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março 31, 2005
The Big Lebowski Test

Cortesia do derFred, que é um bacano (a propósito, o CD é este).
Ou seja: confirmam-se as minhas suspeitas (pá: eu preciso MESMO de ter um casaco de malha igual àquele, carago).
Publicado por João Pedro da Costa às 01:46 AM | Comentários (23)
março 30, 2005
A notícia do ano

No próximo dia 22 de Maio, os magníficos, incomparáveis American Music Club vêm dar um concerto à Casa da Música na cidade do Porto. Repito: os American Music Club. No Porto.
Este blog está oficialmente em estado de euforia.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:18 PM | Comentários (12)
Apelo à malta

Tenho adiado sucessivamente a escrita de um post, que há muito tenho prometido a mim mesmo, sobre um dos filmes mais geniais de sempre, THE BIG LEBOWSKI (1998) dos Irmãos Cohen, e, sobretudo, sobre a personagem mais fascinante que já vi reproduzida no grande ecrã (e com a qual, como adivinham, me identifico profundamente). Mas ainda não é desta. Agora, queria apenas fazer um apelo e perguntar o seguinte: alguém sabe onde se pode comprar um casaco de malha igual ao dele?
Publicado por João Pedro da Costa às 01:03 PM | Comentários (26)
março 29, 2005
O meu coelho suicida #28

Publicado por João Pedro da Costa às 09:21 PM | Comentários (25)
Uploading Sessions #13

Quando, há três anos, resolvi ir à procura do álbum YOUR LOVE MEANS EVERYTHING dos Faultline, fi-lo apenas porque sabia haver lá uma pequena preciosidade escrita a meias com os Flaming Lips e cantada por Wayne Coyne intitulada «The Colossal Gray Sunshine» (para além dos álbuns, alguém já reparou que todas as colaborações em que se metem os Flaming Lips dão sempre resultados arrepiantes? Cf. «Go» com os Sparklehorse; «The Golden Path» com os Chemical Brothers; ou o recente «Marching the Hate Machines (Into the Sun)» com os Thievery Corporation). Depois, quando comprei o disco, fiquei logo rendido à belíssima capa (é mesmo genial, não é?) e dei, de imediato, o meu dinheiro por bem entregue. Contudo, este segundo álbum do projecto liderado por David Kosten (um D.J. que chegou a brilhar na cena drum'n'bass do Reino Unido) é muito mais do que isso: é um disco altamente recomendável de electrónica com pulso (a fazer lembrar, por vezes, os Unkle de Lavelle e D.J. Shadow) e onde, para além de temas instrumentais, gente super-distinta como Michael Stipe e o já referido Wayne Coyne emprestam as suas vozes para cantar alguns temas.
A canção que aqui vos deixo é uma pequena maravilha trip-pop (que me faz lembrar vagamente os Portishead - para quando um novo álbum?) intitulada «Where Is My Boy?» e está a milhas e milhas de distância de qualquer coisita que Chris Martin tenha cantado nos Coldplay. Última pergunta: alguém é capaz de me explicar, e tendo em conta o «hype» que os meninos têm recebido nos últimos anos, por que raio esta música não foi um sucesso? Fico aqui à espera.
[O ficheiro esteve disponível nas 24h seguintes à publicação do post.]
Publicado por João Pedro da Costa às 06:27 PM | Comentários (19)
Post de silva vária

Há poucos dias este blog ultrapassou a barreira das 100.000 visitas (no meu tempo, as visitas costumavam trazer prendinhas, mas tá bem) e a dos 5.000 comentários (ide comentar pró raio que vos parta). Como é óbvio, gostaria de agradecer a todos os que vêm aqui por me darem a sempre agradável sensação de ser lido. A sério. Vocês têm sido uma companhia impecável.
NOTAS
1. Outro dado engraçado que consegui retirar das estatísticas do weblog.com.pt é o facto de 7% (repito: sete porcento) das visitas que As Ruínas recebem virem directamente deste blog. É. Um gajo nem sempre tem motivos para se queixar da vizinhança.
2. Finalmente, as estatísticas do weblog.com.pt (obrigado, PQ) permitem-me igualmente realizar um dos sonhos da minha vida: elaborar um TOP musical. Por isso, queridos leitores, é com indisfarçável e pueril prazer que vos apresento o TOP 10 d'As Ruínas Circulares nos últimos quinze dias (tendo em conta que cada tema esteve disponível durante 48h no blog):
01. «Drag» dos LOW - 2441 hits
02. «The Warming Sun» dos GRANDADDY - 1315 hits
03. «Pigs» de ROBERT WYATT - 1158 hits
04. «Juxtapoze with U» dos SUPER FURRY ANIMALS - 1101 hits
05. «Dry The Rain» dos THE BETA BAND - 1095 hits
06. «Fresh Feeling» dos EELS - 1030 hits
07. «Hope There's Someone» de ANTONY & THE JOHNSONS - 1016 hits
08. «The Night» dos MORPHINE - 774 hits
09. «Helicopter» de M. Ward - 733 hits
10. «The Cedar Room» dos DOVES - 552 hits
A ideia é publicar o mesmo todos os quinze dias e depois fazer uma colectânea dos temas mais ouvidos (isso já sou eu a delirar - LOL).
Publicado por João Pedro da Costa às 12:14 AM | Comentários (19)
março 28, 2005
Uploading Sessions #12

Ora aqui está o objecto mais estupidamente pop que alguma vez ouvi na minha vida. 69 LOVE SONGS (1999) dos Magnetic Fields é um álbum triplo que aborda, através de um espectro musical que vai de Cole Porter aos ABBA, o tema primitivo de qualquer canção que se preze, isso mesmo, como é que adivinharam?, o amor.
Para além de confirmar a genialidade de Stephin Merritt como compositor, este disco representa igualmente o culminar do seu domínio na arte de escrever letras para canções. O tema que aqui vos deixo, «Epitaph For My Heart», é um dos inúmeros exemplos disponíveis para ilustrar o seu talento: para além da ideia fabulosa de escolher um aviso de perigo de electrocução como epitáfio para as exéquias do «coração» de alguém, toda a letra é um prodígio de ironia, métrica, aliterações e de referências ao universo da música pop. Simplesmente irresistível.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
EPITAPH FOR MY HEART

Let this be the epitaph of my heart
Cupid put too much poison in the dart
This is the epitaph of my heart
Because it’s gone, gone, gone
And life goes on and on anon
And death goes on, world without end
And you’re not my friend
Who will mourn the passing of my heart?
Will its little droppings climb the pop chart?
Who’ll take its ashes and, singing, fling
them from the top of the Brill Building?
And life goes on and dawn and dawn
and death goes on, world without end
and you’re not my friend
Publicado por João Pedro da Costa às 12:10 AM | Comentários (11)
março 27, 2005
Post à Martin Scorsese («The Aviator» meets «Last Temptation of Christ»)

