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outubro 29, 2004
Sunbathing session
A primeira vez que ouvi falar de SMILE foi há cerca de dez anos. Estava a passar pela minha fase Beatles / Beach Boys e a tentar decidir para qual dos lados da barricada haveria de me posicionar (um certo álbum branco acabaria por desfazer um empate que considero técnico). Na altura, fiquei logo a saber aquilo que praticamente sei hoje: que SMILE era para ser o disco que sucederia a PET SOUNDS na discografia dos Beach Boys e que «Good Vibrations» (um dos raros temas a ver a luz do dia) era um single órfão, na medida em que Brian Wilson acabaria por abortar a saída do álbum. As razões apontadas eram várias (o lançamento de SARGEANT PEPPER, a complexidade do disco, o enloquecimento do autor, etc...), mas não me interessavam para nada: o importante é que um dos mais visionários compositores de sempre da pop tinha deixado de lado um disquito que o próprio considerava ser a sua «obra-prima» e tudo isso era terrível, fascinante e belo como só a música sabe ser.
Nos últimos anos, tomei conhecimento de discos paratas e de outros produtos vários que pretendiam levantar a ponta do véu. Como é óbvio, fiz sempre questão de me afastar cuidadosamente deles, pois o que o me interessava era ouvir o SMILE verdadeiro, completo e inteiro, devidamente caucionado por Brian Wilson e não um placebo qualquer. Ou se calhar, nem isso. Na verdade, quando há alguns meses começaram a circular os primeiros rumores de que Brian Wilson teria pegado a sério nas bobines originais e que estaria, finalmente, a concluir SMILE, não pude deixar de pensar: «Caramba, está tudo fodido, não acredito que o gajo vai fazer uma cagada dessas. Porquê trocar a imortalidade na historiografia da música pop pela efemeridade de apenas mais um disco, que, para mais, devido às expectativas criadas ao longo de quase quatro décadas, toda a gente vai ser implacável a criticar?»
Há três semanas, sai o disco. Procuro ter calma. Passo por uma FNAC e sou apanhado desprevenido por um expositor repleto

de objectos proíbidos. Pego num, estranho o facto de ele ser feito de matéria palpável e (num dos gestos que considero dos mais heróicos da minha vida) volto a pousá-lo e resolvo ignorar a sua existência sem contemplações. Depois, começam a chover as críticas. Blitz, Y, Mojo e Uncut. Todas são unânimes. Começo a ficar impaciente e consulto a net. A unanimidade mantém-se: toda a gente considera o disco uma absoluta obra-prima e, nesse momento, a impaciência dá lugar à inquietação. A semana passada, volto a ir à FNAC (muitas vezes vou eu lá, caramba) e resolvo analisar melhor a capa. Cores quentes e vibrantes, design cuidado. Adoro a capa. Olho desesperadamente para o preço e penso (com uma pontinha de alívio que não irei aqui negar) que a merda do disco é muito caro, que tenho de ter juízo e que a compra pode esperar.
Maurice Blanchot deixou escrito que o desejo é a distância tornada sensível. Talvez estivesse a prolongar artificialmente a distância, não sei, mas a verdade é que o desejo ia crescendo devagar em mim, feito bichinho, e quando dou por mim já estou a sonhar com o disco. Na terça-feira passada, volto à FNAC (eu sei), dessa vez com o meu melhor amigo, que estranha muito o facto de ainda não ter adquirido o disco fétiche. Tenho ainda um momento de esperança quando vejo que o expositor tinha sido entretanto retirado, mas, na ordenação alfabética, lá jazia um saudável exemplar de SMILE. Assumo a derrota e pago com Multibanco.
