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novembro 30, 2004

peixinhos vermelhos [narração I]

Fragmento

Desculpa-me, meu amor, mas adoro, assim, sem mais nem menos, falar alto quando estou sentado na retrete à espera que o Reverendíssimo Cagalhão me faça o favor de descer indolormente da Excelência do meu Ânus. Claro que são cogitações absurdas, rasgos incoerentes e surrealistas de um pensamento mais do que automático, de fazer corar um André Breton, porém confesso-te que me revejo ao improvisar monólogos cheios de metáforas impossíveis, de imagens caóticas e de metonímias longínquas, sem saber muito bem como ou quando as irei terminar, na errância monótona de uma ideia ávida de imagens que a possam fixar. Por vezes, meu amor, recito merdas dessas durante longos minutos. Claro que tudo isto escrito, preto sobre branco, tinta sobre papel, seria uma valente porcaria, um absoluto vómito, contudo assim em palavras soltas, leves, trémulas, espaçadas por pausas variáveis da minha variável hesitação e materializadas na minha voz ora rouca ora aguda, consigo ainda encontrar nelas uma beleza sublime de um animal africano em vias de extinção que não encontra parceira para se encarecer.

E, confesso-o a ti, meu amor, comovo-me que nem uma criança.

É óbvio que agora que estás tão próxima de mim, já não sinto tanta necessidade dessas merdas. Agora que estamos juntos, elas já deixaram de ser vitais. Recordo-as talvez devido a uma portuguesíssima saudade congénita de navegador solitário que apodrece de escorbuto no alto mar, não sei bem. Talvez tenha de te pedir desculpa. Desculpa. Não deves interpretar estes devaneios como indícios de um cansaço em relação à intensidade de nós nesta última semana. Não, meu amor, não deves. Se calhar, o que se passa é que não estou habituado a tanta felicidade. É isso. Por vezes, sinto-me como um daqueles pássaros exóticos nascidos em cativeiro que um belo dia se vê com veemência solto do seu mundozinho fechado, e que voa assim, embriagado de tanta liberdade, em direcção à morte, em direcção a horizontes longínquos, por cima de imensas paisagens unas que não se encontram seccionadas pelas barras oxidadas de uma gaiola, cujas marcas ainda continuam gravadas na liquidez vibrante da sua retina. Admito-o, meu amor, a felicidade é de uma violência infinita.

Gostaria de saber, meu amor, como é que fazes para te moveres assim, como um fantasma, sem que me aperceba dos teus movimentos. Deve ser, concerteza, apenas mais uma obra desta arte mágica exclusiva das mulheres. Não, não, nada disto me assusta. Pelo contrário. Acho fascinante o facto de te arrastares invisível atrás de mim como uma sombra luminosa neste mundo de trevas que é o meu. Onde quer que esteja no meu apartamento, sei que se olhar para trás verei a omnipresença do teu corpo pálido e dos teus olhos lívidos, e sei, meu amor, que a qualquer momento estaremos os dois a rebolar pelo chão perante o olhar parvo do Camilo.

(A propósito, tenho a certeza que ele gosta de ti. Sempre que te aproximas, sinto nele uma agitação que só posso interpretar como o sintoma de um afecto. É. Ele adora-te.)

