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novembro 30, 2004
peixinhos vermelhos [narração I]
Desculpa-me, meu amor, mas adoro, assim, sem mais nem menos, falar alto quando estou sentado na retrete à espera que o Reverendíssimo Cagalhão me faça o favor de descer indolormente da Excelência do meu Ânus. Claro que são cogitações absurdas, rasgos incoerentes e surrealistas de um pensamento mais do que automático, de fazer corar um André Breton, porém confesso-te que me revejo ao improvisar monólogos cheios de metáforas impossíveis, de imagens caóticas e de metonímias longínquas, sem saber muito bem como ou quando as irei terminar, na errância monótona de uma ideia ávida de imagens que a possam fixar. Por vezes, meu amor, recito merdas dessas durante longos minutos. Claro que tudo isto escrito, preto sobre branco, tinta sobre papel, seria uma valente porcaria, um absoluto vómito, contudo assim em palavras soltas, leves, trémulas, espaçadas por pausas variáveis da minha variável hesitação e materializadas na minha voz ora rouca ora aguda, consigo ainda encontrar nelas uma beleza sublime de um animal africano em vias de extinção que não encontra parceira para se encarecer.
E, confesso-o a ti, meu amor, comovo-me que nem uma criança.
É óbvio que agora que estás tão próxima de mim, já não sinto tanta necessidade dessas merdas. Agora que estamos juntos, elas já deixaram de ser vitais. Recordo-as talvez devido a uma portuguesíssima saudade congénita de navegador solitário que apodrece de escorbuto no alto mar, não sei bem. Talvez tenha de te pedir desculpa. Desculpa. Não deves interpretar estes devaneios como indícios de um cansaço em relação à intensidade de nós nesta última semana. Não, meu amor, não deves. Se calhar, o que se passa é que não estou habituado a tanta felicidade. É isso. Por vezes, sinto-me como um daqueles pássaros exóticos nascidos em cativeiro que um belo dia se vê com veemência solto do seu mundozinho fechado, e que voa assim, embriagado de tanta liberdade, em direcção à morte, em direcção a horizontes longínquos, por cima de imensas paisagens unas que não se encontram seccionadas pelas barras oxidadas de uma gaiola, cujas marcas ainda continuam gravadas na liquidez vibrante da sua retina. Admito-o, meu amor, a felicidade é de uma violência infinita.
Gostaria de saber, meu amor, como é que fazes para te moveres assim, como um fantasma, sem que me aperceba dos teus movimentos. Deve ser, concerteza, apenas mais uma obra desta arte mágica exclusiva das mulheres. Não, não, nada disto me assusta. Pelo contrário. Acho fascinante o facto de te arrastares invisível atrás de mim como uma sombra luminosa neste mundo de trevas que é o meu. Onde quer que esteja no meu apartamento, sei que se olhar para trás verei a omnipresença do teu corpo pálido e dos teus olhos lívidos, e sei, meu amor, que a qualquer momento estaremos os dois a rebolar pelo chão perante o olhar parvo do Camilo.
(A propósito, tenho a certeza que ele gosta de ti. Sempre que te aproximas, sinto nele uma agitação que só posso interpretar como o sintoma de um afecto. É. Ele adora-te.)
Enquanto houver música neste planeta como a dos Tindersticks, a dor e o prazer nunca serão próximos, mas uma única coisa só. Era sempre em parvoíces dessas que pensava, meu amor, quando, antes de te conhecer, passava horas deitado na cama às escuras, que nem um urso polar em hibernação, a ouvir nos auscultadores a voz rouca do Stuart Staples a sussurrar palavras que os lábios iam repetindo num subserviente sincronismo. Antes de ti, meu amor, posso dizer que eram estes os únicos momentos em que se me afigurava credível o facto de estar vivo. Eram os únicos instantes em que chegava a duvidar da certeza de ser um monte configurado de plasmas e de tecidos embebidos em hemoglobina que se movimentam por razões de simples mecânica inerente ao suceder monótono dos dias e à insustentável previsibilidade das noites. E foi num desses serões que te vi pela primeira vez. Adormecera exausto. Às vezes, isto acontecia: após horas de repetidas audições e de inalações de alcatrão nicotinado por ervas dos trópicos, o sono derrubava-me e acordava a meio da noite, irrequieto, com a pulsação acelerada e um intenso sabor a sangue na boca em frente da indiferença tecnológica das luzinhas vermelhas e esverdeadas da minha aparelhagem. Foi neste estado que despertei nesse serão exemplar, tirando o facto de não haver qualquer luz à minha volta. Estava submerso na escuridão. Naturalmente, meu amor, pensei que a ficha do meu hi-fi se tinha desprendido da tomada ou então que tinha havido, muito simplesmente, uma falha de corrente. Soergui-me da cama a muito custo e nunca antes este corpo me parecera tanto um fardo incómodo e pesado que teria de carregar durante não sei quanto tempo, não sei muito bem porquê, e ainda muito menos para onde. Atravessando o negrume, dei dois passos que deveriam me conduzir à parede onde estaria o interruptor. Estendi o braço para tocar com a mão a parede e nada – a parede não estava lá. Perplexo, voltei a dar outro passo, convencido que iria bater com a cabeça na parede, mas não. Estendi de novo o braço e o ímpeto do vazio desfez-me no momento o corpo em pânico. Não te sei dizer, meu amor, quanto tempo fiquei assim parado, sem me conseguir mexer. Só sei que naquele instante me apercebera de imediato da anómala solidão em que me encontrava, e o desespero fermentava dentro de mim em espasmos de dor. Após este espaço de tempo que não consigo contabilizar, tornei a abrir os olhos e, mais uma vez, as trevas inundaram-me em toda a sua pujança, enchendo-me os pulmões e penetrando-me aos assobios pelos poros da pele. Comecei então a movimentar-me neste éter inverosímil, ciente de que não iria encontrar nada. Pensamentos fugazes navegavam na minha mente como pequenos navios bidimensionais singram num mar de basalto. Tinha a certeza de que, das profundezas insondáveis da escuridão, tinham rompido em silêncio imponentes colunas de pedra que se prostravam debaixo dos meus pés impedindo a queda iminente, e que, mal levantava um deles, estas se desfaziam em cinzas reagrupando-se como um disciplinado enxame de abelhas na precisa localização da minha próxima passada. Cansado de tanto deambular, resolvi parar. Continuava de pé. Não ousava sentar-me, com medo que não houvesse um número suficiente desses insectos voadores para suster toda a superfície do meu corpo. Sentia uma faminta necessidade de me tocar, de sentir nas palmas das mãos a materialidade do meu corpo. Embora esse contacto nunca tivesse sido dantes suficiente para confirmar minha existência, confesso-te, meu amor, que, naquelas bizarras circunstâncias, ele cumpria esta missão. Enquanto estive assim parado, lembro-me que a minha única preocupação residia no facto de não saber o que fazer para me entreter. Estava curiosamente mentalizado da permanência, da imutabilidade do meu estado errante neste universo oco e o tédio ia-se tornando insuportável. A minha angústia podia resumir-se na minha incapacidade em preencher o tempo. Nada mais. Curioso, não é?
Merda. Peço-te imensa desculpa, meu amor. Por ele. Não consigo compreender este gato. Caralho. Ele consegue ser realmente inoportuno. Espero que não te tenha ferido. Ai ai, deixa-me ver se é grave. Não, tens um pequeno arranhão na orelha, mas nem sequer está a sangrar. O Camilo tem uma forma muito peculiar de demonstrar o seu afecto às pessoas... Não lhe ligues, meu amor, não há nada a fazer, ele é mesmo assim: imprevisível e misterioso. Sabes que nunca o ouvi miar? O seu estado “normal” é estar nesta pose de observador cauteloso por detrás do seu olhar de vidro. Às vezes, preciso de sentir a sua pulsação para ter a certeza que não está morto e empalhado. E depois, assim de repente, tem dessas explosões de adrenalina ou o raio que o parta. Há dias, saltou para o chão numa histeria louca e começou a urinar e a defecar durante quase um minuto como se estivesse possesso por um demónio. No fim, o monte de merda ao seu lado no tapete era maior do que ele. Já me passou pela cabeça, bem mais do que uma vez, ver-me livre deste gajo, mas não tenho coragem. Já te tinha dito, meu amor, que o encontrei na rua há cerca de dois anos? Estava todo encharcado. Peguei nele e parecia um cadáver tenso e gelado. Tinha aquela coleira com o nome. O nome, claro, foi o nome que me conquistou. Também, só mesmo com este nome, porque para animais já me basta a barulheira dos que o meu vizinho de baixo tem na sua loja. A propósito, meu amor, esta semana eles têm estado incrivelmente silenciosos. Estranho, não é? Enfim, quando cheguei a casa, lavei-o, sequei-o, e dei-lhe de comer. Habitou-se de imediato à casa e arranjou logo um sítio para ele, em cima do armário, ao lado do meu aquário de peixinhos vermelhos. Nunca tive medo que os atacasse. Nada disso. Desde o primeiro dia que reparei que olhava para eles com uma minuciosa atenção de relojoeiro solitário, diria mesmo com um certo respeito protocolar de embaixador asiático num país europeu. É mesmo flipado. Passa a maior parte do tempo a olhá-los, daquela maneira esquisita, extremamente compenetrado naquilo que está a fazer. Confesso que, desde a tua chegada, está mais inquieto. Todavia pensava que era bom sinal. Olha, sabes que mais? Que-se-fô-da. Se voltar a ser assim bruto contigo, meu amor, juro-te que o esquartejo. Ouviste Camilo? Acho bem. Mas afinal estava-te a contar... Bem, já agora, aproveito esta pequena interrupção para puxar o autoclismo. Dantes era tão sensível aos odores dos esgotos, mas há dias que tudo me cheira a nada. Uma constipação, talvez, não sei. Vou para a sala. Sei que quando chegar lá e olhar para trás, estarás, como sempre, atrás de mim, sem que saiba como. Pareces voar pelo espaço, meu amor, e a mim custa-me tanto andar.
É como se arrastasse mais uma pessoa estranha para além deste outro estranho que sou eu.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:01 AM | Comentários (10)
novembro 29, 2004
Aviso à navegação
Nos próximos cinco dias, encontrar-me-ei num sítio longínquo, onde (garantem-me) não será possível aceder à Internet.
Desta forma, eu, que sou um gajo precavido, deixei a fermentar quatro posts (correspondentes às quatro partes narrativas dos peixinhos vermelhos), que serão publicados diariamente a conta-gotas. Não estranhem, portanto, se não responder aos vossos amáveis comentários ou se deixar de visitar os vossos blogues: é sinal que estou a brincar na neve.
Façam-me o favor de desbundar esta merda.
Um abraço a todos.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:34 PM | Comentários (10)
Post naïf

Publicado por João Pedro da Costa às 12:58 AM | Comentários (12)
Cray pas #3 (auto-retrato)

Não é bem «auto», mas... enfim: adiante.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:53 AM | Comentários (16)
novembro 28, 2004
2 em 1

Publicado por João Pedro da Costa às 12:02 AM | Comentários (23)
novembro 27, 2004
peixinhos vermelhos [fragmento V]

Publicado por João Pedro da Costa às 10:56 PM | Comentários (1)
peixinhos vermelhos [fragmento IV]
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Publicado por João Pedro da Costa às 10:54 PM | Comentários (1)
2004: o meu ano musical

