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dezembro 31, 2004
Último post de 2004
Este é o último post d'As Ruínas em 2004. Gostaria de aproveitar a ocasião para desejar um fantástico 2005 a todos os leitores ruinosos da blogosfera e deixar aqui um pequeno presente de fim de ano sob a forma de uma música.
A canção que podem ouvir através deste sofisticado plug-in (made in Taiwan), está em perfeita sintonia com a quadra natalícia e, para além de a considerar uma espécie de manifesto da minha pessoa, consegue versar, com uma rara poesia, sobre temas tão sensíveis como a paz, a harmonia e o amor. Espero que, algures nas ondulações edénicas deste delicado tema surpresa, os leitores d'As Ruínas consigam encontrar a criança tímida que teima em persistir no fundo de cada um de nós. Direi depois, oportunamente, a quem pertence essa voz de anjo (não o digo agora, porque não quero estragar a surpresa).
Fiquem com Deus (pois ele só pode estar no meio de vós).
NOTA: Para o derFred. A música é para todos, mas gostaria de a dedicar a ele em especial. Com ternura (long story ;).
Publicado por João Pedro da Costa às 03:51 AM | Comentários (25)
dezembro 30, 2004
T-Shirts da blogosfera #10
Mais uma T-Shirt, esta fruto de uma encomenda do José Mário Silva.


Caro Carriço e Cachucho: antes de começarem a protestar (ai ai) pelo facto do BdE vos ter passado à frente, deixo-vos aqui uma pequena explicação: o Zé Mário foi a primeira pessoa a linkar estas humildes ruínas, quando elas tinham apenas uma semana de vida (tadinhas), daí a urgência da minha resposta. Espero poder contar com a vossa compreensão e, claro, fica aqui novamente a promessa das futuras confecções.
Quanto à T-Shirt, há pouco a dizer. O design devo-o todo ao próprio blog, simplicidade qb. Espero que gostem.
Publicado por João Pedro da Costa às 06:03 PM | Comentários (16)
Post com retrovisor

Aquele que vai ali atrás não é o derFred?
Publicado por João Pedro da Costa às 02:58 PM | Comentários (10)
Eros no quotidiano
Chega a casa tarde. A mulher já dorme.
Na semi-obscuridade do quarto contempla o perfil ondulante e sente o calor emanado da pele nua e queimada de Verão. Conhece aquele corpo. As pernas morenas e as nádegas brancas. Os pêlos que sobram após a depilação. Os dias da menstruação. Toca-a com o pénis erecto. Toca-a com as mãos. Sente os mamilos. Tacteia até aos olhos, sente a humidade da língua dela nos dedos. Toca a vagina, está molhada. O corpo cansado abre-se em decúbito dorsal. As pernas apartam-se, os seios espalham-se. Beija-a nos lábios. Sente-lhe os olhos abertos, fechados. Chupa, como um torrão de açúcar, os mamilos salientes. As mãos dela vagueiam por sítios do seu próprio corpo e do corpo dele. Ele gosta das pernas flectidas, do pender dos músculos, que apalpa e morde. As pernas dela. Toca ao de leve o lado quente das coxas. Com os dedos, com os lábios. Tão próxima, a boca dele toca a vagina. Aquelas formas, aqueles relevos. A língua, autónoma, toca a matéria pura. Bebe os líquidos, interna-se. Sente o corpo feminino ampliar-se na sua mais forte expressão, em contorções, arqueios e fugas. Sente esse corpo voltar-se para baixo e oferecer, de pernas afastadas, a vagina e o ânus para lamber. Um entendimento, uma sucessão de ofertas e pedidos satisfeitos. Toma noção súbita dos gemidos de ambos, dos odores dispersos. Beijam-se na boca, lambem-se mutuamente. A mão dele desce entre o ventre dela e o lençol até afastar os lábios com dois dedos. O pénis aproxima-se da abertura e toca a carne que é o seu magneto. O calor, a humidade, o gozo indescritível de entrar. Ela estende os braços contra o colchão e volta a cara para o beijar. De frente, pede ansiosamente. E volta-se. Por um momento olha o corpo dela, as pernas relaxadamente abertas, a barriga saliente, os seios redondos, as mãos firmes, que começam a puxá-lo pelos rins, os olhos fechados, a maior súplica e a mais seguramente atendida. O abraço, as palavras de amor, os beijos descontrolados, a linguagem livre, as obscenidades, repetidas obsessivamente, as imagens que provocam arrancadas, saltos para fora da vida, para fora de tudo, para o abstracto de picha, cona, bom, vai, amor, vem, força, vem, amor.
E depois o sono. Adormecer ao lado dela, a suar. Com uma mão pousada na perna flectida. Os seios deitados, dormindo. O respirar pesado, dormindo. O sono.
Publicado por derFred às 12:55 PM | Comentários (106)
dezembro 29, 2004
Post à la Magritte II

Gostaria de dedicar os dois últimos posts ao Luís Rainha, que, ao longo do mês de Dezembro, tem publicado uma série bem interessante e curiosa de textos sobre a vertente plástica do Surrealismo. Tenho sido um leitor atento e assíduo.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:28 PM | Comentários (15)
Post à la Magritte

(É só para avisar que já entrei na fase terminal da loucura.)
Publicado por João Pedro da Costa às 07:35 AM | Comentários (29)
Uma música de Natal
O original é uma das mais famosas músicas de Natal e da pop tout-court. Odiado por uns e amado por outros (o single foi um sucesso de vendas no mundo inteiro), confesso que nutria por este tema uma afeição secreta e meia envergonhada, que não me atrevia a partilhar com ninguém.
Mas agora acabou. Tudo graças a esta magnífica versão de Erlend Oye (um dos elementos dos mais que recomendáveis KINGS OF CONVENIENCE). O rapaz retira todos os arranjos ao original, simplifica-a ao máximo (apenas voz e guitarra) e faz esta coisa absolutamente genial que é cantar apenas uma vez o refrão. Sabem que mais? Esta música foi a única coisa que ouvi este ano que fez lembrar o Natal.
Ficaram curiosos? Basta deixarem um comentário e reservar 2,4 Mb na vossa caixa de correio. Prometo que vão ficar parvos.
ADENDA: como os pedidos são mais que as mães e o SMTP da Netcabo não dá sinais de vida, vamos lá experimentar pela primeira vez n'As Ruínas um plug-in a ver se vos ponho a ouvir a puta da música on-line (até pareço um engenheiro a falar). Por favor, digam depois aí nos comentários se a coisa funciona ou não.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:07 AM | Comentários (47)
dezembro 28, 2004
Post XC

A magnífica Natalie Portman fotografada por Robert Maxwell para a revista Esquire de Abril de 2004.
(Este post é dedicado ao Monty e a um futuro projecto em comum. Ah: e apenas escolhi esta foto porque condizia com o template d'As Ruínas...)
Publicado por João Pedro da Costa às 03:28 PM | Comentários (25)
Post eléctrico-estático (versão psicadélica)

Já deu para perceber que vos quero levar à loucura, não já?
Publicado por João Pedro da Costa às 12:58 PM | Comentários (46)
A ler absolutamente
Isto. Façam-me um favor e deixem lá os comentários. Obrigado.
Publicado por João Pedro da Costa às 10:49 AM
Imagem
Um dedo feminino acciona a roda do rato do computador.
(Uma mulher toca o seu clítoris.)
Publicado por derFred às 10:01 AM | Comentários (18)
Mutts #15

Esta belíssima prancha a cores do Mutts vem a propósito de uma tradição muito lusitana na época natalícia: o abandono dos animais de estimação. Este ano, então, a filha da putice atingiu contornos inacreditáveis. Na marginal de Gaia, onde moro, pode-se assistir ao triste espectáculo de uma dezena (sim, dezena) de cães abandonados, todos com coleira, a pedinchar comida nas esplanadas dos cafés. Todos eles são cães belíssimos: rafeiros, de raça, grandes e pequenos. Todos eles. E o mar torna-se assim algo de muito secundário, um cenário de papel, quando atentamos um pouco à imensurável incompreensão que parece devorar aquela dezena de olhares.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:38 AM | Comentários (15)
dezembro 27, 2004
T-Shirts da blogosfera #9
Aviso desde já que olhar fixamente para esta


T-Shirt provoca ataques epiléticos. Mas, que raios, apeteceu-me desta vez fazer uma T-Shirt que me fizesse recordar o Verão e, por isso, resolvi amplificar o laranja que consegui detectar num certo blog e voilà: saiu-me esta polémica T-Shirt que promete dividir todos os leitores ruinosos da blogosfera. Podem começar a dar-me na cabeça, que raramente me ponho tanto a jeito.
Querida Mar: podes voltar a respirar. Be careful with what you wish, you might just get it. ;)
Publicado por João Pedro da Costa às 09:20 PM | Comentários (18)
Pedimos desculpa pelo incómodo: os posts normais (normais?) serão retomados dentro de momentos

Publicado por João Pedro da Costa às 02:20 PM | Comentários (20)
dezembro 26, 2004
Post circular

Publicado por João Pedro da Costa às 09:46 PM | Comentários (30)
O post branco (versão pop 68)

Publicado por João Pedro da Costa às 04:59 AM | Comentários (12)
Novidades
Aproxima-se o final do ano e há novidades de vulto neste blog. Passo a enumerar:
1) As Ruínas Circulares contam, a partir do dia 24 de Dezembro, com a participação especialíssima do derFred (caso não tenham reparado, ele até já publicou o seu primeiro post e tudo). Bem-vindo, derFred, passo a contar contigo para partir a puta da loicinha toda.
2) Relacionado com o primeiro ponto, e com o meu receio de que alguns leitores não se apercebessem da importante novidade, a magnífica «Exposição dos Coelhos Suicídas» voltou a ocupar o seu lugar na ordenação cronológica dos posts. Para a informação de todos os artistas que participaram na mesma (e não só), é com imenso prazer que informo que, em 3 dias, a Galeria teve mais de 1700 visitantes. Se tivermos em conta o facto de dois desses dias terem sido feriados, penso que há motivos para estarmos todos contentes.
3) Resolvi dar uso à coluna da direita do blog. Há já algum tempo que aquele espaço em branco me andava a causar uma certa aflição e, por isso, informo os leitores que, a partir de hoje, irei lá colocar, logo a seguir às «ENTRADAS RECENTES», alguns textos ou imagens que irão ser mudados ao sabor dos dias, quando tiver alguma ideia engraçada (ou quando pensar que a tiver, o que, como sabem, não é exactamente o mesmo). Espero introduzir assim um elemento mais dinâmico e efémero no blog, pois, contrariamente aos posts, não estará disponível nenhum arquivo das cenas que for lá pondo e retirando. Para já, resolvi lá colocar um finíssimo e longetudinal espelho borgesiano que irá reflectir o(s) post(s) que, em determinado momento, estiver(em) ao seu lado. É uma maluqueira minha, eu sei. Mas também, estavam à espera de quê?
Grato pela atenção.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:01 AM | Comentários (10)
dezembro 25, 2004
As Ruínas em puzzle

