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janeiro 19, 2005
Do fim dos blogues e outros estados de melancolia

E está tudo dito. Sem dramatismos.
Um abraço sincero a todos
Publicado por João Pedro da Costa às 03:35 PM | Comentários (86)
Epílogo
Somos todos livres.
Publicado por derFred às 03:30 PM | Comentários (20)
janeiro 18, 2005
Post lento

Publicado por João Pedro da Costa às 06:49 PM | Comentários (19)
Post cor-de-rosa
A propósito de um post do Tuby, veio-me à memória um dos meus passatempos favoritos que é citar, à desgarrada, as canções mais pirosas da década de 80. Sempre quero ver o vosso pedal (canções do Phil Collins não vale).
Para pontapé de saída, deixo a primeira sugestão: «You're My Heart, You're My Soul» dos inefáveis

Modern Talking.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:06 PM | Comentários (50)
A minha vida banal
Tive de ir comprar uma botija de gás. Quando saí, havia bombeiros e polícias à porta. Um vizinho tinha-se esquecido da chave e foi preciso entrar pela janela. Quando estava na loja, recebi uma chamada e aproveitei para comprar pão. Quando voltei, os bombeiros estavam de saída. São coisas que acontecem.
E vocês? Têm histórias que não interessam nem ao menino Jesus?
Publicado por derFred às 02:49 PM | Comentários (31)
janeiro 17, 2005
Post Azul III

Publicado por João Pedro da Costa às 03:45 PM | Comentários (27)
(Um pequeno desabafo)
Durante muitos anos, um dos métodos que utilizei para apurar as possibilidades de empatia com uma determinada pessoa era inquirir o que essa mesma pessoa pensava do Herman. Para um gajo como eu, portador de uma péssima intuição, o método era valioso e, mais grave ainda, infalível.
Hoje em dia, as coisas são diferentes. Entre os meus amigos, por exemplo, existe um pacto secreto: a gente não fala do Herman. As razões são óbvias. Um gajo deve-lhe imenso e é difícil falar no passado sem ter na mente o presente.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:23 AM | Comentários (24)
janeiro 16, 2005
Post Azul II
Se há sítios ao quais eu volto regularmente, um dos menores não será, de certeza, a obra da Teolinda Gersão. E este fim-de-semana, aproveitei o sol (e o apagão d'As Ruínas) para reler um dos livros mais singulares da literatura portuguesa, o diário OS GUARDA-CHUVAS CINTINLANTES (Dom Quixote, 1997). E como andamos numa onda canídea, gostaria de partilhar convosco este belíssimo bocado de prosa (pp. 65-67):
« – Não é por natureza solitário nem boémio, diz Lu afagando Dax. Um cão é sociável, integrado na sua quota-parte da casa, da família, tem um instinto do clã e um profundo sentido das relações humanas. Um cão é humano.
Relações puras, em que não tem menor importância a inteligência, a beleza, a cultura, a posição social ou o dinheiro. Relações absolutas como só há na infância, penso. Lu poderia ser um vagabundo, e ele seguí-lo-ia até ao fim do mundo alegremente. No mundo inteiro, apenas ele seria seu cão, e apenas aquele seria seu dono, pensa um cão.
Os dois saindo pela porta do jardim. Dax correndo à frente, descobrindo, olhando, farejando, o mundo revelando-se em cada manhã novo e diferente, diante dos seus olhos, suas orelhas, seu fino focinho de cão, ele voltando de novo para trás, agitando a cauda e chamando o homem, mostrando-lhe outra vez as coisas que já antes lhe mostrara mas ele já esquecera, com os seus fracos olhos fracas orelhas e frouxo nariz humanos, passando pelas coisas sem as ver. Porque um corpo humano, assim demasiado alto, afastado do chão, atravessando as coisas como se elas fossem apenas uma ideia. Para verdadeiramente saber era preciso um coração de cão, um jovem corpo de cão, rápido e aberto nas manhãs claras, atravessando o mundo com todos os sentidos despertos, atento a todos os indícios, inteiramente livre e sem memória, concentrado no instante.
Ele sabe, Dax. Descobriu também que o mundo se altera, conforme a companhia. O mundo com Lu é aquela descoberta da manhã soalheira. Uma atenção expectante e controlada. Mas com as crianças é diferente. Rebolando na relva, pisando-lhes a saia com as patas sujas, sempre em movimento, com uma forma doida de alegria que não o deixa atentar exactamente em nada, correndo em todas as direcções ao mesmo tempo, em três saltos está ao pé da cancela e de um salto único está já de novo ao pé do muro, correndo para o outro lado, nunca se sabe para que lado ele corre porque Dax é puro movimento, orelhas, patas, cauda, sedoso e vivo, um coração de pêlo castanho, contornado de sol, um coração de relva trotando, correndo sobre elas, empurrando-lhes a cara com as orelhas quentes, interessado por tudo e vibrando, aprendendo tão bem sozinho, mas quando não entende e erra tudo. Tem um modo tão seu de rir e se espantar, de se deslumbrar com as coisas, entrega-se inteiro às sensações, porque todas lhe parecem boas, os cheiros sobretudo, distingue à distância os mil cheiros diferentes de que o ar é feito, escolhe um ou dois e parte a correr, porque não é tanto a forma e a cor do mundo, mas o seu cheiro, que lhe importa. Em breve aprendeu a conhecer os cheiros mais difíceis, o das pedras, da água, de formigas invisíveis, soterradas, o cheiro inconsistente da chuva começando, que se torna depois no cheiro estonteante, avassalador, da terra molhada – nada tem, aliás, tantos cheiros como a terra, variam segundo o calor, a humidade, a hora do dia, mas também o sol tem mil cheiros diferentes, conforme aquilo a que se mistura, há o melhor de todos, o do sol misturado com a terra, mas há também o cheiro do sol misturado com as plantas, cal, pedra, madeira, tijolo, urina, estrume, ou simplesmente com as partículas de pó, as mil partículas soltas que se vêem pairar nos feixes de luz, nos grandes feixes cruzados, sobrepostos – oh, mas se entrasse no domínio do visível – todas as coisas sempre balançando, partindo à desfilada, andando para a frente e para trás, ele saltando na relva, os seus latidos misturando-se à luz, ao dia claro, os ramos oscilantes da árvore porque há também a grande árvore, ao fundo do quintal, aberta a toda os pássaros mas sem prender nenhum com as suas grandes mãos transparentes, verdes, por onde sol escorre, os seus pés debaixo da terra mergulham num rio escuro, a árvore corre no jardim com as crianças aos ombros, cantando às vezes, de noite, quando sopra o vento, e ele saltando em volta, parando de repente, partindo outra vez de cauda levantada.»
Alucinante, não é? A Teolinda Gersão.
Publicado por João Pedro da Costa às 09:55 PM | Comentários (18)
janeiro 15, 2005
Post azul