Foram estes os discos que mais me marcaram em 2004. Ou melhor: foram estes os discos, lançados ao longo do ano, que mais me marcaram em 2004. A nuance é importante: um gajo acaba sempre por ouvir discos de anos anteriores que nos deixam fascinados, o que faz com que a presente lista seja, inevitavelmente, temporária.
Mas vamos a números. Ao longo do ano, comprei 81 discos, dos quais 57 foram editados em 2004 (esses números são uma boa explicação para o estado lastimável do meu guarda-roupa) e terei provavelmente ouvido outros tantos entre cópias gravadas e empréstimos. Houve imensa música editada este ano que me passou ao lado e que espero ouvir num futuro próximo. E houve imensa música que, apesar de reconhecer nela uma grande qualidade, não fez vibrar a minha corda sensível (dois exemplos: The Streets e Dizzie Rascal). Tudo isto apenas para dizer que esta lista, muito mais do que fornecer informações sobre a boa música que saiu este ano, acaba por ser uma pequena descrição dos meus gostos musicais.
Eu adoro listas do tipo «os melhores do ano». A sério. Adoro lê-las, compará-las e depois confrontá-las com os meus próprios gostos. Fico sempre siderado quando um crítico A gosta de um disco B que eu abomino. Mexe muito comigo. Um exemplo: o último álbum do Leonard Cohen é, para mim, uma valente merda (e eu até sou um fã incondicional dos quatro primeiros álbuns do senhor). Pois bem, há quase um consenso unânime na crítica musical sobre a qualidade do disco. Adoro essas listas pelas exactas razões que fazem com que outros as possam considerar abomináveis: são arbitrárias, ridículas, fruto do acaso e escondem por vezes razões que não têm nada a ver com a qualidade intrínseca dos discos ordenados. Eu acho isso óptimo. São a minha cara chapada.
O meu ano musical, portanto. Vamos por partes. Em primeiro lugar, as estreias. Houve duas absolutamente fulminantes: os Franz Ferdinand e Devendra Banhart. Os primeiros fizeram um disco pop como já não ouvia um desde o DIFFERENT CLASS dos Pulp. Basta olhar para os singles: «Darts of Pleasure», «Take Me Out», «Matinée», «Michael» e «This Fire». É um disco da velha escola, com guitarras a abrir, algo a fazer lembrar uns Talking Heads do séc. XXI. É, muito provavelmente, o disco que mais ouvi este ano. Quanto a Devendra Banhart, as razões são óbvias: não é impunemente que se edita, no mesmo ano, dois discos tão admiráveis como REJOICING IN THE HANDS e NIÑO ROJO. Revelação do ano.
Quanto à galeria de artistas pop que fazem parte do meu panteão musical, confesso que 2004 foi um ano mau. Houve grandes e inesperadas desilusões: Björk, Perry Blake, Kings Of Convenience, Ethienne Daho, Badly Drawn Boy e REM, só para citar os casos mais gritantes. Quem acabou por salvar a honra ao convento foram a P. J. Harvey (um autêntico relógio suiço), os Air (que publicaram o seu melhor disco), Elliott Smith (um belíssimo disco póstumo) e, é claro, aquele que foi, para mim, o disco do ano: LOVE SONGS FOR PATRIOTS dos American Music Club. Também descobri grandes discos vindos de sítios inesperados: o segundo álbum dos N*E*R*D, A GHOST IS BORN dos Wilco, I NEED YOU dos Ill Lit e SEVEN SWANS de Sufjan Stevens, tudo gente que não conhecia em 2003. Para terminar, numa categoria absolutamente à parte, o mítico SMILE de Brian Wilson, uma absoluta obra-prima: contagiante e intemporal.
Olho para a lista e lamento a ausência de discos portugueses. O defeito é meu. CINEMA do Rodrigo Leão e os discos de Balla e Bullet merecem aqui uma menção especial. E depois há o disco dos Pluto, BOM DIA, absolutamente assassinado pela lamentável produção do Mário Barreiros. Foi uma pena, pois o disco tem lá grandes canções.
Para terminar, uma lista de outros álbuns que marcaram o meu 2004 musical e que, sejamos sinceros, poderiam perfeitamente integrar a minha selecção de melhores do ano, caso tivesse escrito o post noutro dia qualquer: LIFEBLOOD (Manic Street Preachers), HEROES FOR ZEROS (The Beta Band), TWO WAY MONOLOGUE (Sondre Lerche), TO THE 5 BURROUGHS (Beastie Boys), SUNG TONGS (Animal Collective), DANNY, THE DOG (Massive Attack), YOU ARE THE QUARRY (Morrissey) e I (The Magnetic Fields).
Possa esta lista proporcionar a alguém bons momentos de música.
Saudações melómanas.
PS: esqueci-me de referir outro disco fundamental de 2004 (cabeçáminha): a banda sonora de LOST IN TRANSLATION. Imperdíveis. A banda sonora e o filme.
Publicado por João Pedro da Costa às 06:07 PM | Comentários (14)
peixinhos vermelhos [fragmento III]

Publicado por João Pedro da Costa às 01:42 AM | Comentários (6)
novembro 26, 2004
peixinhos vermelhos [fragmento II]

Publicado por João Pedro da Costa às 09:50 PM | Comentários (8)
As promessas do Movable Type...

Era bom, não era?
Publicado por João Pedro da Costa às 05:26 PM | Comentários (6)
peixinhos vermelhos [fragmentos I]



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Publicado por João Pedro da Costa às 03:28 AM | Comentários (17)
novembro 25, 2004
peixinhos vermelhos [epígrafe]
Meu corpo. Meu irmão. Sem princípio nem fim. Foi tão bom ter nascido meu corpo. Quanta coisa me aconteceu contigo – a vida é tão maravilhosa. Vi a terra e a luz, os bichos e as flores, tive nas mãos as pedras, a lama, o suave corpo da mulher. E como Deus, após a criação, vi que tudo era bom.
VERGÍLIO FERREIRA
Publicado por João Pedro da Costa às 10:44 PM | Comentários (5)
peixinhos vermelhos [aviso]

Publicado por João Pedro da Costa às 10:40 PM | Comentários (14)
Cray-Pas #2

(sussuro) Por favor, façam pouco barulho, que a Ziggy está a dormir...
Publicado por João Pedro da Costa às 04:13 PM | Comentários (10)
novembro 24, 2004
Imagens que me fascinam #3

Eu sei que é o truque mais antigo da animação em 3D, mas fico sempre parvo quando vejo esses dois bonecos semi-submersos a valsar.
Publicado por João Pedro da Costa às 07:54 PM | Comentários (13)
A propósito de mapas, duas borgices
Do rigor em ciência
Naquele Império, a Arte da Cartografia conseguiu tal perfeição que o mapa de uma só Província ocupava toda uma Cidade e o mapa do Império toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmesurados não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele. Menos Dadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes consideraram que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos. Não há em todo o País outra relíquia das Disciplinas Geográficas.
Epílogo
Um homem propõe-se a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naves, de ilhas, de peixes, de quartos, de instrumentos, de astros, de cavalos, de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que este paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto.
Jorge Luís Borges, EL HACEDOR, 1952
(Este post é mesmo o ponto alto d'As Ruínas, não é?)
Publicado por João Pedro da Costa às 07:44 PM | Comentários (9)
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Publicado por João Pedro da Costa às 12:05 AM | Comentários (41)
novembro 23, 2004
O fim de um mito
Aqui.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:23 PM | Comentários (10)
Os coelhinhos maluquinhos

Eu nem sequer sei como te chamas, mas não faz mal, pois ambos sabemos que há coisas que não se devem dizer a estranhos (eu chamo-me João Pedro). Apenas sei que tens 9 anos e, acredita em mim, um imenso talento para o desenho. Resolvi fazer este «post» (pergunta à mãe, que ela explica), porque acho este teu «coelhinho maluquinho» a coisa mais bonita que vi este ano. E já estamos em Novembro, não é?
(Vai treinando: an-di rai-li)
Um grande beijinho e obrigado.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:17 AM | Comentários (24)
Imagens que me fascinam #2

Mapas. Adoro mapas. Mas não fiquem a pensar que isto corresponde a alguma tara erudita ou sofisticada. Nada disso. É óbvio que não sou insensível à cartografia medieval ou aos belíssimos mapas do séc. XVIII, mas o que me fascina mesmo são os mapas da nossa era, impressos em série e descartáveis, que se podem comprar por 10 Euros em qualquer bomba de gasolina.
Para mim, o fascínio de uma mapa é, quase sempre, inversamente proporcional à sua escala. Um planisfério poderá ter a sua piada, mas o que eu gosto mesmo são os mapas de cidades. E isto prende-se com o facto desse meu interesse estar relacionado não com o «significado» do mapa em si, mas com o seu «significante». Dito de outro modo, é nos mapas urbanos que verifico quase sempre a densidade de elementos pictóricos que considero apropriada para que esses se libertem da sua condição de objectos úteis, chatos e repletos de informação topológica, para se transformarem em verdadeiros quadros nos quais não me canso de pousar o olhar.
(Vão por mim: andam por aí pequenos Pollocks. À mão de semear.)
Publicado por João Pedro da Costa às 03:39 AM | Comentários (21)
novembro 22, 2004
Post à Arquimedes

Publicado por João Pedro da Costa às 01:10 AM | Comentários (56)
novembro 21, 2004
Electroclash Ziggy
Uma série de factores, entre os quais destaco:
a) ter ido hoje a Serralves ver a exposição da Paula Rego;
b) a Netcabo não ter funcionado durante todo o dia;
c) ter uma gata que passou uma boa parte da tarde a dormir no meu quarto;
d) ser o legítimo detentor de uma valiosíssima caixa de pastéis a óleo da Cray-Pas; e
e) não dominar minimamente tão nobre material
fez com que eu pintasse a cabeça de uma gata

electroclash, vagamente inspirada na Ziggy.
(É impressão minha, ou até o raio da gata está a sorrir?)
Publicado por João Pedro da Costa às 11:06 PM | Comentários (11)
Fábula dos coelhos não suicidas [não é um «post bolha de ar», apenas um herzag ou, se quiserem, uma pequena actualização]
Era uma vez três coelhinhos pequeninos que disseram ao autor de um blog mau que não eram suicidas. Após o choque inicial, o autor do blog mau olhou para eles com genuína comiseração e explicou-lhes que ali não poderiam ficar, pois a qualquer momento poderiam ser chamados para um post suicida e que estava fora de questão fazerem figuras tristes (o autor tinha muito medo do blog mau). Por isso, a melhor solução seria aproveitar um intervalo entre dois posts e cada um deles carregar num dos hyperlinks existentes nas caixas de comentários para se porem a milhas dali. A única recomendação que o autor do blog mau lhes deu foi para não escolherem nenhum blog do weblog.com.pt, pois sabia que os dois gestores do mesmo eram igualmente entusiastas da referida carnificina (ele até lhes falou de um caso concreto, para que os coelhinhos soubessem que estava a falar a sério). Os três coelhinhos olharam para o autor do blog mau e, as vozes trémulas de emoção, disseram um uníssono obrigado. Foi um momento bonito, esse, no qual o autor do blog mau abraçou os três coelhinhos como se fossem um único corpo só. Antes de partirem, ele ainda lhes deu uma benção em HTML e um saco de cenouras para se alimentarem durante a viagem pela blogosfera. Os coelhinhos pequeninos acabariam por se fixar em três blogues diferentes (aqui, aqui e aqui), nos quais, e isto segundo a lenda, ainda vivem alegres e felizes. E sem qualquer pensamento suicida. Fica assim provado que a maldade de um blog não implica, necessariamente, a maldade do seu autor.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:18 AM | Comentários (9)
MUTTS reeditado em Portugal!!!
Ao abrir a minha caixa de correio, tinha lá uma simpática mensagem do Helder Raimundo que me alertava para o seguinte site, no qual se pode ler o seguinte:

Agora é só fazer figas para que a Devir edite todos os volumes. Prendas de Natal, já sabem: OS COELHINHOS SUICIDAS de Andy Riley (Europa-América) e este primeiro volume dos MUTTS (Devir). E vejam só como o Mooch fica tãããooo sexy a falar em Português:

Helder Raimundo: um grande abraço. E obrigado.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:29 AM | Comentários (3)
novembro 20, 2004
Paula Rego

