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janeiro 07, 2005

O morto na banheira

Aqui está, com gotas na fronte, o morto.
A água ainda quente, o corpo ainda morno, muito branco.
O cabelo penteado para trás reflecte a lâmpada nua.
As pálpebras caladas, os pêlos quietos, o sangue coagulado.

Eis a causa da sua condição
- um coração parado.
Uma mão sem pulso toca o peito oco.
O tronco recostado.

Publicado por derFred às janeiro 7, 2005 01:38 AM

Comentários

Sabes o que me bate mais na cuca com este teu texto? A velhice. Para mim, é uma imagem da velhice.

(Eu sei que é irrelevante, mas: pensaste nisso quando o escreveste?)

Publicado por: João Pedro da Costa em janeiro 7, 2005 01:42 AM

Tem graça...a mim não me evoca nada disso. É um rapaz novo e desesperado. Da década de sessenta (hoje já ninguém corta os pulsos). E quase que apostava que foi de desgosto de amor.

(curioso é ler-se 'lâmina' em vez de 'lâmpada' à primeira leitura)

Publicado por: catarina em janeiro 7, 2005 01:50 AM

Não pensei propriamente na velhice. Mas no fim do corpo. No corpo cansado. Que chega ao fim, que não tem mais nada para dar.
Mas é também sobre a frieza com que se pode olhar um cadáver. Pode ver-se aqui uma encenação. O corpo ainda não foi encontrado, ainda não foi manipulado. É como um quadro (escrevi isto a partir da pintura A Morte de Marat, de David).

Publicado por: derFred em janeiro 7, 2005 01:56 AM

Para mim, não é um suicídio, Catarina.
É o fim do caminho. É o cansaço. De certa forma, o JP tem razão, é a velhice do corpo.

Publicado por: derFred em janeiro 7, 2005 01:58 AM

Essa do quadro nota-se pela ausência de verbos (os que existem são verbos de estado ou particípios passados).

Publicado por: João Pedro da Costa em janeiro 7, 2005 01:58 AM

Eu senti o mesmo que o JP. E lido mal com a ideia da velhice decrépita, dependente.
Essa do quadro é para compensar o Paul et Virginie? ;)

Publicado por: 1poucomais em janeiro 7, 2005 01:58 AM

É realmente engraçado as imagens que as palavras evocam.
É por isso que acho que a poesia nunca se deve explicar ou dissecar. Claro que vocezes discordam, mas eu leio de uma maneira mais primária, óbvio. :)

A velhice é só mais uma coisa. Não me aflige nada que o corpo se vá desgastando. (já ficar gágá, são outros quinhentos...)

Publicado por: catarina em janeiro 7, 2005 02:02 AM

Aqui não se trata de velhice decrépita. É uma pessoa autónoma que está a tomar banho e é surpreendida pela morte.

Publicado por: derFred em janeiro 7, 2005 02:05 AM

Pois, Catarina, eu estou a pensar nos outros quinhentos... Mas isto não é um comentário ao post, é pensar com os meus botões em algo que há muito tempo já me tive de confrontar a pensar.

Publicado por: 1poucomais em janeiro 7, 2005 02:05 AM

Eu discordo, é óbvio, Catarina, mas não é por isso que deixas de ser a burguesa mais fôfa da blogosfera :))))

Publicado por: João Pedro da Costa em janeiro 7, 2005 02:06 AM

Eu fico a meio caminho entre o "imediatismo" da Cat e a dissecação de todas as palavras pela gente da literatura. Nem tudo tem de ter um significado que não seja exactamente aquele que aparenta.

Publicado por: 1poucomais em janeiro 7, 2005 02:13 AM

Mas se reparares, Azul, no texto há elipses. Há metáforas, há imagens.

Publicado por: derFred em janeiro 7, 2005 02:19 AM

Pois para mim traz a solidão da morte. Eu sei que é um lugar comum, mas é isso que me faz sentir, morto sózinho. Só pode querer dizer que o texto está muito bom DerFred (o que já não me espanta)

Publicado por: Eufigénio em janeiro 7, 2005 02:19 AM

Mas o significado, Azulinha, é óbvio que é múltiplo. Não me interessa a hermenêutica mas a estrutura do texto. É diferente.

Publicado por: João Pedro da Costa em janeiro 7, 2005 02:20 AM

Há significados múltiplos, há elipses e metáforas, o que quiserem: quando li, houve uma imediata associação de ideias a algo que me causa repulsa.
O que nada retira a beleza ao poema - é belo, sim. Tu escreves bem, também.