Apresento-vos a Carla e o Pluto. A Carla não sabe, mas ela é (de longe) a pessoa que mais admiro no mundo. Tal admiração e devoção deve-se ao facto do passatempo favorito da Carla ser o de recolher cães abandonados pelas ruas da cidade do Porto e de pagar, com dinheiro do seu próprio bolso, a sua hospedagem em canis ou hospitais veterinários até encontrar um dono para eles. O Pluto («coisinha maiii linda», como diria o Monty), fruto da generosidade da Carla, está em vias de fintar o seu destino e de fazer parte da família de uma blogger muito especial (não digo quem, ela, se quiser, que se chibe...).
Há pessoas que nasceram assim: com o coração azul. E banhado pelo sol.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:05 PM | Comentários (83)
janeiro 14, 2005
Há pessoas e há gestos
Há gestos que são como bombas-relógio:
a gente identifica-os no instante como tique-
taques de um mecanismo quase silencioso,
para depois explodirem em todo
o ruído do seu esplendor.
Ou então não é o gesto da pessoa que o tece
que se alonga e desdobra no tempo.
Talvez seja a lentidão de quem recebe o gesto
que, por ser distraído ou avesso à demonstração,
não consegue apreender o gesto
na delonga do seu voo
para a detonação.
Há pessoas e há gestos
que o tempo reveste
de uma suprema precisão.
Publicado por João Pedro da Costa às 06:50 PM | Comentários (30)
Mutts #16

Publicado por João Pedro da Costa às 02:02 AM | Comentários (18)
janeiro 13, 2005
O meu coelho suicida #26 (Xau Silvestre rules!)

