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outubro 23, 2004

Um Martini e o Mar III


CENA ÚNICA

Uma mesa e duas cadeiras no centro de uma sala. Sobre a mesa, uma caneta e algumas folhas de papel. O resto da sala está vazio. As duas personagens estão sentadas de perfil para o público: O VENDEDOR DE PALAVRAS à direita e O CLIENTE à esquerda. Ambos têm os braços cruzados e olham-se fixamente nos olhos. De repente, o Vendedor de Palavras pega na caneta e olha para a folha. O Cliente baixa os olhos e coloca as mãos entre as pernas cruzadas: tem um ar tímido e apalermado.


O CLIENTE
E pronto, no fundo é isto. Já lhe contei tudo o que havia para contar...


O VENDEDOR DE PALAVRAS
Muito bem. Portanto, o que nós temos aqui é uma pequena recordação de infância, não é verdade?


O CLIENTE, levantando um pouco os olhos.
Sim, é isso. Assim, na conversa, não me custa nada contar o que se passou. O problema é que preciso de um texto escrito. Foi por isso que vim até aqui. Preciso da sua ajuda...


O VENDEDOR DE PALAVRAS
Muito bem, muito bem. Recapitulemos. Quando o Senhor era novo, uma criança para dizer a verdade, o seu pai levava-o todos os dias para a praia para beber um martini...


O CLIENTE
O meu pai.


O VENDEDOR DE PALAVRAS, após uma pausa.
O que é que tem o seu pai?


O CLIENTE, lentamente.
Era o meu pai que ia beber um martini, não era eu. Como disse, eu ainda era uma criança.


O VENDEDOR DE PALAVRAS
Claro, o seu pai, eu tinha percebido. O seu pai ia à praia beber um martini, e levava-o com ele.


O CLIENTE, sorrindo.
Nem mais.


O VENDEDOR DE PALAVRAS
E, se percebi bem, ele levava-o por causa da sua mãe. Sejamos claros: o seu pai era alcoólico. E a sua mãe sabia-o. Portanto, ele utilizava-o. O Senhor era o perfeito álibi.


O CLIENTE, baixando os olhos constrangido; há pausas e hesitações entre as frases.
Sim... mas... sabe, na altura, eu não tinha consciência disso. Era uma criança. Amava o meu pai. E acreditava, ou pelo menos queria acreditar, que ele me levava para que eu pudesse brincar um pouco à beira da água. Ainda hoje, gostaria ainda de poder...


O VENDEDOR DE PALAVRAS
Muito bem, muito bem, a gente já volta aos seus desejos. Mas agora, adiante: já deu para perceber que o mar para si era algo... digamos... de importante. Ou, pelo menos, causava-lhe um certo impacto. Gostava bastante do mar, não é verdade?


O CLIENTE, sorrindo de novo.
Sim, gostava muito. Mas, não sei se está a ver, o mar, para mim, nunca foi um sítio, um local onde se pudesse estar: era mais um evento. Uma coisa que acontecia, uma espécie de espectáculo a que se poderia assistir sem lá estar verdadeiramente...


O VENDEDOR DE PALAVRAS
Muito interessante, muito interessante (escreve na folha). O Senhor disse que o mar, e estou a citá-lo, era (gesticulando) «algo de muito grande e de muito azul, com a espuma das ondas e o ruído das gaivotas... e, caralho, as gaivotas, cheirava muito a gaivotas...». Não se importa que mude este palavrão por um outro, pois não?


O CLIENTE
Não, não, claro que não. Aliás, é esse precisamente o seu trabalho, não é? Vender-me novas palavras.


O VENDEDOR DE PALAVRAS, muito sério.
Nada disso, meu caro amigo, está redondamente enganado: eu apenas utilizarei palavras que tenham sido ditas por si. Eu não sou um dicionário ou um lexicólogo. O meu trabalho, aqui, não é vender-lhe palavras, mas dar, às suas palavras, uma nova ordem. De resto, se eu lhe vendesse, como disse, «novas palavras», bem gostaria de saber o que é que faria com elas... Enfim, em todo caso, não pude deixar de reparar que as gaivotas também o impressionavam muito...