É óbvio que quem não gosta do trabalho dos Beach Boys, também não irá gostar deste disco. Contudo, não deixo de me perguntar o que haverá de tão intemporal em SMILE que faça com que, após o termos ouvido, fiquemos com a sensação que este é um álbum que é tão pertinente hoje em dia, como o teria sido na década de 60 (nunca saberemos é o rumo que a música pop teria tomado, caso o disco tivesse sido, de facto, publicado em 1967). Posso arriscar algumas razões. Em primeiro lugar, a produção: o que Brian Wilson conseguiu fazer aqui a nível de engenharia e de mistura, é um autêntico «wall of sound», uma textura elaboradíssima de sons e ruídos que faz com que o disco seja paradoxalmente complexo e de imediata fruição. Depois, a estrutura do álbum, que faz com que o ouvinte não se aperceba da mudança dos temas, tal é a forma sublime como as melodias se encadeam. Finalmente, o irresistível sentido de humor das letras de Van Dyke Parks e o «locus amenus» para onde nos transporta as composições de Brian Wilson. O que temos aqui é pura vitamina C, canções solarengas e bem-dispostas, um absoluto antítodo para a melancolia e a tristeza, como que a fazer jus ao belíssimo título que ostenta (que interpreto como um imperativo e não como um substantivo).
Está visto que este é um assunto de bem-estar nacional. E, por isso, se já estiverem fartos deste tempo de merda que assola o país, e quiserem ter o sol a brilhar no vosso quarto, façam como eu e comprem o disco. Para os mais cépticos, também há uma solução: arranjem lá 3,5 Mb no vosso e-mail que eu terei todo o gosto de vos enviar o tema «Heroes and Villains» para tomarem o gosto à coisa. Já sabem onde deixar os comentários.
Publicado por João Pedro da Costa às outubro 29, 2004 10:22 PM
Comentários
Eu já perdi a vergonha: estou feita cliente e pronto. Manda lá o mp3zito, s.f.f.
Publicado por: 1poucomais em outubro 29, 2004 10:40 PM
Este blog é o culpado de um aumento do consumo dos particulares em bens que não pertencem ao cabaz de compras de produtos básicos essenciais à sobrevivência, ao custo marginal da consequente perda de eventuais potenciais poupanças, ao enriquecimento de entidades emissoras de cartões de crédito via comissões de excesso e outras coisas assim. Se o OE do ano que vem se ressentir, com a inflacção a disparar e isso tudo, a culpa é toda, toda dele.
Publicado por: catarina em outubro 30, 2004 12:39 AM
Pensei que tinhamos partilhado o cachimbo da paz, mas acabaste de quebrar a mesma com o post anterior. Pedi-te desculpas se tinha sido um pouco "bruto" nos meus comentários e pensei que a discusão ficava por ali. O "teu" coelho suícida #16 tinha bastado e eu aceitei a critica. Mas demonstraste ser uma pessoa rancorosa e vingativa.
Se não és capaz de aceitar uma critica e se te vingas desta forma, não vales muito como pessoa.
O que me entristece é teres pessoas que te apoiam simplesmente porque as conquistaste com o teu blog e com o que escreves nele. Não pela pessoa que és mas pelo o que o teu blog é. Fica descansado que não te chateio mais.
Publicado por: José Carlos em outubro 30, 2004 12:44 AM
Catarina: devias de ver o déficite do meu...
Publicado por: João Pedro da Costa em outubro 30, 2004 01:00 AM
A conversa não é comigo, mas posso meter uma colherada? Não me pareceu que o João Pedro estivesse a querer ser vingativo para contigo com o post anterior, José Carlos. Sinceramente, achei piada ao texto que ele arranjou em torno dos "direitos de autor", depois de quanto se disse a esse respeito, e que não girou apenas em torno do teu comentário. Tem alguma maldade? Não me parece direccionada a ti, propriamente, mas sobre a situação em si. Estou à vontade para falar, porque não te conheço nem a ti nem ao João Pedro, que não precisa de mim para nada para o vir defender. Mas foi isto o que senti, e achei que o devia dizer, mesmo atrevendo-me a estar a meter a foice em seara alheia. Desculpem o longo arrazoado...
Publicado por: 1poucomais em outubro 30, 2004 01:20 AM