(c) Andy Riley & Reckitt Benkiser
Publicado por João Pedro da Costa às 09:15 PM | Comentários (40)
Os detergentes do método IV
Eu ia escrever um post a dizer que o Xau Silvestre sabe a pila. Mas depois pensei: é melhor não, senão ainda vêm todos práqui perguntar como é que eu conheço o sabor do Xau Silvestre.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:04 AM | Comentários (74)
janeiro 12, 2005
Os detergentes do método III
Hoje estive o dia todo preocupado com um assunto doméstico. Passo a explicar. Não sei se estarão recordados do Xau

Silvestre, o tal amaciador para a roupa que não é lá grande espingarda quando aplicado na lavagem do chão de cozinhas e casas de banho (tchuak tchuak). Pois bem: andei hoje bastante preocupado com o destino a dar ao dito cujo. Como sabem, eu não uso amaciador na lavagem da roupa (i got my own method) e, por isso, deitar a embalagem ao lixo parecia mesmo ser a única solução possível. No entanto, acontece que hoje choveu na cidade do Porto e o Xico e a Ziggy chegaram-me a casa num mísero estado, todos ensopados e enlameados. Foi então que me surgiu uma brilhante

ideia (aquilo, no canto superior direito, é um aquecedor). Tirando o facto de ter necessitado de meia hora para tirar o raio da espuma, gostaria de partilhar convosco a eficácia do produto na lavagem dos felinos: ficaram super-cheirosos e (para grande espanto meu) com o pêlo macio.
No poupar é que está o ganho.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:38 PM | Comentários (24)
19 de Março de 2005, algures no Alentejo

Publicado por João Pedro da Costa às 05:03 PM | Comentários (26)
Gatinhos, gatinhos, gatinhos e mais gatinhos
Duas coisinhas irresistíveis para os gatófilos (e ruinoso que se preze, é-o forçosamente):
1) O videoclip do novo single de Fatboy Slim, «The Joker». Para além do clip (de fazer derreter o coração de qualquer um) e do single (grande tema), recomendo igualmente o disco, PALOOKAVILLE, que não sai da minha aparelhagem há mais de uma semana.
2) O livro BAD CAT de Jim Edgar (disponível nas lojas FNAC) é um divertidíssimo exercício de focalização do mundo felino a partir da legendagem de fotografias:

O livro está disponível na FNAC (foi-me gentilmente oferecido no Natal), mas se quiserem aguçar o apetite, podem igualmente visitar este site, no qual encontrarão outros bad cats. Já sou fã. Miau.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:18 AM | Comentários (22)
janeiro 11, 2005
1964