Publicado por João Pedro da Costa às 08:23 PM | Comentários (23)
Post danificado (tenham cuidado com os dedinhos)
Hoje, não tenho nada de especial para dizer (olha a novidade) e este post destina-se apenas a salvaguardar a integridade física (ou virtual?) dos leitores d'As Ruínas. Passo a explicar: ao tentar colocar aqui uma imagem mais pesadota (cena para algumas dezenas de Mbytes), a superfície do blog cedeu, causando os estragos que podem ver:

Peço portanto desculpa pelo incómodo e, sobretudo, caso sejam um daqueles tinhosos que têm a mania de colocar o dedo sobre o monitor para apontarem algo, tenham muito cuidado para não se cortarem ou apanharem um choque.
Obrigado.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:08 AM | Comentários (23)
março 26, 2005
Uploading Sessions #11

Não faço a mínima ideia de qual será, hoje em dia, a popularidade que Lou Barlow goza no seio da «malta jovem». No meu tempo, ele era um Deus. Para tal, bastaria o facto de ele ter (co-)escrito discos tão assombrosos como BUG (1988) dos Dinausor, HARMACY (1997) dos Sebadoh ou DARE TO BE SURPRISED (1998) dos Folk Implosion - mas a verdade é que Lou Barlow é um dos mais profícuos e talentosos songwriters da sua geração e andam por aí mais de duas dezenas de discos a comprová-lo. Há algumas semanas, li na imprensa especializada que ele tinha editado um álbum a solo e fui logo logo comprá-lo com (confesso) o coração nas mãos. Não havia razões para pânico: EMOH (2005) é um belíssimo trabalho, sóbrio e maduro, e talvez até seja a melhor porta de entrada para quem não conhece um dos maiores compositores underground da música alternativa norte-americana.
Deixo-vos aqui uma canção que está em vias de me levar à loucura - chama-se «Home» e, desde o primeiro momento em que a ouvi, apanho-me nas situações mais insuspeitas a cantá-la baixinho. Um gajo, nestas merdas, até pode fazer figuras tristes - não deve é fazê-las sozinho.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
Publicado por João Pedro da Costa às 03:32 AM | Comentários (12)
Os meus coelhos suicidas #27

(c) Andy Riley & Os Coelhinhos da Páscoa, SA.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:16 AM | Comentários (18)
março 25, 2005
Os meus bolsos são buracos negros

Apesar de já ter a fama de me apoderar subrepticiamente dos isqueiros de toda a gente, penso que ontem consegui estabelecer um novo record: saí com duas pessoas e, tendo esquecido o meu isqueiro em casa, hoje de manhã, vejo que tenho nada mais nada menos do que quatro nos bolsos. Entretanto, já não sei onde é que eles andam, mas isto ficará para depois.
Publicado por João Pedro da Costa às 07:15 PM | Comentários (29)
março 23, 2005
Uploading Sessions #10

3 de Julho de 1999 é uma das datas mais inverosímeis da minha vida: nesse dia, Mark Sandman, o compositor, baixista e vocalista dos Morphine, morria em palco, durante um concerto em Roma, vítima de um ataque cardíaco. Tinha 47 anos. Para trás ficava uma obra imaculada, que, pelo menos a mim, me tocou de uma forma quase insuportável.
Deixo-vos aqui uma das suas maiores composições: «The Night», faixa de abertura do álbum homónimo que foi editado postumamente em 2000.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
Publicado por João Pedro da Costa às 11:14 PM | Comentários (16)
Desktop surrealista

«Surrealista», porque (vejam só) a minha fonte de inspiração para este post foi o famoso quadro que Dali pintou em 1950 intitulado «Cristo de São João da Cruz» (é o que dá andar a fumar umas ganzas durante a Páscoa...).
Como é óbvio, dedico este post ao Luís Rainha - alguém sabe onde é que esse gajo anda?
Publicado por João Pedro da Costa às 05:45 PM | Comentários (19)
março 22, 2005
The Life Aquatic with Steve Zissou