Recebi mais uma prendinha de Natal, desta vez da magnífica Vi, que me enviou um programita que permite reconstruir o logotipo d'As Ruínas como se fosse um puzzle (o que podem ver na imagem é esse mesmo puzzle reconstruído).
Muito obrigado, Vi, não consigo imaginar uma imagem mais apropriada para definir o que tento fazer (e nem sempre consigo) com este blog.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:35 PM | Comentários (7)
dezembro 24, 2004
A prenda de Natal d'As Ruínas Circulares aos seus leitores [título da responsabilidade do JP]
Como aqui cheguei
Conheci uma mulher.
Ela tinha um blogue.
Quis gostar do blogue dela.
Enviei-lhe poemas por e-mail.
Ela apaixonou-se.
Por outro.
A importância dos links
Esse blogue tinha links.
Quem sou
Sou real.
Chamo-me derFred.
Sou real.
Dúvida
Seguramente.
Medo
Sem dúvida.
Mas estou aqui.
Publicado por derFred às 06:35 PM | Comentários (41)
Mutts #14 (Feliz Natal a todos os ruinosos da blogosfera)

(Sei que vem tarde, mas só agora é que a senhora Netcabo me deixou aceder ao blog)
Publicado por João Pedro da Costa às 06:13 PM | Comentários (18)
dezembro 23, 2004
Um gatinho nos CDs

Após o autêntico contra-relógio que foi ontem a publicação da Galeria dos Coelhos Suicidas (e tudo a 56 Kbs), recebo hoje uma segunda visita do Pai Natal, que, este ano, está definitivamente precoce.
O primeiro presente que recebi é o 6.º CD (o verde com uma faixa branca) a contar da esquerda, na prateleira de cima: uma magnífica colectânea de 1994 com temas raríssimos do meu amado Robert Wyatt. O segundo é por demais visível, e é o belíssimo gato em equilíbrio instável no centro da fotografia.
Obrigado a ambos (sem hyperlink, por uma questão de pudor). Adorei as prendas.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:07 PM | Comentários (17)
dezembro 22, 2004
Exposição dos Coelhos Suicidas
Olá.
Sejam bem vindos à exposição dos Coelhos Suicídas na Galeria de Arte AS RUÍNAS CIRCULARES. O meu nome é João Pedro da Costa e irei ser o vosso guia durante a visita. Peço o favor de desligarem os telemóveis e de guardarem eventuais perguntas ou comentários para a caixa que estará à vossa disposição no final da visita. Lembro igualmente que, nesta galeria, podem fumar à vontade, que não faltam por aí cinzeiros. (Se tenho lumes? Claro. Ora, com licença. De nada).
Para os que não sabem, a presente exposição reúne os trabalhos enviados pelos leitores de um certo blog, tendo por mote a obra clássica de Andy Riley, THE BOOK OF THE BUNNY SUICIDES, cujo primeiro volume já se encontra editado em Portugal pelas Publicações Europa-América.
Nesta primeira sala, estão expostos os trabalhos de Eufigénio e de A. Neves. Estes dois artistas pertencem à escola norte-americana WET BUNNIES, cujo manifesto foi publicado em 2004 no New York Times. Como podem ver,

os trabalhos dessa escola artística pretendem sublimar a dimensão erótico-suicida dos coelhos através de fotografias ou foto-montagens. Se repararem bem, ambas as obras possuem uma marca particularmente distintiva dos Wet Bunnianos, que é a atribuição apócrifa dos trabalhos a outros autores: os menos esclarecidos poderão ficar com a ideia (errada, tá mal) que as fotos pertencem à revista Playboy ou que foram retiradas de um site brasileiro. Isso mesmo, coelhinhos pós-mordernos, como ouvi alguém a dizer ao fundo.
Passamos agora à segunda sala, totalmente dedicada ao desenhador Sharquinho. Este prolífero autor e predador aquático residente em Lisboa, destaca-se dos demais pelo facto de ser um desenhador sangrento e compulsivo. Segundo alguns especialistas, estima-se que existam mais de quatro centenas de quadros da sua autoria e que o mesmo não os revela a fim de não provocar um colapso do mercado. Os três

quadros que podem ver fazem parte de uma tetralogia intitulada BLOODY BUNNY. Infelizmente, não conseguimos garantir nesta exposição a presença do quarto quadro, na medida em que o detentor da obra, o famoso coleccionador austríaco de arte aquática Franz Ferdinand, exigiu uma apólice milionária que, infelizmente, esta modesta galeria não pode suportar.
Entramos agora para a sala dos artistas pertencentes à corrente A BUNNY IS A STORY e que, como o próprio nome indica, utilizam nos seus trabalhos estruturas narrativas inspiradas na BD. Os dois primeiros trabalhos à vossa esquerda, da autoria de Ricky G. e do Boss têm em comum o facto de introduzirem, de uma forma absolutamente vanguardista, outros

animais para além dos coelhinhos (um cão e uma rena, respectivamente). Do vosso lado direito, podem ver o trabalho futurista do desenhador Fragmagens, que aborda a

problemática ontológica dos coelhos andróides (chamo a atenção para a ligeira inclinação, cheia de simbolismo, do desenho) e, finalmente, o trabalho ultra-romântico de nc, que versa o tema intemporal

dos efeitos nefastos do amor na coelhada, que, como sabem, são ferozes reprodutores. O desenho torna-se particularmente expressivo graças à subtil utilização da cor vermelha. Um clássico.
Chegamos agora à sala onde estão expostas as obras descendentes da famosíssima corrente francesa dos LAPINS ENGAGÉS, isto é, coelhos suicidas que se debruçam sobre questões sociais. E é com muito orgulho que vos apresento os trabalhos de dois dos mais ilustres artistas políticos da nossa praça: Monty e Nuno. Apesar de se saber que ambos os artistas estão conotados com a esquerda, a verdade é que os seus


trabalhos são particularmente ambíguos: o primeiro parece querer sublinhar as propriedades suicidas de um hipotético voto no PS e o segundo não deixa de criticar o lado mais extremista da esquerda bloguística nacional. (Menina, peço desculpa, mas não pode comer aqui dentro. É. Fumar é diferente. Azarito. Terá mesmo de comer o cruassã lá fora.)
Muito bem. Este é, sem dúvida, um dos momentos mais altos da nossa exposição. Resolvemos reservar esta sala para um único quadro, na medida em que este é o único exemplar conhecido de Arte Sacra que aborda a problemática dos coelhos suicidas (silêncio na sala, por favor). (Em voz baixa:) O quadro que podem ver é da autoria da reputadíssima

Emiéle. Como podem ver, este trabalho aborda a ascese de um coelho suicida em plena oração - reparem, por favor, no pormenor das patinhas. Alguns críticos de arte, entre eles o eloquente Bernardo Motta, procuraram desmistificar o cariz litúrgico desta obra, afirmando que o que está representado é apenas um coelho suicida que levou com muito fumo da chaminé pelo cu acima (sim, eu disse «cu») e que a elevação do mesmo se deve apenas a um fenómeno físico muito conhecido: o ar quente é mais leve que o frio e daí... pimba. Como é óbvio, o comissário desta exposição não subscreve essa arrojada teoria e é por isso que enchemos esta sala de velinhas e a perfumámos com incenso (cof cof).
Chegamos finalmente ao Grande Salão d'AS RUÍNAS CIRCULARES, no qual estão expostas, nada mais, nada menos, do que 5 obras de finíssima qualidade. Logo à vossa esquerda, poderão encontrar o quadro, de cariz autobiográfico, da

Azul, no qual se pode ver um pobre coelho esmagado pelo peso da erudição. Logo a seguir, surge uma obra já conhecida do grande público (na medida em que já esteve em exibição noutra galeria) e que aborda

a dimensão lúdica do suicído aplicada aos jogos de computador. Ao centro, podem ver uma das obras mais enigmáticas de toda a exposição, da autoria do artista urbano derFred. Este

graffiti já deu origem a um número infindável de artigos e a dois colóquios internacionais. A inscrição que se pode ler na obra («Próteses Para Coelhos») parece indicar que estamos perante um coelho com uma tendinite de esforço que necessitou de recorrer a um artífico para conseguir saltar. Outros autores, contudo, afirmam que estamos perante um coelho que quer ser marsupiano. Finalmente, os exegetas eslavos defendem que estamos perante o velho tema da superação dos limites, uma espécie de mito de Ícaro aplicado ao universo dos coelhos. Como é óbvio, têm toda a liberdade para interpretarem a obra como muito bem entenderem, embora não possa deixar de apontar, como pequena contribuição para o vosso exercício hermenêutico, o facto do coelho representado estar pintado com um amarelo viçoso, que parece negar qualquer tendência suicida.
Do lado direito da sala, podem ver duas obras de grande dimensão. Em primeiro lugar, um meticuloso desenho que, para além de invocar uma famosa lenda germânica, remete igualmente para o melhor filme de 2004. Esse quadro, é da autoria da sempre surpreendente

Minerva. Ao lado, poderão disfrutar um não menos meticuloso trabalho resultante do labor desta autêntica revelação que é a

Sofia e que, para além de invocar a obra de Hergé, remete para um dos textos do comissário desta exposição (e que, segundo aquilo que consegui apurar, terá ficado extremamente sensibilizado com a gentil lembrança).
Pois é, aproximamo-nos rapidamente do final da exposição. Estamos agora na oitava sala da galeria, onde estão reunidos os trabalhos dos artistas pertencentes à vanguarda THERE IS NO WAY I CAN DRAW SUICIDE BUNNIES. Esses iconoclastas baseam a sua produção no facto de, supostamente, serem incapazes de desenhar coelhos suicídas e as suas obras possuem sempre uma profunda reflexão meta-poética sobre a criação artística. Do vosso lado esquerdo, podem ver a originalíssima

instalação vídeo da autoria de um dos mais conhecidos artistas punk da nossa praça, o Umbigoniilista. Ao centro, está exposta a obra mais dramática de toda a série, na qual a pintora Manela exprime de forma

lancinante as suas próprias tendências suicidas, resultantes da sua agonia perante a brancura do papel. Por fim, dentro deste inovador movimento, é com imenso prazer que vos apresento o trabalho da famosíssima Catarina, um verdadeiro

fresco neo-burguês. Chamo a vossa atenção para o traço quase imperceptível da autora (se quiserem podem se aproximar do quadro, isso, mas cuidadinho com as patas). Para os míopes, atrevo-me a decifrar os subtis hieroglifos. No quadrado 1: «Ora, coelho suicida, coelho suicida...»; quadrado 2: «Porra pa esta merda! Vou mazé fechar o blog!»; quadrado 3: «Não mando nada, vou tomar café» e (no balde do lixo) «Não vá não se perceber no desenho». Palavras para quê? Nunca a língua portuguesa nem a autobiografia (qual Rousseau, qual quê) foram tão plasticamente sublimes.
Et voilá. Chegamos à última sala e às duas últimas obras. Do vosso lado esquerdo, podem ver o famosíssimo quadro da

