« Haverá alguma coisa mais triste no mundo | Entrada | A reciclagem é mesmo bom »

novembro 10, 2004

Post terapêutico

xico2.jpg

O Xico, antes de se chamar «Xico», chamava-se «gatinho» e era um bebé vadio que apareceu no meu quintal, aí em meados de Janeiro. Era um gato muito bonito e muito desconfiado, que fazia sempre questão em manter um perímetro de segurança entre ele e qualquer outro mortal. Como é óbvio, eu e a Manela tentámos conquistá-lo pela barriga, oferecendo-lhe uma parte substancial dos biscoitos originalmente destinados à Ziggy, a gata oficial da casa. Ainda assim, a aproximação foi lenta, mas lá chegou o dia em que, finalmente, consegui o primeiro contacto físico, que teve um grande impacto no bichinho: aquele gesto deve ter sido a primeira vez que ele recebeu carinho de alguém e lembro-me muito bem do seu próprio espanto quando percebeu que estava ronronar.

Nunca me passou pela cabeça adoptá-lo. O malandro parecia feliz: vadio, sem dono, e com água e comida à descrição. Tenho um quintal de proporções assinaláveis e ele sentia-se lá seguro e bem vindo. Até o meu cão, o Jota, começou a aceitar a sua presença, facto por demais evidente quando uma vez surpreendi o gatinho a comer na sua gamela e o raio do cão a olhar para o atrevido com um ar muito pachorrento. Isto até ao dia em que a Manela reparou que o gato arrastava as patas de trás. Ficamos preocupados e o raio do bicho sentiu a nossa inquietação. Não foi fácil apanhá-lo desprevenido, mas, quando conseguimos, vimos logo que ele tinha duas grandes feridas nas patas e que as mesmas estavam sempre a sangrar. De início, ainda tentamos desinfectar as feridas, mas depressa se tornou evidente que a sua condição de gato vadio impedia a cicatrização das mesmas e resolvemos levá-lo ao veterinário. E começa aqui uma saga farmacêutica que já dura há uns bons cinco meses e cujo corolário só poderá ser a minha ruína financeira. Passo a explicar.

Em primeiro lugar, o gato não andava com as pernas tortas por causa das feridas: o nexo de causalidade era inverso. O veterinário tirou-lhe uma chapa e detectou um chumbo (filhos da puta) de uma espingarda de pressão alojado numa das vértebras (a antepenúltima) da coluna. Eram as lesões decorrentes da chumbada que lhe tinham semi-paralisado as patas de trás e era essa paralisia que o forçava a arrastar os membros inferiores. As feridas eram o resultado da fricção das patas com o solo. O bicho foi operado, retiraram-lhe o chumbo (as lesões, infelizmente, permanecem, mas o gato nem parece se importar muito com isso) e, foi durante o pós-operatório, que a minha mãe o baptizou de «Xico» e uma tremenda responsabilidade caíu em cima de nós.

Como é óbvio, o seu historial clínico não ficou por aqui. Só para terem uma pequena ideia, vou vos dar uma amostra dos haveres farmacêuticos que tenho em minha posse para tratar do Xico:

- Água oxigenada, algodão hidrogenado, Mercryl SM, Betadine SD, Leukoplast, Mölnycke, Halibut e Cicatrin para proceder à limpeza das feridas (há cinco meses que faço isso todos os dias e, apesar das evidentes melhoras, as malditas ainda não cicatrizaram);

- Diarsanyl, Romfen e Flagyl para tratar de uma infecção intestinal que, pelos vistos, é muito comum nos gatos vadios;

- Baytril para tratar de uma infecção urinária (o bicho mijava sangue) que rapidamente evoluíu para um tratamento com Lepicortinolo, quando (e esta é a última novidade) uma ecografia detectou uma pedra na bexiga;

- Um bisturi Romed (esta parte até gosto, eu sempre sonhei ter um bisturi, não me perguntem porquê) para cortar em metades, quartos e oitavos comprimidos minúsculos com um diâmetro inferior a 5mm;

- Feline s/d, que é uma comida diurética (diurética?) usada para baixar o pH da urina. O Xico nos próximos dois meses apenas pode comer dessa merda e essa merda custa cerca de €20 o quilo.

É claro que tudo isto não é nada comparado com aquilo que o Xico trouxe à minha vida (e quem tem gatos sabe muito bem do que estou a falar). O que me custa é vê-lo com dores. Um ser humano, que raios, sabe racionalizar a dor, atribuir-lhe origens, adivinhar-lhe terapias e até filosofar-lhe virtudes, mas um bicho não. Há apenas aquele olhar incompreensivo, quando lhe enfio comprimidos à força pela goela abaixo ou quando o magoo nos curativos. E em cada um desses olhares, há um bocado de mim que anoitece.

O Eugénio de Andrade deixou escrito que sempre soube que não há nada mais frágil no mundo do que a beleza. Eu, confesso a minha ignorância, nunca o soube. Mas um gajo aprende depressa.