Como se já não bastava o Jorge Mourinha e a Emiéle terem gostado do filme, vejo que é agora a vez do Rui Tavares tecer elogios rasgados ao último trabalho de Wes Anderson, THE LIFE AQUATIC WITH STEVE ZISSOU. Como é obvio, estar simultaneamente em desacordo com estas três pessoas sobre um determinado assunto não augura nada de bom sobre o estado da minha saúde e, por isso, resolvi ir ontem à noite ver o filme pela 2.ª vez. Infelizmente, a minha opinião inicial não se alterou e acabou por ganhar, pelo contrário, contornos mais bem definidos que irei tentar explicar neste post (não deixei, no entanto, de marcar um TAC para a próxima semana - a senilidade, na casa dos trinta, é um assunto sério).
Antes de mais, quero deixar aqui bem claro (porque isto é um factor decisivo para a definição do meu universo de expectativas) que considero Wes Anderson um dos mais geniais realizadores norte-americanos do nosso tempo, a par de nomes tão respeitáveis como Hal Hartley, Quentin Tarantino ou Sofia Coppola. Apesar de, infelizmente, ainda não ter conseguido ver o seu primeiro filme, BOTTLE ROCKET (que, ainda recentemente, foi incluído numa lista dos 10 melhores filmes norte-americanos da década de 90, elaborada por um senhor tão insuspeito como o Martin Scorsese), apesar disso, dizia eu, basta-me os seus dois filmes anteriores, RUSHMORE e THE ROYAL TENENBAUMS, para me provar que Wes Anderson é, à semelhança dos três nomes que atrás citei, um exímio artífice da arte de filmar e que, sobretudo, conseguiu criar um estilo muito próprio e inconfundível através do qual aborda, de forma obsessiva, um tema nuclear (também muito caro a Spielberg): a família.
O que me irrita mais em THE LIFE AQUATIC (para além de ver um dos meus realizadores favoritos se estender ao comprido) é o facto do filme possuir, em potência, todos os ingredientes para ser uma obra-prima. Possui um elenco de luxo, que é um autêntico regalo para quem, como eu, preza muito a subtileza do «under-acting» (para além da habitual presença do trio Bill Murray / Owen Wilson / Angelica Huston, destaque óbvio para a Cate Blanchett, que tem aqui o papel da sua vida); o universo estilizado de Wes Anderson atinge o seu zénite (o mais ínfimo pormenor dos cenários é de tirar a respiração a qualquer mortal); a banda-sonora é magnífica, sobretudo um pequeno tema electrónico minimalista tipo ZX Spectrum, que pode ser ouvido na íntegra quando se acede ao site oficial; o filme está cheio de ideias brilhantes e originalíssimas como, por exemplo, colocar Seu Jorge a tocar versões portuguesas do período HUNKY DORY / ZIGGY STARDUST de David Bowie ou colocar um irrepreensível Jeff Goldblum no papel do (falso) vilão do filme; há referências óbvias ao universo da banda desenhada (sendo o mais flagrante o de Timtim em álbuns como a ILHA MISTERIOSA ou o dístico da viagem lunar do repórter belga), da literatura (Melville) e, como não poderia deixar de ser, do próprio cinema (e, aqui, peço desculpa pela provável heresia, mas não deixei de pensar em Tati ao longo das duas horas de projecção da película); finalmente, há essa ideia genial de levar até às últimas consequências a apropriação do universo aventuroso-aquático-xunga dos documentários de Cousteau (não é por acaso que o filho de Zissou também morre ao longo do filme).
Sendo assim, o que é que eu quero mais? Queria o mais importante e o mais essencial: que a soma das partes não fosse superior ao todo, que, para além da «mise-en-scène», a «mise-en-film» também tivesse sido conseguida. E, manifestamente, não é. Tudo neste filme parece um amontoado caótico de cenas, sem rei nem roque. Para além da montagem ser absolutamente desastrosa, quase proporcionalmente inversa à genialidade das próprias cenas (o que não deixa de ser particularmente irónico se tivermos em conta o facto de ter sido o cuidado na montagem um dos factores decisivos na atribuição da Palma d'Ouro a LE MONDE DU SILENCE de Cousteau em 1955), nota-se a ausência de um fio condutor no argumento que consiga unir toda a orgia imagética e sonora que pulula no filme (e aqui, estou convencido que a ausência de Owen Wilson na escrita do argumento foi decisiva).
Ainda assim, como é óbvio, THE LIFE AQUATIC WITH STEVE ZISSOU é melhor do que 99% dos filmes que estreiam em Portugal. Mas em vez de ser aquilo que, de facto, poderia ter sido (um dos filmes dos ano), é «apenas» o filme mais espectacularmente falhado que já vi numa sala de cinema. Se calhar, quem sabe?, até isto faz parte do espírito da coisa, mas nada disso me impede de considerar este como o filme menos conseguido deste genial realizador americano. Paciência: felizmente, para o ano há mais (o novo filme de Wes Anderson, THE FANTASTIC Mr. FOX, tem estreia prevista para 2006).
Publicado por João Pedro da Costa às 05:00 PM | Comentários (10)
Post 3310

Publicado por João Pedro da Costa às 01:46 AM | Comentários (18)
março 21, 2005
Uploading Sessions #9

Era uma vez uma banda oriunda do País de Gales que, para além de possuir o nome mais genial para uma banda pop, conseguiu editar, em 7 anos e como quem não quer a coisa, 6 absolutas obras-primas: FUZZY LOGIC (1996), RADIATOR (1997), GUERILLA (1999), MWNG (2000), RINGS AROUND THE WORLD (2001) e PHANTOM POWER (2003). Sendo assim, digam-me lá uma coisa: por que carga d'água é praticamente impossível encontrar à venda em Portugal qualquer álbum dos Super Furry Animals? Mais grave ainda: como é que se percebe que, quando esta banda edita há poucos meses uma colectânea de Singles (que constitui uma autêntica Bíblia na arte de escrever CANÇÕES apenas comparável à dos Smiths ou à dos Stone Roses), como é que se percebe, dizia eu, que não se veja essa mesma colectânea à venda em nenhuma loja de discos deste nosso país? Eu, pelo menos, não consigo perceber.
Os Super Furry Animals, como já devem ter percebido, são a minha banda favorita e, na minha opinião, a única capaz de fazer sombra a bandas como os já citados Smiths (vénia), Stone Roses (dupla vénia) ou Radiohead (vou ali a Meca e venho já). E porquê? Porque nenhuma outra banda foi até hoje capaz de misturar de forma tão sublimemente criativa e jovial géneros tão díspares como a pop, o rock, o punk, o tecno ou a música psicadélica. Os Super Furry Animals são o supra-sumo do bom-gosto e da boa onda: são tão simplesmente únicos de tão geniais (e pimba, depois deste post, vai parar às urtigas a minha lendária fama de ser um gajo sóbrio e moderado).
A música que aqui vos deixo, «Juxtapozed with U», single retirado do álbum RINGS AROUND THE WORLD, é (como o seria qualquer outra música retirada da colectânea - juro-vos que a escolhi à sorte) um bom exemplo para ilustrar o que estou práqui a berrar (vocês não o sabem, nem o poderiam saber, mas vou gritando cada palavra que escrevo para este post): começa com uma orquestra de cordas e sopros muito «easy-listening» à la Love Boat, passa para um verso cantado com Vocoder à la Daft Punk sob um fundo subtilíssimo de ruídos analógicos, feedback e percussões e, quando ainda estamos tontos, atira-nos às fuças um dos melhores refrões de sempre da música pop:
«You've got to tolerate all those people that you hate
I'm not in love with you - but I won't hold that against you.»
Sabem que mais? Até tenho inveja dos que não conhecem os Super Furry Animals: quem me dera poder ouvi-los novamente pela primeira vez.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
Publicado por João Pedro da Costa às 11:12 PM | Comentários (26)
março 20, 2005
Post aritmético [actualizado]

Ou, se quiserem, a planta geneológica d'As Ruínas Circulares.
Publicado por João Pedro da Costa às 10:16 PM | Comentários (32)
março 18, 2005
As Ruínas Circulares na década de 70 (álbum de família)

Pergunta estúpida: estas fotografias triplicadas fazem parte do imaginário de mais alguém?
Publicado por João Pedro da Costa às 11:10 PM | Comentários (21)
março 17, 2005
Novidades weblog.com.pt