A Paula Rego é um dos raros casos de artista em que simpatizo tanto com a obra como com a própria personagem. Não é só a sua figura de avó tresloucada (eu ia escrever «bruxa má»), mas sobretudo a genuína sinceridade e a desarmante ingenuidade de tudo aquilo que lhe sai pela boca. Ouvir falar a Paula Rego tem sido mesmo, nas últimas semanas, um dos raros prazeres que a televisão me tem proporcionado. As entrevistas, por exemplo, são sempre um mimo: por muito mau que seja o entrevistador, é sempre uma fonte inesgotável de prazer ouvir a forma como a Paula Rego responde às perguntas, anulando por completo a pertinência das mesmas.
Há cerca de duas horas, pude assistir a mais uma entrevista na RTP N. A entrevistadora, apesar da idade, até era esforçada e tentava disfarçar o nervosismo de estar a fazer perguntas a uma figura tão desconcertante como a Paula Rego. Bem, foi rir até doer. Transcrevo (de memória) algumas das partes mais geniais, sabendo contudo que falta aqui toda a pantonímia da pintora para terem total acesso à comicidade das suas respostas:
ENTREVISTADORA - Num trabalho feito em conjunto com a Agustina Bessa-Luís, «As Meninas», a escritora referiu que essa obra apenas tinha sido possível graças à solitude (sic) que ambas partilhavam. Considera-se uma mulher só?
PAULA REGO - Eu, quando era nova, estava sempre fechada em casa. Tinha medo de vir cá fora ao jardim por causa das moscas.
E - A predominância da temática feminina na sua obra tem a ver com o facto do Portugal em que nasceu e cresceu ser um país dominado por homens, onde as mulheres não tinham poder para agir?
PR - Pois tem. [silêncio]
E - Partiu para Londres aos 17 anos e sei que faz lá psicoterapia. É possível estabelecer uma relação entre a sua pintura e a psicoterapia? Pinta para afastar os seus medos?
PR - Credo, não. A única coisa que a psicoterapia faz é não termos vergonha de quem somos. O que dá jeito.
E - Então a sua pintura não é uma forma de substituir a psicoterapia?
PR - Claro que não. Para mim pintar é um ofício. É um hobby. Uma coisa que gosto de fazer nos meus tempos livres.
E - Mas sei que já disse que tinha vergonha de alguns aspectos da sua pintura. Quais são?
PR - Ah, isso já não me lembro. [silêncio novamente e a Paula Rego a fazer um daqueles seus sorrisos de orelha a orelha como quem diz: «sei, mas não te digo»]
E - Não terá sido por causa disso que a Paulo Rego já afirmou numa entrevista que gostaria que as pessoas não reconhecessem os seus quadros e que, ao vê-los, os atribuíssem a outra pessoa?
PR - Não, não, isso era para serem melhores. Se alguém visse um quadro meu e o atribuísse a outra pessoa, era sinal de que eles seriam melhores.
Peço desculpa pela heresia, mas estas respostas estão à altura de qualquer quadro.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:30 PM | Comentários (12)
Imagens que me fascinam #1

Quando era pequeno, passava horas a olhar para esta merda. Não me perguntem porquê.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:51 AM | Comentários (69)
novembro 19, 2004
Fábula dos coelhos não suicidas
Era uma vez três coelhinhos pequeninos que disseram ao autor de um blog mau que não eram suicidas. Após o choque inicial, o autor do blog mau olhou para eles com genuína comiseração e explicou-lhes que ali não poderiam ficar, pois a qualquer momento poderiam ser chamados para um post suicida e que estava fora de questão fazerem figuras tristes (o autor tinha muito medo do blog mau). Por isso, a melhor solução seria aproveitar um intervalo entre dois posts e cada um deles carregar num dos hyperlinks existentes nas caixas de comentários para se porem a milhas dali. A única recomendação que o autor do blog mau lhes deu foi para não escolherem nenhum blog do weblog.com.pt, pois sabia que os dois gestores do mesmo eram igualmente entusiastas da referida carnificina. Os três coelhinhos olharam para o autor do blog mau e, as vozes trémulas de emoção, disseram um uníssono obrigado. Foi um momento bonito, esse, no qual o autor do blog mau abraçou os três coelhinhos como se fossem um único corpo só. Antes de partirem, ele ainda lhes deu uma benção em HTML e um saco de cenouras para se alimentarem durante a viagem pela blogosfera. Os coelhinhos pequeninos acabariam por se fixar em três blogues diferentes (aqui, aqui e aqui), nos quais, e isto segundo a lenda, ainda vivem alegres e felizes. E sem qualquer pensamento suicida. Fica assim provado que a maldade de um blog não implica, necessariamente, a maldade do seu autor.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:22 PM | Comentários (17)
Listening sessions #11

Que Robert Wyatt continue a ser um desconhecido para muita gente com gosto musical apurado constitui, para mim, motivo para um infindável espanto. Ele anda nisto há mais de 30 anos. Primeiro como baterista dos SOFT MACHINE, uma das mais emblemáticas bandas piscadélicas da década de 60, e, depois, com aquela que considero ser a carreira a solo mais consistente de um músico saído de uma banda. Com intervalos consideráveis, Robert Wyatt publicou uma série imbatível de discos: THE END OF AN EAR em 1971 (free-jazz e rock progressivo); ROCK BOTTOM em 1974 (um clássico absoluto); RUTH IS STRANGER THAN RICHARD em 1975 (um regresso ao jazz no disco mais delirante que conheço), NOTHING CAN STOP US em 1981 (colectânea com os seus primeiros temas mais assumidamente políticos), OLD ROTTENHAT em 1985 e DONDESTAN? em 1991 (os dois discos que definiriam o som de Wyatt na década de 90), SHLEEP em 1997 (ou como um senhor de 50 anos produz o disco mais fresco da década de 90) e, finalmente, este CUCKOOLAND de 2003.
(Um parênteses: ao longo da sua aventura musical e política, Wyatt pode contar com a omnipresença de Alfreda Benge, sua mulher, uma magnífica letrista e pintora, que, de resto, assinou as capas de todos os seus discos a partir de ROCK BOTTOM. Penso que a seguinte amostra

é deveras eloquente. Fim de parênteses)
CUCKOOLAND foi, de longe, o melhor disco que ouvi em 2003. E estou em crer (mas só tempo o dirá), que este será o trabalho que pelo qual ele será recordado pelas gerações vindouras. Ouvir este disco é, literalmente, entrar num outro planeta. Apoiado por uma galeria sublime de músicos convidados (Annie Whitehead, Brian Eno, David Gilmour, Tomo Hayakawa, Karen Mantler, Phil Manzanera e Paul Weller), Robert Wyatt consegue emular uma sonoridade quase subaquática (isto parece uma estupidez, mas quem conhece o disco perceberá a alusão) que trespassa géneros musicais tão distintos como o Jazz, a Bossa Nova, os Blues, a pop nocturna ou a música árabe. Tudo regado com a sua voz inconfundível, que debita letras com uma sensiblidade política que não poupa nada, nem ninguém (apesar do imperialismo americano ser, de facto, o alvo preferencial).
Que mais posso eu dizer? Talvez isto: que este disco fecha com um tema, «La Ahada Yallam», cuja audição constitui uma panaceia infalível para todos os males que conheço (dores de cabeça, nariz entupido, reumatismo, dores de dentes e de barriga). Arranjem lá (já estavam à espera dessa parte, não estavam?) 3Mb no vosso e-mail, que a mesma seguirá num instante. Não contem paracetamol.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:20 AM | Comentários (21)
novembro 18, 2004
O meu coelho suicida #21 (o primeiro inter-blogues)

Da vontade ao acto ainda foi preciso esperar 52 horas, mas, caramba, a isto é que eu chamo pontaria...
NOTA: A Europa-América (sim, a Europa-América, eu também estou parvo) acaba de editar o 1.º volume dos Bunny Suicides de Andy Riley (ISBN: 972-1-05437-2). Agora, já não há desculpas para ninguém. Se não souberem o que comprar pró Natal...
Publicado por João Pedro da Costa às 05:06 PM | Comentários (26)
Mutts #11-13

Pois é. Acabo de receber mais um

volume dos Mutts, o oitavo, e, apesar das importações continuarem a chegar a conta-gotas, a verdade é que já só me faltam dois volumes para estar a par das edições americanas. Sobre o MUTTS, já disse praticamente tudo o que tinha a dizer aqui, embora não deixe de ficar sempre surpreendido com a regularidade do Patrick McDonnell: o presente volume, caramba, parece-me mesmo ser o melhor da série.
Não resisto a partilhar convosco mais duas tiras. Para além da óbvia genialidade do argumento dos gags (que rejeita linearmente qualquer visão antropocêntrica do mundo animal), chamo particularmente a atenção à velocidade e à precisão do traço de McDonnell:

(vejam só a maravilha que é aquela jarra de flores e a inacreditável expressividade dos desenhos de Mooch, o gato)

(e aqui como um simples traço vertical confere profundidade e dinamismo ao cenário - isto já para não falar naquela patita).
Publicado por João Pedro da Costa às 02:55 PM | Comentários (7)
novembro 17, 2004
Que raios
custa-me muito entrar no blog e não e ter lá logo o jacarandá a dar as boas vindas... Vou ver se resolvo isso.
Publicado por João Pedro da Costa às 07:28 PM | Comentários (7)
A compilação dos comentadores d'As Ruínas Circulares
Fruto da demência reinante nas caixas de comentários deste blog, organizei uma pequena colectânea com alguns dos temas que foram sendo por lá sugeridos. E raios me partam, se o alinhamento não é a cara chapada do universo que gravita em torno d'As Ruínas.
1. The Muppet Show Theme
(Jim Henson & Paul Williams)
2. «Main Title» – The Twilight Zone OST
(Bernard Herrmann)
3. «Singing In The Rain» – Singing In The Rain OST
(Gene Kelly)
4. «We Are The Famous Five» – The Famous Five TV Series OST
(Jack Beaver)
5. «Ouverture» – Bridge on the River Kwai OST
(Malcolm Arnold)
6. «Smoke On The Water»
(Deep Purple)
7. «Harmonica» – Once Upon A Time In The West OST
Ennio Morricone
8. «Run To The Church» – 6th Sense OST
(James Newton Howard)
9. «O Slow Que Veio do Frio»
(GNR)
10. «We Are the Champions»
(Queen)
(Não se arranja aí ninguém com pachorra para gravar esta cena num CD?)
Publicado por João Pedro da Costa às 07:13 PM | Comentários (15)
Em Lisboa há muitos, mas nenhum como este
AVISO: A presente entrada foi, entre as 16h27 do dia 17/11/2004 e as 16h04 do dia 19/11/2004 um Post Bolha de Ar, isto é, surgiu sempre à superfície do blog (o que poderá explicar o número javardo de comentários). Qualquer ficção entre o tema do post e os comentários é pura coincidência. Obrigado pela compreensão. A Gerência.

Eis, na minha opinião, o verdadeiro ex-líbris da Cidade do Porto. Plantado no último quartel do séc. XIX por iniciativa de Alfredo Allen (essa parte é só para me armar), o jacarandá do Largo do Viriato é o que de mais deslumbrante a cidade tem para oferecer. Tive a sorte de viver durante seis meses mesmo ali à beira, na Rua da Bandeirinha, e garanto-vos que poder ver esta maravilha todos os dias de manhã dá uma qualidade de vida à prova de bala. Apesar de ser em Maio que o jacarandá se torna particularmente inverosímil, a árvore mantém a sua opulência ao longo de todo o ano. Quando for grande, quero ser um jacarandá.
NOTA: esta foto é da autoria de Manuela Delgado Leão Ramos e foi retirada do livro À SOMBRA DE ÁRVORES COM HISTÓRIA, Porto, Campo Aberto, 2004. Recomendo vivamente a sua leitura.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:27 PM | Comentários (115)
AVISO
[Agora que o jacarandá já voltou ao seu lugar de origem, eu sei que deveria apagar o presente post. Acontece que o raio do gajo traz comentários agarrados à perna e por isso...]
Foi exactamente neste sítio e a esta hora que o post intitulado «Em Lisboa há muitos, mas nenhum como este» foi originalmente publicado. Devido à sua promoção a POST BOLHA DE AR, o mesmo poderá ser encontrado à tona deste blog (não há aqui nenhum truque sofisticado, basta alterar a data e a hora de publicação do dito post cada vez que mandar práqui um novo). Isto até o autor d'As Ruínas se cansar do mesmo (o que deverá ainda levar alguns dias).
Obrigado.
A Gerência.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:27 PM | Comentários (19)
novembro 16, 2004
E quando for grande quero ser
arqueólogo.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:25 PM | Comentários (29)
Post reaccionário

Dedico este post a todos os que estão fartos dos meus posts arqueológicos. Reparem: podem sempre encher o dito de água e aprimorar a vossa técnica de bruços.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:10 PM | Comentários (10)
O meu coelho suicida #20 (ou como espremer uma ideia até ao tutano)

Ainda tentei esconder o (resto do) cadáver, mas não vale a pena. Alguém acredita em mim se eu disser que, quando comecei a escavar o post, não havia coelho nenhum?
Pois, também me parecia.
Publicado por João Pedro da Costa às 07:00 PM | Comentários (13)
Ai ai ai, mas o que é isto?!?