Publicado por João Pedro da Costa às novembro 10, 2004 06:04 PM

Comentários

Se o Xico já anda à bulha com o gato do vizinho e vence, está de certeza melhor. Uma festinha ao bichanito, um beijinho para o dono.

Publicado por: 1poucomais em novembro 10, 2004 06:49 PM

tenho um livro de poesia só de/para gatos, de variadíssimos autores. consigo perceber bem o fascínio...

Publicado por: ana margarida em novembro 10, 2004 07:36 PM

O que é preciso é que se ponha bom. Ou, pelo menos, melhor. E tu também. Beijos e festas para os dois.

Publicado por: catarina em novembro 10, 2004 07:47 PM

Diz o vizinho do dono do Garfield, ao responder que seus gatos não tinham nome:Nunca entendi pq colocar nome num animal que não atende quando o chamamos.

Publicado por: Edgar Borges em novembro 10, 2004 07:57 PM

Quando perguntei inocentemente se tinha ido ao veterinário, não imaginava toda essa saga. Mas acredito que vai superar, que os gatos, sobretudo os que nasceram vadios têm mesmo as tais 7 vidas. Eu tive um que adoeceu e só o levámos ao veterinário já tarde (e ainda por cima uma espécie de "veterinário da caixa") erro gravíssimo e que pagámos com lágrimas pela cara abaixo quando nos morreu ao colo. Nem me quero lembrar. O segundo viveu 18 anos. Tinha veterinário de luxo, mas merecia. Também era vadio, e vadiava aos fins-de-semana. De 2ª a 6ª vivia recatado. Teve problemas pulmonares, um internamento e tudo, mas uma vitalidade magnífica. (agora essa dos comprimidos é que nunca se conseguiu; pelos vistos vocês conseguem, mas cá em casa passou-se para supositórios) Tenho a certeza que o vosso Xico vai ficar fino daqui a uns tempos. Façam-lhe uma festinha por mim.

Publicado por: Emiéle em novembro 10, 2004 11:13 PM

Bolas João! Agora apelas à lágrima aqui ao pessoal?
As melhoras pró Xico!

Publicado por: cap em novembro 11, 2004 12:20 AM

Que coisinha mailinda! É. Estes bichinhos, para além de nos causarem uma data de preocupações, ainda nos arruinam a carteira... O meu cãozito, com as suas maleitas crónicas (uma hérnia discal, problemas de fígado, ...), as suas análises, ecografias, radiografias & medicamentos, já me tem custado umas quantias jeitosas no veterinário e na farmácia!
Mas acho que a nossa vida não seria a mesma sem estes fofinhos, tão queridos :o))).
As rápidas melhoras para o Xico.
DK

Publicado por: DK em novembro 11, 2004 12:54 AM

Obrigado a todos: são uns queridos.

Publicado por: João Pedro da Costa em novembro 11, 2004 02:44 AM

Eu não sou lá muito católico. Se fosse, diria que o teu lugar no céu está garantido.

Publicado por: Ricky G. em novembro 11, 2004 10:47 AM

O meu gato - que foi, contra a minha vontade, capado e só saiu de casa duas vezes - tem o hábito de caçar andorinhas à janela. Fica muito quieto, às vezes durante muito, muito tempo. Elas vão passando sem lhe ligarem nenhuma. Ele nem mexe uma orelha. Depois, de repente, zás: saca da unhaca e apanha uma, que faz rebolar pela casa, sem a matar, até que os descobrimos. Já fui mais vezes com andorinhas para o veterinário do que com o meu gato. Verdade seja dita. Mas quando, um desses dias, o gato saltou pela janela (de um 3º andar), digo-te, o meu coração saltou com ele e foi esborrachar-se lá embaixo. Quando o encontrámos ele tinha partido o fémur e teve de andar com aquele funil no pescoço, depois de ser operado. Era aliás precisamente a mesma fractura que eu própria tinha feito num acidente de carro algum tempo antes. Pelo que eu sentia que o entendia melhor do que ninguém. Até mesmo quando ele tentava caçar a cauda que aparecia por detrás do funil e destruía os bibelots que apanhava pelo meio. Fora isso, apesar dos seus já 11 anitos, e depois de ver a lista dos medicamentos que tens de administrar no teu Xico, o meu Rei justifica em tudo o seu nome. E talvez sobretudo nisso que dizes: a beleza. Continuação de boas melhoras. Isso da coça de certeza que é bom sinal. É um valente.

Publicado por: minerva em novembro 11, 2004 11:23 AM

Tanta coisa por um gato. Ciao! Desisto de tanta alienação mental via net. Vou mas é passear e ver outras coisas.
As pessoas racionalizam a dor? Nem sempre... E as crianças?
Pelo mundo fora, muita coisa se passa. Não só Internetes, blogs para pessoas que vegetam em casa e compadecimentos com as dores de um gato (não será o último, nem o primeiro).

As melhoras para vocês todos, incluindo o autor do blog (que, efectivamente, se compraz num certo masoquismo animalesco).

Susana.
(Não virei tão cedo ao blog porque vou mesmo viajar).

