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dezembro 01, 2004
peixinhos vermelhos [narração III]
Porra. Não tenho emenda. Eu sei, meu amor, que provavelmente não serão estas as palavras mais românticas que se devem sussurrar aos ouvidos de uma mulher deslumbrante como tu, sobretudo quando estamos dentro dela a fremir espasmozinhos desdenhosos de prazer masculino. Contudo são estes os encadeamentos caóticos que se atropelam na minha cabeça. Não me perguntes porquê. Perdão, meu amor, perdão. Quando faço amor contigo, perco-me de felicidade. Quando, de olhos fechados, me venho dentro do teu corpo frágil de anémona, sinto que não é apenas o meu sémen que aglutinas, mas toda a estrutura do meu ser. Receio que qualquer dia, ao unirmos os nossos corpos, o teu sexo húmido me sugue numa aspiração de trompas e que fique para todo o sempre preso no teu interior. Se calhar, o facto de ter estado tanto tempo de cabeça para baixo não ajudou muito. Gostava de saber, meu amor, como é que fazes para te pregares assim ao tecto numa solene abertura de pernas. A tua imprevisibilidade é fascinante. Lá fui eu, numa procissão de fé, buscar uma mesa para poder beber em cima dela o líquido incolor que pingava dos lábios da tua vagina para o mosaico de tacos do soalho da sala. E depois mais uma, duas, três cadeiras e um pequeno banco a fim de construir, num entretenimento frenético de criança, o desequilibrado altar de lego sobre o qual haveria de te - olha, sabes quem é? Presumo que sim, até porque não é difícil. Somos parecidos, não somos? É uma fotografia antiga, o meu pai deveria ter aqui uns quarenta anos. A sua morte foi a única coisa que aconteceu realmente nesta minha existência de sonâmbulo. Já te falei nele, meu amor? Provavelmente já. Não posso estar dois minutos a sós com alguém que começo logo a fazer um relato detalhado da sua pessoa. Tinha cinquenta e cinco anos quando eu nasci, e era certamente a última coisa de que ele estaria à espera. Fui, como calculas, um lastimável acidente fruto duma distracção durante um coito deficientemente interrompido ou da aberrante ineficácia de um contraceptivo de tanga. A minha mãe, trintona, tentou matar-me duas vezes. Grande puta. Tomou dois abortivos quando devia ter ainda o tamanho e a forma de uma almôndega de carne ironicamente ligada a ela por uma tripa azulada. Eu, o prelúdio de eu, ligado a esta cabra cujo maior desejo era transformar-me num bife pastoso embrulhado em papel higiénico e fechado na reclusão mal cheirosa do balde do lixo de uma clínica subterrânea. Mas vinguei-me: sobrepus-me a qualquer plano de aniquilação e fui arrancado dela a ferros, em contracções metálicas de sangue, numa cesariana que mais pareceu uma autópsia. Vegetou em profunda agonia durante dois dias, cosida do lábio inferior da boca até ao rego do cu e ligada artificialmente à vida por uma confusão de tubos de todos os tamanhos e feitios, antes de morrer no hospital ajustando o seu último suspiro na maldição do meu nome. O pai, esse, foi um homem de colhões. Refez toda a vida quase aos sessenta anos: voltou a casar, arranjou-me uma madrasta e amealhou igualmente no banco o dinheiro que me permitiu suportar os encargos de uma formação académica. O mais admirável, meu amor, é que fez tudo isso com tamanha discrição, com tamanha naturalidade, que cresci sem nunca sentir a necessidade ou o dever moral de lhe falar, de lhe agradecer, de lhe dizer o quanto eu - e um dia, tinha dezoito anos, cheguei a casa e encontrei minha madrasta a chorar em gritos de loba, uivando-me numa diplomacia de mulher latina que o pai tinha ido de cona (que expressão mais apropriada e reveladora da profunda simetria da vida humana: vimos e vamos de cona). E o que teria dado, meu amor, para ter a certeza que o meu pai repousava no céu à beira de anjinhos obesos e capados, vivendo o merecidíssimo descanso que nunca teve a sorte de gozar neste nosso mundo milimetricamente cronometrado. O que teria dado, caramba. Se fosse crente, meu amor, não hesitaria sequer uma pequena fracção de segundo e daria um tiro nos cornos à Tarantino, bilhete de primeira classe para ir ter com o meu paizinho às nuvens, à direita daquele gajo que toda a gente chama antonomasticamente senhor com um S dos grandes. Mas não. Meu pai, para mim, tinha mesmo morrido. Não havia alminhas para venerar, nem orações para rezar. Não havia nada, meu amor, absolutamente nada.
