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novembro 27, 2004
2004: o meu ano musical

Foram estes os discos que mais me marcaram em 2004. Ou melhor: foram estes os discos, lançados ao longo do ano, que mais me marcaram em 2004. A nuance é importante: um gajo acaba sempre por ouvir discos de anos anteriores que nos deixam fascinados, o que faz com que a presente lista seja, inevitavelmente, temporária.
Mas vamos a números. Ao longo do ano, comprei 81 discos, dos quais 57 foram editados em 2004 (esses números são uma boa explicação para o estado lastimável do meu guarda-roupa) e terei provavelmente ouvido outros tantos entre cópias gravadas e empréstimos. Houve imensa música editada este ano que me passou ao lado e que espero ouvir num futuro próximo. E houve imensa música que, apesar de reconhecer nela uma grande qualidade, não fez vibrar a minha corda sensível (dois exemplos: The Streets e Dizzie Rascal). Tudo isto apenas para dizer que esta lista, muito mais do que fornecer informações sobre a boa música que saiu este ano, acaba por ser uma pequena descrição dos meus gostos musicais.
Eu adoro listas do tipo «os melhores do ano». A sério. Adoro lê-las, compará-las e depois confrontá-las com os meus próprios gostos. Fico sempre siderado quando um crítico A gosta de um disco B que eu abomino. Mexe muito comigo. Um exemplo: o último álbum do Leonard Cohen é, para mim, uma valente merda (e eu até sou um fã incondicional dos quatro primeiros álbuns do senhor). Pois bem, há quase um consenso unânime na crítica musical sobre a qualidade do disco. Adoro essas listas pelas exactas razões que fazem com que outros as possam considerar abomináveis: são arbitrárias, ridículas, fruto do acaso e escondem por vezes razões que não têm nada a ver com a qualidade intrínseca dos discos ordenados. Eu acho isso óptimo. São a minha cara chapada.
O meu ano musical, portanto. Vamos por partes. Em primeiro lugar, as estreias. Houve duas absolutamente fulminantes: os Franz Ferdinand e Devendra Banhart. Os primeiros fizeram um disco pop como já não ouvia um desde o DIFFERENT CLASS dos Pulp. Basta olhar para os singles: «Darts of Pleasure», «Take Me Out», «Matinée», «Michael» e «This Fire». É um disco da velha escola, com guitarras a abrir, algo a fazer lembrar uns Talking Heads do séc. XXI. É, muito provavelmente, o disco que mais ouvi este ano. Quanto a Devendra Banhart, as razões são óbvias: não é impunemente que se edita, no mesmo ano, dois discos tão admiráveis como REJOICING IN THE HANDS e NIÑO ROJO. Revelação do ano.
Quanto à galeria de artistas pop que fazem parte do meu panteão musical, confesso que 2004 foi um ano mau. Houve grandes e inesperadas desilusões: Björk, Perry Blake, Kings Of Convenience, Ethienne Daho, Badly Drawn Boy e REM, só para citar os casos mais gritantes. Quem acabou por salvar a honra ao convento foram a P. J. Harvey (um autêntico relógio suiço), os Air (que publicaram o seu melhor disco), Elliott Smith (um belíssimo disco póstumo) e, é claro, aquele que foi, para mim, o disco do ano: LOVE SONGS FOR PATRIOTS dos American Music Club. Também descobri grandes discos vindos de sítios inesperados: o segundo álbum dos N*E*R*D, A GHOST IS BORN dos Wilco, I NEED YOU dos Ill Lit e SEVEN SWANS de Sufjan Stevens, tudo gente que não conhecia em 2003. Para terminar, numa categoria absolutamente à parte, o mítico SMILE de Brian Wilson, uma absoluta obra-prima: contagiante e intemporal.
Olho para a lista e lamento a ausência de discos portugueses. O defeito é meu. CINEMA do Rodrigo Leão e os discos de Balla e Bullet merecem aqui uma menção especial. E depois há o disco dos Pluto, BOM DIA, absolutamente assassinado pela lamentável produção do Mário Barreiros. Foi uma pena, pois o disco tem lá grandes canções.
Para terminar, uma lista de outros álbuns que marcaram o meu 2004 musical e que, sejamos sinceros, poderiam perfeitamente integrar a minha selecção de melhores do ano, caso tivesse escrito o post noutro dia qualquer: LIFEBLOOD (Manic Street Preachers), HEROES FOR ZEROS (The Beta Band), TWO WAY MONOLOGUE (Sondre Lerche), TO THE 5 BURROUGHS (Beastie Boys), SUNG TONGS (Animal Collective), DANNY, THE DOG (Massive Attack), YOU ARE THE QUARRY (Morrissey) e I (The Magnetic Fields).
Possa esta lista proporcionar a alguém bons momentos de música.
Saudações melómanas.
PS: esqueci-me de referir outro disco fundamental de 2004 (cabeçáminha): a banda sonora de LOST IN TRANSLATION. Imperdíveis. A banda sonora e o filme.