A nave Ranger é lançada para a Lua equipada com câmaras de televisão.
Cassius Clay vence Sonny Liston em seis assaltos e sagra-se campeão mundial de boxe. Pouco depois, adopta o nome Cassius X Clay.
Os Estados Unidos enviam milhares de conselheiros militares para o Vietname.
Martin Luther King recebe o Prémio Nobel da Paz.
Publicado por derFred às 04:30 PM | Comentários (53)
Os detergentes do método II
Sempre que passava a pano o chão da cozinha ou da casa de banho, o mesmo ficava a colar. Mesmo depois de seco, um gajo andava calmamente sobre os referidos pisos e tchuak tchuak. Após reflectir um pouco sobre o assunto, deduzi que tal se deveria, muito provavelmente, a um excesso de detergente na solução aquosa e, por isso, tenho vindo a reduzir nos últimos dias a quantidade do detergente que coloco na água. Tudo em vão: o chão fica limpo e cheiroso, mas quando andamos por cima dele tchuak tchuak. Cheguei finalmente à conclusão que o problema estaria na porcaria do detergente e, há minutos, resolvi ir ver a sua marca (Xau Silvestre) para ter a certeza que não voltaria a comprar a mesma porcaria. Por mera curiosidade, e visto que estava com a mão na massa, resolvo ler o que vem escrito em relevo no verso da embalagem.
Ficam aqui dois conselhos úteis aos leitores deste blog:
1) ponham-se a pau com as embalagens dos detergentes: elas podem muito facilmente nos induzir em erro;
2) não tentem passar o chão de vossas cozinhas ou casas de banho com amaciador da roupa: o cheirinho até é agradável, mas... tchuak tchuak.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:01 PM | Comentários (10)
Eu nem gosto de escrever sobre coisas sérias, mas às vezes não há como evitá-lo
No passado dia 8 de Janeiro, José Luís Peixoto publicou o seguinte post no BdE (reproduzo-o aqui na íntegra):
«Ontem, pela primeira vez, ouvi uma anedota sobre a tragédia no sudeste asiático.
O humor é, por definição, uma subversão da normalidade e, quando observado por esse prisma, sempre me pareceu um fenómeno interessante. No entanto, fazer humor e contar piadas sobre aquilo que aconteceu e que ainda está a acontecer a milhões de pessoas nos países afectados por esta catástrofe parece-me desumano. É o luxo daqueles que imaginam que o seu pequeno mundo nunca será destruído. É a ignorância daqueles que nunca perderam ninguém, que acreditam que nunca irão perder ninguém e que vêem o mundo como uma brincadeirinha, um jogo de playstation, uma elaboração teórica que nunca os afectará. É a total falta de empatia em relação ao sofrimento dos outros – uma das principais marcas psicológicas dos psicopatas.
Aos poucos, tornámo-nos num país de engraçadinhos. Em tudo se promove a gracinha. Ter graça, aos poucos, tornou-se mais relevante do que ter razão. Como chegámos a isto? Mais cedo ou mais tarde, tornar-se-á claro que o máximo que os engraçadinhos poderão alcançar será serem engraçadinhos. Quando se tornarem um pouco mais adultos e a vida lhes mostrar o quanto é triste perseguir um objectivo tão vazio, chegará a hora de lamentar o tempo perdido. Para o bem dos próprios e para o bem de todos, espero que não seja demasiado tarde.
Isto foi o que disse à pessoa que me contou uma anedota sobre a tragédia no sudeste asiático.»
Isto dá pano para mangas e, de resto, os comentários ao post foram suficientemente eloquentes para, por exemplo, eu não sentir a necessidade de lá acrescentar a mais pequena vírgula. No entanto, há um aspecto que gostaria de abordar aqui e que não tem tanto a ver com aquilo que é dito, mas com a forma como é dito. Análise discursiva, portanto.
Em primeiro lugar, convém identificar a tipologia deste discurso e o que temos aqui é um sermão. Está lá tudo: a lição de moral, as marcas de oralidade, a retórica da persuasão e, é claro, a forma como o texto é rematado com uma frase que possui, basta ler os evangelhos, óbvias ressonâncias bíblicas.
O discurso começa com a enunciação do episódio que estaria na origem do post: «Ontem, pela primeira vez, ouvi uma anedota sobre a tragédia no sudeste asiático». O «pela primeira vez» não é inocente: pretende salvaguardar a integridade moral do sujeito da enunciação, isto é, ele ficou indignado logo à primeira, tiro e queda, não houve aqui compassos de espera. Depois, ao colocar na mesma frase termos supostamente antagónicos («anedota» vs. «tragédia»), procura-se desde logo introduzir o principal argumento para condenar (palavra chave do texto) o acto dessa 3.ª pessoa: a inadequação. Não é suposto contar-se anedotas de coisas sérias e trágicas e quem o faz não passa de um ignóbil pecador.
Faz-se parágrafo e o texto anda para trás, passo de dança batido, mas eficaz, quando se pretende dar mais ênfase à argumentação. Despacha-se um vácuo elogio do humor (não vai a malta pensar que ele é um tipo cinzento), se bem que esse elogio seja desconcertante na medida em que recorre a uma «definição» em que se invocam dois conceitos que, quando articulados, são absolutamente contrários à estratégia argumentativa que irá ser doravante utilizada: «subversão da normalidade» (se, em vez de definições enciclopédicas, o José Luís Peixoto se tivesse um pouco cultivado sobre a importância antropológica do riso e do humor, ele dificilmente teria tido a ousadia de escrever o post em análise). Sob este prisma, diz o autor, o humor «sempre» lhe pareceu um «fenómeno interessante» (o adjectivo aqui é sublime de tão cínico e arrogante - pá, o humor ligou-me há minutos e agradece-te calorosamente o interesse). Mas eis que se dá o salto, introduzido por uma locução conjuncional adversativa e se dispara, como por prolepse, a moral do sermão:
«No entanto, fazer humor e contar piadas sobre aquilo que aconteceu e que ainda está a acontecer a milhões de pessoas nos países afectados por esta catástrofe parece-me desumano.» [conseguem ouvir os violinos?]
E é curioso que, logo no arranque desse salto, o texto dê um tremendo trambolhão. Para além da retoma anafórica do «fazer humor», não nos deve aqui escapar a necessidade que o autor sentiu de acrescentar um «e contar piadas» (bem diferente de um hipotético «ou contar piadas»), como se os dois predicados não fossem de certa forma coincidentes ou houvesse aqui a urgência em utilizar uma expressão menos nobre ou mais corriqueira para designar o acto alvo de reprovação - é como se «contar piadas», e contrariamente ao «fazer humor», deixasse de ser, para ele, «interessante» sob qualquer prisma. Note-se igualmente a retórica da quantidade através do numeral cardinal em «milhões de pessoas» (se fosse apenas uma, já não faria «mal»?), e a utilização irónica e de grande recorte dramático do verbo «parecer», sobretudo quando o predicativo do sujeito é uma palavra tão forte como «desumano».
Começam aqui os rótulos ou, se quiserem, os insultos. E é curioso verificar (tudo é particularmente irritante e curioso neste post do José Luís Peixoto) que do verbo «parecer» se salta, na boa, para o verbo «ser», através de três frases que mais não são do que predicativos do(s) sujeito(s) que se critica(m) (curiosa moral esta, na qual um acto «parece» ser condenável e o autor desse mesmo acto «é» condenado sem a mínima hesitação). E que atributos é que se colam a esses sujeitos moralmente inferiores? São pessoas «que [luxuosamente] imaginam que o seu pequeno mundo nunca será destruído»; são pessoas ignorantes porque «nunca perderam ninguém [e] acreditam que nunca irão perder ninguém e que vêem o mundo como uma brincadeirinha, um jogo de playstation, uma elaboração teórica que nunca os afectará»; são pessoas sem «empatia em relação ao sofrimento dos outros», isto é, são pessoas (caneco, ainda serão pessoas?) que transportam «uma das principais marcas psicológicas dos psicopatas». E aqui (excuse my french) até se me arrepiam os pêlos do cu. Vejam como um suposto «defeito» moral é, de imediato, transposto para o domínio da patologia. E, para mais, de uma forma cobarde e insinuosa, pois só assim se entende a sintaxe ambígua e a utilização redundante do adjectivo «psicológicas» na última frase do parágrafo. Mas há, sobretudo, nestas frases do José Luís Peixoto, um exercício contabilístico da dor própria vs. dor alheia que a mim (estou a ser sincero) me dá vontade de virar o barco.
O resto do post continua no mesmo tom moralista e hiperboliza ainda mais os artefactos retóricos. Reparem bem como o penúltimo parágrafo começa na 1.ª pessoa do plural («Aos poucos, tornámo-nos num país de engraçadinhos. Em tudo se promove a gracinha. Ter graça, aos poucos, tornou-se mais relevante do que ter razão. Como chegámos a isto?») para, quando se chega à hora dos insultos, se passar rapidamente para a 3.ª do plural («Mais cedo ou mais tarde, tornar-se-á claro que o máximo que os engraçadinhos poderão alcançar será serem engraçadinhos. Quando se tornarem um pouco mais adultos e a vida lhes mostrar o quanto é triste perseguir um objectivo tão vazio, chegará a hora de lamentar o tempo perdido. Para o bem dos próprios e para o bem de todos, espero que não seja demasiado tarde»). Deveras eloquente, vous trouvez pas?
Mas o pior fica para o fim: «Isto foi o que disse à pessoa que me contou uma anedota sobre a tragédia no sudeste asiático». Por acaso, até admito que tenham sido imperativos formais que fizeram o José Luís Peixoto rematar dessa forma o seu texto, mas dificilmente se consegue ser mais moralista e arrogante. E como se ele nos dissesse: «Tão a ver? Foi isto que eu disse a um palhaço que tentou brincar com coisas sérias. É assim que se faz, eu sou um Exemplo. Aprendam se quiserem, que eu não duro sempre».
Sabem que mais? Haja pachorra para tanta palermice.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:26 AM | Comentários (91)
janeiro 10, 2005
Os detergentes do método
As mulheres (coitadas) não percebem nada disto. Como sou um gajo que gosta de partilhar os seus conhecimentos, irei, de seguida, explicar-vos o meu método revolucionário para lavar correctamente a roupa à máquina. Não tem nada que saber.
Antes de mais, é necessário eliminar alguns mitos femininos, cujo único intuito consite em atribuir uma aura iniciática a uma operação tão simples e elementar como lavar a roupa à máquina. Passo a enumerá-los:
1) Não se deve misturar roupa branca com roupa de cor;
2) As lãs devem ser lavadas separadamente;
3) Não se deve sobrecarregar a máquina de lavar;
4) Deve-se evitar lavar a roupa a temperaturas superiores a 60ºC;
5) A lixívia deve ser usada com parcimónia.
Tudo isto é falso e não tem quaisquer efeitos práticos. Eu, quando lavo roupa à máquina, encho a dita até não caber lá nem mais uma meia, utilizo sempre um programa simples de lavagem e centrifugação com a água a 70ºC e nunca, mas nunca, utilizo amaciador. O truque, o verdadeiro truque, consite na elaboração do composto que irá funcionar como detergente durante a lavagem.
Confesso que não sou nenhum engenheiro químico ou biológico e que a solução que irei apresentar de seguida resultou de um exercício abdutivo, no qual a sorte teve, como é óbvio, um papel preponderante. Passo a explicar: quando, há algumas semanas, me vi forçado a gerir a manutenção da roupa da casa, entrei na dispensa e encontrei os seguintes detergentes:

- 1 embalagem de Skip Black Velvet em Gel (belíssima embalagem de contornos Lynchianos);
- 1 embalagem de Xau Sabão Natural Líquido (um toque tradicional que invoca a sapiência secular das lavagens à margem dos rios de Portugal);
- 1 embalagem de Persil Gel Color (a cor azulada do líquido pareceu-me - e não estava enganado - fundamental para uma lavagem eficiente);
- 1 embalagem de Soflan Líquido (apontamento retro);
- 1 embalagem de Gel Lava Tudo / Lixívia Continente (apesar de ser um produto incialmente pensado para a limpeza das casas de banho, penso que o epíteto «Lava Tudo» conquistará de imediato os mais cépticos).
Pois bem: o truque consiste em misturar todos estes produtos, pela ordem enunciada e em partes iguais, e colocar o composto na área destinada ao detergente da vossa máquina de lavar. Para resultados ainda mais espectaculares, recomendo igualmente pôr a tocar o último disco de FATBOY SLIM, «Palookaville», durante a lavagem (quanto mais alto estiver o volume, mais agressiva será a lavagem).
Como é óbvio, já patenteei (o verbo existe?) esta solução milagrosa e a minha ideia é lançá-la no mercado o quanto antes. Mas já sabem: até lá, os leitores ruinosos da blogosfera têm a minha autorização para usar a fórmula.
I'm walking on sunshine, wo-oh-oh.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:20 PM | Comentários (13)
janeiro 09, 2005
Post etiquetado
Passo a explicar: soube há minutos que a minha mãe (a passar férias a mais de 2.000 km da cidade do Porto), acedeu hoje pela primeira vez a estas ruínas circulares. Como a conheço bastante bem, considero profilático publicar este post para evitar que aconteça a este blog, o que (vá lá: por vezes) acontece à minha roupa.
(Há pouco, ao telefone, estava a brincar, Mãe: eu NÃO morro de saudades).
Publicado por João Pedro da Costa às 09:51 PM | Comentários (16)
janeiro 08, 2005
Consider this