Publicado por: 1poucomais em janeiro 7, 2005 02:22 AM

Aqui a solidão é tal que não existe. Pode dizer-se de um objecto que está só? Percebes o que quero dizer, Eufigénio? Naquele preciso momento acabou a existência.

Publicado por: derFred em janeiro 7, 2005 02:27 AM

Isso tu consegues mostrar muitíssimo bem: o momento do fim, a diferença entre o corpo vivo e o corpo morto.

Publicado por: 1poucomais em janeiro 7, 2005 02:35 AM

É isso sim. Mas o vazio, mesmo que apenas isso, quando olhamos para ele a partir da nossa consciência, não acaba por se almiscarar de solidão? Não é um espaço vazio, despojado de tudo, quando por momentos o somos levados a ocupar, como aqui tu nos convidaste, não é ele um local de solidão? o que revelam os nossos sentimentos quando de subito se vêm num espaço sem nada derFred ?

Publicado por: Eufigénio em janeiro 7, 2005 09:30 AM

É curioso que a primeira imagem que tive foi a de um homem deitado na banheira e veio-me à memória a autópsia recorrente do filme «Provindence».

É um morto, ali à nossa frente, para analisarmos.

Depois foi degustar as palavras, sobretudo na maravilha de «As pálpebras caladas, os pêlos quietos».

Publicado por: maria árvore em janeiro 7, 2005 09:54 AM

Não li nem velhice nem suicídio, li o momento. Não lhe dei idade, nem sequer causa. Nem tem de ser solidão...
O que li foi mesmo um quadro, uma imagem, como diz a azul: “o momento do fim”.
(estranhamente, agora sinto o vazio)

Publicado por: sofia em janeiro 7, 2005 09:58 AM

Está-se sempre só quando as "pálperas se calam" e "os pêlos se quietam".

Publicado por: isabel sousa em janeiro 7, 2005 10:42 AM

"Aqui a solidão é tal que não existe. Pode dizer-se de um objecto que está só? Percebes o que quero dizer, Eufigénio? Naquele preciso momento acabou a existência."

ou

Estava sózinho; e, por ter morrido, muito para lá da solidão
;)

Publicado por: Glória em janeiro 7, 2005 10:53 AM

Vá vá: chega de melancolias que:

os REM tocam hoje caraaaaaaaaaalho!!!!!!!

(estou tão contente, vou-me charrar todo a ouvir «What's the Frequency Kenneth?»)

Publicado por: João Pedro da Costa em janeiro 7, 2005 11:06 AM

Alto e pára o baile! Livrinho de reclamações pousado no balcão e já! Publicidade enganosa. Atão o derFred vinha escrever acerca de sexo, não é? Um gajo instala-se e pensa para si: 'vamos lá ver o que o tipo arranjou para nos estimular a líbido logo pela fresquinha'. E leva com a página da necrologia do DN? Uma pessoa, distraída, lê o título na diagonal (Sexo na Banheira), e...e...
Deitem-se fora, pá. Isto...isto é um daqueles time-sharings encapotados, pá!

Publicado por: sharkinho em janeiro 7, 2005 11:13 AM

Não é melancolia, é cagufa,caraaaaaaaaaaaaalho!!!!

Publicado por: isabel sousa em janeiro 7, 2005 11:14 AM

A nossa existência não acaba após a morte! O nosso espírito continua vivo!
Não sei qual a vossa opinião acerca deste assunto, mas eu acredito na reencarnação, embora a morte me assuste muito!

Gostei muito do teu texto, derFred!

Publicado por: cláudia em janeiro 7, 2005 11:30 AM

Eheheheh.... tu tiras-me do sério Sharkinho. O derFred manda com cenas de sexo explícito e tu dás com um post romântico. O derFred pinta um quadro de morte na banheira e tu ... agora quero ver como te vais desenrascar?!...(não vale descer aos infernos)

Publicado por: Eufigénio em janeiro 7, 2005 11:58 AM

Bigada sharkinho por fazeres luz nesta cabecinha que em horário laboral aloira.
É claro que sexo na banheira com sexo na banheira se paga.

Publicado por: maria árvore em janeiro 7, 2005 12:01 PM

«A nossa existência não acaba após a morte! O nosso espírito continua vivo!»

Eu sou a prova empírica disso: já fui um caçador das cavernas, um panão da corte de Luís XIV, o Marquês de Pombal, o motorista de Salazar e agora sou isto que vocês podem adivinhar. Na minha próxima encarnação, serei astro pop.

Publicado por: João Pedro da Costa em janeiro 7, 2005 12:07 PM

Concordo inteiramente JPC! (Porque é que associo sempre as tuas siglas a uma empresa !?... Ou serás um PC - Jota?...)

