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outubro 22, 2004

Um Martini e o Mar II

Meus caros irmãos,

este sermão irá, sem dúvida, ser do vosso agrado. Não digo isto apenas por pensar que as minhas anteriores incursões oratórias tenham provocado em vós fastio ou enfado, mas também porque irei hoje versar sobre um acontecimento fulcral da minha humilde existência de cristão que encerrará, em si, a explicação para algumas das alterações que tenho vindo a proceder no espaço e nos ritos da nossa igreja desde a minha chegada a esta, em inúmeros níveis, encantadora paróquia. Apesar de já ter a idade com que morreu Jesus Cristo, Nosso Amado Salvador, estou ciente de que vocês, meus caros irmãos, terão atribuído à minha relativa juventude a principal causa de um certo espírito inovador que parece guiar as minhas celebrações dominicais. Afinal de contas, colocar em cima do Santo Altar uma garrafa de martini e ter substituído, numa operação que exigiu a perícia dos mais delicados e elegantes artesãos da capital, as pombas dos murais da igreja por gaivotas constituem, confesso-o na minha vil condição de pecador, uma aparente violação das tradições que são os pilares sobre o quais assenta a Nossa Santa Madre Instituição Católica. Estando consciente da justificação de que vos sou devedor, e antes de abordar em concreto o episódio biográfico que irá, estou certo disso, saciar a vossa curiosidade, gostaria, se mo permitissem, de vos relembrar uma ou duas coisas.

Em primeiro lugar, que os símbolos que usa a Igreja Católica são exactamente isso: símbolos, e apenas símbolos. Com isto quero dizer que mais importante do que a parte visível ou corpórea do símbolo é, sem sombra de dúvida, o que ele, enquanto símbolo que é, representa. Pois bem, não obstante o inegável facto de ter substituído neste espaço sagrado o vinho pelo martini e as pombas por gaivotas, continuo a atribuir-lhes as suas, essas sim, santas e sagradas significações que são, como com certeza sabem, o sangue de Cristo e o Espírito Santo, respectivamente. Para além do mais, deverão de igual modo reconhecer que mesmo aí, na alteração da parte visível da nossa simbologia, não procedi de forma brusca ou arbitrária: o martini, como o vinho, é uma bebida alcoólica; e uma pomba ou uma gaivota são, por mais voltas que lhes queiramos dar, aves. Quero dizer com isto que, apesar de tudo, ainda se mantêm intactos os elos que garantem a correcta eficácia dos símbolos: a gaivota, sendo um pássaro que desafia a lei da gravidade, continua a simbolizar com rara felicidade a natureza etérea e celeste do Espírito Santo; e o martini, pelo seu estado físico e cor, continua a representar o sagrado sangue do Nosso Salvador.

(Vejo, pelo sorriso de alguns, que a vossa aguda perspicácia terá apreendido nas minhas palavras uma crítica velada aos meus colegas de sacerdócio que teimam em celebrar a missa com vinho branco. Têm razão. Mas a verdade é apenas uma: o sangue, quer o que impunemente corre nas nossas veias, como o glorioso de Jesus Cristo, ou até mesmo o pretérito dos reis, sempre foi, é, e não há nenhuma razão para crermos que num futuro próximo deixará de o ser, encarnado.)

Quanto ao facto de o Filho de Deus não ter utilizado a mesmo simbologia que eu, o que poderá levantar uma dúvida pertinente sobre a legitimidade dos meus actos, devo recordar-vos que o Salvador foi por Nosso Senhor enviado ao mundo numa altura em que o martini ainda não tinha sido comercializado, ou sequer inventado, e que no céu da Galileia, terra gloriosa porém inóspita e deserta, não abundavam gaivotas. Tivesse Deus mandado o Seu Filho nos dias de hoje para a nossa humilde aldeia à beira-mar, e seria bem provável que a Sua escolha fosse idêntica à minha. Enfim: quem não teve cão com gato se viu obrigado a caçar e, apesar dos pesares, os resultados não deixam de estar à vista de toda a gente.

