« Daniel Johnston | Entrada | A melhor música pop... »

outubro 21, 2004

Um Martini e o Mar

Aos domingos de manhã o meu pai levava-me
à praia para tomar um martini e antes do assado da minha mãe
havia o mar. Haver o mar era então despir-me lentamente
da criança que eu era e esboçar sobre a areia ainda fria
diagonais insuspeitas em direcção à água, enquanto o meu pai
se ia afogando na leitura cinzenta de pesadíssimos jornais.
Neste preciso momento em que a mão me trai
e escreve com urgência, o que se me encosta à memória
é a imagem de uma imensidão quase azul a espumar-se
de brandos rumores salgados e o cheiro a asas. O grito
das gaivotas, meu deus, lembro-me tanto do grito das gaivotas.
É um grito alado, distante de agudeza, e que apenas é plausível ali,
à beira do mar: de outra forma não o ouviríamos:
de outro modo não estaríamos lá.
Eu demorava sempre, no ritmo pendular do meu pai,
meio martini até introduzir os pés na água. Depois,
era fazer os possíveis para que as ondas nunca molhassem
os calções e sintonizar o olhar (hoje, a memória) na mancha
efémera de um barco qualquer que desfiasse a minha imaginação
ao levitar-se trémulo um pouco acima do limite do mar.
Lembro-me que houve uma vez em que eu, embriagado pelo
ressoarcontínuodaságuas, me distraí e me mijei todo.
Recordo o líquido quente a correr pelas pernas
e como tudo aquilo (pelo alívio, pela transgressão,
pelo conforto) me soube estupidamente bem.
Poderia lá ficar durante alguns breves minutos
ou até quase uma hora, mas uma coisa era certa: no instante
em que me sentisse a resvalar para a melancolia, no meu ombro
vinha poisar em silêncio a mão do meu pai.
E aos domingos de manhã, quando o meu pai me levava à praia
para que em mim houvesse o mar e antes do sermão
da mãe, vinha à tona de nós uma palavra
que não me atrevo a escrever, porque na minha família
há uma coisa que se chama «pudor sentimental»
e até porque (vejam só) o meu martini
e este pôr-do-sol estão
sinceramente
a acabar.

Publicado por João Pedro da Costa às outubro 21, 2004 05:07 PM

Comentários

O teu blog foi uma das melhores descobertas dos últimos tempos. Não comento o texto - prefiro ficar calada a pensar no som ritmado das ondas e no grito das gaivotas que também povoam as minhas memórias de momentos únicos.

Publicado por: 1poucomais em outubro 21, 2004 05:37 PM

O teu velho devia ser ganda malha para te inspirar desta forma. No meu próximo martini brindarei a um homem à maneira que o destino me privou de conhecer e ao filho dele que tanto honra a sua memória com as palavras que lhe dedica.

Publicado por: jorge gomes da silva em outubro 21, 2004 07:20 PM

O que comentar num post destes? Escreves tão bem que dói. Abraço.

Publicado por: catarina em outubro 22, 2004 12:28 AM

:-)*

(fizeste com que a saudade que tenho desse salgado, me marcasse ainda mais ao ler-te, aqui, hoje! ... %$#@&@,.... não gosto nada disso :-@)

Publicado por: riacho em outubro 22, 2004 05:40 AM