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novembro 20, 2004
Paula Rego

A Paula Rego é um dos raros casos de artista em que simpatizo tanto com a obra como com a própria personagem. Não é só a sua figura de avó tresloucada (eu ia escrever «bruxa má»), mas sobretudo a genuína sinceridade e a desarmante ingenuidade de tudo aquilo que lhe sai pela boca. Ouvir falar a Paula Rego tem sido mesmo, nas últimas semanas, um dos raros prazeres que a televisão me tem proporcionado. As entrevistas, por exemplo, são sempre um mimo: por muito mau que seja o entrevistador, é sempre uma fonte inesgotável de prazer ouvir a forma como a Paula Rego responde às perguntas, anulando por completo a pertinência das mesmas.
Há cerca de duas horas, pude assistir a mais uma entrevista na RTP N. A entrevistadora, apesar da idade, até era esforçada e tentava disfarçar o nervosismo de estar a fazer perguntas a uma figura tão desconcertante como a Paula Rego. Bem, foi rir até doer. Transcrevo (de memória) algumas das partes mais geniais, sabendo contudo que falta aqui toda a pantonímia da pintora para terem total acesso à comicidade das suas respostas:
ENTREVISTADORA - Num trabalho feito em conjunto com a Agustina Bessa-Luís, «As Meninas», a escritora referiu que essa obra apenas tinha sido possível graças à solitude (sic) que ambas partilhavam. Considera-se uma mulher só?
PAULA REGO - Eu, quando era nova, estava sempre fechada em casa. Tinha medo de vir cá fora ao jardim por causa das moscas.
E - A predominância da temática feminina na sua obra tem a ver com o facto do Portugal em que nasceu e cresceu ser um país dominado por homens, onde as mulheres não tinham poder para agir?
PR - Pois tem. [silêncio]
E - Partiu para Londres aos 17 anos e sei que faz lá psicoterapia. É possível estabelecer uma relação entre a sua pintura e a psicoterapia? Pinta para afastar os seus medos?
PR - Credo, não. A única coisa que a psicoterapia faz é não termos vergonha de quem somos. O que dá jeito.
E - Então a sua pintura não é uma forma de substituir a psicoterapia?
PR - Claro que não. Para mim pintar é um ofício. É um hobby. Uma coisa que gosto de fazer nos meus tempos livres.
E - Mas sei que já disse que tinha vergonha de alguns aspectos da sua pintura. Quais são?
PR - Ah, isso já não me lembro. [silêncio novamente e a Paula Rego a fazer um daqueles seus sorrisos de orelha a orelha como quem diz: «sei, mas não te digo»]
E - Não terá sido por causa disso que a Paulo Rego já afirmou numa entrevista que gostaria que as pessoas não reconhecessem os seus quadros e que, ao vê-los, os atribuíssem a outra pessoa?
PR - Não, não, isso era para serem melhores. Se alguém visse um quadro meu e o atribuísse a outra pessoa, era sinal de que eles seriam melhores.
Peço desculpa pela heresia, mas estas respostas estão à altura de qualquer quadro.
Publicado por João Pedro da Costa às novembro 20, 2004 11:30 PM
Comentários
Tem muita graça, realmente. :)
Publicado por: catarina em novembro 20, 2004 11:52 PM
Já estive na exposição de Serralves duas vezes e de ambas fiquei ligeiramente desiludido. Os quadros dela são um pedaço mais tresloucados do que as obras mais famosas dão a entender. Prefiro estas, um bocado mais expressivas, e com a mesma ambiguidade desconfortável...!
Publicado por: gui em novembro 21, 2004 12:51 AM
Pois. Eu sou suspeito, porque gosto muito do trabalho dela (embora confesse a minha preferência pela 1.ª fase - ainda mais louca - dos seus quadros). A sério: se tiverem a oportunidade de vê-la na televisão, não percam por nada dessa vida. Ela é absolutamente formidável.
