« Esclarecimento | Entrada | Leite chocolatado e bolachas de aveia II »
outubro 31, 2004
Leite chocolatado & bolachas de aveia
A primeira vez que a alma se desprendeu do meu corpo, eu não estava à espera. Tinha comido duas grandes pratadas de feijão fradinho com atum e, quando me ia levantar, uma pontada no baixo ventre fez-me dar um peido ruidoso que libertou um cheiro que classificaria de interessante e a dita alma, por demais inqualificável. Como todas as almas
suponho eu
a minha era invisível e planava no ar sobre a mesa da sala, o que me dava uma panorâmica bastante engraçada da coisa. A minha avó ficou escandalizada com tamanho descuido e abriu a boca de espanto. O avô era meio surdo e, portanto, estava a leste. Ela olhou para mim
quero dizer, para o meu corpo
e perguntou-me se isto se fazia à mesa. Não respondi, visto que um humano sem alma é como um fantoche sem titereiro. Tornou a fazer a mesma pergunta, articulando as palavras com uma tensão que
sinceramente
me pareceu exagerada naquele contexto de confraternização familiar. Ainda tentei responder de lá de cima, mas percebi que as almas quando estão livres não podem falar, o que é uma chatice e eu não gosto delas, sobretudo quando são grandes como era o caso.
O sangue subiu-lhe às faces e voltou, desta vez aos berros, a fazer-me a mesma pergunta, ao que o avô respondeu que não, que não queria mais sopa. Eu, assim suspenso, começava a ficar atrapalhado e também a dar conta de que a careca dele era bem maior que aquilo que pensava. Ela levantou-se, o avô disse
- Caralho, Maria, já te disse que não quero mais sopa.
e o meu corpo, esse, continuava mudo, inerte, de olhos abertos a olhar de um jeito meio estranho e alucinado para eles. Confesso que tinha um ar um tanto ao quanto ridículo. Chamou-me malcriado e disse-me que se não respondesse de imediato levaria com um prato nos cornos. Meu avô olhou-a espantado e deu um arroto sem que, no entanto, a alma saísse pela boca, o que na altura até teria dado um certo jeito, ou talvez não. Ela, furibunda, agarrou num prato; ele, desautorizado, agarrou na bengala; e eu, desesperado, não agarrei em nada, o que também não é muito grave, visto que não é que não era bem isto que vos queria contar.
Publicado por João Pedro da Costa às outubro 31, 2004 01:41 AM