Duas óptimas novidades: O Paulo Querido abriu finalmente a sua loja on-line e já lá está à venda o livro do Luís Ene. Já encomendei o meu exemplar.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:47 PM
Post Outonal (reprise)
É inevitável: o cheiro do Outono faz-me sempre recordar o odor dos amores proibidos.
Para que me entendam, preciso de vos dizer que o Paulo foi a primeira pessoa que aprendi a admirar na minha vida. Conheci-o no 8.º ano e ele destacava-se do resto da turma por diversas razões. Em primeiro lugar, o Paulo era negro, negríssimo, possuía uma tez de pele inacreditável, baça e escura como o carvão. Depois, o Paulo era mais velho do que o resto da turma uns bons três anos (nós tínhamos 13 e ele 17) e tinha pêlos no peito, facto que provocava em nós uivos de inveja que atingiram o zénite quando nos apercebemos do fascínio que ele despertava nas raparigas. O Paulo foi também a primeira pessoa que conheci que sabia falar com o sexo oposto. Ele não era como nós, que apenas sabíamos desdenhar e mandar «bocas»: o Paulo sabia-a toda. Tratava muito bem as meninas, cumprimentava-as com um beijo (sim, só um) na cara, cedia-lhes o lugar nos bancos dos recreios, interessava-se por assuntos da esfera feminina, sabia como elogiar as roupas, o prenúncio das maquilhagens, o halo de um perfume. Que raios, o Paulo foi o único homem que conheci até hoje capaz de pôr as meninas a falar de assuntos tão íntimos como o período ou a lingerie, sem que elas se sentissem intimidadas ou gozadas. É bom de ver que o Paulo foi igualmente o primeiro amigo que tive que não era (de facto) virgem e que se predispôs a falar das suas experiências sexuais de forma verosímil e exacta. Iniciou-nos a todos na suprema arte da masturbação: numa primeira fase com o auxílio de revistas porno e depois (mérito dele) recorrendo apenas à imaginação. Houve uma vez em que o Paulo se dignou a partilhar connosco, meros e febris mortais, o seu número supremo. Parece que ainda foi ontem: estávamos sob um eucalipto da pedreira, junto à lagoa, e estava a chover. Ele baixou as calças e, de pé, as mãos atrás das costas, os olhos cerrados e sem se mexer, teve em menos de um minuto um orgasmo silencioso, assim uma coisa estupidamente carnal e animalesca, mas que (não me perguntem porquê) todos nós achamos linda de se ver.
Mas o Paulo foi, sobretudo, a primeira pessoa apaixonada que conhecemos. No início, não percebíamos muito bem o que aquilo era, a não ser talvez o sintoma de uma doença que não queríamos apanhar de forma alguma. O Paulo tinha vindo para Portugal um mês antes do começo das aulas, deixando em Angola a sua namorada, Maria do Céu de seu nome e prima direita de família. Foi o Paulo que descobriu a lagoa na pedreira que ficava a pouco mais de um quilómetro da escola e que nos convenceu a irmos lá tomar banho pela primeira vez. Foi ele o primeiro a mergulhar para a água de cabeça, quando ainda nos sentíamos intimidados pelas cobras que serpenteavam as águas em silêncio. Depois do banho, ele fazia sempre questão de nos brindar com alguns temas da sua autoria. Não é que as músicas fossem pérolas de composição, mas eram originalíssimas: eram acompanhadas por uma pequena harmónica que ele trazia sempre no bolso e glosavam o único tema que lhe dilacerava o coração: a Maria do Céu. Tudo isto durou apenas quatro meses, mas esses quatro meses foram mais do que suficientes para que todos nós nos apaixonássemos também por ela. Maria do Céu, a mulata dos cabelos negros. Maria do Céu, a vidente que lia a sina na palma das mãos. Maria do Céu, a deusa do sexo oral e da saliva quente. Maria do Céu: a vida de um homem só faz sentido se nela houver a fortuna de te conhecer.
Depois, a seguir às férias de Natal, o Paulo começou a faltar às aulas. Na segunda semana de Janeiro, a nossa professora de Português disse-nos que tinha recebido uma carta dos pais, vejam lá isto, uma coisa absurda, que os três tinha voltado para Angola, coisa de heranças e não sei que mais. A notícia apanhou-nos desprevenidos. O plano, dizia-nos ele, consistia sempre em trazê-la para cá e jamais numa viagem de regresso, até porque lá, teriam de lidar com a chatice dos laços familiares que os unia. A coisa estava tão bem estudada que ele até nos mostrou uma vez a vivenda abandonada que ele um dia compraria para os dois e na qual haveria de crescer meia-dúzia de pretinhos foras como ele. Para consolo nosso, não deixámos de invocar a sua felicidade ao recriarmos na nossa cabeça o momento do reencontro, mas, caramba, a gente gostava tanto dele.
Há cerca de dois ou três anos, a Câmara demoliu a vivenda e construiu lá uma estrada. Cheguei a pensar em deixar lá algum recado, não fosse uma numerosa família angolana passar por lá e ser apanhada de surpresa. Sabes, Paulo, a casa onde moro não é lá muito grande, mas um gajo arranja sempre espaço para um pouco de alegria.
NOTA
Este texto foi inicialmente publicado neste blog no dia 19 de Outubro de 2004. Republico-o hoje, porque, há cerca de duas horas, reencontrei o Paulo num café no centro de Gaia. Apesar da minha incredulidade, reconheci-o logo e penso que ele também. A conversa correu muito mal - ele estava de saída e apenas trocamos algumas frases banais e palavras de circunstância. Fiquei a saber que ele voltou para Portugal em 1995 e que há mais de um ano que vive a cerca de dois quilómetros da minha casa, numa rua onde é raro o dia em que não passo por lá. Antes de nos despedirmos, ainda me lembrei de lhe perguntar pela prima e ele respondeu-me, com um largo e belo sorriso, que não a via há mais de quinze anos.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:39 PM | Comentários (22)
março 16, 2005
Uploading Sessions #8

E se um desconhecido vos oferecer um dia uma canção pirosa? Isto pode ser efeito da falta de sentido crítico do autor de umas quaisquer ruínas circulares. Deixo-vos aqui (de fininho) uma das minhas canções favoritas de todos os tempos: «The Warming Sun», retirada do 3.º (e muito menosprezado) álbum dos Grandaddy: SUMDAY (2003).
(Como sou masoquista, deixo-vos a letra e a caixa de comentários aberta para me cascarem à vontade. Amanhã, ponho Elton John.)
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post]
THE WARMING SUN
In a dream
You were sitting there waiting by the door for me
And I got the opportunity
To experience the experience once again
How it could have maybe been
But in real life
You're in another world
You're with another guy
Who doesn't have to cheat
And never has to lie
And all that stuff I didn't get
Comes so easy to him
He doesn't even have to try
(But do you ever ask yourself
How it could have maybe been?)
I haven't been that bad
But I haven't been that good
Overmisunderstood
Oh I wish I really could
Enjoy the warming sun
Enjoy a warm someone
And end the need to hide
Away alone inside
No I haven't been that bad
But I haven't been that good
Overmisunderstood
Oh I wish I really could
Enjoy the warming sun
Enjoy a warm someone
And end the need to hide
Away alone inside
In a dream
You were sitting there waiting by the door for me
Publicado por João Pedro da Costa às 11:05 PM | Comentários (18)
março 15, 2005
A planta d'As Ruínas Circulares

