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janeiro 16, 2005
Post Azul II
Se há sítios ao quais eu volto regularmente, um dos menores não será, de certeza, a obra da Teolinda Gersão. E este fim-de-semana, aproveitei o sol (e o apagão d'As Ruínas) para reler um dos livros mais singulares da literatura portuguesa, o diário OS GUARDA-CHUVAS CINTINLANTES (Dom Quixote, 1997). E como andamos numa onda canídea, gostaria de partilhar convosco este belíssimo bocado de prosa (pp. 65-67):
« – Não é por natureza solitário nem boémio, diz Lu afagando Dax. Um cão é sociável, integrado na sua quota-parte da casa, da família, tem um instinto do clã e um profundo sentido das relações humanas. Um cão é humano.
Relações puras, em que não tem menor importância a inteligência, a beleza, a cultura, a posição social ou o dinheiro. Relações absolutas como só há na infância, penso. Lu poderia ser um vagabundo, e ele seguí-lo-ia até ao fim do mundo alegremente. No mundo inteiro, apenas ele seria seu cão, e apenas aquele seria seu dono, pensa um cão.
Os dois saindo pela porta do jardim. Dax correndo à frente, descobrindo, olhando, farejando, o mundo revelando-se em cada manhã novo e diferente, diante dos seus olhos, suas orelhas, seu fino focinho de cão, ele voltando de novo para trás, agitando a cauda e chamando o homem, mostrando-lhe outra vez as coisas que já antes lhe mostrara mas ele já esquecera, com os seus fracos olhos fracas orelhas e frouxo nariz humanos, passando pelas coisas sem as ver. Porque um corpo humano, assim demasiado alto, afastado do chão, atravessando as coisas como se elas fossem apenas uma ideia. Para verdadeiramente saber era preciso um coração de cão, um jovem corpo de cão, rápido e aberto nas manhãs claras, atravessando o mundo com todos os sentidos despertos, atento a todos os indícios, inteiramente livre e sem memória, concentrado no instante.
Ele sabe, Dax. Descobriu também que o mundo se altera, conforme a companhia. O mundo com Lu é aquela descoberta da manhã soalheira. Uma atenção expectante e controlada. Mas com as crianças é diferente. Rebolando na relva, pisando-lhes a saia com as patas sujas, sempre em movimento, com uma forma doida de alegria que não o deixa atentar exactamente em nada, correndo em todas as direcções ao mesmo tempo, em três saltos está ao pé da cancela e de um salto único está já de novo ao pé do muro, correndo para o outro lado, nunca se sabe para que lado ele corre porque Dax é puro movimento, orelhas, patas, cauda, sedoso e vivo, um coração de pêlo castanho, contornado de sol, um coração de relva trotando, correndo sobre elas, empurrando-lhes a cara com as orelhas quentes, interessado por tudo e vibrando, aprendendo tão bem sozinho, mas quando não entende e erra tudo. Tem um modo tão seu de rir e se espantar, de se deslumbrar com as coisas, entrega-se inteiro às sensações, porque todas lhe parecem boas, os cheiros sobretudo, distingue à distância os mil cheiros diferentes de que o ar é feito, escolhe um ou dois e parte a correr, porque não é tanto a forma e a cor do mundo, mas o seu cheiro, que lhe importa. Em breve aprendeu a conhecer os cheiros mais difíceis, o das pedras, da água, de formigas invisíveis, soterradas, o cheiro inconsistente da chuva começando, que se torna depois no cheiro estonteante, avassalador, da terra molhada – nada tem, aliás, tantos cheiros como a terra, variam segundo o calor, a humidade, a hora do dia, mas também o sol tem mil cheiros diferentes, conforme aquilo a que se mistura, há o melhor de todos, o do sol misturado com a terra, mas há também o cheiro do sol misturado com as plantas, cal, pedra, madeira, tijolo, urina, estrume, ou simplesmente com as partículas de pó, as mil partículas soltas que se vêem pairar nos feixes de luz, nos grandes feixes cruzados, sobrepostos – oh, mas se entrasse no domínio do visível – todas as coisas sempre balançando, partindo à desfilada, andando para a frente e para trás, ele saltando na relva, os seus latidos misturando-se à luz, ao dia claro, os ramos oscilantes da árvore porque há também a grande árvore, ao fundo do quintal, aberta a toda os pássaros mas sem prender nenhum com as suas grandes mãos transparentes, verdes, por onde sol escorre, os seus pés debaixo da terra mergulham num rio escuro, a árvore corre no jardim com as crianças aos ombros, cantando às vezes, de noite, quando sopra o vento, e ele saltando em volta, parando de repente, partindo outra vez de cauda levantada.»
Alucinante, não é? A Teolinda Gersão.
Publicado por João Pedro da Costa às janeiro 16, 2005 09:55 PM
Comentários
Alucinante e um belíssimo elogio ao cão. Obrigada, JP!