[To be continued...]
Publicado por João Pedro da Costa às 03:10 PM | Comentários (19)
Post temporário
Andei o dia todo a tropeçar nessas

placas (despojos de um post anterior) e, por isso, resolvi deixá-las aqui arrumadinhas para acabar com a merda do estorvo e também para ver se consigo preservá-las das unhas dos meus gatos (aquilo de certeza que foi Xico). Quando arranjar lugar numa gaveta do meu quarto para as guardar, prometo que as tiro daqui. Se virem este post, por favor, assobiem para o ar e façam de conta que não viram nada. Obrigado.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:30 AM | Comentários (29)
novembro 15, 2004
Post sem jeito
O meu sincero obrigado ao Paulo Querido, ao Luís Ene e à Guida Querido pelo gentil destaque. Mexeu muito comigo.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:23 PM | Comentários (11)
Todos diferentes, todos binários

A partir de um belíssimo comentário do PN. Considera este post a minha forma desajeitada de te dizer obrigado.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:38 AM | Comentários (12)
Post arqueológico (ou como é feito um post)

De seguida, apesento uma fotografia tirada ao post antes de ter começado as escavações, medida que considerei essencial para a apropriada leitura do mesmo:

Publicado por João Pedro da Costa às 12:02 AM | Comentários (4)
novembro 14, 2004
A arte da levitação em 1,5Mb

Adoro ser apanhado de surpresa. Numa das minhas idas à FNAC, cruzei-me com o disco de um (na altura para mim) desconhecido Sufjan Stevens. Para além de uma rápida audição num ponto de escuta, o que verdadeiramente motivou a compra foi a capa (um mimo, não é?), na qual ecoa toda uma tradição de grafismo que pessoalmente adoro e que está obviamente ligada ao «American Dream» do pós-guerra.
O álbum é fantástico e não vejo a hora de pôr as mãos no outros discos desse senhor, que uma pesquisa na net revelou ser íntimo de um grupo de amigos que conheço bem: Howe Gelb, Mark Linkous e M. Ward. O mundo, de facto, é pequeno, e eu só vejo vantagens nisso. Para refinar um pouco o grau da coincidência, GREETINGS FROM MICHIGAN, como o próprio nome indica, é uma obra conceptual sobre o estado de Michigan, de onde Sufjan Stevens é natural, e ao ler o título da primeira faixa, «Flint (for the unemployed and the underpaid)», não pude deixar de me lembrar de Michael Moore e da sua obra-prima, ROGER & ME, cujo tema era precisamente as consequências dramáticas do fecho das fábricas da General Motors na sua cidade natal. Se vos disser agora que o documentário está cheio de coelhinhos «suicidas», ficam logo a perceber que, como dizia o Almada Negreiros, as coincidências não acontecem por acaso.
Mas o que motiva este post é uma pequena faixa instrumental do disco chamada «Redford». Se estiverem à procura de um momento zen, não procurem mais: arranjem lá 1,5Mb na vossa caixa de correio e deixem aqui um pequeno comentário. Levitação garantida.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:33 PM | Comentários (40)
O caminho para as ruínas é longo e tortuoso
Só agora mesmo (sou um gajo lento) é que reparei num dos quadros estatísticos oferecidos pelo weblog.com.pt, denominado SEARCH STRINGS. Se percebi bem, esse quadro contém uma ordenação, por número decrescente de ocorrências, das chaves de pesquisa que mensalmente trazem fregueses aqui ao sítio.
O de Novembro reza o seguinte:

Não preciso de dizer mais nada, pois não? Ponham-se a pau comigo.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:22 AM | Comentários (16)
novembro 13, 2004
Ninguém viu nada, pois não?
É, de facto, muito útil essa opção do Movable Type que permite apagar posts entretanto publicados.
Publicado por João Pedro da Costa às 07:42 PM | Comentários (10)
Efeméride (versão 2.1)
Os comentários d'As Ruínas acabam de ultrapassar os três dígitos e o comentário n.º 1000 foi publicado pelo Sharkinho. Toma lá um desenho feito especialmente para ti:

E vê lá se agradeces ao resto da malta, que se não fosse os outros 999 comentários não terias chegado aqui. Estamos todos muitos orgulhosos de ti: parabéns, carago.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:45 AM | Comentários (16)
novembro 12, 2004
Post enchido com palavras

Este post é gentilmente dedicado ao Carlos, por ter o único comentário lúcido numa caixa onde impera a insanidade mental ;)
Publicado por João Pedro da Costa às 05:11 PM | Comentários (14)
Os meus coelhos suicidas #19 (não há fome que não dê fartura)

Andy quê? Não, nunca ouvi falar.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:15 AM | Comentários (12)
novembro 11, 2004
Susana, meu amor
A blogosfera é um universo onde impera a inveja. Contra mim falo. Há pelo menos sempre uma coisa que invejo em todos os blogues que conheço. Às vezes são pequenos detalhes, outras vezes são coisas tão fundamentais que me pergunto seriamente qual é a pertinência do meu (ok, ok, não se entusiasmem...). No entanto, na última semana, as Ruínas adquiriram uma mais-valia da qual mais ninguém se pode gabar: a comentadora Susana. Infelizmente, tudo o que é bom acaba, e desconfio que a Susana tenha assinado contrato com algum dos «grandes» blogues portugueses (Suspeito deste, deste, deste e, claro está, também deste), votando-me a um miserável abandono.
Susana, meu amor: é óbvio que não posso oferecer-te aqui a visibilidade que te dará qualquer um desses blogues e que os tempos são de crise. Porém, permite-me que te lembre apenas que não há amor como o primeiro (este, por exemplo, foi um dos meus primeiros), e que não devemos nos esquecer de quem sempre nos recebeu de braços (e boca) abertos.
Em tua homenagem, deixo aqui um pequeno «reader's digest» dos teus comentários. E não te esqueças que haverá sempre um leitor atento de tudo aquilo que venhas a escrever neste humilde blog: «He's looking at you, kid.»
«Quem desdenha, quer comprar. João Pedro, converte-te, seu herege!
Ainda hás-de vir a ser padre, disso to garanto. In santum, transforma! Amén.»
«Nunca na minha vida darei graxa ao autor deste blog. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amén.(Pai, perdoai-lhe que ele não sabe o que diz.)»
«Petrus Deum non amat. Petrus fornicare cum santis putat!!!»
«Quem fala em impertinência? Afinal, assanhas-te contra uma Entidade Suprema porque tu próprio te achas o "máximo"! Um dia destes, quando entrar numa igreja, vou começar a oração da seguinte maneira: "João Pedro, que estás no céu, Santificado...". Não será mais adequado?!»
«Quem falou em dar utilidade ao latim? Para escrever frases como as que escrevi, além de me sentir particularmente orgulhosa (superba!), confesso que vale a pena estudar latim para afins tão sacrossantos.
Só uma achega. Plínio, tudo bem. Mas há melhor... Poeta Ovidius pulchras fabulas narrabat! Quando um dia estiverem bem enterrados na merda (eu sei, a minha linguagem não é propriamente poética) e virem os amigos todos a descambarem pelas ruelas do "não te conheço de lado nenhum", aconselho-vos a leitura dos Tristiae do autor supra-citado.»
«Se um homem me viesse falar nestes termos, utilizando esse tipo de expressão, saía da minha casca pseudo-burguesa e ataviava-lhe um belíssimo soco. Um conselho: pergunta à gente da terra o que "arreganhar o ouriço" significa. Talvez te apareça numa esquina uma matrona imunda com sachola na mão e te ensine a desrespeitar linguisticamente as mulheres de garbo.»
«Tanta coisa por um gato. Ciao! Desisto de tanta alienação mental via net. Vou mas é passear e ver outras coisas. As pessoas racionalizam a dor? Nem sempre... E as crianças? Pelo mundo fora, muita coisa se passa. Não só Internetes, blogs para pessoas que vegetam em casa e compadecimentos com as dores de um gato (não será o último, nem o primeiro).»
«Em vez do coelho, gostava que fosse o autor do blog a suicidar-se. É que só se fala em sofrimentos felinos (claro, ele afeiçoou-se ao gato - falta saber se se afeiçoaria tanto a uma pessoa) ou em coelhos suicidas. Não se fala em mais nada. A minha sorte é que não virei tão cedo. É que me recuso (vou fazer uma promessa) a voltar a escrever neste blog, mesmo que alguém me provoque. Juro, juro, juro, que nunca mais! Há blogues e sites mais interessantes. Adeus! Susana.»
Publicado por João Pedro da Costa às 03:03 PM | Comentários (15)
O meu coelho suicida #18 (o regresso ou as ideias são como as cerejas)

O Andy Riley blá blá blá... Bunny Suicides blá blá blá... na FNAC ou no Amazon blá blá blá...
Publicado por João Pedro da Costa às 03:27 AM | Comentários (14)
A reciclagem é mesmo bom
Ia esvaziar o meu recycle bin quando me lembrei que poderia haver aí gente na blogosfera interessada em alguns dos ficheiros que tenho práqui. Vejam lá se há alguma coisa que possa ser da vossa serventia e digam rápido, que eu tenho mesmo de despejar o balde do lixo.

Publicado por João Pedro da Costa às 01:38 AM | Comentários (16)
novembro 10, 2004
Post terapêutico

O Xico, antes de se chamar «Xico», chamava-se «gatinho» e era um bebé vadio que apareceu no meu quintal, aí em meados de Janeiro. Era um gato muito bonito e muito desconfiado, que fazia sempre questão em manter um perímetro de segurança entre ele e qualquer outro mortal. Como é óbvio, eu e a Manela tentámos conquistá-lo pela barriga, oferecendo-lhe uma parte substancial dos biscoitos originalmente destinados à Ziggy, a gata oficial da casa. Ainda assim, a aproximação foi lenta, mas lá chegou o dia em que, finalmente, consegui o primeiro contacto físico, que teve um grande impacto no bichinho: aquele gesto deve ter sido a primeira vez que ele recebeu carinho de alguém e lembro-me muito bem do seu próprio espanto quando percebeu que estava ronronar.
Nunca me passou pela cabeça adoptá-lo. O malandro parecia feliz: vadio, sem dono, e com água e comida à descrição. Tenho um quintal de proporções assinaláveis e ele sentia-se lá seguro e bem vindo. Até o meu cão, o Jota, começou a aceitar a sua presença, facto por demais evidente quando uma vez surpreendi o gatinho a comer na sua gamela e o raio do cão a olhar para o atrevido com um ar muito pachorrento. Isto até ao dia em que a Manela reparou que o gato arrastava as patas de trás. Ficamos preocupados e o raio do bicho sentiu a nossa inquietação. Não foi fácil apanhá-lo desprevenido, mas, quando conseguimos, vimos logo que ele tinha duas grandes feridas nas patas e que as mesmas estavam sempre a sangrar. De início, ainda tentamos desinfectar as feridas, mas depressa se tornou evidente que a sua condição de gato vadio impedia a cicatrização das mesmas e resolvemos levá-lo ao veterinário. E começa aqui uma saga farmacêutica que já dura há uns bons cinco meses e cujo corolário só poderá ser a minha ruína financeira. Passo a explicar.
Em primeiro lugar, o gato não andava com as pernas tortas por causa das feridas: o nexo de causalidade era inverso. O veterinário tirou-lhe uma chapa e detectou um chumbo (filhos da puta) de uma espingarda de pressão alojado numa das vértebras (a antepenúltima) da coluna. Eram as lesões decorrentes da chumbada que lhe tinham semi-paralisado as patas de trás e era essa paralisia que o forçava a arrastar os membros inferiores. As feridas eram o resultado da fricção das patas com o solo. O bicho foi operado, retiraram-lhe o chumbo (as lesões, infelizmente, permanecem, mas o gato nem parece se importar muito com isso) e, foi durante o pós-operatório, que a minha mãe o baptizou de «Xico» e uma tremenda responsabilidade caíu em cima de nós.
Como é óbvio, o seu historial clínico não ficou por aqui. Só para terem uma pequena ideia, vou vos dar uma amostra dos haveres farmacêuticos que tenho em minha posse para tratar do Xico:
- Água oxigenada, algodão hidrogenado, Mercryl SM, Betadine SD, Leukoplast, Mölnycke, Halibut e Cicatrin para proceder à limpeza das feridas (há cinco meses que faço isso todos os dias e, apesar das evidentes melhoras, as malditas ainda não cicatrizaram);
- Diarsanyl, Romfen e Flagyl para tratar de uma infecção intestinal que, pelos vistos, é muito comum nos gatos vadios;
- Baytril para tratar de uma infecção urinária (o bicho mijava sangue) que rapidamente evoluíu para um tratamento com Lepicortinolo, quando (e esta é a última novidade) uma ecografia detectou uma pedra na bexiga;
- Um bisturi Romed (esta parte até gosto, eu sempre sonhei ter um bisturi, não me perguntem porquê) para cortar em metades, quartos e oitavos comprimidos minúsculos com um diâmetro inferior a 5mm;
- Feline s/d, que é uma comida diurética (diurética?) usada para baixar o pH da urina. O Xico nos próximos dois meses apenas pode comer dessa merda e essa merda custa cerca de €20 o quilo.
É claro que tudo isto não é nada comparado com aquilo que o Xico trouxe à minha vida (e quem tem gatos sabe muito bem do que estou a falar). O que me custa é vê-lo com dores. Um ser humano, que raios, sabe racionalizar a dor, atribuir-lhe origens, adivinhar-lhe terapias e até filosofar-lhe virtudes, mas um bicho não. Há apenas aquele olhar incompreensivo, quando lhe enfio comprimidos à força pela goela abaixo ou quando o magoo nos curativos. E em cada um desses olhares, há um bocado de mim que anoitece.
O Eugénio de Andrade deixou escrito que sempre soube que não há nada mais frágil no mundo do que a beleza. Eu, confesso a minha ignorância, nunca o soube. Mas um gajo aprende depressa.
Publicado por João Pedro da Costa às 06:04 PM | Comentários (25)
novembro 09, 2004
Haverá alguma coisa mais triste no mundo
do que termos um gato doente? É claro que sim. Mas hoje não consigo lembrar-me de nenhuma.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:27 PM | Comentários (13)
Estados Unidos da América IV