Enquanto houver música neste planeta como a dos Tindersticks, a dor e o prazer nunca serão próximos, mas uma única coisa só. Era sempre em parvoíces dessas que pensava, meu amor, quando, antes de te conhecer, passava horas deitado na cama às escuras, que nem um urso polar em hibernação, a ouvir nos auscultadores a voz rouca do Stuart Staples a sussurrar palavras que os lábios iam repetindo num subserviente sincronismo. Antes de ti, meu amor, posso dizer que eram estes os únicos momentos em que se me afigurava credível o facto de estar vivo. Eram os únicos instantes em que chegava a duvidar da certeza de ser um monte configurado de plasmas e de tecidos embebidos em hemoglobina que se movimentam por razões de simples mecânica inerente ao suceder monótono dos dias e à insustentável previsibilidade das noites. E foi num desses serões que te vi pela primeira vez. Adormecera exausto. Às vezes, isto acontecia: após horas de repetidas audições e de inalações de alcatrão nicotinado por ervas dos trópicos, o sono derrubava-me e acordava a meio da noite, irrequieto, com a pulsação acelerada e um intenso sabor a sangue na boca em frente da indiferença tecnológica das luzinhas vermelhas e esverdeadas da minha aparelhagem. Foi neste estado que despertei nesse serão exemplar, tirando o facto de não haver qualquer luz à minha volta. Estava submerso na escuridão. Naturalmente, meu amor, pensei que a ficha do meu hi-fi se tinha desprendido da tomada ou então que tinha havido, muito simplesmente, uma falha de corrente. Soergui-me da cama a muito custo e nunca antes este corpo me parecera tanto um fardo incómodo e pesado que teria de carregar durante não sei quanto tempo, não sei muito bem porquê, e ainda muito menos para onde. Atravessando o negrume, dei dois passos que deveriam me conduzir à parede onde estaria o interruptor. Estendi o braço para tocar com a mão a parede e nada – a parede não estava lá. Perplexo, voltei a dar outro passo, convencido que iria bater com a cabeça na parede, mas não. Estendi de novo o braço e o ímpeto do vazio desfez-me no momento o corpo em pânico. Não te sei dizer, meu amor, quanto tempo fiquei assim parado, sem me conseguir mexer. Só sei que naquele instante me apercebera de imediato da anómala solidão em que me encontrava, e o desespero fermentava dentro de mim em espasmos de dor. Após este espaço de tempo que não consigo contabilizar, tornei a abrir os olhos e, mais uma vez, as trevas inundaram-me em toda a sua pujança, enchendo-me os pulmões e penetrando-me aos assobios pelos poros da pele. Comecei então a movimentar-me neste éter inverosímil, ciente de que não iria encontrar nada. Pensamentos fugazes navegavam na minha mente como pequenos navios bidimensionais singram num mar de basalto. Tinha a certeza de que, das profundezas insondáveis da escuridão, tinham rompido em silêncio imponentes colunas de pedra que se prostravam debaixo dos meus pés impedindo a queda iminente, e que, mal levantava um deles, estas se desfaziam em cinzas reagrupando-se como um disciplinado enxame de abelhas na precisa localização da minha próxima passada. Cansado de tanto deambular, resolvi parar. Continuava de pé. Não ousava sentar-me, com medo que não houvesse um número suficiente desses insectos voadores para suster toda a superfície do meu corpo. Sentia uma faminta necessidade de me tocar, de sentir nas palmas das mãos a materialidade do meu corpo. Embora esse contacto nunca tivesse sido dantes suficiente para confirmar minha existência, confesso-te, meu amor, que, naquelas bizarras circunstâncias, ele cumpria esta missão. Enquanto estive assim parado, lembro-me que a minha única preocupação residia no facto de não saber o que fazer para me entreter. Estava curiosamente mentalizado da permanência, da imutabilidade do meu estado errante neste universo oco e o tédio ia-se tornando insuportável. A minha angústia podia resumir-se na minha incapacidade em preencher o tempo. Nada mais. Curioso, não é?