Mi (que, no fundo, foi o trabalho que despoletou a organização desta exposição), e, por fim, à vossa direita um trabalho anónimo de qualidade muito

duvidosa e que, sinceramente, representa o que de menos bom esta exposição tem para vos oferecer. Mas enfim, não é por aqui que o coelho vai às cenouras, não é?
Espero que todos, sem excepção, tenham gostado desta visita guiada e, já sabem, podem deixar os vossos comentários ou perguntas na caixa que encontrarão à saída da galeria. Prometo que os próprios artistas não se coibirão de vos responder com a brevidade possível. Ah, já me ia esquecendo: peçam, à saída, um exemplar do catálogo da exposição.
INTERNATIONAL BOOKLET OF THE EXHIBITION
#1
«Playbunny» by Eufigénio
#2
«How Am I Suppose To Eat Carrots With This Huge Penis In Front Of My Mouth?» by A. Neves
#3, #4 and #5
«Bloody Bunny I - III» by Sharquinho
#6
«This Dog Is Not Found Of Bunny Bones» by Ricky G.
#7
«Don't You Get Bunny In My Ass» by Boss
#8
«AB - Artificial Bunny» by Fragmagens
#9
«Suicide Is In The Air» by nc
#10
«PS: I Bunny You» by Monty
#11
«The Doors Of Bunny Suicide» by Nuno
#12
«Avé Bunny Luminare» by Emiéle
#13
«Idem Ibidem Mortem» by Azul
#14
«Bunnysweeper» by Cap
#15
«Who The Fuck Put These Strange Jumpers Under My Feet?» by derFred
#16
«The Hamlin Piper Leading The Lost Bunnies To A Horrible Death» by Minerva
#17
«Little Red Fish Hiding In The Moon» by Sofia
#18
«Rubber Band Bunny» by Umbigoniilista
#19
«I Hate Myself And I Wanna Bunny» by Manela
#20
«I Have Very Sensitive Hands, That's Why My Bunny Drawings Are Almost Invisible» by Catarina
#21
«Red Hot Suicide Pepper» by Mi
#22
«What A Lucky Bunny I Am To Have Such Amazing Readers» by Anonymous
Publicado por João Pedro da Costa às 10:28 PM | Comentários (119)
É hoje
que será publicada a Galeria dos Coelhos Suicidas feita pelos leitores ruinosos da blogosfera.
Tenham medo. Tenham muito medo.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:01 PM | Comentários (23)
Post descentrado

Publicado por João Pedro da Costa às 01:54 AM | Comentários (12)
dezembro 21, 2004
T-Shirts da blogosfera #8
É um blogspot (ai ai ai), mas como o prometido é devido, caríssimo Cap, aqui tens a tua


T-Shirt. Acabei por aproveitar as (belas) cores do teu blog e quanto ao resto, bem, para dizer a verdade, nem eu mesmo sei (estava «under the influence»...).
Espero que gostes.
Publicado por João Pedro da Costa às 10:12 PM | Comentários (10)
dezembro 20, 2004
Wanted (dead or alive)

Como já tinha escrito num post anterior, pedi a todos os leitores d'As Ruínas para me enviarem coelhos suicidas para este e-mail. Lembro que não é necessário ser uma história, basta um simples desenho. Até agora, já recebi 11 (onze) fantásticas contribuições, mas, como é óbvio, andam aí leitores em falta (não digo quem, pois sou um gajo cheio de nível, mas eles sabem quem são).
Tenciono publicar tudo no próximo dia 22 de Dezembro, à tardinha, e, por isso, peço encarecidamente aos retardatários para se juntarem à malta. Pode ser?
Publicado por João Pedro da Costa às 09:35 PM | Comentários (23)
Post misterioso para aguçar a curiosidade dos leitores
Vêm aí grandes novidades para As Ruínas Circulares. Não posso é contar. Não querem tentar adivinhar?
Publicado por João Pedro da Costa às 05:16 PM | Comentários (30)
Let The Happiness In

Retirado de SECRETS OF THE BEEHIVE, um dos discos seminais da década de 80, este tema de David Sylvian é uma daquelas músicas que pego sempre com muito cuidado, pela ponta dos dedos. É que o gelo queima.
«I'm waiting on the empty docks
Watching the ships come in
I'm waiting for the agony to stop
Oh, let the happiness in
I'm watching as the gulls all settle down
Upon the empty vessels
The faded whites of their wedding gowns
The songs of hopeless selflessness
A cold December Sun
A cold that blisters
The hands of a working man
Wasted
I'm waiting on the empty docks
Watching the ships roll in
I'm longing for the agony to stop
Oh, let the happiness in
Listen to the waves against the rocks
I don't know where they've been
I'm waiting for the skies to open up
And let the happiness in»
(4 Mbytes. You know the deal.)
Publicado por João Pedro da Costa às 01:26 AM | Comentários (35)
O dia de hoje VIII (ou melhor: de ontem - puxa, que confusão...)
Bem, afinal, o último post foi publicado à meia-noite e por isso. Bem, acho que perceberam a ideia.
14 posts.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:02 AM | Comentários (12)
O dia de hoje VII
Ups: 14 posts. Não, 15. Esperem, 14, 14, é isso. Não. Ora: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11... porra, perdi-me.
(Respirar fundo.)
Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, oooonze, doooooze, treeeeeeeeeze, quatooooorze e com este dá quinze. Quinze!
15!
É isso mesmo. Ufa.
Quinze-posts-quinze. Podem-se roer de inveja.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:00 AM
dezembro 19, 2004
O dia de hoje VI
(A conta estava certa, não estava?)
Publicado por João Pedro da Costa às 11:54 PM
O dia de hoje V
Ok, já percebi. O truque é contar com o post que estou a escrever neste preciso momento. Calma. Portantos: 11 + 2 = 13. É isso: 13 (treze) posts num só dia. É obra, caneco.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:50 PM
O dia de hoje IV
Mau-mau-Maria: 11.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:48 PM
O dia de hoje III
Isto é: 10.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:47 PM
O dia de hoje II
Quero dizer: 9, contando com o último.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:42 PM
O dia de hoje
vai ficar nos anais como o mais produtivo produtivo de sempre d'As Ruínas. Nada mais que 8 (oito) posts. E tudo graças à T-Shirtmania.
Pas mal, hein?
Publicado por João Pedro da Costa às 11:39 PM
T-Shirts weblog.com.pt #7 (em casa de ferreiro, espeto de pau)
Como também sou filho de Deus (salvo seja), também fiz a minha


T-Shirt. Sei muito bem que é a menos conseguida de todas (snif), mas é a minha caraxapada - parece a T-Shirt duma banda de Heavy Metal.
Yeah.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:27 PM | Comentários (13)
T-Shirts weblog.com.pt #5 (continuação)
Aproveitando a sugestão do Boss, apresento-vos as

cuecas do R&V, versão masculina (bem, na verdade, até me apetece dizer que são unisexo). Apenas uma nota: o corte, como é óbvio, é esquemático e necessitará de alguns aperfeiçoamentos (LOL).
Publicado por João Pedro da Costa às 09:15 PM | Comentários (7)
T-Shirts da blogosfera #6
Não é um weblog.com.pt (e já agora, porquê? - olha que o PQ é um magnífico anfitrião), mas depois de ter lido aquele texto ontem à noite, o mínimo que podia fazer era dedicar-lhe esta


T-Shirt. Confesso que, na sua confecção, não consegui deixar de pensar na Miosótis (na minha opinião, a verdadeira estrela do blog), daí o seu design a cair pró naïfo-infantil. Foi, de resto, devido a uma outra estrela (a tese), que optei pela fonte COURIER NEW, muito similar à que é usada por certas máquinas de escrever - eu sei que hoje em dia as teses são feitas em processadores de texto, mas no meu imaginário (cá está ele outra vez), os trabalhos universitários são sempre feitos a martelo nessas belíssimas máquinas.
Aguardo ansiosamente o feedback de ambas.
Publicado por João Pedro da Costa às 06:40 PM | Comentários (12)
Os meus coelhos suicidas #24

São as pretas a jogar.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:31 PM | Comentários (27)
Esta noite
tive um pesadelo. Era assim: sonhava que um hacker (um daqueles ranhosos de óculos e dentes tortos em plena pré-puberdade) tinha-me invadido As Ruínas e transformado as mesmas numa loja virtual de pronto-a-vestir. Onde terei eu ido buscar semelhante ideia?
Publicado por João Pedro da Costa às 02:39 PM | Comentários (4)
Das virtudes da blogosfera a altas horas da noite
Já estava naquela fase do foda-se-agora-tenho-mesmo-de-ir-prá-cama, quando dei de queixos com este texto. É das coisas mais bonitas que já li na minha vida. A sério. Reza assim:
ANOTAÇÕES À MARGEM
«Tenho precisado de pegar nos cadernos onde, ao longo destes anos de investigação, tomei muitas das minhas notas. Tais cadernos não valem apenas pelo que contêm de informações úteis para a minha tese. Têm um valor muito especial: as anotações à margem que a minha filha ia fazendo. Ao pegar-lhes, ontem, recordei como ela decorou pedaços de páginas em branco com desenhos, ou classificou o que eu escrevia como se fossem exercícios da escola primária: "muito bom", "para a próxima quero frases completas", "devia ter usado a folha até ao fim", "incompleto".
Quando a tese terminar, vai haver um grosso volume em cima da mesa. Por detrás dele, muitas histórias, registadas somente na memória de quem nelas participou. Entre elas, estas anotações, para mim repletas da mais doce ternura, de que nunca me desfazerei.
Enquanto eu escrevo, ela canta e dança na sala, de novo ao som do "Cats", de bigodes e nariz pintados com o meu lápis preto dos olhos. Está melhor, obviamente. Nem preciso de lhe pôr o termómetro ou de perguntar se lhe dói a garganta para saber.»
Retirado daqui.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:14 AM | Comentários (3)
T-Shirts weblog.com.pt #5
And now for something completely different, apresento-vos mais uma


T-Shirt, desta vez a do aclamadíssimo renas e veados. Confesso que esta foi a mais difícil de fazer, não somente porque considero o referido blog um dos mais conseguidos do ponto de vista gráfico (não só, mas também), mas porque queria, de facto, incluir algo na T-Shirt que simbolizasse a identidade do mesmo. O limite das cores auto-imposto era tramado porque excluía automaticamente a utilização do arco-íris. Por isso fiz o seguinte: copiei o belíssimo logo do R&V e redesenhei-o para o tornar mais geométrico. Depois, tive a ideia de elevar a rena/veado ao quadrado, o que me pareceu uma forma bastante breve, rápida e, sobretudo, gráfica de transmitir o identidade gay do blog (um número elevado ao quadrado corresponde ao produto do MESMO número duas vezes, daí a analogia à união entre pessoas do MESMO sexo). Quanto à parte de trás da T-Shirt, optei pelas letras garrafais em crescendo, porque essas fazem parte do meu imaginário gay (sim, eu também tenho um), tipo Harley-Davidson ou o caneco (LOL). A cor, essa, é roubadinha ao blog: linda de morrer, não é?
Boss, Drocas, João O, Veado e Zun: projecto aprovado?
(Esta T-Shirt, à semelhança da do Sharquinho, possui um tamanho exclusivo: RV - para reninhas e veadinhos)
Publicado por João Pedro da Costa às 01:41 AM | Comentários (17)
T-Shirts weblog.com.pt #4
Mais uma acabadinha de sair. Tenho o prazer de vos apresentar a T-Shirt do blog


(o vento lá fora)*. Esta saíu com um ar prepositadamente desportivo e «malta jovem», a fim de estar em sintonia com a onda eufórica que reina actualmente no seu sítio. Confesso que fiquei particularmente contente com a solução que encontrei para colocar os parênteses.
Que me dizes, Paulo, eras gajo para vestir isto? :)
Publicado por João Pedro da Costa às 12:28 AM | Comentários (6)
dezembro 18, 2004
T-Shirts weblog.com.pt #3
Mais uma T-Shirt, desta vez é a do


Sharkinho (ou deverei antes dizer Sharkinho?). Com esta terceira, percebi que já há uma espécie de linha gráfica comum entre todas as T-Shirts da colecção: poucas cores e simplicidade qb (o que, por exemplo, invalidou de imediato a minha ideia inicial de inserir o desenho de um tubarãozito). Relativamente às outras, esta tem mais o tamanho: o T (ou XXXXXL) para predadores aquáticos.
Espero que gostes.
Publicado por João Pedro da Costa às 05:16 PM | Comentários (11)
Parem tudo!!!
Hoje, às 22h30, na :2. Se perderem esses dois episódios especiais de THE OFFICE, a melhor série cómica de toda a história da TV, serão almadiçoados por mim para todo o sempre. Absolutamente imperdível.

