« Meet Ziggy & Xico | Entrada | Peço desculpa pela insistência »

outubro 25, 2004

Listening Sessions #10

esalbums.jpg

O que mais surpreende na discografia de Elliot Smith (e bem poderia incluir aqui o recente e póstumo FROM A BASEMENT ON THE HILL) é a regularidade: todos esses discos, meus amigos, são absolutamente fenomenais e é impossível destacar um sem cair numa injustiça. Não há aqui, contudo, imobilismo: muito pelo contrário, consegue-se facilmente detectar uma linha de evolução, que se torna particularmente visível se compararmos o disco de estreia com o último que ele publicou em vida. Perdem-se algumas coisas e ganham-se outras, o que faz com que, no final, os pratos da balança tendam impreterivelmente para o equilibro.

Os dois primeiros álbuns, ROMAN CANDLE (1994) e ELLIOTT SMITH (1995), são dois trabalhos onde Elliott Smith compõe, canta, toca e co-produz tudo. São canções gravadas em casa, à flor da pele. Elliott Smith costumava dizer que ficava surpreendido quando lhe diziam que as suas canções eram tristes, pois escrevê-las e tocá-las lhe dava sempre uma imensa alegria. Não há, contudo, nada que enganar: ouça-se, por exemplo, o título tema do primeiro disco e o que temos é um homem-bomba ambulante a cantar uma das mais inacreditáveis canções de ódio jamais gravadas, assim uma coisa a fazer lembrar um Leonard Cohen, colheita 1971. É também inevitável falar aqui de Nick Drake, sobretudo pela forma envolvente com que Elliott Smith ataca a guitarra acústica e pela melodia contagiante dos temas: «Needle in the hay» (tema que teve o seu momento de glória no celulóide pela mão de Wes Anderson, no seu genial THE ROYAL TENENBAUMS) é aqui particularmente eloquente.

Não deixa de ser irónico que tenha sido aos outakes do 3º disco, EITHER / OR (1998), que Gus Van Sant foi buscar «Miss Misery» para o seu (fraquíssimo) GOOD WILL HUNTING, tema que catapultou Elliott Smith para uma fama efémera: a canção foi nomeada para um Óscar, e foi verdadeiramente surreal vê-lo tocar, sozinho em palco, durante a cerimónia de entrega dos prémios. Qualquer canção de EITHER / OR supera «Miss Misery», não fosse este disco a sua obra-prima absoluta. É neste álbum que Elliott Smith atinge o ponto mais alto da sua carreira, graças a uma sucessão de temas intemporais como «Alameda», «Ballad of Big Nothing», «Between the bars» e «Angeles». Vem igualmente ao de cima, graças a uma produção mais ambiciosa e aos arranjos vocais, o lado mais marcadamente pop da sua música: é impossível ouvir este disco sem pensarmos numa filigrana não muito distante dos Beatles ou dos Beach Boys.

Nos dois últimos discos, XO (1998) e FIGURE 8 (2000), pode-se ouvir um Elliott Smith vintage, mestre absoluto da sua arte, e com meios para produzir dois discos majestuosos e acessíveis, diria que a roçar o «mainstream». A produção hi-fi, os arranjos orquestrais, o uso de metais e o «friendly-listening» dos temas não conseguiu, contudo, fazer com que ele alcançasse o que parecia inevitável: o sucesso comercial. Apesar de nunca a crítica ter sido tão unânime em proclamar um disco seu como o foi XO, a Dreamworks rapidamente percebeu que Elliott Smith não era produto para as massas e quando o fortíssimo investimento da companhia em FIGURE 8 não teve retorno esperado, era óbvio para todos que tinha terminado a sua aventura numa multinacional. Entre 2002 e 2003, Elliott Smith viu aquele que seria o seu 6.º álbum ser recusado duas vezes pela sua editora, que invocava o facto do mesmo ser «desmasiado sombrio» (sic) e o contrato discográfico impediu a saída do disco noutra editora. Acabou de ser publicado a semana passada, pela mão da Domino Records, um ano após o suicídio.

Escusado será dizer que a edição deste disco póstumo fez com que a minha última semana fosse particularmente fértil no que diz respeito a audições de canções de Elliott Smith. Desse exercício (que recomendo a todos vivamente), acabei por elaborar uma pequena compilação de 10 temas (deixo de fora FROM A BASEMENT ON THE HILL, que facilmente poderão ouvir em qualquer loja de discos digna desse nome), que espero poder servir de pequena introdução aos que porventura não conhecem o seu trabalho e que, claro, estejam praí virados:

1) Roman Candle (Roman Candle, 1994)
2) Needle In The Hay (Elliott Smith, 1995)
3) Christian Brothers (Elliott Smith, 1995)
4) Speed Trials (Either/Or, 1998)
5) Alameda (Either/Or, 1998)
6) Ballad Of Big Nothing (Either/Or, 1998)
7) Pictures Of Me (Either/Or, 1998)
8) Tomorrow Tomorrow (XO, 1998)
9) I Better Be Quiet Now (Figure 8, 2000)
10) Can't Make a Sound (Figure 8, 2000)

Tenho cinco cópias para oferecer: fico à espera do endereço dos interessados via e-mail.

Publicado por João Pedro da Costa às outubro 25, 2004 12:43 AM

Comentários

Só para dizer que ainda há 3 cópias disponíveis. Vá lá, não sejam tímidos...

Publicado por: João Pedro da Costa em outubro 25, 2004 12:00 PM

Eu já tinha mandado a morada por causa da outra música, faço-me ao piso para esta.
Sabes que me viciei no "Go"? Tenho ouvido vezes sem conta. E à custa dele descobri os Sparklehorse, que me têm feito muito boa companhia. Devo andar a necessitar que me afirmem repetidas vezes que "it's a wonderful life" ;-))

Publicado por: 1poucomais em outubro 25, 2004 02:15 PM

count me in!

Publicado por: ana margarida em outubro 25, 2004 02:24 PM

Fazia uma reserva..

Publicado por: Explícito em outubro 25, 2004 03:56 PM

Muito bem, os Cds já têm donos. Azul, Ana Margarida, Marta, Riacho, Explícito e Ricardo, estejam atentos à vossa caixa de correio.

Explícito, Ana Margarida e Riacho: ainda me falta obter o vosso endereço postal, por favor, enviem-no para o e-mail disponível no blog.

Azul: os Sparklehorse são mesmo fantásticos, não só? És uma rapariga cheia de sorte porque o novo disco deles sai em Janeiro e não terás, como eu, de esperar 3 anos... (já agora, dá uma chance aos Flaming Lips).

Um abraço a todos

Publicado por: João Pedro da Costa em outubro 25, 2004 04:16 PM