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novembro 24, 2004

A propósito de mapas, duas borgices

Do rigor em ciência
Naquele Império, a Arte da Cartografia conseguiu tal perfeição que o mapa de uma só Província ocupava toda uma Cidade e o mapa do Império toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmesurados não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império que tinha o tamanho do Império e coincidia pontualmente com ele. Menos Dadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes consideraram que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos. Não há em todo o País outra relíquia das Disciplinas Geográficas.

Epílogo
Um homem propõe-se a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naves, de ilhas, de peixes, de quartos, de instrumentos, de astros, de cavalos, de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que este paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto.

Jorge Luís Borges, EL HACEDOR, 1952


(Este post é mesmo o ponto alto d'As Ruínas, não é?)

Publicado por João Pedro da Costa às novembro 24, 2004 07:44 PM

Comentários

Não me parece que sejas justo contigo mesmo e com o teu Ruínas fazeres uma 'comparação' com o Borges...e btw ele sabia desenhar? :)

Publicado por: catarina em novembro 24, 2004 07:46 PM

O ponto alto - o apogeu! - das Ruínas, sem dúvida. Obrigada, JPC, por este belíssimo post :) . E fizeste-me lembrar um outro conto de Borges que eu também associo muito a estas ruínas imaginárias: o magnífico "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius".
Aqui fica a sugestão - o pedido ;) - para um outro 'post', um dia destes...

Publicado por: DK em novembro 24, 2004 07:50 PM

Duas belas borgices. Gosto especialmente do epílogo.

Publicado por: 1poucomais em novembro 24, 2004 07:53 PM

Sabia. Fazia uns desenhos engraçadíssimos de figuras humanas.

(Tens toda a razão. E olha que para um blog que se dá pelo nome de «As Ruínas Circulares», esta é apenas a 2.ª vez que transcrevo textos desse superlativo senhor. Os trunfos, há que saber guardá-los convenientemente ;)

Publicado por: João Pedro da Costa em novembro 24, 2004 07:54 PM

«Tlön, Uqbar, Orbis Tertius» é, simplesmente, o mais belo pedaço de prosa que já li na minha vida.

(Eu bem me parecia que andavam aí borgesianos escondidos :)))

Publicado por: João Pedro da Costa em novembro 24, 2004 07:56 PM

JPC,
Posso então deduzir das tuas palavras que voltarás a trazer aqui Borges e o «Tlön, Uqbar, Orbis Tertius»? Promete sff! :o)
Uma curiosidade: estes excertos de hoje são uma tradução tua a partir do original? Se sim, está munto, munto bem! ;O)

Publicado por: DK em novembro 24, 2004 09:31 PM

Tradução minha, ligeiramente diferente da disponibilizada em Portugal pela Teorema, sobretudo ao nível da pontuação.

Publicado por: João Pedro da Costa em novembro 24, 2004 10:51 PM

Cambiará el universo pero yo no...

Publicado por: cap em novembro 24, 2004 11:29 PM

Excelente, João. Uma pessoa está dois dias sem cá vir ( eu sei, eu sei, mas às vezes o tempo encolhe) e dá com tanto post interessante que nem sabe por onde começar...

Publicado por: Emiéle em novembro 25, 2004 08:15 PM