Publicado por João Pedro da Costa às 03:47 PM | Comentários (15)
T-Shirts weblog.com.pt #2
E pronto, já fiquei paranóico. Por causa do último post, já me pus a engenhar mais umas T-Shirts. Apresento-vos a agora a do


Afixe, disponível nos mesmos tamanhos: XL, L, M, S e B (bunny size). A T-Shirt, no início, era muito mais complexa, mas acabei por ir retirando elementos até ficar assim, com esse ar despojado e quase franciscano. Bernardo, Emiéle, Gibel, M. Butterfly, Madge Webb e Monty: espero que gostem.
Estejam atentos, que irei publicar mais nos próximos dias.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:01 AM | Comentários (10)
dezembro 17, 2004
Post sem nada
Fonte ligada a este blog, informou-me que a Catarina, na sequência do prémio que atribuíu a todos os comentadores do seu «tasco», irá oferecer


uma T-Shirt do 100nada a todos os que deixaram pelo menos um comentário no blog (quem deixou trackbacks tem direito a duas). Os tamanhos disponíveis são: XL, L, M, S e B (bunny size). Não consegui apurar quem foi o responsável pelo design da mesma, o que é uma pena, pois o mesmo parece-me bastante conseguido: despojado, sóbrio e ligeiramente chique. A imagem do blog.
Mas, ó Catarina, a pergunta que fica é realmente a seguinte: onde é que vais arranjar fundos para oferecer mais de 13.000 T-Shirts? (A minha é XL, por favor).
Publicado por João Pedro da Costa às 09:15 PM | Comentários (21)
dezembro 16, 2004
Listening Sessions #12

As Raincoats tiveram duas encarnações. A primeira data dos finais da década de 70, inícios da década de 80, e insere-se dentro do movimento pós-punk, no qual brilharam projectos como os Swell Maps ou os Cabaret Voltaire. Nesta primeira encarnação, as Raincoats deixaram-nos três magníficos discos de folk-rock experimentalista (THE RAINCOATS em 1980, ODYSHAPE em 1981 e MOVING em 1984), e sedimentaram um pequeno culto nos Estados Unidos e, sobretudo, no Reino Unido. A segunda encarnação surge graças a Kurt Cobain (outra vez ele), que começa a referir constantemente a banda após o boom de NEVERMIND. Segundo reza a lenda, terá sido o próprio compositor dos Nirvana que terá convencido a Geffen a comprar e reeditar os três primeiros álbuns e, mais importante ainda, a promover a reunião da banda em 1994, para que elas pudessem garantir as primeiras partes da sua tourné europeia.
Após um interregno de 10 anos as reservas eram muitas. Foi precisamente nesta altura que tive o meu primeiro contacto com a banda e que soube que um dos elementos do seu núcleo duro (Ana Silva, a giraça à esquerda na fotografia) era de origem portuguesa e, mais curioso ainda, prima de uma professora minha na FLUP, a queirosiana e agora deputada Isabel Pires de Lima (digam lá se o mundo não é pequeno). As Raincoats, para além de contratarem uma nova baterista e violinista, acabaram igualmente por editar, para espanto de muitos, um novo disco de originais. LOOKING IN THE SHADOWS é, porque não dizê-lo desde já, um dos mais geniais e secretos discos da década de 90. Diria mesmo mais: é uma espécie de súmula de tudo o que novo essa década trouxe para o reino da pop. O que, pessoalmente, mais me impressiona no disco é o dificílimo equilíbrio obtido, na medida em que o experimentalismo (imagem de marca da banda) consegue paradoxalmente desenvolver-se sem restrições dentro do rígido formato da canção pop - temas como «57 ways to end it all» ou «Pretty» ilustram de forma superior o que quero dizer: nunca a inteligência e o desbravar fronteiras foi tão sedutor e audível.
Infelizmente, é praticamente impossível encontrar o disquito nas lojas (podem sempre tentar encomendas, mas não será fácil). A solução passa mesmo pelo eMule, garantindo-vos que poderão sempre encontrar o meu ficheiro The Raincoats - Looking in the Shadows.rar disponível 24 horas por dia. Para os mais cépticos, arranjem lá 3,7 Mb no vosso e-mail, que terei todo o gosto em vos enviar o fantástico «Don't Be Mean». A verdadeira excelência da música pop. Escrita no feminino.
Publicado por João Pedro da Costa às 07:26 PM | Comentários (18)
O coelho suicida da Mi
Como presente de Natal, recebi da Mi este

magnífico coelho suicida (gosto particularmente do tom abstracto do mesmo - que raio de picos são aqueles? - e, claro, do preciosismo do espirro). Obrigado, Mi - está absolutamente fantástico.
Este coelhinho da Mi deu-me uma ideia: desafio todos os leitores d'As Ruínas a desenhar o seu próprio coelhinho e a enviar-me o mesmo por e-mail. Não precisam de inventar um gag, basta ser um coelhinho. A ideia é depois eu publicar aqui uma pequena galeria dos mesmos.
Fico à espera.
ADENDA: Por favor, utilizem este e-mail para o envio dos coelhos.
Publicado por João Pedro da Costa às 06:04 PM | Comentários (49)
dezembro 15, 2004
Não acho piada nenhuma
às pessoas sem originalidade nenhuma, que copiam o Barnabé. Haja paciência.
Publicado por João Pedro da Costa às 06:38 PM
dezembro 14, 2004
Tique taque
Há minutos peguei, pela primeira vez em catorze anos, num objecto pessoal do meu pai. Abri a gaveta como quem não quer a coisa, procurando domar o gesto com naturalidade - caralho, João, abre-me a puta da gaveta com naturalidade. No interior, uma carteira, um relógio de pulso, uns óculos e um isqueiro. Reconheci aqueles objectos aos poucos e, à medida em que os ia reconhecendo, crescia em mim o medo de lhes tocar: a carteira, o relógio de pulso, os óculos e o isqueiro. Acabei por pegar num deles sem pensar e vim práqui fechar-me no quarto. Sou um gajo com azar: mal coloquei o relógio no pulso, o cabrão do sedento começou logo a trabalhar.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:34 PM | Comentários (22)
dezembro 13, 2004
Post Robbialac

Publicado por João Pedro da Costa às 05:06 AM | Comentários (16)
dezembro 12, 2004
Post vandalizado

Publicado por João Pedro da Costa às 01:25 AM | Comentários (19)
dezembro 11, 2004
J

Apresento-vos o Jota, o meu cão, mundialmente conhecido por tudo quanto seja fotógrafo devido à sua incapacidade de estar quieto e parado sempre que alguém lhe tenta tirar uma fotografia.
Como não podia deixar de ser, o Jota foi encontrado na rua com apenas algumas semanas de vida. Na altura, resolvi ficar com ele, porque tinha um ar super-saudável e brincalhão e a barriga proeminente parecia denunciar que o bicho tinha tido donos até há pouco tempo. Puro engano. As semanas que se seguiram fariam vir ao de cima uma catadupa de patologias como lombrigas, uma otite e sarna (sim, sarna) e isto já para não falar numa carrinha que nos fez o favor de lhe passar por cima de uma pata. Mas tudo isso são histórias passadas e, hoje, o Jota é muito provavelmente o cão mais saudável do mundo. Possui ainda uma virtude rara: dá-se muito bem com o Xico.
Publicado por João Pedro da Costa às 06:15 PM | Comentários (12)
dezembro 10, 2004
Os meus coelhos suicidas #23



NOTA: O Iº volume do livro O JOGO DO GALO de Andy Riley está disponível em Português pela Europa-América e ambos os volumes da versão original (THE COCK'S GAME) pela Mad About Books.
Publicado por João Pedro da Costa às 05:35 PM | Comentários (14)
dezembro 09, 2004
Imagens que me fascinam #5