Vimos e vamos de cona, mas. Mudemos de assunto. Tenho uma novidade curiosa para te contar. Ontem à noite, não me perguntes porquê, acabei por escrever uma pequena história sobre a mesa da sala. Nunca na vida escrevi alguma ficção. Limito-me a ler como um recluso. Gosto é de pintar. Óleos. Tenho, na minha dispensa, uma enorme montanha de telas perfeitamente loucas onde as cores se amontoam em relevos assíncronos, em contrastes diabólicos, em perspectivas inexistentes. São, no fundo, o depósito de todo o lixo que transporto cá dentro. Por vezes, meu amor, tenho a impressão de que, se não pintasse, já teria explodido num enorme estrondo espalhando por todos os cantos da casa mil e um pedacinhos podres e fumegantes da carne que me conforma. Talvez um dia apanhe uma grande bebedeira e me surpreenda a pintar esse auto-retrato. Em tons negros e avermelhados. Quem sabe. O que sei é que, ontem à noite, uma inexplicável vontade de escrever se apossou de mim fazendo-me parir este conto que tenho aqui na mão. Não acho que seja mais uma catarse minha. Não, não acho. Foi um parto fácil. Acabei por escrevê-lo mecanicamente, sem saber muito bem como, sob o olhar atento e disciplinador do Camilo, e, hoje de manhã ao relê-lo, tive a estranha sensação que tinha sido outra pessoa que o tinha escrito sob o disfarce da minha caligrafia escolar. Se quiseres podes passar-lhe os olhos. Deixo-te aqui em cima do sofá. Tá bem? Abstenho-me de interpretar este teu silêncio, meu amor. E talvez fosse tempo de começares a pensar em descer daí. Já me dói o pescoço de estar sempre a olhar para o tecto.
Publicado por João Pedro da Costa às dezembro 1, 2004 08:00 PM
Comentários
Olhando para a hora, vejo que leio este texto na mesma altura em que acabaste de o escrever. Eu que não vinha aqui há uns tempos, deixa lá fazer uma visita rápida aos coelhinhos ternurentos que o super fecha às 8 e meia. E. Não consegui parar de ler. Não é elogio, não é nada. Caramba, há pessoas na blogosfera que escrevem sem se importarem se aos outros está a doer alguma coisa. E o super fecha às 8 e meia.
Um abraço apertado p/ ti e um abraço ternurento aos coelhinhos.
Publicado por: vague em dezembro 1, 2004 08:01 PM
Escritor bendito.
Publicado por: derFred em dezembro 1, 2004 09:38 PM
(Eu continuo caladinha, vou lendo, esperando pelo que virá a seguir. No fim direi alguma coisa. Se for capaz.)
Publicado por: 1poucomais em dezembro 1, 2004 10:28 PM
bem escrito. continua...
Publicado por: seven em dezembro 2, 2004 12:40 AM
Chiça, que o gajo quando se agarra ao teclado...
Publicado por: sharkinho em dezembro 2, 2004 10:44 AM
Não era este tipo que dizia que era gay...?
Publicado por: minerva em dezembro 2, 2004 11:12 AM