OK: já me podem chamar maníaco-compulsivo à vontade. Mas, que raios, isto parece, ou não parece, umas ruínas vistas de cima?
Publicado por João Pedro da Costa às 01:03 PM | Comentários (23)
Uploading Sessions #7

Não são propriamente uma banda desconhecida: para além do mega-sucesso do primeiro single «Novocaine for the Soul», os EELS têm contado com a máquina promocional da Dreamworks, que tem arranjado sempre maneira de enfiar uma música do grupo nas suas produções (AMERICAN BEAUTY e a série SIX FEET UNDER talvez sejam os exemplos mais mediáticos). No entanto, a banda nunca conseguiu fugir de um relativo anonimato, nem mesmo quando em 1998 editaram o seu magistral ELECTRO-SHOCK BLUES, um dos discos mais genialmente depressivos de todos os tempos. Mas não se assustem. O tema que vos deixo aqui, «Fresh Feeling», retirado de SOULJACKER (2001), é a excepção que confirma a regra: uma canção simples de tão deslumbrante, e que possui a virtude de me deixar sempre bem-disposto. Pudesse toda a pop ser assim.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post]
Publicado por João Pedro da Costa às 12:05 AM | Comentários (19)
março 14, 2005
Post à Alfred Mosher Butts

Não imaginam a minha felicidade (que querem? A minha felicidade é feita assim, de coisas pequeninas e insignificantes) quando descobri que o endereço d'As Ruínas Circulares é scrabblizável. Bastou-me para isso transformar qualquer símbolo em palavra (o «.» passa portanto para «ponto») e ter em conta que, no scrabble, não se pode utilizar duas vezes a mesma palavra. A partir daí, uma determinada frase (ou, neste caso, endereço) poderá ser scrabblizável quando respeita simultaneamente as duas seguintes regras:
1) nenhuma palavra não possui pelo menos uma letra utilizada por outra palavra do conjunto;
2) mais de duas palavras não podem possuir apenas uma letra em comum.
Essas duas regras (que acabei de descobrir agora, hihi) são meramente exclusivas, ou seja, apenas permitem excluir automaticamente um enunciado, caso ele não respeite qualquer uma das regras. Contudo, a dimensão euclidiana do jogo, pode fazer com que um enunciado que cumpra essas duas regras não seja scrabblizável, caso não haja «espaço» para inserir uma determinada palavra.
(Ninguém percebeu a ponta de um corno, pois não? A culpa é minha. Veremos isto depois de outra maneira, mas, para já, foquemo-nos no essencial: este blog vale 49 pontos.)
Publicado por João Pedro da Costa às 07:15 PM | Comentários (18)
Post oftalmológico

Publicado por João Pedro da Costa às 01:13 AM | Comentários (25)
março 13, 2005
Uploading Sessions #6

Num mundo minimamente coerente, toda a gente conheceria os Flaming Stars. Não estou a ser ingénuo: se o «surf rock» que minava a banda sonora de PULP FICTION teve o êxito que teve, não há nenhuma razão para este quarteto britânico (que foi uma das últimas descobertas do saudoso John Peel) não seja uma das bandas mais veneradas da música dita alternativa.
Deixo-vos aqui o magnífico «Bring Me The Rest Of Alfredo García» (o título é uma divertida paródia do clássico de Sam Peckinpah BRING ME THE HEAD OF ALFREDO GARCÍA) retirado da compilação homónima reeditada em 2003 (a capa é um mimo, não acham?). Entre as várias virtudes desse tema rock seco e sem gordura, não resisto a destacar um dos mais notáveis refrões da música pop:
«There's something missing and it stinks around here
I said: bring me the rest of Alfredo Garcccccccíííííía»
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post]
Publicado por João Pedro da Costa às 01:51 PM | Comentários (5)
março 12, 2005
Tarnation

Eu sei que não deveria escrever nada, quando ainda tenho o filme à flor da pele, mas a verdade é que acabei de ter há poucas horas uma das maiores experiências cinematográficas da minha vida ao ver TARNATION, o filme de estreia de Jonathan Caouette.
Confesso que nem sequer tinha as expectativas muito altas. Os ecos que me chegaram da imprensa definiam TARNATION como sendo um «pot pourri» de fotografias e filmagens caseiras que Caouette coleccionou ao longo dos últimos 20 anos, e cujo resultado não passaria uma insólita e curiosa biografia do autor e da sua família. Nada de mais errado. TARNATION é um fabuloso exercício cinematográfico que faz vir à tona aquilo que, de facto, é a verdadeira essência do cinema: a montagem. Para além de recorrer a uma variadíssima gama de truques para estruturar o seu filme-documentário, Caouette revela ser um exímio artífice na arte de conjugar imagens com música (o recente SIDEWAYS, por exemplo, só não é uma obra-prima por causa disso). A banda sonora inclui temas de pessoas tão distantas como Low (sim, os Low), Magnetic Fields, Nick Drake, Mariane Faithfull, Jimmy Webb e Mark Kozelek (dos Red House Painters).
Para já, TARNATION não é apenas o melhor filme que vi este ano. É um dos maiores da minha vida. A sério. Não o percam por nada deste mundo.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:20 AM | Comentários (11)
março 11, 2005
Uploading Sessions #5

O Low têm sido responsáveis, nos últimos doze anos, por uma das carreiras mais singulares e consistentes da música alternativa americana. Para testemunhá-lo não há nada como ouvir os nove álbuns publicados (destaque óbvio para o recente THE GREAT DESTROYER, magistralmente produzido pelo grande Dave Fridman) ou os mais de cinquenta b-sides e temas inéditos reunidos há cerca de meio ano na belíssima caixa A LIFETIME OF TEMPORARY RELIEF.
Apesar de não ignorar nada da brilhante carreira dos Low, considero I COULD LIVE IN HOPE, editado em 1994, o disco fundamental deste trio americano, aquele que se deveria salvar em caso de um qualquer hipotético holocausto musical. E nem sequer me interessa o facto de ser este o disco em que se nota menos digerida a influência dos Joy Division ou em que a munição da guitarra eléctrica de Alan Sparhawk é um perfeito decalque da usada por Angelo Badalamenti na banda sonora de TWIN PEAKS. Nada disso me interessa, quando ouço as onze faixas e percebo que este é dos discos mais inatingíveis e equilibrados que já alguma vez ouvi e provavelmente o primeiro a ensinar-me, de forma tão brutal, que nada é mais misterioso do que a simplicidade. A faixa que aqui vos deixo, «Drag» é, a esse respeito, de uma eloquência exemplar.
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Publicado por João Pedro da Costa às 01:45 PM | Comentários (27)
março 09, 2005
Desktop circular