Eu própria já fui austrolopiteca no Quénia, Vestal em Roma, caçador na gelada Sibéria, freira no Convento de Odivelas, dandy na Lisboa do início do século XX. E na próxima, só sei que quero ser gajo.

Publicado por: maria árvore em janeiro 7, 2005 12:23 PM

E nenhum de vocês foi a Cleópatra, porque essa era eu :)

Publicado por: 1poucomais em janeiro 7, 2005 12:30 PM

Com essa é que me lixaste.

Publicado por: sharkinho em janeiro 7, 2005 12:32 PM

A ideia que me deu foi a de um corpo cuja energia findou. Conheço algumas pessoas velhas, ainda autónomas, que me contam que já podem morrer, pois já viveram tudo aquilo que deviam. Sentem o corpo já gasto. A evocação para mim foi essa: a morte como o fim tranquilo de uma vida que se esbateu até ao nada.

Publicado por: susana em janeiro 7, 2005 01:34 PM

Fui agora ler os comentários pelo meio. Então se é "d'aprés" a morte de Marat, é um corpo assassinado, ainda que estivesse à espera disso, não?

Publicado por: susana em janeiro 7, 2005 01:41 PM

Eufigénio, compreendo, no caso a solidão está naquele que observa. Só que neste caso é um olhar clínico. Olho como aquele que autopsia.
E não sei se não terei visto o Providence.

Sharkinho, ri-me às gargalhadas.

Maria Árvore, a tua encarnação de freira do Convento de Odivelas é de fazer levantar um morto.

Publicado por: derFred em janeiro 7, 2005 01:44 PM

Susana, o que escrevi foi suscitado apenas pela imagem e não pelo conteúdo. Só o referi porque o JP falou em quadro.

Publicado por: derFred em janeiro 7, 2005 01:46 PM

Dom João V... Vós estais aqui?...

Publicado por: maria árvore em janeiro 7, 2005 02:07 PM

Estaimos.

Publicado por: derFred em janeiro 7, 2005 02:17 PM

lol

Publicado por: salomé em janeiro 7, 2005 02:45 PM

Eu também Estói...

Publicado por: sharkinho em janeiro 7, 2005 03:29 PM

Sharkinho, não sejas ciumento.

Publicado por: derFred em janeiro 7, 2005 03:42 PM

Ooops...Como é que vocês sabiam que eu tinha essa fantasia?...

Publicado por: maria árvore em janeiro 7, 2005 03:50 PM

Lol, para não escrever outra coisa.

Publicado por: derFred em janeiro 7, 2005 03:58 PM

Ah bom, agora já senti o tal estímulo na líbido de que falava acima. De repente, este post renasceu. E eu desisto da reclamação, pois o comentário da Maria acabou por surtir em mim o efeito pretendido.
Até ando em maré de parcerias...

Publicado por: sharkinho em janeiro 7, 2005 05:18 PM

Eu a falar a sério e alguns ainda gozam! :(

Publicado por: Cláudia em janeiro 7, 2005 06:18 PM

Maria,
Eu sei que vou fazer figura de urso (aliás, é-me familiar, foi a ultima reencarn.... ein?.... ah ok)mas será que antes de ir aos REM (se virem o JPC digam-lhe que eu tenho bilhetes para os bastidores sim?) poderei saber porque quando vou chez-toi dou de caras com uma ganda sapo, e eu a olhar para ele, e ele para mim, e acabo por me vir embora? afinal como é que se vai chez-mesmo?

Publicado por: Eufigénio em janeiro 7, 2005 07:32 PM

Eufigénio
apesar de já estares a caminho para o Pavilhão Atlântico e eu nem sequer morar lá perto, para apareceres chezmoi, apanhas o blogspot e não o sapo (chezmaria.blogspot.com).
Vamos lá ver assim te ponho a vista em cima.

Publicado por: maria árvore em janeiro 7, 2005 08:32 PM

Sharkinho... lol ;)
Efectivamente existem parcerias amplas: tercetos, quartetos, quintetos e por aí adiante.
Depois, a minha educação judaico-cristã impele-me, a compulsivamente, dar aos outros.

Publicado por: maria árvore em janeiro 7, 2005 08:36 PM

Deixa lá, eu também fui baptizado e andei na catequese e tudo. Sou como tu, um mãos largas...