Publicado por João Pedro da Costa às 04:03 PM | Comentários (19)
janeiro 07, 2005
Post circular II

NOTA: puxei este post para o topo do blog para vos deixar hipnotizados durante a minha ausência na capital. É que eu vou ver hoje os REM - ainda não vos tinha dito isso, pois não?
Publicado por João Pedro da Costa às 02:09 PM | Comentários (28)
Caraaaaaaaaaaaaaaaaaaalho!!!
(Vou ver hoje os âri-éme.)
Publicado por João Pedro da Costa às 12:08 PM | Comentários (8)
Se um dia tiver problemas em aceder a este blog, isto é efeito das minhas maluquices
Devido a alguns comentários e e-mails que tenho recebido e (confesso-o) ao facto de dois dos mais ilustres ruinosos da blogosfera (a Catarina e o Monty) se terem queixado do mesmo, venho por este meio explicar que As Ruínas Circulares embirram com a merda do Explorer. Por isso, recomendo vivamente aos interessados a utilizarem o Mozilla Firefox. O download é grátis e ocupa menos de 5 Mbytes de espaço. E mais: os dois browsers podem funcionar ao mesmo tempo, isto é, não necessitam de abdicar do Explorer para terem o Mozilla e vice-versa. Mas o Mozilla é muito (mas muito) melhor.
Estamos conversados? ;)
Publicado por João Pedro da Costa às 01:44 AM | Comentários (19)
O morto na banheira
Aqui está, com gotas na fronte, o morto.
A água ainda quente, o corpo ainda morno, muito branco.
O cabelo penteado para trás reflecte a lâmpada nua.
As pálpebras caladas, os pêlos quietos, o sangue coagulado.
Eis a causa da sua condição
- um coração parado.
Uma mão sem pulso toca o peito oco.
O tronco recostado.
Publicado por derFred às 01:38 AM | Comentários (69)
É hoje