Terá sido em 1760 que John Spilsbury criou o primeiro puzzle. Este cartógrafo londrino teve a ideia de colar um planisfério sobre uma tábua de madeira e de recortar a mesma pelas linhas de fronteira dos países representados no mapa. O puzzle teve logo um sucesso imediato, tendo sido amplamente difundido e utilizado para fins pedagógicos nas escolas, no intuito de desenvolver, de uma forma lúdica, os conhecimentos geográficos das crianças inglesas.
No final do séc. XIX, os irmãos Parker introduziram uma admirável novidade: o recorte geométrico e padronizado das peças que formam um puzzle. Um desses modelos é em tudo semelhante ao que podem ver na imagem e consiste, basicamente, nas três arqui-figuras representadas a negro, vermelho e azul (mais as respectivas variantes que formam o contorno rectangular do puzzle). Este foi um momento crucial, na medida em que, pela primeira vez, e ao contrário do mapa de John Spilsbury, o recorte das peças deixa de estar subordinado às linhas da imagem recortada. Passa a haver assim dois níveis absolutamente distintos: o da imagem representada com linhas e cores próprias e o desenho geométrico do corte que continua a ser visível depois do puzzle estar completo. Essa visibilidade, portanto, não é um defeito - é uma sobreposição desejada, constitutiva e intrínseca à própria noção de puzzle.
O fascínio que qualquer maníaco como eu tem pelos puzzles tem sobretudo a ver com essa segunda dimensão geométrica: a do recorte das peças. Essa «geometria» de segundo grau, chamemos-lhe assim, torna-se particularmente visível num hipotético puzzle branco onde apenas se vê os contornos das peças. A primeira dimensão, a da imagem recortada, apenas poderá ter interesse na forma como ela se articula com a segunda, dificultando ou iludindo as combinações possíveis para a sua reconstrução. Essa dialéctica representa, sem dúvida, o critério mais importante para apurarmos a qualidade «estrutural» de um puzzle.
Como é óbvio, existem imensos tipos (ou estilos) de recorte para as peças de um puzzle. Sejam eles quais forem, os estilos, para mim, têm sempre de ter em conta três princípios que, facto crucial, se revelam incompatíveis no seu estado absoluto:
1) Princípio pragmático, segundo o qual duas ou mais peças unidas têm de encaixar de forma a que a sua junção ofereça a maior resistência física a uma posterior separação das mesmas. O puzzle ideal, segundo este princípio, seria aquele que, depois de construído, permitiria um livre manuseamento da totalidade do puzzle sem este se desfazer.
2) Princípio geométrico, segundo o qual o recorte das peças tem de possuir uma certa relevância geométrica, isto é, o desenho geométrico resultante da divisão das peças deve concorrer esteticamente com a imagem que é representada. Um exemplo de puzzle ideal, segundo este princípio, não andará muito longe de um em que o recorte das peças corresponda a uma imagem recursiva de Escher, nas quais, como sabem, a diversidade (em teoria infinita) tipológica das figuras segue uma lei geométrica que permite a ocupação total do espaço repetindo o menor número possível de tipos de peças (todas as peças têm a mesma forma, mas o tamanho delas vai diminuindo à medida que nos afastamos do centro).
3) Princípio da dificuldade, segundo o qual o recorte das peças deve dificultar ao máximo a reconstrução do puzzle. O axioma deste princípio é, no fundo, o perfeito negativo do princípio geométrico: enquanto que neste último se procura diversificar ao máximo a tipologia das peças, no princípio da dificuldade passa-se exactamente o oposto: quanto menor for o número de tipos de peça, mais difícil será a reconstrução do puzzle, na medida em que aumenta o n.º de peças que são fisicamente compatíveis entre si. O puzzle ideal, segundo este princípio, seria um com apenas um tipo de peças, como, por exemplo, uma quadrícula, um conjunto de triângulos rectângulos isósceles ou de hexágonos (colmeia).
O problema consiste em encontrar um tipo de recorte que seja capaz de satisfazer, de forma equilibrada, cada um desses três princípios. Já vimos que o puzzle ideal do ponto de vista geométrico (n.º máximo de tipos de peças) seria péssimo segundo o princípio da dificuldade, no qual se pretende que esse n.º seja o menor possível. Mas o caso complica-se ainda mais quando nos apercebemos que um puzzle ideal ao nível da dificuldade, se revela simplesmente impraticável do ponto de vista pragmático: num hipotético puzzle em quadrículas, em triângulos rectângulos isósceles ou em colmeia, as peças apenas se encostam umas às outras, sem nenhuma possibilidade de encaixe.
É aqui que surge todo o esplendor do recorte dos irmãos Parker e a razão pela qual ele é, ainda hoje, o mais utilizado nos puzzles. Este estilo de corte é, sem dúvida, aquele que consegue cumprir de forma mais satisfatória e equilibrada as exigências impostas pelos três princípios: as peças encaixam-se na perfeição, o n.º de tipos de peças é apenas de 3 e, finalmente, o desenho geométrico formado pelo recorte das peças é tão eloquente que até se transformou, nas últimas décadas, num autêntico ícone, utilizado por tudo quanto seja designer gráfico (o próprio Microsoft Word tem um «autoshape» consagrado a esse tipo de recorte).
Desta forma, chego finalmente à imagem que constitui o verdadeiro objecto do meu fascínio: aquilo que, na minha opinião, é o puzzle quase perfeito ou, pelo menos, o que mais se aproxima desse ideal de perfeição (confesso que nunca vi um puzzle desses à venda, mas ainda não perdi a esperança). Partindo da premissa que o corte dos irmãos Parker, pelas razões já enunciadas, é o mais operativo face aos três princípios que considero fundamentais para a construção de um puzzle, basta-me agora voltar a invocar o primeiro princípio referido neste post, no qual se afirma que é através do critério resultante da dialéctica entre a imagem recortada e o próprio recorte das peças que se pode aferir, por excelência, a qualidade estrutural de um puzzle. Pois bem, haverá uma imagem mais sublime para ser recortada por um puzzle do que a representação (ligeiramente deslocada, senão o corte e a imagem seriam coincidentes) desse mesmo corte? Vejamos.

Neste puzzle, a imagem surge desenhada a amarelo e o recorte das peças a cinza. Confuso, não é? Pois é. Mas a ideia é mesmo essa, a de se ter o puzzle mais pragmático, geométrico e difícil que se pode imaginar. E, curiosamente, esse mesmo puzzle é de fácil confecção, bastando para isso isolar os três tipos de peças utilizados pelo corte dos irmãos Parker

e reproduzi-los na quantidade que desejamos, tendo em conta que para cada N número de peças do tipo II e III, serão necessários o dobro de peças do tipo I (exemplo: 100 peças I para 50 peças II e outras 50 peças III). Não entra nesta contabilidade, como é óbvio, as peças exteriores do puzzle que lhe dão a sua forma rectangular.
Ah, já me esquecia de dizer: o fascínio que tenho por este puzzle (para já imaginário) também inclui uma dimensão mais imediata ou superficial: a beleza do padrão produzido. E pode-se sempre variar as cores.
NOTA
O melhor livro que conheço sobre puzzles não é, curiosamente, um livro técnico, mas um romance: LA VIE, MODE D'EMPLOI de Georges Perec (existe uma tradução portuguesa feita pelo Pedro Tamen sob o título A VIDA, MODO DE USAR). Os encantos desse livro (que, só por si já é um puzzle), não se esgotam com a abordagem ao mundo dos puzzles - é, simplesmente, o mais opulento e genial romance que li na minha vida. Por favor, não caiam na asneira de não fazer a vossa passar por aqui. Conselho de amigo.
Publicado por João Pedro da Costa às 05:43 PM | Comentários (28)
dezembro 08, 2004


Após 48 horas sem acesso à Internet (cortesia da Netcabo), resolvi tentar uma ligação à «antiga» via linha telefónica. É. A banda é mais estreita, mas fiável. Maldita hora, aquela em que decidi aderir ao suposto serviço desses cabrões.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:24 PM | Comentários (26)
dezembro 07, 2004
Ó pá, pronto, não consegui resistir

O Xico acaba de regressar a casa após mais uma intervenção cirúrgica, desta vez para remover uma pedrita da bexiga, e eu, que sou um conas, não resisti e tirei-lhe uma fotografia para a posteridade.
(Muito fashion este meu lampião felino, não acham?)
Publicado por João Pedro da Costa às 11:59 AM | Comentários (26)
Post naïf #2 (colagens)

Naïf de fabrico, mas não de significado.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:52 AM | Comentários (17)
dezembro 06, 2004
2004: o meu ano cinematográfico

Foi um bom ano, repleto de bons filmes. Há três que se destacam dos demais: Lost In Translation de Sofia Copola, Eternal Sunshine Of The Spotless Mind de Michel Gondry e Kill Bill II do incontornável Quentin Tarantino. De saudar o regresso de dois grandes realizadores com filmes que conseguiram ecoar no mais íntimo de mim (Big Fish de Tim Burton e Life Is A Miracle de Emir Kusturica), a confirmação de Agnès Jaoui como uma das mais promissoras realizadoras do cinema europeu (Comme Une Image), a inesperada qualidade de Before Sunset de Richard Linklater e a inesgotável criatividade da Pixar com o preciosíssimo The Incredibles de Brad Bird. Na categoria de surpresas absolutas, dois objectos cinematográficos provenientes do cinema independente americano: American Splendor de Shari Berman & Robert Pulcini e o belíssimo Pieces Of April de Peter Hedges, com banda sonora da autoria de Stephin Merritt (se me perguntassem, neste preciso momento, qual foi o filme que mais mexeu comigo em 2004 teria mesmo de escolher este último).
Para além desses dez objectos de prazer, gostaria ainda de referir (por ordem alfabética) os seguintes filmes: Anything Else de Woody Allen (ainda não é um Allen vintage, longe disso, mas é um passo em frente relativamente aos seus últimos filmes), Capturing The Friedmans de Andrew Jarecki (um avassalador documentário sobre um alegado pedófilo que, se calhar, até merecia estar no meu Top 10), Coffee & Cigarettes de Jim Jarmusch (o filme é irregular, mas há lá cinco ou seis cenas de absoluta antologia), Desassossego de Catarina Mourão (uma agradável surpresa), Fahrenheit 9/11 de Michael Moore (talvez o objecto cinematográfico mais injustiçado do ano), How To Kill Your Neighbor’s Dog de Michael Kalesnilo (subtilíssimo e com um Kenneth Brannagh em grande forma), Igby Goes Down de Burr Stears (uma estreia promissora), Northfork dos irmãos Polish (mais um que poderia estar no meu Top 10 – belíssimo e alucinante), Shrek 2 de Andrew Adamson, Kelly Ashbury & Conrad Vernon, The Village de M. Night Shyamalan (o seu melhor até à data) e, finalmente, um filme que passou despercebido, mas que é, para mim, um dos grandes do ano: Wilbur Wants To Kill Himself de Lone Scherfig.
Quanto aos filmes que me desiludiram, confesso que, hoje em dia, em caso de dúvida, já não arrisco uma ida ao cinema. Ainda assim, apanhei valentes secas com Carandiru de Hector Babenco (péssimo), La Mala Educación de Pedro Almodóvar (desta não estava eu à espera), Laws Of Attractions de Peter Howitt (horripilante), Monster de Patty Jenkins (mau de mais para ser verdade), Sky Captain & The World Of Tomorrow de Kerry Conran (fui vê-lo cheio de expectativas e saí de lá inconsolável – muito fraquinho), Terminal de Steven Spielberg (sem dúvida, a maior bosta do ano – e eu até andava a achar-lhe uma certa piada), The Brown Bunny de Vincent Gallo (custa acreditar que foi este mesmo senhor que realizou Buffalo 66) e We Don’t Live Here Anymore de John Curran (ou tudo aquilo que o cinema independente norte-americano não pode ser - vácuo e arrogante).
Duas ressalvas: faltará aqui nesta lista 2046 do magnífico Wong Kar-Wai (que ainda não vi) e o indescritível Exils de Tony Gatlif (que apenas estreará comercialmente em Portugal em 2005 e que, aviso desde já, dificilmente não será um dos melhores do próximo ano).
Que 2005 seja tão bom como foi este ano. Não seria nada mau.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:02 AM | Comentários (24)
dezembro 05, 2004
Imagens que me fascinam #4

