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outubro 18, 2004
Listening Sessions #7, #8, #9

Isto não deixa de ser uma pequena provocação. OK COMPUTER foi, para a minha geração, aquilo que o primeiro álbum dos Doors terá sido para a geração de 60, o álbum dos Sex Pistols para a de 70 e o terceiro dos Smiths para a de 80: a banda sonora perfeita das nossas vidas, um disco cuja simples audição não nos resgatava do «mal de vivre» (de resto, quem é haveria de querer um disco assim?), mas tornava-nos mais «cool», conscientes e orgulhosos dos tempos em que vivíamos, capazes de produzir uma banda como os Radiohead. Ao colocar GOOD MORNING SPIDER (1998) dos Sparklehorse e THE SOPHTWARE SLUMP (2000) dos Grandaddy no mesmo patamar estarei, portanto, a cometer uma pequena heresia. Mas a verdade é que esses três discos surgem sempre juntos no meu imaginário musical: é-me mesmo impossível ouvir um deles sem sentir a urgência de ouvir os outros de seguida. Idiossincrasias.
Pontos em comum? Vários. Em primeiro lugar são três álbuns de guitarra, esse instrumento cuja morte já foi decretada uma boa dezena de vezes nos últimos (vá lá) vinte anos. Depois, são três discos superiormente produzidos, nos quais é possível detectar uma textura musical que lhes é comum, mormente na forma como os elementos electrónicos se insinuam nas canções em segundo plano. Há também as vozes e as letras: Thom Yorke, Mark Linkous e Jason Lytle partilham, embora com registos tímbricos distintos, a mesma melancolia que, por ser planante, não chega a ser triste: chamar-lhe-ia euforia disfórica ou outra palermice qualquer que possa apontar para um estado de espírito que não estará assim tão distante do patológico. Finalmente, há as canções: se OK COMPUTER tem hinos como «Paranoid Android», «Let Down» ou «No Surprises», os Sparklehorse têm «Pig», «Painbirds» e «Ghost Of His Smile» e os Grandaddy «He's Simple, He's Dumb, He's The Pilot», «Crystal Lake» e «Miner At The Dial-A-View». Experimentem, por exemplo, gravar uma cassete com estes temas e depois venham me dizer se a coabitação não faz todo o sentido.
Como é óbvio, também há diferenças. Os Sparklehorse e os Grandaddy são bandas americanas e não é impunemente que se forma um banda do outro lado do Atlântico. O universo criativo de Mark Linkous, por exemplo, é obsessivamente rural e panteísta, e a música remete-nos muitas vezes para os delírios eléctricos de Neil Young. Os Grandaddy, por sua vez, são ecologistas e as letras de Jason Lytle fazem dele uma espécie de Marcovaldo, a famosa personagem de Italo Calvino, tal é a sua obsessão em descobrir manifestações rurais em contextos urbanos.
Porém, a verdadeira diferença entre os Radiohead e estas duas bandas reside no facto dos primeiros venderem milhões de discos, enquanto haverá muita boa gente que nunca sequer ouviu falar dos últimos. E isso, meus amigos, é uma pena.
Publicado por João Pedro da Costa às outubro 18, 2004 02:41 PM
Comentários
Thanks, mate. Always a pleasure to read your gentle (and most iluminated) comments.
cheers
Publicado por: João Pedro da Costa em outubro 29, 2004 06:25 PM