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outubro 19, 2004
Post outonal
É inevitável: o cheiro do Outono faz-me sempre recordar o odor dos amores proibidos.
Para que me entendam, preciso de vos dizer que o Paulo foi a primeira pessoa que aprendi a admirar na minha vida. Conheci-o no 8.º ano e ele destacava-se do resto da turma por diversas razões. Em primeiro lugar, o Paulo era negro, negríssimo, possuía uma tez de pele inacreditável, baça e escura como o carvão. Depois, o Paulo era mais velho do que o resto da turma uns bons três anos (nós tínhamos 13 e ele 17) e tinha pêlos no peito, facto que provocava em nós uivos de inveja que atingiram o zénite quando nos apercebemos do fascínio que ele despertava nas raparigas. O Paulo foi também a primeira pessoa que conheci que sabia falar com o sexo oposto. Ele não era como nós, que apenas sabíamos desdenhar e mandar «bocas»: o Paulo sabia-a toda. Tratava muito bem as meninas, cumprimentava-as com um beijo (sim, só um) na cara, cedia-lhes o lugar nos bancos dos recreios, interessava-se por assuntos da esfera feminina, sabia como elogiar as roupas, o prenúncio das maquilhagens, o halo de um perfume. Que raios, o Paulo foi o único homem que conheci até hoje capaz de pôr as meninas a falar de assuntos tão íntimos como o período ou a lingerie, sem que elas se sentissem intimidadas ou gozadas. É bom de ver que o Paulo foi igualmente o primeiro amigo que tive que não era (de facto) virgem e que se predispôs a falar das suas experiências sexuais sem a irritante ansiedade que costuma invadir o orador nos momentos pios. O Paulo iniciou-nos a todos na suprema arte da masturbação: numa primeira fase com o auxílio de revistas porno e depois (mérito dele) recorrendo apenas à imaginação. Houve uma vez em que o Paulo se dignou a partilhar connosco, meros e febris mortais, o seu número supremo. Parece que ainda foi ontem: estávamos sob um eucalipto da pedreira, junto à lagoa, e estava a chover. Ele baixou as calças e, de pé, as mãos atrás das costas, os olhos cerrados e sem se mexer, teve em menos de um minuto um orgasmo silencioso, assim uma coisa estupidamente carnal e animalesca, mas que (não me perguntem porquê) todos nós achamos linda de se ver.
Mas o Paulo foi, sobretudo, a primeira pessoa apaixonada que conhecemos. No início, não percebíamos muito bem o que aquilo era, a não ser talvez o sintoma de uma doença que não queríamos apanhar de forma alguma. O Paulo tinha vindo para Portugal um mês antes do começo das aulas, deixando em Angola a sua namorada, Maria do Céu de seu nome e prima direita de família. Foi o Paulo que descobriu a lagoa na pedreira que ficava a pouco mais de um quilómetro da escola e que nos convenceu a irmos lá tomar banho pela primeira vez. Foi ele o primeiro a mergulhar para a água de cabeça, quando ainda nos sentíamos intimidados pelas cobras que serpenteavam as águas em silêncio. Depois do banho, ele fazia sempre questão de nos brindar com alguns temas da sua autoria. Não é que as músicas fossem pérolas de composição, mas eram originalíssimas: eram acompanhadas por uma pequena harmónica que ele trazia sempre no bolso e glosavam o único tema que lhe dilacerava o coração: a Maria do Céu. Tudo isto durou apenas quatro meses, mas esses quatro meses foram mais do que suficientes para que todos nós nos apaixonássemos também por ela. Maria do Céu, a mulata dos cabelos negros. Maria do Céu, a vidente que lia a sina na palma das mãos. Maria do Céu, a deusa do sexo oral e da saliva quente. Maria do Céu: a vida de um homem só faz sentido se nela houver a fortuna de te conhecer.
Depois, a seguir às férias de Natal, o Paulo começou a faltar às aulas. Na segunda semana de Janeiro, a nossa professora de Português disse-nos que tinha recebido uma carta dos pais, vejam lá isto, uma coisa absurda, que os três tinha voltado para Angola, coisa de heranças e não sei que mais. A notícia apanhou-nos desprevenidos. O plano, dizia-nos ele, consistia sempre em trazê-la para cá e jamais numa viagem de regresso, até porque, lá, teriam de lidar com a chatice dos laços familiares que os unia. A coisa estava tão bem estudada que ele até nos mostrou uma vez a vivenda abandonada que ele um dia compraria para os dois e na qual haveria de crescer meia-dúzia de pretinhos foras como ele. Para consolo nosso, não deixamos de invocar a sua felicidade ao recriarmos na nossa cabeça o momento do reencontro, mas, caramba, a gente gostava tanto dele.
Há cerca de dois ou três anos, a Câmara demoliu a vivenda e construíu lá uma estrada. Cheguei a pensar em deixar lá algum recado, não fosse uma numerosa família angolana passar por lá e ser apanhada de surpresa. Sabes, Paulo, a casa onde moro não é lá muito grande, mas um gajo arranja sempre espaço para um pouco de alegria.
Publicado por João Pedro da Costa às outubro 19, 2004 12:10 AM
Comentários
és único. delicioso, um texto de quebrar fôlego.
Publicado por: ana margarida em outubro 19, 2004 12:18 AM
o Paulo fez-me lembrar o Mahlke, do livro "O Gato e o Rato" de Gunter Grass. aínda nem a meio do livro vou, por isso talvez seja uma comparação prematura..mas lembrei-me. também pode ter sido devido ao teu discurso. sim senhor, um bom texto.
Publicado por: nuno em outubro 19, 2004 12:38 AM
Este blog não deixa de me espantar. Chiça. Este bacano escreve que se farta.
Publicado por: Ricky G. em outubro 19, 2004 10:41 AM
posso acrescentar AMIZADE? Assim, o Outono até sabe melhor.
Publicado por: racf em outubro 19, 2004 03:29 PM
Ainda me lembro de quando nos contaste esta história do Paulo e ouvi-la pela segunda vez tem uma magia redobrada e nunca diminuida...
Publicado por: Ângela Carvalho em outubro 19, 2004 04:46 PM
É intenso o texto, a história, a vida. Dá gosto ler quem escreve desassombradamente e com sensibilidade das coisas mais naturais da vida.
E uma boa noite :)
Publicado por: vague em outubro 19, 2004 11:17 PM