O CLIENTE
É. Sabe, como é que eu hei-de explicar, se o mar fosse uma... uma peça de teatro, as gaivotas seriam as três pancadas de Molière... Acontecia-me muitas vezes ser apenas neste momento que me apercebia de estar à beira mar. Ou melhor: me dava conta que o mar tinha começado. (Pausa; baixa os olhos) De qualquer forma, eu gostava muito das gaivotas, gostava muito...


O VENDEDOR DE PALAVRAS, interrompendo.
...das gaivotas e da água. Aproveitava o facto do seu pai estar distraído para ir para a água. E é essa, no fundo, a sua história: a atracção pela água...


O CLIENTE, levantando o dedo timidamente.
Não, não, nada disso...(Pausa) Quero dizer, não é bem isso. A minha história é mais a parte em que mijei nos calções. É esta a parte engraçada. Pelo menos, acho que tem alguma piada (começa a rir um pouco, mas cala-se de imediato). E, para além do mais, parece-me que é disto que o blog precisa: uma história engraçada que me tenha acontecido, em poucas páginas.


O VENDEDOR DE PALAVRAS, irritado.
Tudo bem, tudo bem. O cliente tem sempre razão. Vamos lá então à sua história de mijo... Diga-me, por que é que se mijou todo? O Senhor estava assim tão à rasca?


O CLIENTE
Quero dizer... estava e não estava... Olhe, não quero que fique a com a impressão de que eu era um mau rapaz... Era apenas distraído, só isso. Olhava para um barco e imaginava-o logo a levantar voo em direcção ao céu... E depois, há também que ter em conta o barulho da água. A água a correr, não sei se consigo é o mesmo, mas a mim dá-me vontade de mijar...


O VENDEDOR DE PALAVRAS, cada vez mais impaciente,
esfregando as mãos sobre o rosto.

Certo, certo, mas aqui, a gente, ou pelo menos eu, estou a tentar escrever um texto sério. E eu não vou enchê-lo de mijo, caramba. «O mijo e o mar», agrada-lhe o título?


O CLIENTE, timidamente.
Bem... é uma ideia...


O VENDEDOR DE PALAVRAS
É isso é... uma ideia. (Põe a caneta na boca e olha para os apontamentos durante algum tempo.) Diga-me, o que é sentiu, ou melhor, o que é que lhe agradou mais quando mijou na água?


O CLIENTE, surpreso.
O alívio, talvez. Sim, o alívio e o conforto da urina quente sobre a pele.


O VENDEDOR DE PALAVRAS
Só isso?


O CLIENTE, pensativo.
Sim, só isso... Isso e talvez o prazer do interdito. É. Sem dúvida, também isso: o saber que estava a fazer algo que não podia fazer. O prazer da transgressão. Às vezes, o que corria mal era ter que ouvir a minha mãe quando chegava a casa. Mais do que uma vez, ficava de castigo sem almoçar. E ela fazia cá uns assados...


O VENDEDOR DE PALAVRAS
E é assim que termina a sua história? É assim a cair pró fracote, não acha?
martini3.jpg
Não, não, não pode ser. Assim, não dá... Ouça: se quer que eu faça uma omelete, tem, pelo menos, que me dar os ovos…


O CLIENTE, encolhendo os ombros.
Mas o que lhe contei é a verdade. Não tenho mais a nada a acrescentar.