Manuscritos matemáticos. Novamente, nada de peneiras: não me refiro em específico aos famosos manuscritos de um Fermat, de um Galois (que, por acaso, até eram bem bonitos) ou de um Turing: qualquer manuscrito matemático, nem que seja escolar, mas manuscrito - para aí poder detectar e avaliar as hesitações da caligrafia, os rabiscos ou os sublinhados. Todas estas marcas possuem uma semiologia própria: a euforia do cálculo, a hesitação de um raciocínio ou a anatomia de um erro. A matemática é um pouco isso: significante puro, onde nada (ou, se quisermos, tudo) é significado.
Precisando um pouco mais: manuscritos algébricos. Isto é: manuscritos onde se procede à resolução (ou simplificação) de uma expressão algébrica. O que me fascina nessas imagens é uma forma específica de as ler, que tem muito a ver com aqueles jogos de «descubra as diferenças» entre duas figuras e que se podem encontrar nas páginas finais dos jornais. Entre cada par de expressões unidas por um conector ("=" ou "<=>", por exemplo), exprime-se um conjunto de números e de símbolos que se mantiveram e um outro conjunto, normalmente inferior, de alterações. Se eu dominar a álgebra utilizada, posso «compreender» a diferença, e relacioná-la com, por exemplo, o resultado de uma operação aritmética ou de uma simplificação. Se não a dominar, o fascínio, longe de desaparecer, adensa-se.
Um exemplo. Numa sintaxe do tipo A <=> B, consigo quase sempre detectar os elementos de A que desapareceram em B ou, para ser mais preciso, os elementos de A que se transformaram em novos elementos de B. No caso seguinte

se estiver familiarizado com equações do 2.º grau, consigo identificar a diferença de A para B como a mera resolução do quadrado de um monómio (4a). Se não estiver, óptimo, consigo na mesma identificar (a azul) os elementos que se mantiveram entre as duas expressões e (a vermelho) as diferenças.
A ignorância, por vezes, é um puro entretenimento.
NOTA I
A imagem que podem ver no início do post é a reprodução de um manuscrito feito por mim há cerca de 8 anos (ó tempo, volta pra trás) durante umas explicações de matemática. A história é particularmente engraçada (mesmo para os leigos na matéria) e por isso atrevo-me a contá-la aqui (isto acaba por dizer muito sobre os meus critérios...).
A matéria da explicação, do 9.º ano, era sobre as sucessões de números naturais (acendeu-se aí uma luzinha?) e a aplicação da fórmula (visível no canto superior direito do manuscrito) que permite calcular a soma dos N primeiros números de uma sucessão. Tínhamos chegado àquele momento em que todos os exercícios do livro já estavam devidamente resolvidos e corrigidos e eu tinha de inventar uns novos para manter a malta ocupada. Lembrei-me então de sugerir aos meus explicandos a determinação de uma fórmula simplificada que permitisse o cálculo da soma dos N primeiros números ímpares (os números ímpares são, no fundo, uma sucessão em que o primeiro termo é 1 e a razão 2, isto é, basta somar 2 ao termo anterior para obtermos o seguinte). Abordámos o exercício em conjunto e os mais saudosos (ou masoquistas) podem visualizar os passos da resolução na parte inferior do manuscrito. O que me deixou absolutamente siderado (é o termo) foi o resultado: N ao quadrado. Passo a explicar porquê.
O que a fórmula nos dizia era que a soma dos N primeiros números ímpares era igual ao quadrado desse número N. Isto acaba por ter mais piada se invertermos a ordem: o quadrado de um número N é sempre igual à soma dos N primeiros números ímpares. Esta correlação entre a soma dos números ímpares e o quadrado de qualquer número natural era de uma beleza absolutamente arrebatadora e (como, de resto, qualquer representação do belo) suspeita. Por isso, resolvemos testá-la (seguem-se dois exemplos, mas convido-os a fazer o mesmo com qualquer número natural):
3^2 = 3 x 3 = 9
aplicando a fórmula - soma dos 3 primeiros números ímpares:
1 + 3 + 5 = 9
5^2 = 5 x 5 = 25
aplicando a fórmula - soma dos 5 primeiros números ímpares:
1 + 3 + 5 + 7 + 9 = 25
Geometricamente, essa constatação torna-se bastante óbvia (mas paradoxalmente ainda mais fascinante) se representarmos o quadrado de um número como um quadrado (óbvio) e a soma dos números ímpares como uma espécie de pirâmide bidimensional:

A partir daqui pode-se criar um conjunto quase infinito de corolários matemáticos, como, por exemplo (talvez seja este o meu favorito entre os diversos que, na altura, chegámos a formular), que a diferença entre dois quadrados perfeitos consecutivos N^2 e (N+1)^2 é sempre igual ao (N+1).º número ímpar. Exemplo: 8^2 - 7^2 = 15 que é o oitavo (8.º) número ímpar (1, 3, 5, 7, 9, 11, 13, 15).
Claro que tudo isto não passa de uma mera curiosidade algébrica (e existem milhões delas bem mais interessantes) e que não fomos nós os primeiros a chegar a esta conclusão (pesquisas posteriores permitiram-me descobrir que já Diofanto de Alexandria, no séc. II a.C., falava dessa particularidade dos quadrados perfeitos no seu famoso tratado «Arithmeticorum», mas nada me garante que a descobreta não seja anterior). Mas nada disso nos retirou a alegria de eu e os meus explicandos termos lá chegado sozinhos, sem a ajuda de ninguém (a propósito, há já muito tempo que não falo com nenhum deles...).
Nota II
Este post tá assim pró chato e alucinado, não está? Deve ser das horas.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:02 AM | Comentários (17)
dezembro 04, 2004
Do cabelo comprido e outros preconceitos
Diálogo 1
EU - Boa Noite.
RECEPCIONISTA 1 - O que se passa?
EU - Bem, eu devo ter comido alguma coisa que...
R1 - Sim e depois?
EU - Bem e fez-me mal e eu...
R1 - Cartão da Segurança Social.
EU - Está aqui.
RECEPCIONISTA 2 - Olha e o dinheiro prás flores?
R1 - Ó filha, isto agora com a queda do Governo não há dinheiro para ninguém.
R2 - Estás mal disposta?
R1 - Olha que nem tava, mas já me acabou o sossego... O senhor é estrangeiro não é?
EU - Não, sou português.
R1 - É? E nasceu aonde?
EU - Em Mulhouse, França, mas...
R1 - Pois, eu vi logo.
EU - Sim, mas sou cidadão...
R1 - Seis Euros e dez.
R2 - Quem nos tira o sossega, tira-nos tudo.
EU - Só tenho uma nota de 20...
R1 - Seis Euros e dez.
EU - Aqui está.
R1 - Seu troco. Está magoado ou só está doente?
EU - Doente, tenho dores, acho que é uma intoxica...
R1 - Aguarde ali dentro [gesto vago, os olhos no teclado]
EU - Obrigado.
R1 - Ai filha, que Deus me dê a Santa Paciência.
R2 - Deixa lá, hoje já foram uns, pode ser que amanhã seja a vez de outros.
R1 e R2 - [risos]
EU - ...
Diálogo 2
MÉDICO - Então o que se passa?
EU - Boa Noite, posso me sentar?
MD - Força. De que se queixa?
EU - Bem, eu comi uma tortilha deviam ser umas cinco da tarde. Duas horas depois comecei a ter umas cólicas insuportáveis e já vomitei umas cinco vezes. Agora estou cheio de febre...
MD - Mais alguém comeu essa tortilha?
EU - Não. Quero dizer, quem estava comigo não.
MD - É alérgico a algum medicamento?
EU - Que eu saiba... não.
MD - Injecções, tem medo de injecções?
EU - Injec...
MD - Óptimo, até porque tem mesmo de ser. A que vai levar pode secar-lhe um pouco a boca e ficar com a vista turva, mas é normal.
EU - [falando com os meus botões: bem, João Pedro, não será a primeira vez que ficas com sede e turva é a tua vista todos os dias quando te levantas, por isso:] Ok, tudo bem.
MD - A enfermeira vem já aí [sai da sala]
EU - ...
Diálogo 3
ENFERMEIRA - Você é que tem medo de injecções?
EU - Boa Noite. Não, não, não há problema.
EN - Pois, também me parece.
EU - ...?
EN - Puxe as mangas para cima.
EU - Tiro o casaco ou...
EN - Puxe as mangas para cima.
EU - Ok.
EN - Mmh, você neste braço não tem veias. Será que no outro...?
EU - Não faço a mínima ideia...
EN - Olhe que me parece que você deveria saber. Ou tem vergonha?
EU - Como?
EN - O outro braço, por favor.
EU - ...
EN - Carregue com força no algodão e aguarde pelo médico.
EU - ...
É. Foram estes os três diálogos que tive na passada madrugada de 5ª-feira nas Urgências do Hospital de Bragança, fruto de uma intoxicação alimentar. Alguns de vocês poderão estranhar o meu tom cortês, mas quando um gajo está cheio de dores e a estoirar de febre, a indiferença perante a má-educação e o insulto daqueles que nos podem tirar as dores não é uma questão de urbanidade, mas de sobrevivência. Gostaria, ainda assim, de sublinhar cinco pontos:
1) as duas recepcionistas (umas sopeiras que mascavam chiclete de boca aberta), jamais se dignaram a olhar para mim;
2) o meu contacto com o médico resumiu-se aos trinta segundos do diálogo supra-transcrito: ele não me fez nenhum exame (temperatura, tensão, népias) e o diagnóstico foi feito a olho e verbalmente.
3) a suposta enfermeira não trazia nenhuma bata, vinha à civil, e confesso que, na sua antepenúltima deixa, estive assim mesmo à beirinha de a mandar prá grandessíssima puta que a pariu;
4) a injecção que me deram (não faço a mínima ideia do que foi) teve efeitos ligeiramente diferentes daqueles que tinham sido previstos pelo médico. A pulsação disparou, senti que o corpo ia explodir (a sério), comecei a suar que nem um porco e uma dor lancinante na barriga quase me levava à paralisia. Numa palavra: tive o maior ataque de pânico da minha vida e tudo isso sozinho naquela sala, até começar a chamar aos gritos pelo médico (foi uma cena bonita, digna de um Almodóvar).
5) No meu caso particular, espero que esta tenha sido a excepção que confirme a (minha) regra: sempre fui optimamente tratado nas urgências hospitalares e se há profissões pelas quais nutro uma infinita admiração são as que estão relacionadas com a área da Saúde. Mas, às vezes, este nosso Portugal, só mesmo à estalada.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:42 AM | Comentários (25)
dezembro 03, 2004
Os meus coelhos suicidas #22

(c) Andy Riley & Bill Gates Corporation.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:30 PM | Comentários (13)
Coitus interruptus