A segunda coisa que gostaria de vos dizer, antes de contar a minha história, são as fortes dúvidas que se me levantam relativamente à justeza do uso pio da pomba. Estou a falar da tão apregoada «candura» ou «pureza» que se atribui a esta ave singela. Antes de mais, não nos deveremos de esquecer que as pombas provêm do Chipre, ilha consagrada a Vénus, deusa do amor pagão. Anacreonte refere que, no monte Érice, se celebrava uma festa aquando da passagem da deusa pela Líbia: nesse dia, não se viam pombas em toda a Sicília, porque todas haviam atravessado o mar para fazerem o cortejo em homenagem à deusa. Mas nove dias depois, do horizonte longínquo desta terra de infiéis, chegava a Trinácria uma pomba vermelha como o fogo (Porpórea era um dos inúmeros nomes de Vénus) e atrás dela vinha a multidão das outras pombas. Nesse mesmo dia, referem as crónicas, todas as mulheres eram possuídas por um inconsolável desejo de fornicar que levava algumas delas à auto-mutilação, quando não à morte. Mas este dado histórico marca apenas o primeiro passo da longa saga da pomba na simbologia do ocidente e da sua excessivamente esquecida identificação com o amor lascivo e carnal que será, de resto, celebrada por poetas como Salomão, Homero, Petrarca, Bandello, Camões ou Vítor Hugo, apenas para citarmos os mais ilustres. Já Plínio referia que as pombas idem cantus gemitusque, ou seja, que as pombas choram ou gemem em vez de cantar como se tanta paixão satisfeita jamais as deixasse saciadas. Apenas para citar mais um exemplo da dimensão luxuriante desta ave, os Assírios representavam Semiramis sob a forma de pomba, pois por elas fora criada, e porque depois a própria viria a ser convertida em pomba. Esta mulher era, digamo-lo assim, de costumes não irrepreensíveis, de tal forma que depois de ter casado com Escaurobates, o rei da Assíria, não passava um só dia sem cometer o pecado mortal do adultério e o historiador Iuba diz que ela até se apaixonou por um cavalo...

Depois do que acabo de dizer, os meus irmãos concordarão comigo se afirmar que a pomba não é, de facto, a melhor ave para representar a candura e a pureza do Espírito Santo. Como é óbvio, não ignoro o importante papel que foi reservado à pomba no Antigo Testamento. Recordo, por exemplo, a columbina simplicitas recomendada pelos profetas e sobretudo o famoso episódio do Dilúvio em que coube a esta ave anunciar a paz, a bonança e as novas terras emersas. Porém, pergunto-vos: nos séculos que seguiriam ao Génesis, que ave teria por excelência esta conotação positiva? Pois é. Lembremo-nos das kenningar ou do relato das navegações de Vasco da Gama, Cristóvão Colombo ou Fernão de Magalhães. Seria a gaivota, meus irmãos, que viria a assumir a responsabilidade de anunciar ao navegador a proximidade da terra ou então, para o que aqui nos interessa, de prometer a Salvação ao pecador.

Após estas considerações preliminares, gostaria de, finalmente, e sem mais delongas, abordar o episódio biográfico a que fiz alusão no início deste sermão. Esta história, para além de ir lançar (assim o espero) uma luz definitiva sobre as razões profundas que me levaram a fazer esta apologia da gaivota e do martini, esta história, dizia eu, marcou igualmente o momento da minha Revelação ao Altíssimo e do conhecimento dos nobres desígnios que Ele me tinha traçado. Estou a falar, como já perceberam, da minha vocação para o sacerdócio. Tudo se passou na minha terra natal, também ela uma aldeia onde, como esta, se podia desfrutar dos encantos da simplicidade das gentes do campo e da proximidade do mar. Eu tinha oito anos e era uma manhã de domingo. Os meus domingos não eram então ainda dedicados à devoção e à comunhão: os meus pais eram, que Deus lhes perdoe e os tenha em eterno descanso, avessos à religião e o meu pai, esse, levava-me para uma taberna à beira mar onde ele e os seus amigos sucumbiam aos efémeros prazeres e às vicissitudes que fazem do jogo e do álcool uma terrível tentação e que, na época, não eram para mim nada mais do que tediosos ritos do que hoje sei ser o profano. Como é óbvio, o que me levava para lá era o mar, cujos encantos me estavam formalmente proibidos. Estou a referir-me, por exemplo, à imensidão das águas, ao murmúrio das ondas ou ao penetrante odor da maresia. Aproveitava sempre uma qualquer fase mais melindrosa de um naipe desequilibrado para fugir cá para fora e começar a esboçar sobre a areia ainda fria diagonais insuspeitas em direcção à água. Depois, era o tempo de duas disputadas partidas ou de quatro ou cinco copos de vinho e, upa, já tinha os pés no mar. Nesse dia, estava um barco a desfiar-me a imaginação ao levitar-se trémulo um pouco acima da linha do horizonte, quando, de repente, pousou em silêncio no meu ombro uma gaivota. Não era, contudo, uma gaivota qualquer. Toda a plumagem desta ave parecia estar em chamas e dessa combustão emanava uma luz branca e um cheiro que ainda hoje identifico com os assados da minha mãe. Recordo ainda a expressão quase sobre-humana dos seus olhos e o terror que invadiu o mais profundo do meu ser. No momento em que ia gritar, milagre dos milagres, a gaivota virou-se subitamente para mim e disse com uma voz grave e genesíaca que só podia vir dos primórdios da invenção:

– Eu sou aquele que voa.

