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outubro 31, 2004

Leite chocolatado e bolachas de aveia II

Naquelas férias de Verão, à noite, quando eu e o Manel nos fartávamos

o que não era fácil

de tentar descobrir a mística oriental de bater punhetas bucólicas no lado oculto dos campos, íamos solidários ver meu irmão e

porque não dizê-lo desde já

apalpar a minha cunhada. A visita era de médico. Dizíamos olá ao mano - eu ia um pouco mais além, sorrindo-lhe fraternalmente e apertando-lhe por vezes uma bochecha – e, depois, toca a ir ter com a Rosa, que era aquilo que a nossa libido de adolescentes nos pedia com urgência. Ela esperava-nos tranquila, serena, natural. Invariavelmente, arranjava algo para fazer na banca, umas batatas para descascar, uma loiça para lavar, uma galinha para depenar, e nós os dois fazíamos as mãos percorrerem seu corpo rijo, forte e macio de trinta anos bem passados. Não havia grande método no rito: arranjávamos sempre maneira de dividirmos em silêncio as áreas a explorar a fim de evitar um indesejável congestionamento de dedos num local em particular. Ninguém se magoava. Era da praxe ele ficar com a parte de cima e eu com a de baixo, mas também sabíamos variar, até porque imaginação, podem acreditar, era coisa que não nos faltava. Ela, de costas voltadas para nós, nunca dava mostras do menor indício de prazer ou de desconforto. Ficava impávida a sincronizar a respiração com os movimentos regulares do pêndulo da sala, como se não estivéssemos ali a fazer o que avidamente estávamos. Fria e distante – uma mulher do caraças. Nós é que já não podíamos dizer o mesmo, e embora tenhamos aprendido a controlar o ímpeto de nossos gemidos ao longo das primeiras semanas, havia ocasionalmente um ou outro grito que era largado por um, o que de imediato originava o severo olhar de reprovação do outro. O pulso acelerado, a garganta seca e as tonturas é que não havia jeito da gente dominar, o que, para além de não nos ficar mal, apenas confirmava os atributos divinos daquela criatura de sonho. Nunca havia coito, nem a brincadeira ia para além de uns dedos na vagina, de uma ferradela nas nádegas, ou de uma saliva num mamilo. Lembro-me que houve uma vez em que o Manel, empolgado pela volúpia, começou a retirar-lhe as calcinhas com os dentes. Como esperava, a reacção dela foi fulminante. Desferiu semelhante coice na zona onde o seu entusiasmo era mais evidente que o desgraçado esteve dois dolorosos dias a urinar uivos de sangue. Até metia dó. O esfreganço acabava quando um de nós sentisse que vinha mangueirada. Aí, o mais excitado

quase sempre o Manel

desatava a correr pela cozinha para regar as plantas ao luar ou fora dele, e o outro

quase sempre eu

acabava de lhe compor a roupa, endireitando a saia, apertando um botão esquecido da blusa ou passando-lhe os dedos pelo cabelo, e voltava a colocar-lhe nos bolsos as conchas do mar que, entretanto, tinham caído ao chão. Nestes momentos embaraçosos, tentei inúmeras vezes adivinhar-lhe uma lágrima ou um sorriso. Jamais o consegui. Afastava-me finalmente, as pernas bambas, dizendo-lhe até logo baixinho. Ela, mergulhada numa morna passividade, nunca respondia.

Publicado por João Pedro da Costa às outubro 31, 2004 01:42 AM

Comentários

Da outra vez que cá vim tinha decidido que não voltava a deixar estes textos literários sem comentário. Mas não é fácil,porque ficamos sempre à espera do próximo capítulo... E, para já fizeste muito bem em reeditar o 1º capítulo que estava um pouco perdido lá atrás. E não seria de, daqui para a frente, fazer no início ou no fim, uma "chamada/link" de cada vez que escreveres mais um, para a gente seguir o fio à meada?
Outra coisa: pensas publicar imagino eu. Ou será difícil arranjar editor? Essa parte é um pouco misteriosa para mim, mas valia apena.

Publicado por: Emiéle em outubro 31, 2004 12:49 PM

Eu já tenho coisas publicadas em editoras subterrâneas que nem sequer se dignaram a distribuir os livros decentemente. A única excepção é UM MARTINI E O MAR, disponível no blog, que foi publicado pela Campo das Letras em edição bilingue. Publicar livros foi, pelo menos para mim, a coisa mais efémera do mundo. Acredita que publicar aqui as coisas que escrevo tem sido imensamente mais gratificante.

(eu não sei fazer links entre os posts: como é que se faz?)

Publicado por: João Pedro da Costa em outubro 31, 2004 02:49 PM

Bravo, bravíssimo

Publicado por: João Ribeiro em outubro 31, 2004 10:39 PM

muitos parabéns!

Publicado por: ana margarida em outubro 31, 2004 11:16 PM

Copias o "permanent link" do artigo (que é o que tem a hora de edição) a que queres remeter e depois, acho que sabes como é... caso contrário...

Publicado por: cap em novembro 1, 2004 01:49 AM

Obrigado, cap. Acho que já percebi ;)

Publicado por: João Pedro da Costa em novembro 1, 2004 03:45 AM