O quadro supra-reproduzido contem uma selecção das designações referentes às operações militares dos EUA no Médio-Oriente a partir da década de 90 (o número total é assustador e ultrapassa a meia centena).
Como é óbvio, não percebo nada de operações militares ou de estratégias bélicas e o que me interessa aqui é apenas os nomes utilizados pelas Forças Armadas Americanas para publicitar as suas acções no Médio Oriente. Escrevi «publicitar», porque a cada uma dessas designações corresponde um nome de código secreto para consumo interno: todos os peculiares sintagmas reproduzidos no quadro têm uma função específica, a de transmitir uma determinada mensagem para o exterior, isto é, têm uma finalidade intrinsicamente política.
Todos as designações por mim escolhidas consistem em duas palavras que seguem um dos dois seguintes esquemas sintácticos:
i) Nome + Genitivo (A de B) – exemplos a azul;
ii) Nome + Atributo (A + B) – exemplos a vermelho.
Apenas há uma excepção: «Provide Comfort» (a negro) que consiste num predicado do tipo Verbo + C.D., em que o sujeito está implícito.
No primeiro caso (A de B), o genitivo B (ou Complemento Determinativo) tem quase sempre uma função topológica, isto é, pretende fazer uma remissão para o cenário do conflito, para aquilo que os especialistas referem como «Teatro de Operações». Estamos perante aquilo que, na gramática latina, se designa por «locativo». O genitivo predominante é «Desert» (13 em 16) e convém aqui atentarmos um pouco para a finalidade retórica desse vocábulo. Bem que seja inegável o facto do Médio Oriente ser, do ponto de vista geográfico, predominantemente desértico, a utilização dessa palavra pretende sobretudo recobrir um aspecto demográfico que não corresponde à realidade (basta referir as 10.000 baixas iraquianas no último ano). Desta forma, a utilização de «Desert», possui uma função muito mais subliminar (e terrivelmente eficiente): um deserto, por abuso da própria definição, é um lugar desértico, isto é, com muito poucas pessoas remetidas para um nível civilizacional supostamente «inferior». «Deserto» pretende camuflar o facto de serem pessoas, e muitas vezes civis, os verdadeiros alvos das operações militares. Basta substituir «Deserto» por, sei lá, «Cidade» para nos apercebermos que essa substituição anula por completo e efeito eufemístico pretendido pelo sintagma: «Desert Strike» / «City Strike».
O substantivo (A) que é remetido para o genitivo «do Deserto» é quase sempre motivado semanticamente, ou seja, é sempre possível estabelecer uma relação de significado entre esse substantivo e o locativo. É o caso de «Calm», «Thunder», «Storm», «Fox», «Viper» ou «Sword» (esta última operação, que remonta ao início da década de 90, também chegou a ser conhecida por «Desert Sabre», o que ilustra de forma particularmente feliz o que tenho estado aqui a dizer). Os efeitos retóricos também são óbvios e visam a legitimação das operações militares em curso. Reparem bem: se o substantivo utilizado «pertence» ao universo local onde se realiza a operação militar, é como se a força agressora não fosse «externa» ao cenário, o que inviabiliza de imediato a pertinência do uso de uma palavra como «invasor» que, por definição, é aquele que, vindo de «fora», invade alguém que está «dentro».
Vale a pena ainda destacar a designação «Desert Spring», na medida em que o substantivo «Spring», para além das óbvias conotações políticas herdadas da década de 60, é aqui particularmente explícito (e, por isso mesmo, menos eficiente) no exercício eufemístico presente em quase todos os sintagmas que temos vindo a analisar. Chegado a este ponto, quase me apetece vos lembrar que não estamos a falar de acções humanitárias da Cruz Vermelha ou da UNESCO, mas de acções militares violentíssimas por parte de um invasor chamado EUA. É como se nos quisessem incutir a ideia de que as bombas e os mísseis ao entrarem em contacto com o solo não provocam explosões, mortos, feridos e ruínas, mas apenas desencadeiam o desabrochar de flores no Deserto. Isto até daria vontade de rir, se não estivéssemos a falar de coisas tão graves.
No segundo caso sintáctico, Substantivo + Atributo (A + B), os dois movimentos retóricos detectados na construção anterior, eufemização e legitimação, persistem. No primeiro caso, poderia exemplificar com as designações «Northern» e «Southern Watch» (destaque óbvio para o substantivo), «Positive Force» (destaque para o adjectivo) e «Silent Assurance» (destaque para ambos). No segundo caso, os exemplos mais flagrantes são «Intrinsic Action» ou «Proven Force» (destaque para os adjectivos) e «Shining Presence» (destaque para ambos, se bem que a utilização de um adjectivo como «Shining» para designar uma operação militar atinja requintes de malvadez apenas igualados pelo já referido «Provide Comfort»). Uma nota final para a recente (e motivadora do presente post) designação «Phantom Fury» que é a única em que se investe mais no significante (aliteração do fonema /f/) do que no significado (que, convenhamos, é vácuo e ligeiramente patético).
É óbvio que a utilização de mecanismos linguísticos para finalidades políticas ou ideológicas não é nova. Basta ler (e haverá, hoje em dia, poucas obras de leitura mais urgente e actual) as MITOLOGIAS de Roland Barthes (Edições 70, 1997) para vermos que é uma técnica que remonta, pelo menos, ao período posterior à 1.ª Guerra Mundial. No entanto, na última década, e particularmente nos últimos quatro anos, a administração norte-americana tem sido pródiga na sua utilização e, contrariamente ao que pensam muitos analistas, o discurso de George W. Bush revela por vezes um grau de elaboração e minúcias «mitológicas» que poderão escapar aos mais atentos e que afastam a sua prática discursiva da suposta «simplicidade» que tantas vezes lhe tem sido apontada. Até porque a «simplicidade» impressionista e ilusória do discurso de Bush é uma das condições sine qua non para que os mecanismos linguísticos apontados possam funcionar. Tudo tem de se desencadear no receptor a um nível quase inconsciente e subreptício, sob pena deste conseguir detectar (e, por isso mesmo, desmascarar) o artifício.
E eu acredito que terá passado muito por aqui, a recente vitória eleitoral de George W. Bush.
Publicado por João Pedro da Costa às 08:16 PM | Comentários (12)
novembro 08, 2004
Efeméride (versão 2.0)
Ontem as Ruínas fizeram dois meses de existência. Relativamente ao 1.º mês, o n.º de comentários duplicou e as visitas triplicaram. Mas o que me deixa mesmo contente é o facto do blog já ter visitantes regulares, que dão um ar mais caseiro à coisa. O meu obrigado a todos.

Publicado por João Pedro da Costa às 05:30 PM | Comentários (22)
Estados Unidos da América III
Um post da Emièle, do inevitável Afixe, trouxe-me à memória a famosa «Oração da Serenidade», atribuída a Reinhold Niebuhr, e supostamente usada pelos Alcoólicos Anónimos (faço a transcrição em Inglês, porque a dita é particularmente bela nessa língua):
«Lord, grant me the serenity
to accept the things I cannot change;
courage to change the things I can;
and wisdom to know the difference.»
O truque é antigo: proclama-se uma taxinomia (as coisas que o sujeito pode mudar vs. as que ele não pode), cujo critério é apenas ilusoriamente subjectivo, na medida em que se delega ao divino a capacidade objectiva de separar o trigo do joio. Para além do equilíbrio da construção, vale a pena atentarmos ao deslocar, para o final da enumeração, do elemento mais importante do enunciado: «sabedoria» é aqui sinónimo de «fé», e é a fé que acaba por obliterar, como não podia deixar de ser, a eficácia da oração. Por outras palavras, a serenidade e a coragem apenas nos serão concedidos se previamente tivermos recebido a benção da sabedoria decorrente da fé. A eficácia retórica da fórmula pode ser facilmente verificada se repararmos que a construção usada é a que é mais económica do ponto de vista discursivo. Se quiséssemos deslocar o 3.º elemento para o início, seria inevitável recorrermos a repetições e a uma sintaxe menos elegante e anafórica, do tipo:
«Lord, grant me the wisdom to know the difference between
the things i cannot change from the things i can;
so that you may grant me the serenity to accept those i cannot change;
and the courage to change the ones i can»
o que é, convenhamos, excessivamente palavroso e narrativo para um diálogo com o além.
Li pela primeira vez essa oração há cerca de doze anos, num período particularmente marcante da minha vida, durante o qual procurava libertar-me da náusea do legado judaico-cristão que herdei da minha família. Sem querer pôr aqui em causa a eficácia da «Oração da Serenidade» do ponto de vista terapêutico (eu sempre acreditei nas propriedades paliativas da poesia), posso no entanto afirmar que não conheço nenhum texto que ilustra de forma tão sublime tudo aquilo que abomino no dogma cristão. Está aqui tudo: a predestinação mal dissimulada num pretenso livre arbítrio, a subserviência perante uma entidade dita superior patente no uso de uma retórica da súplica e, sobretudo, a proclamação perversa da incapacidade da acção humana. Ou haverá ainda alguém neste mundo que duvida do facto de ser precisamente perante as coisas que nos parecem não ser passíveis de mudança que se deve medir a verdadeira dimensão da nossa coragem?
(Claro que há, basta ver o resultado das eleições norte-americanas.)
Publicado por João Pedro da Costa às 02:37 AM | Comentários (26)
novembro 07, 2004
Leite chocolatado e bolachas de aveia XI (final)
O puto nasceu exactamente sete meses após o Diogo ter falecido. Grande escandaleira na terra. O que a safou, foi o facto dos aldeões acreditarem que o pai era o Manel. A perda, num tão curto espaço de tempo, do marido e do pai da criança foi mais do que suficiente para derreter o coração bondoso daquela gente simples. Agora ele tem setanitos e vejo-o quase todos os dias. É forte, saudável, e não consigo imaginar cachopo mais bonito. Minha cara chapada. Aos sábados, levo-lhe leite chocolatado e bolachas de aveia para afinarmos os gases espirituais e depois andamos por aí, ourados de felicidade, a sobrevoar a aldeia. Na puta da brincadeira, avô. Na puta da brincadeira.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:29 AM | Comentários (11)
novembro 06, 2004
Leite chocolatado e bolachas de aveia X
Uma vaga multidão de murmúrios a atropelarem-se no silêncio dos mortos e o brilho perverso que um nevoeiro de algodão persistia em espelhar sobre a sujidade das campas são as únicas imagens que relembro do funeral. Minto: recordo também a perplexidade cúmplice do novo pároco quando lhe pedi para ler uma passagem d’ «O Cântico dos Cânticos» durante o sermão, e a minha consternação por ter tido uma erecção durante a leitura do mesmo. Interpretei tal perfídia do corpo como uma espécie de certificado da minha mágoa, ou algo que se lhe valha. A Rosa absteve-se de ir à cerimónia e eu fiquei cego de raiva. Jurei em nome de deuche
acho que é assim que se escreve
que nunca mais lhe tocaria na ponta de um cabelo, e resolvi fechar-me em casa, fermentando o meu amor naquela reclusão. Foram três semanas de inúteis agonias aquelas que eu passei em retiro no sótão dos meus avós. Datam daí os meus primeiros textos. Para esta experiência iniciática, pude contar com o desamparo merdeiro da minha alma
que é, como concerteza saberão, a mais profícua das musas
e com uma velha Royal Classic que ficara por ali soterrada numa confusão de livros e papéis. Essa rara antiguidade tinha sido oferecida por ela ao Diogo antes de darem o nó e semelhante proveniência atribuía, naturalmente, sensualíssimas propriedades ao objecto. O meu desempenho como escritor ficaria para sempre comprometido pelas deficiências daquele engenho ao qual faltavam quatro teclas, que eram, se não me falha a memória, as vogais «a» e «e» e as consoantes «m» e «n». Tal lacuna obrigava-me a deixar muitos espaços em branco que depois tentava preencher à luz de velas com a irregularidade da minha caligrafia escolar. Após a feitura de uns primeiros versos amorosos de conteúdo tóxico para leitura alheia, resolvi dedicar-me a um projecto mais sério e ambicioso que passava pela elaboração de um rebuscadíssimo «Tratado das Solidões da Alma». Guardei a minha curiosidade embrulhada naquele texto numa gaveta durante quase oito anos, mas a diarreia melancólica que me atravessa nos últimos tempos forçou-me a passar-lhe os olhos há dias atrás. Para grande surpresa minha, gostei. A sério, gostei mesmo. O que me deu mais prazer não foi a poesia em si, mas o verificar que havia uma parte que julgava perdida de mim que continuava a pulsar nas suas entrelinhas. Relê-lo constitui assim um inesperado regresso à inquietação que me conduziu à sua escrita. Foi voltar a sentir a hesitação das palavras, a incerteza da pontuação, o desassossego de cada rima:

Quanto ao tema propriamente dito, a solidão, a minha opinião mudou substancialmente desde então, e devo dizer que não me revejo nem um pouco na apreensão e na repulsa que esta me provocava na juventude. Hoje em dia, encaro-a quase com a simpatia que me desperta a visão de um idoso que se certifica da sua velhice no olhar incompreensivo de uma criança. Diria mesmo mais. A solidão é um animal doméstico que por vezes assediamos com a nossa estimação. A solidão, que raios, é melhor do que as outras pessoas. É melhor do que nós. Vulto feminino que nos ronda como um choro desafinado de violinos, e a cuja presença os dias se encarregam de dar uma entoação familiar. A idade adulta chega quando começamos a tratá-la por tu, nunca antes. A velhice virá quando a abraçarmos sem receios e a morte natural, se não me enganam os olhos do meu avô, quando a comoção desse reencontro for grande de mais para vibrar dentro da nossa sensibilidade. É na solidão que somos o mais íntimo de nós. É nela que aprendemos a podar os sentimentos dos excessos que nos confundem e a lapidar o nosso ser do que não somos. O tempo ensina-nos a respeitá-la, a sermos humildes diante da sua sabedoria e a aceitar o prenúncio da sua vinda sem qualquer estreiteza de espírito. A solidão é esta tarde quente, tranquila de inocência, em que me disseco e escrevo, é a súmula das mãos que os outros não nos estendem nas horas de aperto, o eu mais profundo de nós onde um dia receberemos a benção inalcançável dos infinitos. A solidão é tudo isso e muito mais. Ou uma coisa assim, parecida.
Quando terminei esta minha aventura pantanosa por palavras tão movediças, cheguei à conclusão que já tinha tido a minha dose de sofrimento e, por isso mesmo, resolvi rever a Rosa. Afinal de contas, se ela tinha de satisfazer seus imperativos carnais com alguém, que o fizesse comigo, seu cunhado. Assim ficava tudo em família. Contrariamente aos meus receios, ela não ficou perturbada ou sequer surpresa com a visita. Bem pelo contrário: parecia aguardar-me. Quando entrei, ela estava virada para a porta, sentada num banco com a perna alçada, e estava a fumar um cigarro que sabia não ter sido aceso para ser gozado até ao fim. A sala estava quase submersa por milhares de conchas de todas as cores e feitios, o que não deixava de ser uma imagem peregrina numa aldeia que distava de mais de cem quilómetros do mar. Despia-a seguro de mim, com o mesmo método com que se manda um puto para a cama. Beijei-lhe as mãos e as ancas, sem dizer palavra, antes de nos entregarmos
rendidos
a um amor meigo e lânguido perante o olhar extasiado do mano. É verdade que a ideia tinha sido minha, mas também não fora preciso insistir para que ela aquiescesse. Calculo que ambos precisávamos de nos assegurar que o Diogo sabia que a mulher estava bem entregue. E assim foi. Reconheço que houve momentos em que me custou manipular com mestria aquele monumento de mulher devido às arestas das conchas e do murmúrio oco e agudo que estas libertavam sob o peso dos nossos corpos, mas eu devia bem isso ao meu irmão. For old times sake. Em todo o caso, guardarei para sempre no coração as lágrimas que verteu enquanto nos rebolávamos lentos de paixão. Suponho que morreu feliz.
Publicado por João Pedro da Costa às 07:45 PM | Comentários (3)
novembro 05, 2004
Leite chocolatado e bolachas de aveia IX
Alguns meses após termos iniciado aquele nosso passatempo com a Rosa, o Manel faleceu em circunstâncias que nunca chegaram a ser
e ainda bem para mim
totalmente esclarecidas. Fui, sem sombra de dúvida, o melhor amigo que ele já alguma vez teve. Histórias do arco-da-velha dariam um romance, houvesse pachorra para escrevê-lo. Amei-o como um irmão, mas o mundo revelou ser pequeno de mais para nós os dois. A culpa, devo dizê-lo, também não me pode ser toda imputada. Eu até que nem me importava de dividir a meias com ele a mesma mulher, desde que ficassem reconhecidos os meus direitos em relação ao interior do seu corpo. Mas acontece que as coisas tomaram um novo rumo na noite em que a Rosa veio ter comigo ao quarto. Desta não estava eu à espera. Pensei que ia desmaiar quando ouvi o rumor branco das suas mãos sobre os lençóis, e quando ela fez contacto, juro-vos que o ar já não me chegava aos pulmões. Depois, fez tanta palhaçada com a minha pobre pilinha que por várias vezes me vi às portas da morte. Resultado: quando ela foi embora, eu já estava de luto pelo Manel. Deverá também entrar em conta, neste pequeno balanço, a sua traição ao ter ousado penetrar na intimidade da mulher que me estava destinada, sem me ter consultado primeiro. Traço da sua personalidade portadora de trágicas consequências que ele parecia ter herdado do meu irmão. Contudo, o Manel era mais do que um nome próprio para mim, e a minha amizade ainda conseguiu adiar por algum tempo aquilo que era por demais inevitável.
Tudo se passou na manhã seguinte. Fui chamá-lo a casa com duas das muitas revistas pornográficas que o Diogo me trazia da cidade e que representavam para mim o supra-sumo da vivência urbana. Tive o cuidado de não me fazer visto por ninguém da aldeia, e sabia de antemão que poderia contar com o avô para ser meu hipotético álibi. O Manel estranhou a visita, visto que não era costume soltarmos os passarinhos assim no ar frio das manhãs outonais, mas este era o tipo de convite que aquele chanfrado da merda não sabia recusar. Fomos, como sempre, para a ravina de pinheiros onde o Manel sonhava construir um bordel de recorte finissecular, movidos pela ansiedade que assola o orador nos momentos pios. O que tinha em mente não era apenas ver-me livre do empecilho da sua existência, mas também tirar a limpo o que, de facto, eu representaria para ele. Devo aqui confessar que tinha elaborado ao mais ínfimo pormenor o plano na minha cabeça, e que até o brilho ofuscante do Sol naquele dia parecia ter sido feito de encomenda, visto que tal acrescentava ao cenário um halo de grandiosidade que não destoaria em nenhum dos livros do meu avô. Sentámo-nos na berma do precipício onde o Manel
honra lhe seja feita
possuía um recorde de ejaculação longitudinal perfeitamente imbatível – se bem que tenha sido eu, e não ele, o gajo que, num crepúsculo de grilos desvairados, conseguiu acertar com a iogurtada toda num pardal em pleno voo. Abrimos com dedos febris as revistas, benzêmo-nos
hábito que tínhamos solenemente conservado das nossas introspecções bíblicas
e começámos a invocar aquelas ninfas despidas de pecado. A meio da nossa performance, o momento chave. Libertei em pantufas um peido de pêssegos enlatados que tinha ingerido a muito custo de madrugada e, quando dei por mim, vi o meu corpo cair redondo para trás sobre a relva com a bandeira a meia-haste. O Manel olhou então para mim e, com um certo pânico, começou a chamar-me pelo nome. Como é óbvio, não respondi. Abanou-me todo, deu-me uns tabefes, disse uns palavrões, e recuou assustado quando viu que não conseguia encontrar o pulso naquilo que, para ele, já era o meu cadáver. Depois, tudo prosseguiu como eu, miserável de mim, tinha previsto. Ou pelo menos quase tudo, visto que nunca pensei que ele fosse demonstrar com tanto entusiasmo a alegria por se ver livre da minha pessoa. O maldito ainda teve a lata de levar a bom porto, por entre sorrisos e caretas, as suas invocações e eu
lorpa lorpa lorpa
esperei paciente que ele acabasse o serviço. Não sei porque o fiz. Não, não sei. Talvez o tenha feito pelo facto de uma vez o avô me ter dito que era de mau augúrio entrar no outro mundo com os tomates atestados, ou então, muito simplesmente, para alimentar o ódio que me desse forças para levar a cabo os desígnios que lhe tinha traçado. A verdade, porém, é que jamais nutri semelhante sentimento por aquela besta. Havia apenas em mim uma tristeza púrpura, uma mágoa desolada que se alastrava como uma oração incompleta sobre a imensidão de folhas semi-mortas que cumpriam a paisagem em torno de nós. O resto foi bastante simples de tão medonho. Regressei ao meu corpo, aproximei-me dele com preciosismos de sombras e, zás, empurrei-o felino pelo despenhadeiro abaixo. Deu-se ainda um caso curioso que foi ter ficado com a impressão que ele chegou a planar sobre o curso do rio durante alguns segundos. Cheguei mesmo a pensar, imaginem só, que o filho da mãe ia-me desatar a voar que nem um milhafre.
Mas não.
Publicado por João Pedro da Costa às 09:45 PM | Comentários (4)
Leite chocolatado e bolachas de aveia VIII
Mas eu não posso esquecer-me de vos falar no surdo do meu avô. O tempo encarregou-se de dissipar a má impressão que ele me tinha causado quando o vira pela primeira vez, e hoje, posso dizê-lo, sinto muito a sua falta. Demais, mesmo. Ele era um homem velho, cansado, com poucos amigos, cujo único prazer consistia na leitura, por ordem alfabética de autor, de uma catrefada de livros que herdara aos vinte anos aquando do falecimento de um tio. Tinha com a minha avó uma vida calma e modesta que condizia na perfeição com o seu temperamento. Acusavam-no de ser insensível pela forma fria como tratava seus pacientes e pelo facto de jamais alguém tê-lo visto se emocionar perante as desgraças do ofício. Mas a verdade era outra, podem crer. Tornámo-nos íntimos ao ritmo lento dos serões, desenvolvendo uma afeição mútua que em nada tinha a ver com as imposições hipócritas do sangue e, antes que desse por isso, ele tinha substituído com eficácia a figura ausente da minha mãe e a presença inverosímil da sua esposa.
Foi com o meu avô que aprendi as coisas mais valiosas da vida. Ensinou-me a reler o tempo nos ocasos, a interpretar as pausas aladas no canto das aves e a compreender a cadência das noites no olhar das mulheres. Foi também com ele fumei o primeiro cigarro. Caramba. Fumei-o da sua mão, enrolado numa mortalha húmida da sua saliva de velho fornicador. Inalámos o fumo numa excitação pueril, abstraído de tudo e todos
mas sempre alerta, não fosse a avó entrar
e libertámo-lo com uma gravidade que nos emancipava de nós mesmos. O sabor picante do tabaco fez-me recordar o dia em que o pai nos trouxe para a aldeia. Só que, desta vez, era eu que os levava pela mão e não havia nenhuma neve. Estava uma noite quente, e o luar era um bálsamo que dava visibilidade ao mistério. Parámos em frente a uma casa pequena e eu fumei o cigarro do avô sem dizer palavra. Aguardaram, obedientes. Quando terminei, olhei para eles e não tive coragem de os abandonar. Amava-os de mais para bater àquela porta e, por isso, abracei-os sob a escuridão. Lá no alto, as estrelas olhavam para nós e coisas do género. Voltámos juntos para casa no último comboio da noite.
A maioria do tempo que passava com o avô era aprazível tanto para mim quanto para ele. Sentia-me um homem ao seu lado e suponho que ele devia recordar uma boa parte da sua infância comigo. Contudo, tínhamos a sapiência de fazer algumas cedências que não faziam mais do que cimentar a nossa amizade. Eu, por exemplo, tentava prestar atenção às suas leituras tediosas, enquanto ele fazia os possíveis para dissimular a displicência com que tentava ouvir os relatos dos meus passeios extra-sensoriais. Foi a única pessoa a quem contei este meu segredo e, embora ele nunca tivesse acreditado nos meus poderes
aquilo para ele eram tudo fitas e mimo
ria-se que nem um perdido com o cheiro dos peidos que eu dava para o convencer do contrário. No começo, sei lá, estava certo que poderia encontrar o rasto da mãe nestas minhas viagens, mas rapidamente soube investir esta capacidade de me libertar do corpo em coisas mais práticas e profícuas como espiar as germinações amorosas do Sr. Abade ou então, mais tarde, a recriar-me perante a visão apocalíptica da minha cunhada a tomar banho. Confiava tanto naquele avô, que não hesitei sequer em falar-lhe da neve mágica que me recebera na noite que cheguei à aldeia. Foi preciso quase uma semana para que ele conseguisse ouvir e processar o que eu lhe queria dizer, mas depois não pareceu minimamente surpreso com a história. Apenas procurou reconfortar-me dizendo que tudo não deveria ter passado de um belo sonho, visto que já havia mais de quarenta anos que não nevava na região.
E depois, houve uma tarde em que fui castigado por alguma asneira que sinceramente não me lembro ter feito, tão elevado foi o preço cobrado. Faz hoje cinco anos. O meu avô, na altura, havia recentemente entrado na decrepitude de uma viuvez para qual a monotonia dos seus dias não o tinha preparado. Tínhamos ambos acabado de almoçar, e eu fui sentá-lo para que ele fizesse a sua sesta habitual. Reparei que adormecera com um romance do Émile Zola aberto na última página, mas não dei grande importância a isso. De repente, ele acordou sobressaltado do sono e olhou fixamente para mim. Parecia que estava a nevar sobre os seus olhos. Fez-me então um sorriso que foi até hoje o mais perfeito resumo de todas as coisas boas que conheci neste mundo. De seguida, um burburinho escapou-se sorrateiramente do cadeirão e soube, no momento, que a sua alma se tinha libertado daquele corpo gasto para nunca mais lá voltar.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:03 AM | Comentários (4)
novembro 04, 2004
Aviso de recepção II