Publicado por: sharkinho em janeiro 7, 2005 08:42 PM

Lol, lol, lol
Vosotros me matán

Publicado por: derFred em janeiro 7, 2005 08:58 PM

Olha, olha. Tás com miúfa ou sofres do coração? Sabes bem que numa parceria entre malta amiga não há vergonha nenhuma se, em dado momento, parceirarmos por turnos.
Aliás, o trabalho de equipa abre um mar de possibidades se houver uma gestão eficaz dos recursos disponíveis. E o resultado final pode reflectir uma excelente relação custo/benefício.
Mas eu de economia não percebo nada...

Publicado por: sharkinho em janeiro 7, 2005 09:38 PM

Existe a 'possibidade' de eu ter esquecido o (que) li.

Publicado por: sharkinho em janeiro 7, 2005 09:40 PM

Podes não perceber de economia, mas tens o paleio dos gestores.

Publicado por: derFred em janeiro 7, 2005 10:07 PM

Então vamos abrir uma empresa?
Em prol dos outros, claro...

Publicado por: maria árvore em janeiro 7, 2005 11:51 PM

Com base neste ponto de partida tão...tétrico, vamos abrir uma funerária, não?

Publicado por: sharkinho em janeiro 8, 2005 10:00 AM

Funerária da banheira - uma morte de águas calmas?

Publicado por: maria árvore em janeiro 8, 2005 12:05 PM

Funerária do Fred & Companhia - Funerais no campo e no mar?

Publicado por: maria árvore em janeiro 8, 2005 12:08 PM

As Piras Circulares - Cremações em lume brando, Lda.

Entregue-nos o seu cadáver e a sua família ganha uma semana de férias vitalícia (até a gente lhes deitar as galfarras) numa unidade hoteleira na zona da Almirante Reis.
Pode optar por cremação em forno, na grelha ou na pedra (por encomenda).
Grátis: elogio fúnebre por derFred, podendo o cliente optar por diversos cenários post mortem (já disponível na versão banheiras).

Publicado por: sharkinho em janeiro 8, 2005 12:31 PM

:DDD

Publicado por: derFred em janeiro 8, 2005 12:56 PM

lolllllllllllll

Publicado por: maria árvore em janeiro 8, 2005 01:14 PM

looooooooooooooollllllllllll!
Vocês são completamente doidos. E eu gosto! :-)

Publicado por: 1poucomais em janeiro 8, 2005 11:39 PM

Na sombra da noite, sozinha, andava na rua.
A noite fascina-me pela sua subtileza, pela sua calma.
Senti um arrepio.
algo tocou no meu braço.
Com receio, virei-me e nada vi.
Continuei a passos largos e novamente senti o toque.
O medo tomou conta de mim!
Corro.
Ouço chamarem por mim.
Quem és? Perguntei.
Ajuda-me! Disse.
Quem és?
Tenho medo! Disse.
Vi uma sombra a aproximar-se.
Tenho medo! Disse.
Não via ninguém,
só uma sombra que se aproximava!
Ajuda-me! Disse.
O meu corpo está frio,
está além!
Não sei o que se passa!
Eu estou ali!
O meu coração batia.
Deixa-me!
Ajuda-me, por favor!Não te faço mal!Disse.
Acalmei.
Senti o desespero nas suas palavras.
Segui-o.
Num canto vi um corpo,
branco,
sem expressão,
sem vida.
A sua alma andava em desassossego!
A tua vida já terminou neste mundo! Disse-lhe
Tens de partir!
As minhas palavras acalmaram-no.
Vejo uma luz tão linda! Disse.
Já não tenho frio!
Sinto tanto Amor!
Estou livre!

Publicado por: Carolina em janeiro 10, 2005 06:40 PM

LOL!!!!!!!!!!!!!!!!

Publicado por: João Pedro da Costa em janeiro 10, 2005 07:44 PM

JP, dá-me com os pés e mete cá a Carolina.

Publicado por: derFred em janeiro 10, 2005 10:48 PM

:)

Publicado por: Carolina em janeiro 11, 2005 02:01 PM

Pois, dá-lhe com os pés!
(derFred, não preenchas a papelada do fundo de desemprego blogueiro)
Isto é o desespero, pá. Atão tudo quanto é comentador cinco estrelas vem parar a esta baiúca?
O ké keu ando aki a fazer?

Publicado por: sharkinho em janeiro 11, 2005 08:20 PM

Não quero estar aqui a trocar galhardetes, but you are the man.

Publicado por: derFred em janeiro 12, 2005 10:37 AM

Vê lá se te moderas que a Azul já anda desconfiada...

Publicado por: sharkinho em janeiro 12, 2005 02:28 PM

Eu, muito honestamente, prefiro ficar aqui à espera...

Publicado por: O setenta é a seguir em janeiro 12, 2005 08:18 PM