Logo de seguida, num voo rápido e lancinante, desapareceu no horizonte. Ainda estava eu a tentar recompor-me de todo este prodígio quando, de repente, vejo a boiar sobre as águas o corpo do meu pai. Atónito, olhei para a sua cara e dos seus lábios emergiu um sorriso que foi até hoje o mais perfeito resumo de todas as coisas boas que conheci neste mundo. Foi neste preciso momento, meus irmãos, que uma sensação de calor começou a acariciar-me as pernas submersas. Olhei para baixo e vi, com certeza devido ao pânico incutido por todas as maravilhas de que era a única testemunha, que me tinha mijado. Porém, não tinha mijado urina: na água salgada, alastrava uma nuvem encarnada que saía dos meus calções: era sangue. Desatei a correr para a areia e pude ver com estes olhos que a terra há de comer um dia que, na extremidade do meu sexo, uma chaga sangrava incessantemente. Sentei-me na areia e comecei a chorar. Foi então no meio das lágrimas que o meu espírito se iluminou: apercebi-me finalmente que estava na presença da Santíssima Trindade: do Pai (o meu pai, cujo corpo também já se afastava, levado pela maré), do Filho (este vosso humilde pastor) e do Espírito Santo (materializado naquela assombrosa gaivota). Tinha tido uma Revelação. Deus tinha-me escolhido para Seu mártir.

A minha história, no entanto, não termina aqui. Quando voltei para a taberna, pude constatar que, afinal, o meu pai continuava a jogar às cartas com os seus colegas como se nada tivesse acontecido. Sentei-me ao seu lado, já na firme resolução de não lhe contar nada, quando ele cuspiu para a mesa o líquido que tinha acabado de levar à boca. «Mas o que é esta merda?», disse indignado. Eu não queria acreditar no que os meus olhos viam: nos quatro copos da mesa, o vinho tinha sido, como que por encanto, substituído por uma bebida agridoce que era desconhecida ao meu pai, mas que um companheiro (assíduo frequentador da noite citadina) identificou de imediato com o martini.

Não julgo necessário, meus irmãos, alongar-me muito mais sobre o resto da história, visto que de certo modo vocês já adivinham o seu desfecho. A partir daquele dia, dediquei-me à leitura e ao estudo das Escrituras, e aos doze anos fui para o Seminário, onde árduas semanas de austeridade e privação me prepararam para o Santo Ofício. Em frente à taberna, podia ler-se
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e o meu pai, há oito anos, apareceu morto à beira-mar. Dizem as pessoas que o encontraram, que o seu cadáver incorrupto boiava calmamente sobre as águas: tinha os olhos abertos e sorria. Quando, há quase um ano, me foi atribuída esta paróquia de São Martinho, logo percebi, pela familiar ressonância do nome, a tarefa de que Deus me tinha incumbido. Com a minha persistência e a vossa paciência, foi-me possível proceder na igreja às alterações que, nos últimos meses, vos causaram estupefacção. Espero que compreendam agora que NADA FOI FEITO POR ACASO ou por capricho: tratava-se apenas de cumprir a vontade do Nosso Senhor. Os Seus desígnios são, de facto, insondáveis.

Em nome do pai, de mim mesmo e das gaivotas em brasa: Ámen.

Publicado por João Pedro da Costa às outubro 22, 2004 01:46 PM

Comentários

Fez-me viajar.
E apraz-me dizer também: eu sempre soube que essas pombas eram umas malucas.

Publicado por: Ricky G. em outubro 22, 2004 02:37 PM

João CaPedro GaiCosta!

Três Questões:

a) O Santo Ofício e a gaivota com um cheiro a assado! Humm, Humm....!

b) Porque não em nome da mãe? porque ainda não tinha havido o Concílio de Trento? ou porque o seu nome é indizível?

c) "...a gaivota virou-se subitamente para mim e disse com uma voz grave e genesíaca que só podia vir dos primórdios da invenção:

– Eu sou aquele que voa...."

Não deveria ser: ...eu sou aquela que voava, voava...?

Edmunde


Publicado por: Edmunde em outubro 22, 2004 08:23 PM

Como?

Publicado por: João Pedro da Costa em outubro 24, 2004 04:16 AM