Publicado por João Pedro da Costa às 12:35 AM | Comentários (10)
dezembro 02, 2004
Cof cof... ou «Nel mezzo cammin di nostra vita»
Estou de volta. E daqui a menos de 50 minutos faço 30 anos.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:17 PM | Comentários (39)
peixinhos vermelhos [narração IV - final]
Vou até à janela. Já são quase dez horas e ainda está tudo tão escuro. Alguém com um grande cu anda a cagar sobre este nosso mundo de merda, meu amor. Esta chuva miudinha, em lugar de lavar toda a porcaria das ruas, torna-a ainda mais reluzente, ainda mais ascorosa. As pessoas andam pelas ruas com medo de si mesmas, atirando umas às outras olhares viperinos, cuspindo o veneno verde dos seus catarros de fumadores para a galeria de epidemias que é o chão desta cidade de bolor encardido. O Sol nem se atreve a aparecer. Pudera. Se pudesse, faria o mesmo. Ficaria para sempre contigo, meu amor, ao teu lado, à espera da minha próxima erecção e esperando que não te tenhas prostrado no interior do fogão ou no corrimão partido da varanda. Antes de te conhecer, meu amor, andava por aí à deriva, naufragado em cafés de fumo, em bares de decibéis, em bordeis de suor. Era de noite que vivia. Podia ser comparado a uma espécie de morcego mole, pneumático, adormecido à força pela acção de uma inexprimível quantidade de químicos industriais. Dos dezoito até aos vinte e três anos, meu amor, não me lembro de ter visto o Sol a nascer. Nem uma única vez. A manhã era desperdiçada a largar nos lençóis transpirações de um sono violento povoado por milhares de recordações estilhaçadas em pecinhas de um puzzle que não conseguia reconstruir. Para mim, o dia começava, quando muito, com a imponência do zénite solar. Disse que era de noite que vivia? Mentira. Era de noite que julgava viver. Limitava-me a fazer cruzadas medievais pelos bares da cidade, a esvaziar cervejas, a afogar-me entre as pernas das mulheres mais inverosímeis, a inalar a título experimental todas as merdas que me oferecessem desde que ardessem numa lenta combustão de mortalhas, e passava horas a fixar, com olhos de água, maçanetas de portas, matrículas estrangeiras ou o simbólico naufrágio de uma beata num urinol. Destas noites inacreditáveis, meu amor, trago comigo a cristalização de um momento singular, representativo de todos os outros. Foi num Inverno, há cerca de dois ou três anos. Estava perdido de bêbado, deitado no chão à beira daquela violência de pedra cinzenta que são os Clérigos. Devia ter adormecido lá que nem um daqueles vagabundos que se agrupam em comitivas de gala para fazerem festins de restos pelos caixotes de lixo da cidade. Acordei deviam ser sete horas da manhã, com a certeza que ia morrer. Ardia-me o corpo todo. Não sei como consegui chegar a um café, que estava aberto àquelas horas, e encostar-me ao balcão a fim de suplicar ajuda. O dono do estabelecimento chegou-se à minha beira numa desconfiança profissional e, no preciso momento em que lhe ia pedir para chamar uma ambulância, uma repentina contracção no estômago fez-me despejar um caldo quente de cervejas e de bocados gelatinosos de comida sobre o balcão. Aquela porcaria toda deslizou sobre o vidro da montra cobrindo sucessivamente jesuítas, bolos de arroz, napoleões e pastéis de nata
na precisa direcção de um homenzinho muito bem vestido que via, na dilatação suprema de espanto de suas pupilas, aquela assombrosa mistura de alimentos e sucos estomacais aproximar-se da ilhota branca do seu minúsculo café. Ainda hoje, meu amor, não consigo classificar a agilidade com que aquele tipo agarrou o pires e a chávena, nem a perícia com que deu um salto para trás, fugindo assim daquela erupção de composição duvidosa rejeitada pelo saneamento das minhas entranhas. Era como se ele estivesse à espera disso. Ao ver todo o vómito assim uniformemente espalhado sobre o balcão, percebi que tinha chegado ao fundo. Ao fundo dos fundos. Ao fundo mais profundo do fundo de todos os filhos da puta de fundos. Percebes, meu amor? Logo de seguida fui corrido dali ao pontapé sob os insultos unânimes de toda a clientela. Porém o que me ficou gravado na memória, a tal cristalização de que há pouco de falava, foi a expressão daquele senhor com o café na mão a olhar para mim numa compaixão de velhas beatas solitárias que, em reuniões terapêuticas de cidreira, se enternecem solidárias com o violeta de suas varizes, com a fome na África ou com a perdição da juventude.
E a Faculdade, meu amor? Frequentava-a como os idosos frequentam os bancos esverdeados de um jardim poeirento e estéril. Ia lá parar contra a minha vontade, nas horas mais improváveis, transportado por gigantescos guindastes que me erguiam a carne em ganchos corroídos de ferrugem, sem qualquer aviso ou piedade. Voava por cima da cidade a uma velocidade vertiginosa sob o choro oxidado dos cabos rangendo aço, e o vento, meu amor, o vento, era uma mãe empenhada em limpar-me as lágrimas que urinava enquanto me via sendo despojado da roupa que escondia a miséria de um corpo que já era tão pouco de mim. A viagem podia durar horas, por vezes dias, semanas, mas sabia que chegava ao fim quando começava a respirar o cheiro nauseabundo daquele edifício que não tinha paredes nem telhado, e em torno do qual dezenas de janelas sem vidros tremiam suspensas no ar como palavras. Era então expelido numa nudez absoluta, meu amor, e a queda abria-me feridas de onde escorria um sangue viscoso que me untava o corpo como uma película decomposta de suor. Sentia nos pés aquele chão tépido de esponjas linfáticas e um nojo imensurável crescia dentro de mim ao ser forçado a inalar todo aquele horror aguado de putrefacção. Depois, havia a agonia terminal das aulas a que assistia pasm...
pasmado, meu amor, eu dizia pasmado, a agonia das aulas a que assistia pasmado, boquiaberto, perplexo com a Futilidade dos Docentes, com os seus Olhares de Degenerados que se masturbam em Ruídos Chocos de Esperma Adormecido nas Bibliotecas Municipais, que se vêem uivantes por cima de antiquíssimos palimpsestos escritos em latim até atingirem Orgasmos de Olhos Vidrados nas suas Patéticas Pesquisas Doutrinárias perante a Indiferença das Bibliotecárias em idade de pré-reforma a gozarem o sabor a mofo das suas Rubras Tréguas de Menopausa. Odiava com um rigor cartesiano todos aqueles Estudantes que se confundiam nas suas Capas Negras Urdidas com Dejectos de Leprosos, todos aqueles Assimilados que se descaracterizavam numa Osmose Húmida de Fungos Moles. Eu, meu amor, chegava a esquematizar, nesta minha abjecção de rejeitado, Planos Redentores nos quais uma dezena de incêndios deflagraria simultaneamente em locais estratégicos e que aquele limbo, e todo o seu Recheio de Aspirantes a Pseudo-Intelectuais de Nariz Empinado, ardesse numa Lentidão de Ejaculação Octogenária, numa Aflição Pontiaguda de Mariscos a ferverem numa panela de água transparente, num Terror de Moribundo a esvair-se em Distracções Borbulhantes de Sangue. Meu amor. A minha Faculdade era o retrato da Mediocridade. Não havia lá nem o Pitoresco dos Ignorantes, nem a Eloquência Hilariante dos Génios Predestinados. Havia apenas a Monotonia da Mediocridade, este Pântano de Águas Fumegantes onde todos se diluíam fraternos em saraus lunáticos, apregoando a Misteriosa Solidariedade Académica; defendendo Causas Desprovidas de Sentido num Lirismo Hipócrita de Violas Baratas Sarapintadas de Cromos; intervindo teatralmente na sociedade numa Inércia de Penedos Marinhos, num Protagonismo de Cão que urina sobre a bosta seca de um outro, num Brilhantismo de Gato Pardo que numa Distracção Fatal se estatela erecto do oitavo andar sobre o alcatrão da estrada diante do Olhar Vicioso de uma Criança Sardenta que devora em Ataques de Alcateia Faminta um Monumental Gelado de Baunilha e Chocolate cuja cereja jaz cristalizada e invisível no chão.
É verdade, meu amor, estou tão distraído que quase me esquecia de to dizer. O Camilo morreu. Foi ontem à noite, logo após ter escrito aquela narrativa. Cortei-lhe a cabeça à facada e ele não resistiu. Coitado, aquele gato era mesmo um bichano impressionável. Provavelmente foi o coração que fraquejou ao ver tanto sangue. A propósito, o sangue dele nem parecia sangue. Era um líquido incolor. Parecia água. Às tantas foi isso que lhe provocou o colapso… mas isto sou eu a falar, meu amor. Estou é de luto cerrado. Ele sempre foi um fiel companheiro. Estranho, é verdade, mas fiel. Pus a sua cabecinha ali, a levitar em cima do armário, ao lado do aquário. Não quero que os peixinhos sintam a sua falta. Fica ali a matar, não achas?
Mas estou fraco, meu amor. Já não sei o que digo, nem muito menos o que faço. Meu mal deve ser sono. Isto de estar quase uma semana sem dormir não está com nada. Às tantas – meu amor. Preciso de um cigarro. Também queres um? Não? Pois. Também me parecia. O silêncio, sempre o silêncio. Talvez dormir para ver se depois acordo mesmo a valer. Meu amor. Isso ou isso. Meu amor. Olha, sabes que mais? Que venham os violinos.
Que eu também não.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:01 AM | Comentários (10)
dezembro 01, 2004
peixinhos vermelhos [narração III]
Porra. Não tenho emenda. Eu sei, meu amor, que provavelmente não serão estas as palavras mais românticas que se devem sussurrar aos ouvidos de uma mulher deslumbrante como tu, sobretudo quando estamos dentro dela a fremir espasmozinhos desdenhosos de prazer masculino. Contudo são estes os encadeamentos caóticos que se atropelam na minha cabeça. Não me perguntes porquê. Perdão, meu amor, perdão. Quando faço amor contigo, perco-me de felicidade. Quando, de olhos fechados, me venho dentro do teu corpo frágil de anémona, sinto que não é apenas o meu sémen que aglutinas, mas toda a estrutura do meu ser. Receio que qualquer dia, ao unirmos os nossos corpos, o teu sexo húmido me sugue numa aspiração de trompas e que fique para todo o sempre preso no teu interior. Se calhar, o facto de ter estado tanto tempo de cabeça para baixo não ajudou muito. Gostava de saber, meu amor, como é que fazes para te pregares assim ao tecto numa solene abertura de pernas. A tua imprevisibilidade é fascinante. Lá fui eu, numa procissão de fé, buscar uma mesa para poder beber em cima dela o líquido incolor que pingava dos lábios da tua vagina para o mosaico de tacos do soalho da sala. E depois mais uma, duas, três cadeiras e um pequeno banco a fim de construir, num entretenimento frenético de criança, o desequilibrado altar de lego sobre o qual haveria de te - olha, sabes quem é? Presumo que sim, até porque não é difícil. Somos parecidos, não somos? É uma fotografia antiga, o meu pai deveria ter aqui uns quarenta anos. A sua morte foi a única coisa que aconteceu realmente nesta minha existência de sonâmbulo. Já te falei nele, meu amor? Provavelmente já. Não posso estar dois minutos a sós com alguém que começo logo a fazer um relato detalhado da sua pessoa. Tinha cinquenta e cinco anos quando eu nasci, e era certamente a última coisa de que ele estaria à espera. Fui, como calculas, um lastimável acidente fruto duma distracção durante um coito deficientemente interrompido ou da aberrante ineficácia de um contraceptivo de tanga. A minha mãe, trintona, tentou matar-me duas vezes. Grande puta. Tomou dois abortivos quando devia ter ainda o tamanho e a forma de uma almôndega de carne ironicamente ligada a ela por uma tripa azulada. Eu, o prelúdio de eu, ligado a esta cabra cujo maior desejo era transformar-me num bife