O VENDEDOR DE PALAVRAS, gesticulando.
A verdade, a verdade... A gente está-se a cagar para a verdade. Ou melhor, também lhe pode mijar em cima, que não precisamos dela para nada. (Pousa a caneta na mesa e olha o cliente nos olhos) Repare: o que a gente precisa é de verosimilhança. Nada mais do que isso. Sabe, talvez a memória seja o sítio onde as coisas acontecem pela segunda vez, mas a escrita é sempre uma traição à memória. A gente bem pode tentar tudo e mais alguma coisa para lhe ser fiel, mas será sempre em vão... Quando se quer escrever sobre uma coisa, acaba-se sempre por escrever sobre outra. É sempre uma «première». Mesmo quando relemos um texto pela décima vez, é sempre um novo mundo que nasce perante os nossos olhos. Olhe, não sei, pense em Leibniz, pense nos idealistas, pelo amor de Deus. Escrever sobre alguma coisa é, no mínimo, alterá-la. Por isso, o meu conselho é que devemos tirar proveito disso. É preciso sonhar quando se escreve: é preciso ser feliz.


O CLIENTE, coçando a cabeça.
Vai-me desculpar, mas não estou a perceber...


O VENDEDOR DE PALAVRAS
Ouça: como é que mudaria a sua história para que ela pudesse ser uma boa recordação? Haveria nela lugar para um pai alcoólico que não liga puto ao filho?


O CLIENTE, baixando os olhos.
Não... não haveria.


O VENDEDOR DE PALAVRAS
Então...?


O CLIENTE
Gostaria que ele viesse ter comigo à beira da água. Quando a água começava a arrefecer, sentia-me muitas vezes só e melancólico... Triste, posso dizer que ficava triste...


O VENDEDOR DE PALAVRAS, tirando apontamentos.
Muito bem, continue...


O CLIENTE
Gostaria... gostaria de poder senti-lo ao pé de mim, tal como era capaz de sentir as gaivotas. Às vezes sentia-me tão vazio. Sentia-me oco por dentro. Tinha a impressão de ter espaço suficiente dentro do corpo para poder engolir o mar inteiro. Mas a culpa não era bem dele: deveria ter-lho dito. Não era tarde demais, deveria tê-lo dito. Mas as palavras, sabe, nunca tive jeito com as palavras... E durante muito tempo, pensei que não tinha dito nada por pudor ou cobardia. Mas não. As palavras, puta que pariu as palavras. Mesmo que tivesse tido coragem, não teria sido capaz de as encontrar...


O Vendedor de Palavras continua a escrever sobre a folha durante alguns segundos.


O VENDEDOR DE PALAVRAS
Gosta de martini?


O CLIENTE
Nem por isso...


O VENDEDOR DE PALAVRAS
Tudo bem, não tem importância....


Escreve ainda uma ou duas linhas. Pouco depois, sorri.


O VENDEDOR DE PALAVRAS
Está pronto. Pode ler.


O Vendedor estende ao folha ao Cliente. Este olha para ela. Pausa. O Cliente coça a cabeça novamente.


O VENDEDOR DE PALAVRAS, com um ar paternalista.
Ao contrário…


O CLIENTE
Como...?


O VENDEDOR DE PALAVRAS
Ao contrário. Tem a folha ao contrário…


O Cliente faz um sorriso embaraçado e roda a folha. Abre a boca e ouve-se, em off, a voz do Vendedor:


«Aos domingos de manhã o meu pai levava-me à praia para tomar um martini e antes do assado da minha mãe havia o mar. Haver o mar era então despir-me lentamente da criança que eu era e esboçar sobre a areia ainda fria diagonais insuspeitas em direcção à água, enquanto o meu pai se ia afogando na leitura cinzenta de pesadíssimos jornais. Neste preciso momento em que a mão me trai e escreve com urgência, o que se me encosta à memória é a imagem de uma imensidão quase azul a espumar-se de brandos rumores salgados e o cheiro a asas. O grito das gaivotas, meu deus, lembro-me tanto do grito das gaivotas. É um grito alado, distante de agudeza, e que apenas é plausível ali, à beira do mar: de outra forma não o ouviríamos: de outro modo não estaríamos lá. Eu demorava sempre, no ritmo pendular do meu pai, meio martini até introduzir os pés na água. Depois era fazer os possíveis para que as ondas nunca molhassem os calções e sintonizar o olhar (hoje, a memória) na mancha efémera de um barco qualquer que desfiasse a minha imaginação ao levitar-se trémulo um pouco acima do limite do mar. Lembro-me que houve uma vez em que eu, embriagado pelo ressoar contínuo das águas, me distraí e me mijei todo. Recordo o líquido quente a correr pelas pernas e como aquilo tudo (pelo alívio, pela transgressão e pelo conforto) me soube estupidamente bem. Poderia lá ficar durante alguns breves minutos ou até quase uma hora, mas uma coisa era certa: no instante em que me sentisse a resvalar para a melancolia, no meu ombro vinha poisar em silêncio a mão do meu pai. E aos domingos de manhã, quando o meu pai me levava à praia para que em mim houvesse o mar e antes do sermão da minha mãe, vinha à tona de nós uma palavra que não me atrevo a escrever porque na minha família há uma coisa que se chama «pudor nos sentimentos» e até porque (vejam só) o meu martini e este pôr-do-sol estão, sinceramente, a acabar.»


O PANO CAI SOBRE O PALCO


Pausa durante alguns segundos (palmas, palmas). Depois, por detrás do pano, ouve-se:


O CLIENTE
Mas... apesar de tudo, estas palavras...


O VENDEDOR DE PALAVRAS
Sim...?


O CLIENTE
Não são minhas, estas palavras...


O VENDEDOR DE PALAVRAS
Não se preocupe. As palavras, a gente pede-as emprestadas: mesmo na sua desordem, elas não pertencem a ninguém...

Publicado por João Pedro da Costa às outubro 23, 2004 10:11 PM

Comentários

Gostei do teu blog. Parabéns :) Continua.

Publicado por: JGSC em outubro 24, 2004 04:24 AM

Um Martini e o Mar I levou-me de imediato para o argumento e cenário de uma das primeiras histórias que contei a mim próprio. Teria cinco anos e corria junto a uma parede do edificio do Jardim Infantil num intervalo de brincadeira. A cobro das gotas que, grossas, tombavam do telhado. Nas mãos, um pau, a fazer de G-3. No molhado a hipótese de ser ferido, pelo inimigo: estava na trincheira e não podíamos sair prá chuva. Era acompanhado por um parceiro invisivel: o meu filho, que, não pudera manter-se com a mãe... Aquilo é que foi sofrer; estar numa Guerra com um filho para proteger. E o pobre tinha que me acompanhar, a correr, para debaixo das copas dos ciprestes, senão levava com as balas, tinha também de saltar poças de água senão rebentava com as minas...que delírio, que delírio.

Meu filho Manuel disse-me que queria ser pai quando for grande.

Publicado por: João Ribeiro em outubro 24, 2004 06:51 PM

:)

Publicado por: João Pedro da Costa em outubro 24, 2004 07:13 PM

Excelente ! ...

Publicado por: Eufigénio em outubro 24, 2004 10:07 PM

as palavras do vendedor pecam por defeito. são mesmo de venda a saldo, daquelas que de facto não são de ninguém: são de quem as apanhar, porque mais que isso não merecem. dá uma hipótese ao cliente de reescrever. esse sim, deve ter palavras "nossas"

Publicado por: ana margarida em outubro 24, 2004 11:51 PM

Ali o Vendedor de Palavras projectou-me na mente a imagem de Freud numa das suas sessões de Psicoanálise.

E desconfio que ainda o vamos 'ver' por cá mais vezes... não?

:-)

Publicado por: riacho em outubro 25, 2004 06:31 AM

É provável. Depende do preço das consultas.

Publicado por: João Pedro da Costa em outubro 25, 2004 04:54 PM