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outubro 28, 2004
Da catarse e outras aplicações da nicotina
Venho cá para fora. Um maço de tabaco na mão. Por encetar. A noite fria. De Inverno. A lua está prenhe de uma brancura gordurosa. Escapa-lhe uma luz poeirenta que confere uma existência de neblina às coisas que não estão aqui. O pátio, as árvores despidas, ao longe umas casas. Não se vê o mar. Abro o maço, dou razão de ser ao isqueiro, acendo o primeiro cigarro. Está frio. Noite de Inverno. Não sei se neva, não interessa. Liberto o fumo numa emancipação que me devia libertar do mundo, mas não. A Lua branca, redonda. O fumo expande-se numa cor que não lhe pertence sobre a escuridão corrompida. Tudo falso, tudo mentira. Há imagens que se formam breves no outro lado da luz. Têm algo para dizer. Não ouço nada. Talvez o mar. Um desconforto na extremidade dos dedos, uma ardência nos lábios. Cerrar os olhos agredidos. Acendo um novo cigarro. Noite branca pela Lua. Redonda porque a noite. Não sei. Mas está frio. Fecho o casaco atento para não apagar me queimar com o cigarro. Um cuidado excessivo. De velho senil. Poder guardar o calor que alguém roubou ao dia. O que é que significa estares aqui? Não dizes nada. A noite também não. Umas calças de ganga preta, os sapatos de sempre. Grato por esconderem este corpo que não te diz nada. Como é que havia de dizer?, estais tão longe um do outro. Mais um cigarro, urgência de. Nódoas negras sujam a Lua. Parece que a noite a leva de vencida. Parece que a noite a contamina. O maço de tabaco fica bonito, assim, filtrado por esta luz pálida. Faixas amarelas sobre um fundo desbotado. Quadradinhos negros, letras azuis. Se calhar o frio tem alguma coisa a ver com isso. Provavelmente não. O cartão humedecido. Não sabes. Já vais no sexto pela chama do isqueiro. Tenho um frio branco que me enxerta. Vais deixá-la acesa. Assim. É um vórtice que aspira a pertinência do mundo. O céu de carvão, as estrelas em brasa. As casas fechadas na distância – onde está o mar? Não há forma de saber se estou a libertar o fumo ou somente a expirar o ar quente dos pulmões. Isso sim, seria importante saberes. Porque o frio. Lua redonda, branca, enorme. Gigantesca altiva simples. Ainda tanto para queimar. Fumo dois ao mesmo tempo. Tens pressa. Pressa para seres, para acordar o desconhecido que não sabes se existe em ti. Mas no entanto. Contudo. Não obstante. Porém. A lua, a noite, o frio. Será Inverno? Procuro mais um. A ponta dos dedos gelada. Não sabes. E é justo. Para quê saberes? Tem calma. Mas se ao menos o mar. Reparar no anel de brasas que consome o cigarro. Achas tudo isso muito belo. Talvez me comover. Procurar encontrar algo na tristeza de ti, tão alheia a este corpo estranho. Um buraco lá no alto. Que sofrer não chega para seres, sabe-lo tão bem, mas por vezes (na boca, o cigarro) ser suficiente. O vento aviva a combustão. Rajadas de tempo envelhecem o corpo que te transporta. Os ramos tremem. A dor dormente. E depois? Não saber se não sabes que não sei, que é tudo a mesma merda. É verdade, o silêncio. Material espesso ascoroso. Será do frio? Será da luz? Será de ti? Não importa, acender um cigarro. Envolver a chama com a mão. O silêncio do vento sobre um corpo de tempo envelhecido. Inverno que antecipas. Aproveitar esta abstracção para fazer contas àquilo que os outros dizem ser a vida, neste caso a tua. Está bem. Estás bem. Confortável sentado emancipado e não sei que mais. Não se vê o mar. O filtro