A gente vê-se lá?
Publicado por João Pedro da Costa às 01:06 AM | Comentários (14)
janeiro 06, 2005
AVISO
O «Post Circular II» foi momentaneamente pontapeado para o topo do blog. Mas ele depois volta práqui. Obrigado pela compreensão. A gerência.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:02 PM
janeiro 05, 2005
Post portátil
Ter acesso à Internet em Portugal é fodido. Se somarmos a isso as dificuldades que, nos últimos dias, temos sentido para aceder ao weblog.com.pt, bem podemos dizer que a vida não está fácil para quem frequenta a blogosfera.
Nesse sentido, é com incontido prazer que vos venho apresentar a última novidade MT, desenvolvida aqui pela circularidade das ruínas, e disponível em exclusivo aos leitores deste blog: o post

portátil. O seu funcionamento é muito simples: basta imprimir a figura, recortá-la, montar a caixinha (dizem-me de lado que parece uma caixa de comida chinesa - palermices) e voilá: é só andar com a mesma no bolso do casaco ou dentro da malita que os eventuais comentários do post virão parar, como por magia, ao interior da caixa em folhitas de papel reciclável (essa parte só funciona se estiverem charrados).
Como ainda estamos numa fase experimental, apenas dispomos de um protótipo do tamanho S (posts até 10.000 caracteres e capacidade de armazenamento de 20 comentários), mas, nos próximas semanas, lançaremos os restantes tamanhos. O produto inclui 20g de haxe.
Linha Azul: 555-1234
Publicado por João Pedro da Costa às 11:59 PM | Comentários (43)
janeiro 04, 2005
O meu coelho suicida #25

(Morris meets Andy Riley)
Publicado por João Pedro da Costa às 03:36 PM | Comentários (22)
Vamos dançar?
Publicado por João Pedro da Costa às 12:07 AM | Comentários (10)
janeiro 03, 2005
Psicokiller: qu'est-ce-que c'est?

Calma, calma, não se assustem, nem tentem ajustar os níveis cromáticos dos vossos monitores. A culpa é da hyperpen que adquiri hoje e que promete encostar (para sempre) o meu rato às boxes. Ainda não me habituei ao bicho (nota-se, não é?), mas assim que me habituar a desenhar algo que surja de imediato no monitor e não no papel, a coisa promete.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:48 PM | Comentários (27)
Uma casa branca é um cavalo branco é uma casa branca