Publicado por: 1poucomais em janeiro 16, 2005 10:38 PM
Sem dúvida!...
Publicado por: sofia em janeiro 16, 2005 10:42 PM
Há anos que oiço falar na obra de Teolinda Gersão. No fim do ano passado comprei um livrinho pequenino, penso que se chama 'O mensageiro e outras histórias', não o tenho aqui à mão, e gostei mas de uma forma ligeira. Leu-se bem mas não me entusiasmou por aí além, talvez e sobretudo porque tinha grandes expectativas em relação a esta senhora.
Esse texto que transcreveste é muito bonito e forte, parece que vive. E nunca ouvi falar deste livro de T. Gersão.
Boa pista, mais uma que recolho pelos jornais, pelos blogs, pela vida e desculpa lá a extensão do material às vezes gostaria de ser mais concisa mas faço minhas as palavras do ilustre Pª António Vieira, 'Gostava de ter sido mais sintético mas não tive tempo para isso' :)
Publicado por: vague em janeiro 16, 2005 10:51 PM
A Teolinda Gersão é, tão simplesmente, a escritora viva que mais gosto. Todos os livros dela são geniais, mas talvez aconselhe OS ANJOS como o livro ideal para se entrar no universo da sua escrita. Depois há as obras-primas: OS GUARDA-CHUVAS CINTILANTES, O SILÊNCIO, A CASA DA CABEÇA DE CAVALO e os TECLADOS. Todos fantásticos.
Publicado por: João Pedro da Costa em janeiro 16, 2005 10:57 PM
Natureza viva! :)
Publicado por: cap em janeiro 16, 2005 11:00 PM
Quero ter tempo para ler. Tenho dito. Ponto.
Publicado por: 1poucomais em janeiro 16, 2005 11:08 PM
Obrigado pela partilha :-) E eu que nunca tinha lido nada dela... Mas é uma das coisas que gosto: conhecer novos (para mim) autores :-)
Publicado por: Sofia em janeiro 17, 2005 12:25 AM
Nunca tinha ouvido falar... Ignorância!!!
Mas pelo excerto parece-me que vou gostar. Obrigada, JP.
Já em relação ao texto, leste o Timbuctu, do Paul Auster?
Publicado por: M. em janeiro 17, 2005 09:52 AM
e tens muuto bom gosto, joão. além de ser uma escritora verdadeira, tem o mérito de ser modesta e não andar de sítio em sítio a participar na promoçãda sua obra de «escritora feminina».... o silêncio é um belo livro também.
Publicado por: Joca em janeiro 17, 2005 10:07 AM
M.
Comecei a ler o Timbuktu, entremeado com outros livros. É a história do homem que vai à procura de um lar para o seu cão. Acho q é simbólico, de alguma forma.
Publicado por: vague em janeiro 17, 2005 11:21 AM
Os gatófilos que me perdoem, mas eu gosto é desta loucura canina.
Publicado por: derFred em janeiro 17, 2005 02:38 PM
Se bem me lembro, vague, é mais o cão que anda à procura... Lembro-me que achei o cão um narrador fantástico. Mas se calhar, já estou meia confusa... Li o livro há tanto tempo...
Publicado por: M. em janeiro 17, 2005 03:03 PM
O Timbuktu é um livro maravilhoso. Como, de resto, toda a obra do Auster.
Publicado por: João Pedro da Costa em janeiro 17, 2005 03:28 PM
Já escrevi isto em algum lado, mas não me lembro onde foi. Uma noite, há uns anos, quando andava a ler Paul Auster de enfiada, vi-o num café em Arles.
Até tive uma vertigem. Coincidência?
Publicado por: derFred em janeiro 17, 2005 04:02 PM
Mais uma coisa em comum, ao que parece... Todos fãs do Auster...
Publicado por: M. em janeiro 17, 2005 04:10 PM
Lendo este post, decidi: quero ser um cão. Um beijo e parabéns pelo blog.
P.S. A Lygia Fagundes Telles, que possuía mais de uma dúzia de gatos, tem uma belíssima crônica sobre um cão que se chama "a disciplina do amor", a que está em seu livro, homônimo. É fácil de encontrar aqui no Brasil, suponho que por aí, também.
Publicado por: Heloisa em janeiro 17, 2005 09:06 PM
M., eu ando a lê-lo mas ando a lê-lo misturado com outros, pelo que nem lembro bem quem é quem; Parece-me que o narrador, que vai morrer, procura um lar para o cão. Um lar onde o possa deixar, e ao mesmo tempo vai à procura das memórias perdidas, da professsora que o incentivou. Ao mesmo tpo tenho esta noção vaga de que é o cão o narrador.
Heloísa, vou tomar nota desse livro, o título conta ele próprio uma história, muitas histórias - a disciplina do amor...bonito.
Publicado por: vague em janeiro 18, 2005 11:40 AM
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Publicado por: . em janeiro 19, 2005 03:53 PM