço
competente, poderás esticar o braço e concluires que
o vidro da janela, afinal, já não lá está:
é algures por aí, meu amor,
que se encontra
o poema.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:57 AM | Comentários (6)
outubro 11, 2004
Eu hoje ando muito informativo

Na dois, às 22h00, estreia a quinta série dos Sopranos. Com Steve Buscemi e tudo.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:36 PM | Comentários (5)
Embora ainda não tenha desistido...

...tenho de admitir que me está a custar imenso gostar deste disco. O que é uma absoluta novidade na minha (já longa) relação com os REM.
Mau mau Maria...
Publicado por João Pedro da Costa às 03:16 PM | Comentários (8)
Olho Vivo
A maioria das pessoas que conheço lêem, como eu, o jornal PÚBLICO. As razões são óbvias e nem sequer vou aqui perder tempo a enumerá-las. Uma delas, contudo, é por demais evidente: a qualidade / diversidade dos seus colunistas. Desta forma, é natural que cada leitor do jornal tenha o seu dia «favorito», correspondente ao dia em que o colunista X ou Y escreve a sua crónica no jornal. Vejam-se os casos do Pacheco Pereira ou do Sousa Tavares.
A edição semanal do PÚBLICO que procuro nunca perder é a da segunda-feira, devido ao OLHO VIVO do Eduardo Cintra Torres. Não é tanto devido às suas opiniões (com as quais concordo quase sempre, vai o diabo explicar isto), mas sobretudo devido à qualidade da escrita em si (na minha opinião, na imprensa portuguesa e nesse aspecto em particular, só o Eduardo Prado Coelho e o Jorge Mourinho é que estão ao seu nível) e da acutilância das suas análises. Para não variar, a crónica de hoje é absolutamente imperdível. Digam-me lá se o gajo é ou não viciante.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:36 PM | Comentários (6)
post farmacêutico

Das caves alemãs Bene Arzneimittel, sediadas em Munique, chegou-nos a colheita 2004 do BEN-U-RON, cuja distribuição e embalagem em Portugal é da responsabilidade da Neo Farmacêutica. Experimentamos a solução oral de 500 mg, numa embalagem de 20 comprimidos.
A embalagem respeita todas as imposições do Infarmed (designação do medicamento e do agente activo, dosagem, lote e validade, código de barras, entidade responsável pela autorização de introdução no mercado português e ainda uma pequena notícia médica legível na parte exterior), o que é uma chatice. Quanto ao design gráfico, temos de afirmar que ele deixa um pouco a desejar, na medida em que insiste em duas gradações de azul que combinam mal, os caracteres utilizados e o grafismo são pouco imaginativos (senão pirosos) e as dimensões da embalagem são manifestamente exageradas (muito próximas de um pacote de GITANES). Particularmente infeliz é a forma como o folheto informativo vem dobrado: em oito bocados (4x2), o que consideramos um manifesto exagero, cujas repercussões inestéticas são imediatamente visíveis nos vincos deixados no papel. Tirando isso, o folheto é bastante exaustivo, possui um corpo legível e a disposição gráfica é eficaz. Os 20 comprimidos estão distribuídos em dois blisters da seguinte forma:

o que, para além de nos parecer relativamente inovador, poderá de certa forma justificar as dimensões exageradas da embalagem. Nota negativa para o tamanho dos comprimidos: o diâmetro de 13 mm (juro) é definitivamente exagerado e recomenda-se a divisão em dois bocados antes da ingestão.
Quanto às propriedades terapêuticas do produto, lamentamos informar que nenhum dos promissores efeitos secundários previstos no folheto informativo (cito: «tonturas, rashes, insuficiência hepática e renal») se verificaram após dois dias intensos de utilização (4000 mg por dia, valor considerado máximo pelo Infarmed). É verdade que o cansaço e a indisposição do paciente foram desaparecendo gradualmente ao longo da terapia (enfim, detalhes), mas estamos convictos que os (apesar de tudo agradáveis e reveladores) delírios alucinatórios verificados 30 minutos após a ingestão dos dois primeiros comprimidos se ficaram mais a dever à febre (que teve um pico de 39,3ºC) do que às propriedades do medicamento. Na tarde do segundo dia de tratamento, ainda tentámos ingerir bebidas alcoólicas com o BEN-U-RON, mas a mistura revelou-se desoladoramente inofensiva.
Nota final sobre o preço do produto: €1,51. Razoabilíssimo. Pena pena é a moca ser pequena.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:29 AM | Comentários (12)
outubro 10, 2004
post ditado dois em numeração romana
já não me lembrava de como é bom estar doentinho ponto final sim vírgula abrir aspas doentinho fechar aspas vírgula porque estar doente é uma coisa séria e diferente ponto final estar doentinho é um estado de difícil definição vírgula cuja sintomatologia varia consoante o sujeito da maleita ponto final eu vírgula por exemplo vírgula não consigo ficar doentinho com uma dor de dentes abrir parênteses salvo seja fechar parênteses ou com uma dor de cabeça dois pontos são áreas super-sensíveis do meu corpo e basta o mais pequeno sintoma para que eu entre em pânico e vírgula consequentemente vírgula ir à procura de assistência qualificada ponto final uma gripe é diferente ponto final pelo menos para mim ponto final defino-a como um mal estar generalizado do corpo vírgula suficientemente grave para não ser ignorado vírgula mas paradoxalmente ligeiro para pensarmos que a coisa se resolve com cama e vírgula eventualmente vírgula com um ou dois ben-u-rons ponto final a propósito tá na hora de tomar o meu chegas-me um copo de água obrigado foda-se que gelada não não deixa tar não tem mal já te tinha dito para fazer parágrafo óptimo deixa uma linha em branco perfeito hoje vírgula portanto vírgula estive doentinho ponto final li o público abrir parênteses edição que tenciono guardar devido aos fantásticos desenhos que o ilustram em exclusivo fechar parênteses vírgula li o expresso vírgula que está a ficar cada vez mais chatinho vírgula e dei um avanço dos diabos à releitura de from hand to mouth éfe ére ó éme espaço agá à éne dê espaço té ó espaço éme ó u té agá põe-me isso em maiúsculas por favor queres que repita não óptimo de paul auster pé á ah sabes escrever óptimo não sabia que conhecias ora portanto dei um avanço dos diabos à releitura de from hand to mouth de paul auster e ouvi alguns discos vírgula sobretudo mum éme u com acento grave e éme tens aí a capa do disco vírgula goldfrapp com dois pés vírgula ére escreve-se como ére de air france e o belíssimo disco a solo de john parish travessão coisas doces e leves vírgula que é o que se recomenda para uma boa recuperação ponto final e vírgula claro vírgula dormi que foi um fartote ponto final e fui mimado dois pontos fizeram-me o jantar vírgula que estava óptimo vírgula deram-me uma ajuda valiosa na escrita de dois posts abrir parênteses obrigado pois é eu sou assim gosto de agradecer fechar parênteses vírgula tiraram-me a temperatura e pousaram por diversas vezes a mão sobre a testa ponto final os meus dois gat