Eu sei que errar é humano, mas este «lapso», publicado na página 11 da revista Pública do passado dia 2 de Janeiro, ficou-me atravessado na garganta. Quando li o nome «Paul Whitehorse», para além do espanto (Andy Riley, caralho, Andy Riley), perturbou-me sobretudo o facto desse nome não me soar estranho. Bastou pegar na capa do volume I e - pois é. Não só a jornalista do Públicou confundiu o autor do livro com o autor de uma crítica do mesmo, como (e isto é que é sublime) copia mal esse mesmo nome: Paul Whitehorse em vez de Paul Whitehouse.
Que cagada.
Publicado por João Pedro da Costa às 07:25 AM | Comentários (24)
Estratégias Oblíquas
«Em 1975, Peter Schmidt e Brian Eno criaram o primeiro baralho de cartas das Estratégias Oblíquas a partir de uma reflexão sobre a abordagem do seu trabalho, respectivamente, como artista plástico e músico. Trata-se de um baralho de mais de cem cartas. Cada uma delas sugere uma via de acção ou de pensamento para auxiliar em situações criativas [...].»
Brian Eno: «As cartas evoluíram a partir da observação dos princípios subjacentes ao nosso trabalho. Umas eram reconhecidas à posteriori (o intelecto após a intuição), outras eram identificadas no momento e outras ainda resultavam de formulações. Podem ser utilizadas como um conjunto (uma série de possibilidades continuamente revistas no pensamento) ou podem baralhar-se, retirando-se uma única carta, quando há um dilema em determinada altura do processo de trabalho. Neste caso, deposita-se confiança na carta ainda que a sua aplicabilidade não seja de todo clara. As cartas não têm a última palavra, uma vez que surgirão novas ideias e outras se tornarão evidentes por si mesmas.»
Passo a explicar.
Brian Eno (músico e produtor) constatou que tanto ele como o seu amigo Peter Schmidt (pintor) tinham uma série de princípios de trabalho por que se regiam nos momentos de pressão: quando o tempo urgia num estúdio de gravação pago a peso de ouro ou quando era necessário acabar os quadros para uma exposição. Schmidt e Eno perceberam que a pressão imposta pelo tempo os desviava dos processos mentais mais produtivos que seguiam na ausência dessa pressão. A função das Estratégias Oblíquas era, inicialmente, sugerir: «Não te esqueças de que podes seguir esta via»; «Não te esqueças de que podes seguir aquela via».
A primeira Estratégia Oblíqua de Eno, dizia: «Reconhece no teu erro uma intenção oculta». Na mesma altura, quando um ainda não tinha consciência dos processos utilizados pelo outro, Schmidt escrevia: «Foi efectivamente um erro?».
Eno reuniu cerca de vinte frases deste tipo; Schmidt tinha um caderno com anotações relativas à pintura. Ficaram muito surpreendidos quando descobriram que usavam um sistema semelhante e que muitas das frases eram coincidentes. Decidiram encontrar uma forma de fazer chegar essas mensagens a outras pessoas e publicaram-nas na forma de um baralho de cartas.
O que pretendo.
Gostaria que cada um de vocês apresentasse uma única estratégia oblíqua. Não há pressa, levem o vosso tempo. É fundamental que o aforismo tenha um carácter genérico, abrangente, evitando o calão e as piscadelas de olho. De resto, liberdade é a palavra de ordem. A intenção é publicarmos aqui as frases que enviarem. Divirtam-se.
NOTAS
1. A ideia não é original; aqui encontrarão as verdadeiras Estratégias Oblíquas.
2. Post elaborado a partir de textos dos dois sites que encontraram através das hiperligações (a tradução é minha).
Publicado por derFred às 06:10 AM | Comentários (69)
janeiro 02, 2005
Sem ondas, o melhor disco de 2004

Vou-vos contar um segredo. O melhor disco de 2004 (apenas descobri isso ontem) é português. Nome: «No Waves». Banda: MICRO AUDIO WAVES (Cláudia Ribeiro, Carlos Morgado e Flak). Desde 1998, com «Comum» dos TRÊS TRISTES TIGRES, que a música portuguesa não tinha um disco assim: sombrio, misterioso e inverosímil.
A forma é um mal da matéria.
Publicado por João Pedro da Costa às 10:48 PM | Comentários (11)
janeiro 01, 2005
poema do crocodilo mais pequeno david chama-se david
não é que eu não goste de crocodilos
eles é que me assombram os dias e me minam as noites
e agora que a luz das manhãs me entra pela janela
e os livros do quarto emanam mais do que nunca
a sua fragrância de flores e estalam clic
em fotossínteses de cordel e poeira
o crocodilo mais pequeno david chama-se david
sobe para cima da secretária clic e olha para mim
com o seu ar de mobília por envernizar e os seus olhos de tanque clic
ó mil águas putrefactas e eu é óbvio encosto-me clic
à cadeira dissimulando o melhor que posso
o ombro do seu irmão recortado clic em rectângulo
foi-me oferecida esta carteira e bóio clic
nesta dúvida de não saber se bicho morto
passam dias passam anos passam mundos e afinal clic
fica sempre lá o cheiro oxalá que não clic
eu sei que não clic era o que faltava não ser não clic
sem dúvida que é não até porque se não clic
estou mesmo fodido
clac
Publicado por João Pedro da Costa às 05:56 PM | Comentários (28)