pastoso embrulhado em papel higiénico e fechado na reclusão mal cheirosa do balde do lixo de uma clínica subterrânea. Mas vinguei-me: sobrepus-me a qualquer plano de aniquilação e fui arrancado dela a ferros, em contracções metálicas de sangue, numa cesariana que mais pareceu uma autópsia. Vegetou em profunda agonia durante dois dias, cosida do lábio inferior da boca até ao rego do cu e ligada artificialmente à vida por uma confusão de tubos de todos os tamanhos e feitios, antes de morrer no hospital ajustando o seu último suspiro na maldição do meu nome. O pai, esse, foi um homem de colhões. Refez toda a vida quase aos sessenta anos: voltou a casar, arranjou-me uma madrasta e amealhou igualmente no banco o dinheiro que me permitiu suportar os encargos de uma formação académica. O mais admirável, meu amor, é que fez tudo isso com tamanha discrição, com tamanha naturalidade, que cresci sem nunca sentir a necessidade ou o dever moral de lhe falar, de lhe agradecer, de lhe dizer o quanto eu - e um dia, tinha dezoito anos, cheguei a casa e encontrei minha madrasta a chorar em gritos de loba, uivando-me numa diplomacia de mulher latina que o pai tinha ido de cona (que expressão mais apropriada e reveladora da profunda simetria da vida humana: vimos e vamos de cona). E o que teria dado, meu amor, para ter a certeza que o meu pai repousava no céu à beira de anjinhos obesos e capados, vivendo o merecidíssimo descanso que nunca teve a sorte de gozar neste nosso mundo milimetricamente cronometrado. O que teria dado, caramba. Se fosse crente, meu amor, não hesitaria sequer uma pequena fracção de segundo e daria um tiro nos cornos à Tarantino, bilhete de primeira classe para ir ter com o meu paizinho às nuvens, à direita daquele gajo que toda a gente chama antonomasticamente senhor com um S dos grandes. Mas não. Meu pai, para mim, tinha mesmo morrido. Não havia alminhas para venerar, nem orações para rezar. Não havia nada, meu amor, absolutamente nada.
Vimos e vamos de cona, mas. Mudemos de assunto. Tenho uma novidade curiosa para te contar. Ontem à noite, não me perguntes porquê, acabei por escrever uma pequena história sobre a mesa da sala. Nunca na vida escrevi alguma ficção. Limito-me a ler como um recluso. Gosto é de pintar. Óleos. Tenho, na minha dispensa, uma enorme montanha de telas perfeitamente loucas onde as cores se amontoam em relevos assíncronos, em contrastes diabólicos, em perspectivas inexistentes. São, no fundo, o depósito de todo o lixo que transporto cá dentro. Por vezes, meu amor, tenho a impressão de que, se não pintasse, já teria explodido num enorme estrondo espalhando por todos os cantos da casa mil e um pedacinhos podres e fumegantes da carne que me conforma. Talvez um dia apanhe uma grande bebedeira e me surpreenda a pintar esse auto-retrato. Em tons negros e avermelhados. Quem sabe. O que sei é que, ontem à noite, uma inexplicável vontade de escrever se apossou de mim fazendo-me parir este conto que tenho aqui na mão. Não acho que seja mais uma catarse minha. Não, não acho. Foi um parto fácil. Acabei por escrevê-lo mecanicamente, sem saber muito bem como, sob o olhar atento e disciplinador do Camilo, e, hoje de manhã ao relê-lo, tive a estranha sensação que tinha sido outra pessoa que o tinha escrito sob o disfarce da minha caligrafia escolar. Se quiseres podes passar-lhe os olhos. Deixo-te aqui em cima do sofá. Tá bem? Abstenho-me de interpretar este teu silêncio, meu amor. E talvez fosse tempo de começares a pensar em descer daí. Já me dói o pescoço de estar sempre a olhar para o tecto.
Publicado por João Pedro da Costa às 08:00 PM | Comentários (6)
peixinhos vermelhos [narração II]
Cá estou. Ou seja, cá estamos. Onde é que eu ia, meu amor? Muito bem, acho que te estava a descrever a minha consternação por não saber o que fazer naquele vazio tenebroso. Sabes, talvez seja esta a verdadeira definição da morte: estar só, no escuro, sem ter a ponta de um corno para fazer. Mais uma vez, escapa-me a quantidade de tempo que estive parado a pensar sobre o assunto. O que consigo recordar é o espanto que senti quando um minúsculo ponto branco surgiu à minha direita. Agora, tinha um ponto de referência no espaço. Se me virava para a esquerda deixava de ver o ponto, porém se continuasse o movimento de rotação no mesmo sentido, ele ressurgia naturalmente do mesmo lado. Minha vida tinha um sentido. Não sabia onde estava, mas sabia para onde ir, em direcção aquela ínfima luz. Já tinha com que me entreter. Estava, no fundo, outra vez vivo - ressuscitado que nem o grande Jota. Comecei a andar com cautela e o ponto branco foi aumentando de volume. Não foi preciso caminhar muito mais para ver surgir por detrás do primeiro um segundo ponto branco um pouco mais distante e, por isso, mais pequeno. Porém, de repente, a primeira luz apagou-se deixando a segunda sozinha. Pânico. Desatei a correr desenfreadamente no terror de perder a única luz que me restava. Surgiram mais um, dois, três pontos brancos quando o que estava mais próximo também desapareceu. Contudo, estava menos alarmado. Sabia que conseguia correr mais depressa do que a velocidade com que aquelas luzes iam sumindo. Ao longo da corrida, e à medida que me ia aproximando, os pontos brancos iam-se avolumando de detalhes, transformando-se gradualmente em cones de luz amarelada. A dada altura, consegui reparar que havia sempre uma forma negra que surgia dentro dos cones imediatamente antes de se apagarem, o que atribuía entre esta e o desaparecimento das luzes uma mais que provável relação de causa e efeito. Sempre que possível, focava a atenção naquela silhueta, e, conforme ia correndo, o tempo acrescentava-lhe uma forma cada vez mais complexa, enriquecendo-a com cores e detalhes. Isto até conseguir perceber o que se passava. Meu amor. Numa fileira em forma de curva, uma sucessão de postes de iluminação eléctrica ia sendo destruída por uma pedra atirada pela mais deslumbrante das mulheres que já alguma vez tive o privilégio de ver. Eras tu, meu amor. Eras tu.
Penitencio-me. O teu silêncio é encantador, mas por vezes tenho a impressão que consegue criar entre nós uma distância que começa a transfigurar-se num precipício que nos separa nas suas margens opostas. Não achas, meu amor? Cá estamos outra vez. Nunca respondes. Compreendo que as palavras possam ser andaimes desnecessários para um amor como o nosso, mas gostaria de ouvir a tua voz, saber o teu nome, conhecer o teu passado, sei lá, tantas coisas. Perdão, meu amor. Perdão. Lá estou eu outra vez. Porque haveria de querer que fales? Para dizeres que me amas? Se não me amasses, não terias já saído desta casa, cuja porta se encontra sempre aberta? Não terias já resistido com toda a força ao já incontável número de vezes que fizemos amor nos locais mais desconfortáveis deste apartamento e nas posições mais inimagináveis? E se me dissesses que sim, que de facto me amas, isto quereria dizer que me amas de verdade? Claro que não. Mil perdões, meu amor. Este silêncio é porventura o maior sinal de respeito que já recebi de alguém. Sem dúvida. Perdoa-me. Se algumas vezes te interpelo duma forma mais brusca (perdão, meu amor, perdão) é devido ao medo inato que tenho de perder aquilo ou aqueles que me são caros. É esta angústia que me faz conferir a presença da carteira no bolso das calças vezes sem conta durante o dia, que me impede de sair de casa sem me ter certificado que tudo nela está realmente lá, sem estar seguro de que os três peixinhos vermelhos não aproveitaram as chuvas de Janeiro para desertarem ou que o Camilo não deixou de os fixar com o seu olhar doentio. Tenho tanto medo, meu amor. Tanto medo que, um dia, quando voltar do trabalho, os livros, os filmes, os discos não estejam em casa à minha espera, tal como há anos o meu pai não estava para me dar o habitual, mas sempre reconfortante sermão das horas tardias, das roupas escuras e do cabelo comprido. Estou sempre à espera, meu amor, que um dia abra esta porta e que tudo esteja vazio e que fique assim com as feições incrédulas de quem se vê só e abandonado nas cinco gigantescas peças deste apartamento. Perdão, meu amor. Perdão.
Estavas deslumbrante. Tão somente. Os flocos de luz despiam ainda mais a tua nudez, sublimando o véu rosado da tua pele e a areia do teu cabelo. Após invadires os cones de luz em saltos selvagens de gazela, apoderavas-te de uma pedra no chão e, num gesto helénico de lançador de disco, atirava-la com uma precisão apolínea. A última imagem que vislumbrava de ti, antes do estrondo de vidro e da consequente escuridão, era a do teu corpo curvado pelo esforço e do teu longo cabelo erecto a bailar electrificado no ar como serpentes encantadas pelo silêncio da noite. Acompanhei de perto este ritual um bom par de vezes sem nunca me atrever a dirigir-te uma palavra. Estava indefeso perante o teu encanto e limitava-me a acompanhar a dança de ti. Porém, de repente, voltaste-te e olhaste para mim. Para mim. Nunca me esquecerei da tua expressão, meu amor. Nunca. Era de um desamparo total.
Olha, vou pôr música. Que estejamos há quase quatro dias sem comer, vá lá que não vá, mas tanto tempo sem ouvir música é que. Vejamos. Como te estava a dizer, meu amor, aquele olhar era magnífico. Tentei pintá-lo inúmeras vezes sem qualquer sucesso. O teu olhar era irreproduzível. Foi com ele que acordei. Quero dizer, foi com ele que voltei para a sonolência do meu mundo, para o entorpecimento do meu quarto. Estava iluminado e eu de pé, em frente ao espelho, com o ar mais estúpido que se pode imaginar e um dedo pousado no interruptor. Por acaso, meu amor, já ouviste alguma coisa dos Morphine? E foi assim que, a partir desse dia, a minha vida começou a ter um certo sentido. Tinha de reencontrar aquele pequeno ponto branco, para te poder reencontrar. E foi o que fiz, meu amor, foi o que fiz. Nos últimos dois anos, qualquer passo que tenha dado neste meu esboço infantil de vida, dei-o na esperança de te reencontrar, na disparatada expectativa de te rever a destruíres postos de iluminação nocturnos. Isto agora até me dá vontade de rir. Pois, isto está estragado, não se ouve patavina. Que grande chatice. Mais uma cena avariada. Compreendes agora, meu amor, o espanto quando te vi deitada na minha cama? Compreendes agora a minha indesculpável hesitação? Compreendes? E agora, será que percebes porque é que, a partir desse dia imperioso, me recuso a sair de casa? Tenho medo, muito medo, meu amor. Tenho um medo milenar de que, quando voltar, já não estejas cá.
E pimba. Agora deu-lhe para brincar com o crucifixo. Presumo, meu amor, que já saibas que não sou crente. Aquele crucifixo é apenas uma bela peça de arte, e eu não resisto a uma bela peça de arte. O Jota-Cê está lá representado numa magreza terminal de seropositivo perfeitamente encantadora. Parece um anúncio da Benetton. Não resisto a tanta ironia. Como também não resisto à absurdidade dos homens quando pensam que podem domesticar a divindade num pedaço de madeira. Às vezes, fico com a sensação que Deus terá sido o maior erro do homem. Nunca o contrário. Ou então, os dois não passam de um grande lapso resultante de um engano ainda maior que é eu estar para aqui a divagar. E depois, ó pai meu e dos outros, se tu existisses de facto, já seriam horas de te fazeres de aparecido: há muita conversa a ser posta em dia. Não é assim, meu amor? Ele que venha.
Que eu espero sentado.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:00 AM | Comentários (5)