Publicado por João Pedro da Costa às novembro 27, 2004 06:07 PM
Comentários
Da lista, apenas conheço os Air (muito bom o disco) e os Nerd (que adoro) - boas sugestões para o natal!!!
Publicado por: AB em novembro 27, 2004 08:16 PM
JP, alguns discos que comprei este ano e de que gosto muito:
Tortoise - It's All Around You, 2004
XTC - Apple Venus, 1998
John Coltrane and Johnny Hartman, 1966
David S. Ware - Threads, 2003
Eric Dolphy - Iron Man, 1964 (vinil)
Brian Auger - Closer To It, 1973 (vinil)
American Music Club - Love Songs for Patriots, 2004 (pois)
Elis & Tom, (1974) reedição 2004
Publicado por: derFred em novembro 27, 2004 11:05 PM
Mas o Elis & Tom é em DVD audio, não é? (Grande merda para um gajo como eu que não abdica do som da sua aparelhagem DENON - F88).
O disco dos Tortoise é mesmo bom? Eu só aderi ao «Millions...» (o Djed é mesmo incrível) e achei alguma piada ao TNT.
Quanto ao David S. Ware - vou investigar.
Um abraço
Publicado por: João Pedro da Costa em novembro 27, 2004 11:26 PM
e os Dead Combo ?
Publicado por: dores ribeiro em novembro 27, 2004 11:51 PM
Isso é música electrónica, não é? Vou já já investigar. :)
Publicado por: João Pedro da Costa em novembro 28, 2004 12:09 AM
O Elis & Tom tem um DVD e um CD.
Dos Tortoise o meu preferido é o TNT, mas também gosto muito do Millions...
O David S. Ware é da tradição do free jazz, com uma intervenção muito política, mas ultimamente tem feito música mais acessível e até muito lírica. Tenho outros dois álbuns dele: The Freedom Suite (composição do Sonny Rollins) e Corridors & Parallels (com uma incorporação muito interessante do sintetizador). Gosto muito da energia desta música, com o sax sempre a libertar-se de amarras.
Publicado por: derFred em novembro 28, 2004 12:42 AM
Ah, esquecia-me dos Tortoise. Aos discos deles aplica-se a famosa fase publicitária do Pessoa para a Coca-Cola. Este disco (It's All Around You) ao princípio até parece superficial, mas depois começamos a descobrir outras camadas (comos nos posts) e a criar habituação por aquelas frases melódicas extensas. Um pormenor: a capa do disco é muito bonita.
Publicado por: derFred em novembro 28, 2004 12:51 AM
Mmh, aguçaste-me o apetite. Achei piada ao último disco dos UI (isso a propósito dos Tortoise) e vou ver se arranjo esse último disco. Idem para o David S. Ware.
(Toda a boa música segue essa frase que referiste do Fernando Pessoa).
Obrigadão pelas sugestões.
Publicado por: João Pedro da Costa em novembro 28, 2004 01:01 AM
Tenho um álbum e um EP dos Ui de há alguns anos atrás, mas o novo ainda não ouvi.
Gosto muito da cena de Chicago. Tenho uma colectânea organizada por um alemão (Chicago 2018... It's Gonna Change - dois CDs), que para além dos Tortoise e da sua rede de colaborações, tem música do Jim O'Rourke, do Sam Prekop e do Ken Vandermark (saxofonista que também tem uma série de grupos e colaborações). É um movimento muito eclético e experimentalista. O design gráfico deste CD também é muito bom.
Publicado por: derFred em novembro 28, 2004 01:13 AM
Desculpa lá, mas isto da música entusiasma-me. Conheces um disco com música dos filmes do Woody Allen? Chama-se Woody Allen - Film Music (2 CDs, 2003). Vale a pena.
Publicado por: derFred em novembro 28, 2004 01:18 AM
Deram-me esse disco no Natal do ano passado :)
Publicado por: João Pedro da Costa em novembro 28, 2004 05:24 PM
E Marillion? O último album deles "Marbles" está fantástico.
Publicado por: Driller em novembro 28, 2004 08:44 PM
Fiquei surpreendida de ver o Sondre Lerche na lista do outro-dia-que-não-este! Pensei que o pusesses na lista dos discos-que-ouvi-este-ano-mas-até-me-ia-esquecendo. Olha, olha... E o ROOM ON FIRE, não é deste ano? Eu descobri um disco maravilhoso chamado ON & ON, de um simpático surfista Jack Johnson, mas tenho um amigo meu que diz que aquilo é uma merda, que é rock fm, por isso, fico caladinha. E é melhor parar com esta conversa, não vão às vezes os comentadores deste blog ficar aborrecidos... ufas!
Publicado por: Judas em novembro 29, 2004 11:46 AM
JP, encontras uma crítica do It's All Around You em:
http://www.aputadasubjectividade.net/discos/T/Tortoise%20-%20It%B4s%20All%20Around%20You.htm
Publicado por: derFred em novembro 30, 2004 04:46 PM