Peço desculpa aos impacientes, mas tenho andado com muito que fazer (e com preguiça qb, diga-se de passagem). Amanhã serão enviados os CDs de Elliott Smith pelo correio e cá fico à espera das vossas impressões. Um abraço.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:30 PM | Comentários (3)
Eu e os meus dotes informáticos
Graças a este magnífico blog, consegui finalmente inserir um favicon na barra de navegação do firefox. Para os infiéis que ainda não sucubiram aos encantos desse browser, deixo uma pequena imagem
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que comprova os meus supremos conhecimentos em HTML.
(Ainda estou para saber como é que consegui fazer isto...)
Publicado por João Pedro da Costa às 05:22 PM | Comentários (7)
Leite chocolatado e bolachas de aveia VII
Foi assim que eu e o Diogo nos vimos órfãos e naufragados neste fim de mundo. Foi tudo tão rápido. Logo no segundo dia, a avó levou-me para me matricular na escola. O raio da escola era ainda, na época, um enorme casarão de pedra, cinzento, decrépito e austero. Tinha quatro pisos e mais de vinte divisões. Uma monstruosidade. A avó teve o cuidado de me explicar a sua origem, que pertencera a uma família que fugira da aldeia por algum motivo obscuro e que não deveria fazer quaisquer perguntas sobre o assunto. Bastara-lhe assim uma única noite para esquecer o carinho que tivera por mim e descartar a sua autoridade. Enfim, adiante. Tudo naquele imóvel era grande e exagerado. A frontaria, os portais, as janelas. Tudo. O estabelecimento de ensino ocupava somente o rés-do-chão. Não havia pátio algum, e como os campos circundantes eram cultivados, os alunos eram forçados a passar o recreio nos restantes pisos do edifício. Meus colegas pareciam divertir-se por entre aquela poeira de móveis velhos e de tectos caídos, mas eu não conseguia. Todas as salas estavam minadas de reminiscências de um passado luxuriante e pecaminoso. Sentia o odor de mistério. Ouvia vozes, prefigurava fantasmas. Cagava-me de medo. Apesar destas recordações, devo, no entanto, confessar que senti um aperto na garganta quando, há três anos, o demoliram caprichosamente. Mas a verdade é que, nos dois anos em que frequentei aquela escola, jamais senti o frenesim da hora do recreio, e apenas tive talento para fazer um único amigo por entre os rapazes de minha idade. As crianças da aldeia movimentavam-se num mundo que não era o meu, num jardim cuja entrada me estava vedada. Suas brincadeiras eram enigmas que não conseguia decifrar e suas conversas um idioma desconhecido. Puta que os pariu, ainda hoje não os gramo. Contudo, simpatizei com a professora, a Dona Carolina. Era solteira, não devia ter mais de trinta anos e era femenina de mais para a minha sensibilidade. Toda a gente a respeitava. Foi sempre afável para comigo e parecia compreender o rigor do meu abandono. Adorava a calma dela durante as aulas, o sorriso contagiante, a mania de cheirar os livros antes de os ler, ou o olhar distante e perdido com que vigiava as provas escritas. A visibilidade da sua deferência para comigo somada com o facto de ser um aluno bastante razoável afastaram-me de vez dos meus outros companheiros. Compreender-me-ão, portanto, se vos disser que o Manel parecia ter caído dos céus. Na altura, sentia-me particularmente só, visto que o Diogo tinha partido para a cidade para começar os seus estudos superiores. Dêmo-nos bem desde o primeiro momento, ainda me lembro, quando o apanhei a bater uma pívea enquanto lia «O Cântico dos Cânticos» que era então a sua passagem predilecta da Bíblia
depois acabaríamos por descobrir o Kama Sutra e seus derivados, e deixámo-nos destas merdices de principiantes.
Masturbávamo-nos todas as noites, sem falha, na voragem oblíqua dos campos e a nossa grande ambição era fazer com que as nossas pirocas chegassem à lua
a minha primeira que a dele.
Se não tivesse aparecido a Rosa por entremeio, estou convencido que teríamos lá chegado.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:50 PM | Comentários (4)
Estados Unidos da América II