Publicado por: Susana em novembro 11, 2004 01:12 PM

Minerva, esse teu gato é um verdadeiro predador. O Xico faz o mesmo mas é com os insectos. Infelizmente, não se limita a brincar com eles...

Publicado por: João Pedro da Costa em novembro 11, 2004 02:56 PM

Umas mosquinhas de vez em quando fazem bem à barriga. Dos gatos, digo. E sim, lindo e felino como mais nenhum.

Publicado por: minerva em novembro 11, 2004 04:45 PM

O Xico é o meu papagaio. A propósito a minha gata Mia (o nome, e sim, também mia) anda a fazer a corte ao Xico, o papagaio.

Publicado por: Monty em novembro 11, 2004 07:35 PM

Agora li o post, pá! Caramba, meu, grande blogger que tu és.

Publicado por: Monty em novembro 11, 2004 07:37 PM


Joao Pedro, (não costumo tratar bloggers por "tu", mas isto tem mesmo ar "familiar" - portanto parabéns!) antes de mais anda parabéns pelo blog. Está genial!! Conseguiste trazer-me à memória momentos muito felizes e muito tristes (enfim, marcantes!!) da minha vida!! Será que te agradeço!!?

Quando era miúdo tinha um cão!! Pastor alemão!! Eu e o "bicho" éramos tudo! Andava com ele para todo o lado (acredita!! E o "filha-da-mãe" era grande!!)!! Num dia à tarde, tinha eu 14/15 anitos, cheguei a casa e o canito vinha a coxear das patas de trás!! achei aquilo muito estranho e quando me ia a chegar à beira do animal, começou a ter um ataque! Esticava-se todo!! Bem, horrível!! (depois, em consequência disso, deixou-me em direcção ao "paraíso dos cães" onde deverá estar muito melhor!! :D) Tal cena nunca mais me sai da cabeça! E TU, fizeste-me recordá-la!! A ela, e a mais algumas boas brincadeiras que fiz com o meu (sim, porque ainda é -e será sempre, MEU!!) cão!! OBRIGADO!!

Continua o bom trabalho!!

Publicado por: Pedro em novembro 11, 2004 09:03 PM

*nada!

Desculpem!!

Publicado por: Pedro em novembro 11, 2004 09:08 PM

Ó Pedro, não tens de quê. Aqui no blog somos todos uns abusados e a gente trata-se sempre por «tu»...

Publicado por: João Pedro da Costa em novembro 12, 2004 02:42 AM

Descobri uma tradição que consiste na postagem de fotos de gatos à sexta-feira, até o New York Times já falou disso.. resumindo, o Xico merecia uma nova foto hoje! ;)

Publicado por: Boss em novembro 12, 2004 05:14 PM

Ai ai que já é Sábado!!!! Que pena, caramba. Mas olha, prometo que na próxima semana, não falha.

Publicado por: João Pedro da Costa em novembro 13, 2004 12:02 AM

Só hoje aqui cheguei. Isto de viajar na blogosfera tem que ser feito por etapas... Mas a história do Xico tocou-me particularmente, porque gosto muito de gatos. Cá por casa há nada menos que quatro!
Gostei do blog, vou fazer o link e voltarei mais vezes.

Publicado por: Margarida A. em novembro 15, 2004 06:57 PM

Cá em casa há três: dois nasceram mesmo aqui, a mais pequenina apareceu-nos no quintal. No ano passado o nosso macho Seti (nome de deus egípcio ou faraó, dado pela minha Cèlinha) começou a urinar sangue; quinze dias internado num hospital veterinário (uma conta calada) sem esperanças de sobreviver. Afinal o bicho safou-se, não sei se com ajuda de S. Francisco de Assis que uma pessoa agarra-se a tudo. Eles não são pessoas, mas são parte da família na mesma. Que o seu Xico recupere e faça parte da família durante muitos anos.

Publicado por: Vi em novembro 16, 2004 12:51 AM

Obrigado, Vi. Ele já está em franca rescuperação e estou certo que serão, mesmo, muitos anos.

Publicado por: João Pedro da Costa em novembro 16, 2004 12:57 AM

ADORO gatos! Tive dois durante 14 anos (metade da minha vida) e sofri horrores quando os perdi...
Se pudesse, adoptava e/ou tratava todos os gatinhos vadios.
A história do Xico comoveu-me. Já agora, como é que ele está?
Os veterinários na Calçada da Ajuda (Lisboa) não é muito caro. Além disso, tem uns contactos na Faculdade de Veterinária (também aqui na Ajuda) que dão imenso jeito e reduzem substancialmente as despesas.

Publicado por: Ana [Lua] em novembro 16, 2004 01:52 AM

Adorei o texto porque adoro gatos. Tenho um neste momento que foi resgatado da rua, pelo que me identifiquei com muito do que escreveste (em especial a parte de lhe enfiar o Flagyl pelas goelas, o que não é nada fácil). Parabéns pelo blog, vou já por um link no meu. Isto para além de aderir à moda das fotos de gatos à 6ª. :)

Publicado por: kandimba em novembro 24, 2004 12:37 AM