Agora é só arranjar um fabricante que queira construir um monitor circular e tá a andar de mota.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:39 PM | Comentários (37)
Uploading Sessions #4

Quem for (como eu) frequentador assíduo d'As Ruínas Circulares sabe que aqui a Gerência padece de fundamentalismo wyattiano agudo. Por isso, não é de estranhar que venha aqui submeter à vossa apreciação um tema deste absoluto génio da música popular.
Escolhi «Pigs» sobretudo por duas razões. Em primeiro lugar, porque é uma canção muito pouco conhecida no conjunto da obra de Robert Wyatt - para além de não integrar nenhum álbum, apenas se encontra disponível actualmente numa caixita (carota) publicada pela Rykodisc em 1999 intitulada «EPs». Em segundo lugar, porque é uma daquelas canções que apenas Robert Wyatt poderia escrever - um pequeno documento dramático com uma letra absolutamente avassaladora. A música, essa, é de uma simplicidade inacreditável: apenas uma onda de sintetizador e uma batida que exige adjectivos supranumerários. Tudo isto escrito, composto, cantado, tocado, produzido e misturado em exclusivo por este one-man-show.
(Deixo-vos igualmente uma transcrição que fiz da letra - agradeço, desde já, eventuais correcções).
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PIGS (Robert Wyatt - 1986)
Well, we’re driving, euh, driving through Wiltshire: very nice, country side, the sky, the ground and all that sort of thing. Natural marriage of fur, natural resources. And lookin’ at the window (cos I don’t come from that… part of the world) and I said, euh:
– What’s that over there?
It was a sort of, euh, a sort of low-gray concrete thing, it was all surrounded by fields, very nice trees, but there was a sort of low, like a sort of, a large square of concrete, like foundations to a building anybody have built. But it had little walls about a foot high, or something that looked like that, maybe two foot high (two or three foot high). In fact, it was a sort of, in the top of it, in if, with a sort of flat roof. And I, I thought, «oh, I see», and then, euh, I pointed as a car got passed to it, I said, euh:
– What, euh, what was that?
And the euh, the euh, country person that was with me, euh, said:
– Oh, euh, that’s where he keep pigs.
I thought «oh, yes, I see, so he keep pigs». And the sun was shining down and, euh, the grass was green and it was all very, a lovely drive in the country, and I suddenly, euh, thought that, euh, what that building must be like from the inside, you know, I thought euh:
Pigs… in there?
Pigs… in there?
Pigs… in there?
Pigs… in there?
Pigs… in there?
Pigs… and they live in there?
Pigs… haggled up in there?
Pigs… haggled up in there?
Pigs… in there?
In the dark?
In there?
Do they like this: living in there?
Pigs… in there.
Pigs.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:50 AM | Comentários (9)
março 08, 2005
Puxa
tava a ver que não chegava a tempo para publicar alguma coisa hoje.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:59 PM | Comentários (7)
março 07, 2005
Elogio ao Tubarão

Há uma cena na qual o Tuby é absolutamente genial (bem, o facto de ele ser um católico praticante bissexual, também é digno de nota, mas como ele mora em Lisboa, não tiro grande proveito disso) e essa cena, dizia eu, é as imagens que ele escolhe para ilustar os seus posts (ainda hoje, pode-se encontrar um bom exemplo do que estou a falar). A relação que se estabelece entre a imagem de cada post e o seu respectivo conteúdo verbal nunca é óbvio ou meramente ilustrativo: há quase sempre uma relação complexa que tanto introduz uma dimensão sarcástica ao conteúdo, como uma profunda ironia ao texto que se lhe segue. Penso que, muitas vezes, aquilo que o Tuby escreve pode ser mal interpretado devido ao facto de os leitores não atentarem devidamente a este aspecto fulcral da sua actividade bloguística: uma imagem num post do Tuby, nunca é um elemento supérfluo ou decorativo, mas um factor determinante para a compreensão do que ele escreve. Diria mesmo mais: quando ele, o que é raro, escreve um post sem uma imagem, tenho uma enorme dificuldade em reconhecer a sua «griffe» (isto apesar da sua escrita ter qualidades estilísticas inconfundíveis, mormente na forma bem divertida como ele narra na 3.ª pessoa).
E pronto, 'tava aqui com isto entalado. Façam-me o favor de ir ao blog dele, e digam-me lá se não tenho razão.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:30 PM | Comentários (11)
março 06, 2005
Uploading Sessions #3