Esta fotografia de John Marshall tirada a Johnny Cash, na prisão de San Quentin, no dia 25 de Fevereiro de 1969, é uma das fotografias mais lendárias da iconografia pop. É óbvio que, na Europa, também já se fizeram numerosos concertos em estabelecimentos prisionais, mas esta fotografia, e toda a raiva «anti-establishment» que a ilumina, apenas poderiam vir dos Estados Unidos da América. Olhem bem para ela. É algo à volta disto, que tenho medo que se perca nos próximos quatros anos.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:18 PM | Comentários (6)
Leite chocolatado e bolachas de aveia VI
Abraçados um ao outro, a mãe e eu dormimos na mesma cama, sem jantarmos. Nossos anfitriões tinham no entanto caprichado: broa, queijo, salpicão e uma sopa fumegante de sabor, isto já para não falar nuns comentários tediosos mas empenhados em realçar as incontestáveis qualidades daquele repasto. Porém, a comida não passava pelo nó cerrado de nossas gargantas. Deitámo-nos juntos, e juntos estranhámos os lençóis, a travesseira e as estrelas daquela noite. Noite branca de neve e de insónia. Acho que ambos já sabíamos que, daí para a frente, só nos tínhamos um ao outro no mundo. Poderiam aparecer novos familiares ou novos amigos que continuaríamos a estar sós no meio da multidão. Os dias viriam a provar que estava enganado, mas que diabo, eu gostaria de ter falado com ela naquela noite para lhe dizer que, desde que a tivesse ao meu lado, nada mais importaria. No entanto, o calor dos seus seios contra a minha face e a leveza da sua mão no meu cabelo eram de um encanto grande de mais para ser quebrado, e cobriram para sempre de névoa a necessidade imediata daquelas palavras. O conforto incutido pelo odor do seu corpo fez-me pensar no Diogo que teria morrido uma semana antes, no hospital. A sua imagem na minha cabeça era tão nítida que não duvidei que fosse mesmo ele que estava ali, à nossa frente, e que tinha voltado para nos vir buscar. Abri os olhos e fiquei surpreso ao não vislumbrar nenhum rasto dele. Ao meu lado, a mãe já dormia. E, pela primeira vez na minha vida, a solidão.
Acordei já com o sol a romper pela casa. Luz amarela e poeirenta. Incómoda. A avó andava às voltas do fogão num malabarismo de tachos e fervuras a preparar-nos o pequeno almoço. Um impulso inexplicável fez-me então procurar o avô, mas ele já tinha saído. Tentei mexer-me com cuidado para não acordar a mãe, mas ela despertou na mesma. Estava deslumbrante. Os olhos húmidos, a pele branca, os olhos incolores. Gostaria de encontrar as palavras certas para descrever a elegância com que os seus braços afastaram os últimos resíduos daquele sono todo ele feito de paz, mas elas escapam-me. Naquele momento, sei lá, o mundo inteiro deve ter parado para se diluir naquele gesto. Sorriu-me e eu, em vez de lhe retribuir o afecto, perguntei-lhe brusco sobre o que lhe dissera o pai ao ouvido no dia anterior. Fez uma pequena pausa, durante a qual deve ter procurado forças e engenho para soar convincente. Disse-me então que ele tinha voltado para a cidade a fim de arranjar emprego, e que, mal amealhasse algum dinheiro, iria procurar o conforto de uma casa para irmos de novo viver para o seu lado. Acreditei nela com toda a força, até porque voltarmos a estar juntos, os três, era para mim uma promessa inabalável que estava inscrita no verso de qualquer objecto que olhasse à minha volta. Não voltaríamos, no entanto, a ter qualquer notícia dele.
Levantei-me e dirigi-me à janela. Lá fora, para meu grande espanto, tudo resplandecia de vida. Pássaros avermelhados ardiam suspensos por cima de árvores floridas de verde como pequenos papagaios de papel. As casas tinham perdido o cinzento e roubado o esplendor da neve. Uma agitação matinal tinha-se apoderado das ruas, agora povoadas por dezenas de camponeses que rumavam ao trabalho de enxada ao ombro e de velhas curvadas que, em conversas de praça, punham em dia solidões alheias. Havia algo de insultuoso na celebração colorida dessa manhã que parecia ignorar o desamparo da minha alma. Quando voltei a olhar para trás, o encanto tinha desaparecido, pois alguém tinha voltado a trocar a minha mãe pelo Diogo. Ninguém pareceu se importar muito com isso, e eu, cheio de raiva, não me lembrei de mais nada senão perguntar aos gritos pela neve. Qual neve?, retorquiu a voz perplexa da minha avó. A minha neve, respondi aflito, A minha neve. A neve que me esperava ontem. Aquela que tinha meu nome e falava para mim. A que, afinal, mais ninguém vira cair.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:11 AM | Comentários (1)
novembro 03, 2004
Estados Unidos da América
Quem toca guitarra sabe do que vou falar. Há uma maldita corda nas guitarras acústicas tradicionais (ou espanholas), a 3.ª a contar de baixo, que está sempre desafinada. A dita corda, chamada de Sol, sofre de um problema físico de difícil resolução: é fina de mais para ser de aço e grossa de mais para ser de nylon. É uma espécie de «no man's land» no que toca a materialização de uma frequência musical e, normalmente, se uma guitarra está desafinada, a culpa é sempre dessa corda. Tudo isto se torna particularmente irónico, se vos disser que o Sol é, de longe, a minha nota favorita: aquela corda, devidamente afinada, tem um som lindíssimo.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:12 PM | Comentários (5)
Leite chocolatado e bolachas de aveia V
Nevava quando o pai nos trouxe à terra dos meus avós. A viagem tinha sido interminável. Apanhámos um comboio na cidade e singrámos serras adentro. Atravessámos uma infinidade de montanhas e vales incaracterísticos que não possuíam nada que nos permitisse distingui-los uns dos outros. Era bastante caricato
para não dizer outra coisa
pensar que andávamos assim às voltas, perdidos, passando e repassando sempre pelos mesmos locais num interminável carrossel. Partimos de manhã, arrastando atrás de nós o nevoeiro, e desperdiçámos quase um dia a brincar com o sono no interior da locomotiva, o que
caso não saibam
não tem piada nenhuma. Viajei o caminho todo com a janela aberta, inspirando paisagens de ar fresco na esperança de me libertar de uma náusea estranha de óleos queimados, de muros encardidos e de malas perdidas na sua monstruosidade de peles gastas. Contudo, todo este esforço fora em vão e, pelo contrário, eram quase lágrimas os suspiros que ia espalhando por aquelas terras desconhecidas quando voltava a ouvir, na paragem de cada estação, os mesmíssimos ecos de despedidas esboçadas à pressa numa equidistância monótona de carris. Chegámos ao destino, cansados, no findar da tarde. Estava a nevar. Nevava quando o pai nos abandonou na terra dos seus. Nunca tinha visto a neve e depois daquele dia não voltei a vê-la. Era branca, morna, suave. Musical. Cobria os campos com uma lentidão tão admirável que me lembro de ter ficado com a impressão de que ela brotava do solo para se elevar breve até ao céu distante de azul. Fazia muito frio e a minha mãe chorava. Vejo-a agora muito bem: a minha mãe chorava. Eu não compreendia como é que se podia chorar perante tamanho assombro. Era também um dia triste para mim, porém consolava-me pensar que todo este espectáculo tinha sido montado para me receber, assim, em jeito de boas vindas. A neve tinha meu nome e eu conseguia lê-lo ao longe na incandescência do horizonte. Fechei os olhos, deixei cair a cabeça para trás e, com a boca aberta, abracei o mundo como que para aconchegá-lo aqui, à beira do coração. Os flocos aqueciam a pele e sabiam a água fresca. Não restava dúvida alguma. Nevava mesmo para mim.
Não havia ninguém cá fora nas ruas. A aldeia era, naquela noite, uma terra sem nome de uma gente anónima e invisível. O pai agarrava-nos em cada uma das suas mãos. Ainda hoje, consigo sentir o conforto da mão daquele cabrão na minha. É natural que consiga, pois embora fosse uma mão robusta, máscula e árida como pedra, albergava calor suficiente para aquecer a alma da criança que eu era. Caminhámos em silêncio pelo interior da aldeia. Apenas se ouvia o barulho alternado dos nossos passos a enterrarem-se na neve com os soluços da mãe. Parámos em frente a uma casa que parecia estar velha de ser tão pequena. O pai largou nossas mãos e acendeu um cigarro com dificuldade. Fumou-o todo sem dizer palavra. Esperámos que ele o fizesse. Ainda tentei olhar para ela, mas o cabelo longo e ondulado cobria-lhe a cara. Olhei então em redor e, de repente, deu-me uma enorme vontade de perceber o porquê das outras casas de pedra dispersas pelos campos por entre barracões de madeira e árvores despidas. Um desejo de decifrar o descanso da neve nos telhados. Precisava de compreender o vazio que preenchia o resto da paisagem. Urgia entender todo este branco.
Depois, o pai entregou-nos ao cuidado da velhada. O avô ficou imóvel no seu cadeirão, e a avó é que se encarregou de falar com aquele traidor da merda. Trocaram algumas palavras, poucas, enquanto ele lhe estendia um envelope. Não deram mostras do menor indício de comoção. Na altura, tal não deixou de me parecer estranho visto que, na cidade, ele costumava falar-nos dela com um carinho que lhe inundava os olhos de um brilho que nos era desconhecido. Falaram num tom formal, a voz baixa, como se a presença de um intimidasse a do outro, o que me fez levantar sérias dúvidas sobre o facto daquela senhora de quadris inclinados ser, realmente, a minha avó. Sobre a conversa, e apesar do meu esforço, apenas consegui ouvir algo sobre as malas, que viriam mais tarde, salvo erro. Uma vez lá dentro, a casa parecia bem maior. O tecto longínquo, ornamentado por pedaços inertes de carne violácea, abafava uma escuridão perfumada pelas chamas da lareira. Na altura, ainda não havia divisões. A um canto um fogão de lenha e uma banca, noutro duas camas e, ao centro, uma mesa larga num cerco de cadeiras. Encostada à parede da porta de entrada, uma confusão de armários repletos de livros formava uma fila desordenada apadrinhada por um casal desnivelado de janelas. Quando acabou de falar com a avó, ele chamou minha mãe e, de joelhos, segredou-lhe algo ao ouvido. Compreendi esta sua deferência. Afinal de contas, ela era a mais velha e eu não passava de um morcão apalermado que demoraria muitos anos a perceber a gravidade dos acontecimentos daquele dia. A minha avó recém-descoberta, brindou-me então com um trambolhão de carinhos desajeitados provenientes de uma ternura encontrada algures à pressa nas gavetas de um amor há muito esquecido por aquele velho rude e silencioso que tinha começado a fumar o seu cachimbo. Enquanto isso, meu pai aproveitava esta distracção para ir embora. Sem nos dizer adeus.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:17 AM | Comentários (3)
novembro 02, 2004
McCarthismo
Isto

quer dizer que querem acabar com os meus leitores norte-americanos?
Eu acho mal. E não acredito em super-heróis.
Publicado por João Pedro da Costa às 06:44 PM | Comentários (6)
Pensamento do dia
John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry. John Kerry.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:01 PM | Comentários (11)
O Pleonasmo exemplificado
A Catarina foi nomeada autora do mês pela equipa do weblog.com.pt.
Parabéns a ambos.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:36 PM | Comentários (2)
Leite cholatado e bolachas de aveia IV
Mas voltemos à Rosa. A minha cunhada era ainda, nestes tempos anteriores ao acidente, uma rapariga jovem de idade e de mente. Parecia possuir dentro dela uma energia inesgotável que arrastava o marido para memoráveis noitadas pelas entranhas da cidade até altas horas da madrugada. Incansável e sedutora seriam então os seus epítetos naturais. Quando o Diogo a apresentou à família, bastou-lhe um simples sorriso para conquistar a amizade dos velhos, podendo-se dizer o mesmo em relação ao resto da população da aldeia, isto já para não falar nos corações da malta jovem, na qual relutantemente me incluo. Casaram, e não há uma única pessoa no mundo que possa dizer que não foram felizes. Como dizia minha avó, se tinham de facto casado, ninguém dava por isso. Eram solidários em tudo na vida. Nas alegrias, nas melancolias, nas tristezas, e até, como vim a sabê-lo mais tarde, nas infidelidades. Até metia impressão. Mesmo o sórdido acidente que o amado sofrera, viria a ter repercussões na sua vida. Mudou da noite para o dia. De jovem alegre, noctívaga, aérea e fresca, metamorfoseara-se numa mulher adulta, séria, soturna, dedicada ao esposo, saindo raramente de casa. Nunca alguém na aldeia a ouviu lamentar-se do seu destino, embora qualquer um pudesse ver com facilidade o fardo de tristeza que carregava em si. Despediu-se da loja, disse adeus aos amigos e passou a viver única e exclusivamente para o bem estar do mano, quando o mais fácil teria sido desaparecer para todo o sempre. A única coisa que preservara fora a sua mania de andar sempre com os bolsos repletos de conchas do mar. Deixava-as cair um pouco por todo o lado, e quando se fixou na nossa aldeia, coleccioná-las tornou-se rapidamente na única coisa relevante que viria a fazer na minha vida. Contudo, no meio de tantas transformações, a que mais abalou os meus treze anos foi a sua nova indumentária. Os sapatos italianos de tacão alto, as mini-saias multicolores e as blusas de seda transparente com decotes inimagináveis às fantasias mais ousadas do burgo, acabaram por dar lugar a um sóbrio e longo vestido de Verão amarelado com flores brancas coberto por um inevitável avental azul e um par de sandálias simples como a cor da terra. Eu sabia que a frescura rósea da sua pele continuava lá, mas doía-me a alma ao saber que estava doravante miseravelmente escondida sob aqueles farrapos pálidos e poeirentos. O avô
que era surdo, mas não burro
costumava dizer, entalado entre um cachimbada e um copo de martini, que uma fêmea da cidade amadurecera numa senhora do campo. Eu, que uma flor murchara prematuramente.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:53 AM | Comentários (5)
novembro 01, 2004
Leite chocolatado e bolachas de aveia III
Meu irmão, diga-se, era um génio. Diogo de seu nome e orgulho de família. Após ter concluído os seus estudos pós-graduados com uma brilhante dissertação subordinada ao tema «A Literatura como Metatexto da Crítica Literária», começou de imediato a dar aulas de Teoria de Literatura na Faculdade de Letras da cidade e a publicar artigos em diversos jornais e revistas especializadas do país. Desta forma, acho que é bastante fácil de entender o choque sentido pela comunidade científica nacional quando ele sofreu aquele lamentável acidente rodoviário que o paralisou de pescoço para baixo e lhe retirou a fala.. Ao princípio, gerou-se na gentinha das Letras uma grande expectativa de que o mano pudesse vir a ser assim um novo Stephen Hawking das ciências humanas, uma espécie de mascote emblemática da inteligência lusa. A avalanche de flores e missivas que recebemos nas primeiras semanas da sua convalescença foram, sem dúvida, uma prova cabal desta esperança. Porém, ele desiludiu-os. Todo o fulgor de pesquisador, a ambição doutrinária, a lucidez do ensaísta tinham desaparecido e, apesar dos médicos afirmarem que continuava na total posse de suas faculdades mentais, abstinha-se
por teimosia?
de estabelecer qualquer tipo de comunicação fosse com quem fosse. Digamos que se tinha tornado
e a frase é minha
num vegetal inteligente, mas misantropo.
Após o acidente, a Rosa revelou ser então aquilo que nenhum de nós suspeitaria que pudesse vir alguma vez a ser. Uma santa. Antes do desastre, era muito raro vê-la cá em baixo na aldeia, onde os dois tinham uma vivenda que escondia nas traseiras um pomar exemplar em fartura e diversidade, na qual centenas de borboletas primaveris enlouqueciam, em bailados acrobáticas, os gatos da vizinhança. Tal como o mano, ela trabalhava na cidade, fechada numa loja de produtos de beleza num Centro Comercial cujo nome de momento me escapa, mas onde as pessoas se divertiam a ver outras a fracturarem ossos numa pista de gelo. Só lá fui uma vez, pois embora me tenha divertido à brava
múltiplas luxações nos braços, uma avalanche de entorses, duas clavículas partidas e um traumatismo craniano materializaram uma tarde em cheio
cheguei rapidamente à conclusão que eu e a cidade não estávamos talhados um para o outro. Isto pese embora o facto de ter lá nascido, mas não me apetece falar nisso agora. Naquele dia, meteu-se-me tanto cinzento pelos olhos dentro que, quando voltei a casa, o verde do céu e o azul dos campos
ou será ao contrário?
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