Merda. Peço-te imensa desculpa, meu amor. Por ele. Não consigo compreender este gato. Caralho. Ele consegue ser realmente inoportuno. Espero que não te tenha ferido. Ai ai, deixa-me ver se é grave. Não, tens um pequeno arranhão na orelha, mas nem sequer está a sangrar. O Camilo tem uma forma muito peculiar de demonstrar o seu afecto às pessoas... Não lhe ligues, meu amor, não há nada a fazer, ele é mesmo assim: imprevisível e misterioso. Sabes que nunca o ouvi miar? O seu estado “normal” é estar nesta pose de observador cauteloso por detrás do seu olhar de vidro. Às vezes, preciso de sentir a sua pulsação para ter a certeza que não está morto e empalhado. E depois, assim de repente, tem dessas explosões de adrenalina ou o raio que o parta. Há dias, saltou para o chão numa histeria louca e começou a urinar e a defecar durante quase um minuto como se estivesse possesso por um demónio. No fim, o monte de merda ao seu lado no tapete era maior do que ele. Já me passou pela cabeça, bem mais do que uma vez, ver-me livre deste gajo, mas não tenho coragem. Já te tinha dito, meu amor, que o encontrei na rua há cerca de dois anos? Estava todo encharcado. Peguei nele e parecia um cadáver tenso e gelado. Tinha aquela coleira com o nome. O nome, claro, foi o nome que me conquistou. Também, só mesmo com este nome, porque para animais já me basta a barulheira dos que o meu vizinho de baixo tem na sua loja. A propósito, meu amor, esta semana eles têm estado incrivelmente silenciosos. Estranho, não é? Enfim, quando cheguei a casa, lavei-o, sequei-o, e dei-lhe de comer. Habitou-se de imediato à casa e arranjou logo um sítio para ele, em cima do armário, ao lado do meu aquário de peixinhos vermelhos. Nunca tive medo que os atacasse. Nada disso. Desde o primeiro dia que reparei que olhava para eles com uma minuciosa atenção de relojoeiro solitário, diria mesmo com um certo respeito protocolar de embaixador asiático num país europeu. É mesmo flipado. Passa a maior parte do tempo a olhá-los, daquela maneira esquisita, extremamente compenetrado naquilo que está a fazer. Confesso que, desde a tua chegada, está mais inquieto. Todavia pensava que era bom sinal. Olha, sabes que mais? Que-se-fô-da. Se voltar a ser assim bruto contigo, meu amor, juro-te que o esquartejo. Ouviste Camilo? Acho bem. Mas afinal estava-te a contar... Bem, já agora, aproveito esta pequena interrupção para puxar o autoclismo. Dantes era tão sensível aos odores dos esgotos, mas há dias que tudo me cheira a nada. Uma constipação, talvez, não sei. Vou para a sala. Sei que quando chegar lá e olhar para trás, estarás, como sempre, atrás de mim, sem que saiba como. Pareces voar pelo espaço, meu amor, e a mim custa-me tanto andar.

É como se arrastasse mais uma pessoa estranha para além deste outro estranho que sou eu.

Publicado por João Pedro da Costa às novembro 30, 2004 12:01 AM

Comentários

Imagens poderosas que vão além:
"como uma sombra luminosa neste mundo de trevas";
"uma minuciosa atenção de relojoeiro solitário".

Publicado por: derFred em novembro 30, 2004 12:31 AM

Pousando o cestinho (uma grade de Superbock), digo surpreendido:
- Ó JPC, que dentes tão afiados que tu tens...

Publicado por: PN em novembro 30, 2004 01:39 AM

Fui eu que lhe emprestei a dentadura. Tens aí um saca-caricas à mão?

Publicado por: sharkinho em novembro 30, 2004 02:50 PM

E que tal fazermos uma surpresa ao JP para o regresso?
Por exemplo, um concurso de quadras alusivas ao Ruínas ou outra alternativa que nos permita retribuir a criatividade com que ele nos tem presenteado? Aceitam-se sugestões e colaborações para a homenagem-surpresa ao blogueiro do ano.

Publicado por: sharkinho em novembro 30, 2004 03:48 PM

Isto é o que se pode chamar um blogue sincrético.
(PN, passa-me aí uma cerveja que fiquei com o cérebro a fumegar)

Publicado por: derFred em novembro 30, 2004 04:27 PM

Acho uma excelente ideia. Mas aviso já que ao contrário de fumegar, dá-me a sensação que o meu cérebro se quer apagar quando me falam em quadras. Sou nisso tão má quanto o JP é bom a postar.

Publicado por: minerva em novembro 30, 2004 05:07 PM

E na volta... Se me passarem uma fresquinha...

Publicado por: minerva em novembro 30, 2004 05:10 PM

Toma.

Publicado por: derFred em novembro 30, 2004 05:32 PM

Tá bem, quem não sabe fazer quadras pode inventar nomes feios para o blogue, como fez mais acima o derFred...

Publicado por: sharkinho em novembro 30, 2004 06:02 PM

Sharkinho, tu podes chamar-me Fred. Mas só tu!

Publicado por: derFred em dezembro 1, 2004 01:55 AM