2004 foi um ano triste para a música pop: foi nesse ano que os Beta Band, uma das mais originais bandas do Reino Unido, chegaram ao fim. Para trás ficaram três EPs e três álbuns que são absolutas obras-primas: CHAMPION VERSIONS EP (1997), THE PATTY PATTY SOUND EP (1998), LOS AMIGOS DEL BETA BANDIDOS EP (1998) [esses três EPs ficariam reunidos na colectânea THE THREE EPS (1998)], THE BETA BAND (1999), HOT SHOTS II (2001) e HEROES TO ZEROES (2004). Particularmente irónico (e revelador da postura desses escosceses) foi o facto de 2004 ter sido o ano em que os Beta Band começaram a ter algum reconhecimento comercial, com o seu single «Out-Side» a entrar no TOP 10 do Reino Unido. Pelos vistos, já era tarde de mais.
Não é difícil definir o som dos Beta Band. São uma espécie de recicladores de lixo sónico, que recusam qualquer fronteira no que diz respeito a géneros musicais. As suas canções são pequenas estruturas em que pululam dezenas de ideias originais (tanto ao nível de composição como ao nível da produção) e que, quase por milagre, acabem por fazer sentido como um todo único, sobretudo devido ao apurado sentido melódico da banda (muito beach boyziano) e à belíssima voz de Stephen Mason.
Deixo-vos aquela que é, de longe, a canção mais acessível deles: «Dry The Rain» (1997). Este tema (que acabaria por ter algum sucesso devido à adapatação cinematográfica de HIGH FIDELITY de Nick Hornby) é, para mim, a maior canção pop da década de 90 (e a linha de baixo que entra a meio do tema a melhor de todos os tempos).
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Publicado por João Pedro da Costa às 11:41 PM | Comentários (2)
As minhas limitações #2
Estar na cozinha da casa dos pais do Hélder a fumar um charro era um risco considerável, mas calculado. Considerável, porque eu (e toda a malta da escola) sabíamos que o Pai do Hélder era um homem bravo e rude que acreditava nas propriedades terapêuticas e lúdicas de amassar o cabedal aos filhos. Calculado, porque ele não costumava chegar a casa antes das sete da noite e eu, às sete, tencionava estar em casa, que nem um lindo filhinho da mamã.
Estávamos a começar a fumar o segundo cacete, quando ouvimos o barulho de um carro a estacionar lá fora. O Hélder chegou-se à janela e disse
- Foda-se, meu pai.
Confesso que não me apercebi de imediato da gravidade da situação. É verdade que a cozinha estava cheia de fumo e que esse fumo cheirava a lareira, mas que diabo, um gajo podia sempre abrir a janela e invocar os Direitos Universais da Criança ou algo similar. Porém, quando o Hélder começou a chorar e se encolheu de cócaras junto ao frigorífico, com as mãos na cabeça, a repetir convulsivamente a frase
- O meu pai vai-nos matar.
percebi que deveria enveredar por uma carreira a solo, visto que daquele rapaz não iria obter grande ajuda. O problema é que eu não conhecia bem a casa. Estávamos no primeiro andar e o meu instinto de sobrevivência levou-me a percorrer o corredor central na direcção contrária à da porta de entrada. Para grande alívio meu, encontrei um vão de escadas que desconhecia e que conduzia ao rés-do-chão. Desci as escadas e (cena kafkiana) fui parar a uma pequena sala sem portas nem janelas e que apenas tinha como mobília uma mesita com um televisor e dois sofás em V:

Não havia fuga possível e eu, como é óbvio, comecei a ver a minha rica vidinha a andar para trás. Para agravar as coisas, ouvi, vindo de lá de cima, a voz do Pai do Hélder a gritar:
- Meu filho da puta, tu andaste a fumar?!
(O Hélder, que era bom moço, mas se cagava um pouco nas curvas, respondeu:)
- Ó Pai, por favor, se quiseres bate-me, mas não faças mal ao meu colega.
(Ai ai.)
- Ah meu cabrão, quer dizer que não estás sozinho?!
Como imaginam, entrei em pânico. Quando comecei a ouvir passos apressados a descer as escadas, percebi que, se não queria levar uma grande sova, teria de agir rapidamente. Lembrei-me então que poderia usar o espaço atrás de um dos sofás para me esconder. Lá saltei para o esconderijo, mas, infelizmente, o sofá era pequeno de mais e ficava com o raio da cabeça de fora. Quando me viro para as escadas, vejo o Pai do Hélder parado a olhar para mim com um ar incrédulo.
Antes de continuar, preciso de fazer um apelo ao leitor: façam-me um favor e ponham-se na minha pele durante alguns segundos. Vocês têm 14 anos e foram a casa de um amigo fumar um charro; o pai desse amigo (com fama de sovar javardamente o filho) chega e apanha-vos em flagrante; vocês tentam esconder-se atrás de um sofá, mas o sofá revela ser pequeno de mais e, quando dão por ela, vocês estão aninhados atrás de uma peça de mobília com a cabeça de fora a serem olhados por esse senhor com cara de poucos amigos e, na vossa cabeça, ecoa em interminável «repeat» a frase:
- O meu pai vai-nos matar.
Pois bem: que fazer? Eu não me lembrei de mais nada a não ser levantar-me lentamente com o dedo em riste e perguntar:
- O Hélder está?
Publicado por João Pedro da Costa às 11:40 PM | Comentários (24)
março 05, 2005
Post multicolor

(c) Andy Riley & Benetton.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:50 AM | Comentários (23)
Uploading Sessions #2

Já falei aqui de M. Ward umas duas ou três vezes (pá, desculpem lá, mas tou com preguiça para ir à procura dos links) e, agora que está aí a estoirar o seu novo álbum, TRANSISTOR RADIO, eu e o resto do Conselho de Administração d'As Ruínas Circulares, achamos por bem (eu derreto-me com essa construção: achar por bem algo) deixar aqui sujeito à vossa apreciação um tema desse jovem, porém talentoso (outra construção catita: adjectivo, porém outro adjectivo), rapaz.
M. Ward é uma espécie de arqueólogo musical, que vai às buscar às raízes mais profundas da música tradicional norte-americana (desde do Delta Blues à música Country) a inspiração para a escrita das suas canções. O tema que aqui deixo, «Helicopter» do álbum TRANSFIGURATION OF VINCENT de 2003, é um bom exemplo: uma batida simples e repetitiva a invocar o fantasma de Johnny Cash.
Gostaria de chamar a vossa atenção para duas coisas: 1) a letra (estrondosa), que contém o verso mais genial jamais escrito para uma canção: «This song was recorded before you all knew» (um verdadeiro tratado fenomenológico) e 2) a voz cavernosa do rapaz (algures entre Tom Waits e Nick Cave) - a palavra «down» nunca foi tão sublimemente cantada.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
HELICOPTER (M. Ward, 2003)
(this song was recorded before you all knew)
I am somewhere in this city
I am climbing up a fire escape
I am somewhere in this city
I am climbing up a fire escape
I have gotta save my baby
from the mess this world has made.
I arrive through a window
I leave through a whole in the wall
I arrive through a window
I leave through a whole in the wall
I scramble down the stairwell
with my baby, cradle and all.
Helicopter, helicopter let your long rope down
Let us sway into the sunset,
I have done all I can do in this town.
Tom, violence has taken
the wind out of my sails
Tom, violence has taken
the wind out of my sails
Helicopter has taken to
breaking this dream as well.
(this song was recorded before you all knew)
My mind is 'a racing
my heart is prepared somehow
My mind is 'a racing
my heart is prepared somehow
For that searchlight come shining
and find me under a cloud.
Helicopter, helicopter let your long rope down
Let us sway into the sunset,
I have done all I can do in this town.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:12 AM | Comentários (11)
março 04, 2005
As minhas limitações #1
Sou absolutamente incapaz de empregar, de forma correcta numa frase, qualquer uma das seguintes palavras: «feng shui», «tai chi», «reiki» e «chop suey». Confundo-as todas.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:29 PM | Comentários (28)
março 03, 2005
Uploading Sessions #1