Publicado por: João Pedro da Costa em novembro 21, 2004 01:15 AM
Na 1ª entrevista que vi dela, inicialmente pensei que fosse tresloucada, sem que visse isso como negativo mas pelo menos indicativo de alguma falta de intencionalidade no seu trabalho. Mas como tu dizes, rapidamente sobressai uma genialidade que poucos alcançam, com simplicidade e humildade desarmantes. Bem como um sentido de humor insinuoso, possivelmente fruto da sua vivência lá pelas inglaterras.
Publicado por: PN em novembro 21, 2004 01:29 AM
Tá visto que temos de ir lá prás «inglaterras», caramba.
Publicado por: João Pedro da Costa em novembro 21, 2004 01:52 AM
Estar 'lá pelas inglaterras' de facto altera o sentido de humor de uma pessoa...:)
Publicado por: catarina em novembro 21, 2004 01:57 AM
A grande Paula Rego! Senhora de uma invejável obra artística e dona de uma personalidade única. Gosto bastante de ver as suas entrevistas.
Publicado por: Driller em novembro 21, 2004 08:41 AM
Concordo absolutam/ (e discordo de concordar assim) - ouvia-a numa entrevista por aí e a naturalidade, a forma como desarma as perguntas, o humor, as respostas artilhadas com subtileza ou naturais apenas, cativam de imediato, a mim aconteceu.
Posso estar enganada mas acho q é uma daquelas raras pessoas q se interpelares te responde com naturalidade , não em função de seres conhecido ou não, mas por seres uma 'pessoa'.
E aquele ar exótico e ao mesmo tempo de não-diva tão difícil de conciliar, faz dela uma...diva..?
Uma Sinhora, sim.
:)
Publicado por: vague em novembro 21, 2004 10:25 AM
E por falar em Paula Rego e em "bunny suicides" ;) , um dos quadros dela que mais me perturba - e que perturbou também a minha filha de 8 anos - é o daqueles "coelhos" acossados e feridos, intitulado "Guerra", se não estou em erro. Se fosse entrevistadora, perguntava-lhe por este quadro em particular, a ver qual seria a desconcertante resposta... ~:o)
Publicado por: DK em novembro 21, 2004 11:57 PM
Gosto muito da personalidade desassombrada da Paula Rego. É de quem se aceita. E na pintura gosto muito dos jogos psicológicos, da tensão - do que já se passou ou do que se vai passar. Mexe com a cabeça e com o coração.
Publicado por: derFred em novembro 22, 2004 01:42 AM
DK: sabes que esse belíssimo quadro está super-mal colocado (num canto de uma sala e sem luz) na exposição de Serralves? Aliás, aquilo lá deixa mesmo muito a desejar. A única mais-valia são mesmo os quadros da Paula Rego (a técnica dela com pastel é absolutamente inacreditável, passei a tarde toda de Domingo com o nariz colado aos quadros para ver melhor as texturas), tudo o resto - a colocação e a sequência dos quadros e a própria iluminação - denota uma gritante falta de imaginação.
Publicado por: João Pedro da Costa em novembro 22, 2004 03:46 AM
Há uma data de anos comentava-se no meio da crítica nacional que era imposssível entrevistar a Paula Rego, deixando ficar a ideia implícita de que isto acontecia porque ela era doida, ou até a mensagem subliminar de que era mal intencionada relativamente aos entrevistadores. O que sucede é que o "anglosaxonismo" também faz dela um ser mais pragmático do que era aceitável pelos nossos intelectuais de outrora (agora já existem umas mentes mais limpas a fazer crítica de arte), alguns dos quais ainda persistem ou fizeram escola. Li muitas entrevistas em revistas e jornais ingleses e aqui aceitavam perfeitamente respostas como "tinha dificuldade com os fundos, porque eram áreas muito grandes mas o Victor -Willing, o marido- lembrou-me que podia resolver isso se pusesse as sombras de acordo com a resolução deste problema, que ninguém iria confirmar a fonte de luz" (se há coisa para que serve a arte é para exercermos as liberdades que não são possíveis na vida...); a primeira entrevista decente em português foi por alguém que não percebia nada de arte, apenas era sensível e inteligente (iiihhhhh ca ganda comentário!). Também gosto mais daqueles trabalhos mais frescos, com narrativas em banda.
Publicado por: susana em novembro 23, 2004 03:16 PM