manchado de nicotina. Ou será da noite? Confessa. É o último. Não deitar o maço vazio fora. Vazar por fora o maço de tanto vazio. Como esta luz de gesso, fazer parte de ti. Mas o que sou eu para integrar seja o que for naquilo que não sei se ser? Paneleirices, não. Por favor. Não. Cala-te acalma-te ata-te. Ao silêncio. É o último, tens que aproveitar. Ainda está frio? Tirar dele o excesso de ti que não vos pertence. Pareces uma criança. Imagens de fumo brinquedos. Falam para mim. O Inverno é frio, a luz é branca e a noite projecta ser no espaço em que não é. Estás estou estamos tontos. Não estar. Não sentir os dedos. Não fazer mal. Mas encontrar o mar. Repara, também não sentes as árvores, e elas são bem mais reais que tu. Elas são. Sossega. Na imobilidade que seria tua se não fosse de ti. Olho em volta, pastagens de cinza, arvoredos de beatas. E mais uma. Não te comovas. Ridículo, não. Vestígios de ti sobre o chão. O silêncio de ninguém. Angústia, não do tempo perdido mas do que ainda há para viver. Está bem, para encher. O frio, a noite, a lua. A roupa. O prenúncio do amanhecer. Não sabes o que dizes. Que dizer é pelo menos um esforço para saber, mas tu não. Sabes perder o vivido que encho com o tempo dito. E pouco mais que nem isso. Estou cá fora. Fora de casa, à margem de mim. A noite funda e o mar longínquo. O isqueiro na escuridão sob a lua através do frio. Intenso. Um novo maço de tabaco na mão.
Publicado por João Pedro da Costa às outubro 28, 2004 11:27 AM
Comentários
vénia devida. sem mais.
Publicado por: ana margarida em outubro 28, 2004 06:22 PM
Vale uma aposta em como este post não chega aos 10 comentários? Um gajo esforça-se comó caraças, mas a malta gosta mesmo é dos coelhinhos. Mas antes que o espectro das palavras do José Carlos se aproprie das minhas e pq não gosto de malentendidos, li há dias no blogue do Paulo Querido um desabafo que encaixa aqui que nem uma luva. Vai lá procurar, Costa, e depois diz-me se não tenho razão.
Publicado por: sharkinho em outubro 28, 2004 07:29 PM
Tu escreves muito bem, caramba!
Publicado por: 1poucomais em outubro 28, 2004 07:46 PM
Conheço o post do PQ e percebo o que queres dizer. Mas também, repara (e o que vou dizer de seguida deve ser lido em voz alta, grave e irritante), nós que temos um blogue estamos à espera de quê? De mimo?
(claro que sim)
Publicado por: João Pedro da Costa em outubro 28, 2004 11:34 PM
Excelente.
Publicado por: Emiéle em outubro 29, 2004 12:29 AM
Quanto ao comentário do sharkinho, já me tenho interrogado sobre o mesmo. Os posts de paródia são os que são comentados, e há outros bestialmente sérios e importantes e a malta não diz nada. Já me tenho queixado a amigos que confirmam que nesses casos "não sabem o que dizer".
E voltado ao que está escrito, e aliás aproveito para falar dos outrso postes literários onde também nunca disse nada, se calhar pelo mesmo motivo. São magníficamente escritos, mas não se sabe bem o que dizer... É claro que pelo menos, devia ter dito que tinha gostado muito. Mea culpa.
:)
Publicado por: Emiéle em outubro 29, 2004 12:35 AM
Não. Não se sabe o que dizer. Mas sabe-se que se gosta, porque sim. E por isso se disfruta deles vezes e mais vezes sem que se diga seja o que for. E gosta-se, muitíssimo.
Publicado por: Mar em outubro 29, 2004 09:55 AM
Eu não fumo cigarros, nunca os fumei. Até odeio o fumo e o seu cheiro. Mas depois de ler o teu texto, percebo que por vezes bem os podia fumar.
Publicado por: racf em outubro 29, 2004 12:01 PM