Ora bem: fica desde já o pessoal avisado que pretendo doravante fazer, de dois em dois dias, o upload de uma canção (prometo ser eclético) para As Ruínas Circulares. Apenas haverá um tema disponível de cada vez, porque senão o blog fica pesadíssimo e lento e isso é uma chatice e nós não gostamos de chatices e fazemos muito bem em não gostar de chatices (não tou a ser chato, pois não?).
Desta vez, deixo-vos uma amostra do álbum de estreia dos Doves, LOST SOULS, editado em 2000. A canção chama-se «The Cedar Room» e é um glorioso tema com guitarras da velha escola, um cena estupidamente viciante para ser ouvida e cantada com o volume no máximo.
Tema especialmente dedicado ao Monty, que é para ele arejar essa cabecinha.
[Ficheiro disponível nas 48h seguintes à publicação do post]
Publicado por João Pedro da Costa às 06:23 PM | Comentários (13)
março 02, 2005
O Papa coisa e tal, mas quem se fode é o mexilhão
Apesar de já me sentir completamente recuperado da gripezinha que me atacou no fim-de-semana, a minha mãe acaba de me dizer que apenas me deixará sair da cama quando disser umas coisas em Alemão e Italiano.
Ninguém me dá uma ajudinha?
Publicado por João Pedro da Costa às 02:56 PM | Comentários (33)
Aforismo
Quem tem mãe, não tem segredos.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:40 PM | Comentários (8)
março 01, 2005
Pá: que o diabo seja cego e surdo, mas vai ser difícil haver um melhor álbum em 2005

Estou a falar do novo disco de Antony and the Johnsons, I AM A BIRD NOW. Bendita a hora em que esta pequena maravilha me veio parar às mãos. Hei-de voltar aqui com mais calma, mas para já deixo-vos este tema, «Hope There's Somebody», que é para vocês ficarem lélés da cuquinha (e digam-me lá se o timbre do gajo não está algures entre as improváveis vozes da Nina Simone e de Brian Ferry - ou o raio que o parta).
[Ficheiro disponível nas 48h seguintes à publicação do post]
Publicado por João Pedro da Costa às 06:14 PM | Comentários (25)
O homem que está sentado à minha frente
O homem que acaba de se sentar à minha frente
numa esplanada da Praça do Cubo é um senhor de idade,
estatura média, e até o confundiria com o meu pai,
não estivesse ele tão bem vestido – mas tudo bem.
Faltam dez para a uma da manhã.
O homem que está sentado à minha frente
procura há já algum tempo o empregado da esplanada.
Está frio e o homem esfrega as mãos.
As outras três cadeiras da mesa estão vazias
e começo, secretamente, a desejar a chegada de alguém.
O homem consegue finalmente captar a atenção de um empregado
e pede-lhe algo que não consigo perceber, apenas vejo a forma
educada como faz o pedido, e, pela primeira vez, perco
o fio à conversa da minha mesa. Passaram trinta
minutos e é uma e vinte da manhã.
O homem que está sentado à minha frente
recebe um fino e paga com moedas que tira do bolso.
Não recebe troco. O homem está bem disposto,
vê-se pela forma como molha os lábios na bebida
e pelo sorriso com que olha para tudo o que está à volta dele.
De vez em quando, passa a mão pela gravata e tosse.
É uma e meia da manhã.
O homem que está sentado à minha frente
pega na bebida e resolve sentar-se noutra cadeira,
talvez para poder ver melhor o rio ou para se proteger do vento,
não sei bem. A praça começa a encher e uma rapariga pede
educadamente ao homem se pode pegar
numa das cadeiras vazias da sua mesa. A rapariga é muito bonita.
Ele levanta-se, diz algo afirmativo e sorri. Eu sorrio também.
São duas e cinco da manhã.
O homem que está sentado à minha frente,
agora de perfil, torna-se menos visível. A praça está cheia,
muitas pessoas passam entre mim e ele e isso, não sei bem porquê,
irrita-me. Vejo que um rapaz leva mais uma cadeira
e o homem de pé, num gesto de quase absoluta reverência.
Alguém da minha mesa pergunta-me pela primeira vez
para onde estou sempre a olhar. Um par de mamas, respondo.
São duas e meia da manhã.
O homem que está sentado à minha frente
tem o copo vazio e mais nenhuma cadeira na sua mesa
(não consegui ver quem levou a última). O homem está vagamente
triste e quase me apetece agora escrever que essa tristeza vaga
lhe fica bem – mas não escrevo. Percebo por fim que ele
não espera ninguém, senão teria com certeza invocado o facto
como desculpa para não ceder a última cadeira.
Ele veio só, está só e não espera por ninguém.
Um empregado levanta-lhe o copo vazio e o meu olhar desvia-se.
São quase três da manhã.
O homem que está sentado à minha frente
é uma ilha. Ele está sozinho, virado para o rio, numa mesa vazia.
O ruído na praça atinge o seu zénite, todas as mesas
estão cheias de pessoas e de uma animação um pouco estúpida:
ouço risos agudos e vidros a partir – há gente sentada no chão.
Os empregados começam a olhar de uma forma pouco
simpática para o homem e vejo um rapaz de pé
a apontar para ele com o dedo em riste. Dou por ela
que não faço a mínima ideia do que se está a falar
na minha mesa. Por duas vezes, o amigo que está sentado
ao meu lado irá estranhar-me o silêncio. Apetece-me muito beber.
São três e um quarto da manhã.
O homem que está sentado à minha frente
está a olhar para a sua mesa. E tem agora um ar só e triste
que não lhe fica nada bem. Começo a pensar em oferecer-lhe
um cigarro, em pagar-lhe um copo ou em convidá-lo para a minha mesa
(é só puxar a cadeira, um gajo chega-se práqui),
mas não consigo ensaiar o gesto com naturalidade e temo
a sua reacção. A praça começa a ficar vazia e apetece-me ir embora.
São três e quarenta da manhã.
O homem que está sentado à minha frente
não se mexe há mais de meia hora e começo a acreditar
que vai morrer ali. Não sinto pânico: penso apenas na sua morte
com muita força como para anular qualquer probabilidade
de ela acontecer. Quando abro os olhos, a praça
está quase vazia e o senhor que estava sentado à minha frente
levanta-se e vai buscar, uma a uma, três cadeiras para
compor a sua mesa. Quando se senta, vejo que está
novamente contente. De repente, olha para a minha mesa
e repara que estou a olhar para ele fixamente.
Sorri, meio embaraçado, e pergunta-me pelas horas.
Raios me partam: não lhe soube responder.
[Uma primeira versão do texto foi publicada no Afixe no dia 02/02/2005.]
Publicado por João Pedro da Costa às 01:18 PM | Comentários (21)