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março 06, 2005

As minhas limitações #2

Estar na cozinha da casa dos pais do Hélder a fumar um charro era um risco considerável, mas calculado. Considerável, porque eu (e toda a malta da escola) sabíamos que o Pai do Hélder era um homem bravo e rude que acreditava nas propriedades terapêuticas e lúdicas de amassar o cabedal aos filhos. Calculado, porque ele não costumava chegar a casa antes das sete da noite e eu, às sete, tencionava estar em casa, que nem um lindo filhinho da mamã.

Estávamos a começar a fumar o segundo cacete, quando ouvimos o barulho de um carro a estacionar lá fora. O Hélder chegou-se à janela e disse

- Foda-se, meu pai.

Confesso que não me apercebi de imediato da gravidade da situação. É verdade que a cozinha estava cheia de fumo e que esse fumo cheirava a lareira, mas que diabo, um gajo podia sempre abrir a janela e invocar os Direitos Universais da Criança ou algo similar. Porém, quando o Hélder começou a chorar e se encolheu de cócaras junto ao frigorífico, com as mãos na cabeça, a repetir convulsivamente a frase

- O meu pai vai-nos matar.

percebi que deveria enveredar por uma carreira a solo, visto que daquele rapaz não iria obter grande ajuda. O problema é que eu não conhecia bem a casa. Estávamos no primeiro andar e o meu instinto de sobrevivência levou-me a percorrer o corredor central na direcção contrária à da porta de entrada. Para grande alívio meu, encontrei um vão de escadas que desconhecia e que conduzia ao rés-do-chão. Desci as escadas e (cena kafkiana) fui parar a uma pequena sala sem portas nem janelas e que apenas tinha como mobília uma mesita com um televisor e dois sofás em V:

plantadasala.jpg

Não havia fuga possível e eu, como é óbvio, comecei a ver a minha rica vidinha a andar para trás. Para agravar as coisas, ouvi, vindo de lá de cima, a voz do Pai do Hélder a gritar:

- Meu filho da puta, tu andaste a fumar?!

(O Hélder, que era bom moço, mas se cagava um pouco nas curvas, respondeu:)

- Ó Pai, por favor, se quiseres bate-me, mas não faças mal ao meu colega.

(Ai ai.)

- Ah meu cabrão, quer dizer que não estás sozinho?!

Como imaginam, entrei em pânico. Quando comecei a ouvir passos apressados a descer as escadas, percebi que, se não queria levar uma grande sova, teria de agir rapidamente. Lembrei-me então que poderia usar o espaço atrás de um dos sofás para me esconder. Lá saltei para o esconderijo, mas, infelizmente, o sofá era pequeno de mais e ficava com o raio da cabeça de fora. Quando me viro para as escadas, vejo o Pai do Hélder parado a olhar para mim com um ar incrédulo.

Antes de continuar, preciso de fazer um apelo ao leitor: façam-me um favor e ponham-se na minha pele durante alguns segundos. Vocês têm 14 anos e foram a casa de um amigo fumar um charro; o pai desse amigo (com fama de sovar javardamente o filho) chega e apanha-vos em flagrante; vocês tentam esconder-se atrás de um sofá, mas o sofá revela ser pequeno de mais e, quando dão por ela, vocês estão aninhados atrás de uma peça de mobília com a cabeça de fora a serem olhados por esse senhor com cara de poucos amigos e, na vossa cabeça, ecoa em interminável «repeat» a frase:

- O meu pai vai-nos matar.

Pois bem: que fazer? Eu não me lembrei de mais nada a não ser levantar-me lentamente com o dedo em riste e perguntar:

- O Hélder está?

Publicado por João Pedro da Costa às março 6, 2005 11:40 PM

Comentários

E depois? Não vale deixar-nos assim, sem saber o que se passou (a não ser que obviamente o pai dele não matou ninguém).

Publicado por: 1poucomais em março 7, 2005 12:34 AM

:DDDDDDDDDDDDDDDDDDDDDDD

Publicado por: catarina em março 7, 2005 12:45 AM

Pois: toda a gente pergunta-me por essa parte, mas isso não tem interesse nenhum, pois não? :D

Publicado por: João Pedro da Costa em março 7, 2005 01:01 AM

Claro que tem! Uma história tem de ser contada até ao fim (nem que seja ao ouvido). Mas a tua saída foi fantástica. Deve ter sido inspiração do charro :DD

Publicado por: 1poucomais em março 7, 2005 01:23 AM

Excelente, com sempre, JP.
Estou mesmo de saída, logo à tarde digo mais qualquer coisinha que merece mais do que esta frase batida.

Publicado por: Emiéle em março 7, 2005 09:03 AM

Eu estou a ver-me perfietamente nessa situação e a ter uma saída dessas, ou seja, que belo texto para reviver JPC

Publicado por: Eufigénio em março 7, 2005 09:38 AM

Levaste porrada ou não? Isso é que é preciso saber, pá. De resto, tens uma forma fantástica de prender o leitor.

Publicado por: Monty em março 7, 2005 11:43 AM

ahahahahahah! dedo em riste...

Publicado por: abóbora em março 7, 2005 12:19 PM

Fantástico João que bom recordar estas coisas, tenho uma muito parecida...mais lastimosa :D

Publicado por: Luna em março 7, 2005 12:24 PM

lol
Excelente!!

Publicado por: corpo visível em março 7, 2005 01:34 PM

Monty: não levei porrada, mas andei lá muito perto. Lembro-me de passar pelo gajo e de abaixar a cabeça à espera de uma cachaço... :D

Publicado por: João Pedro da Costa em março 7, 2005 01:36 PM

E...?
Se é veridico, deve ter um final... Ou afinal não é?

Publicado por: Partilhas em março 7, 2005 02:38 PM

Adorei o esquemazinho, com as setinhas :)
Como acabou o episódio?

Publicado por: Ricardo Garcia em março 7, 2005 03:27 PM

Pessoal: esse parte do fim da história não interessa para nada (LOL).

Publicado por: João Pedro da Costa em março 7, 2005 03:44 PM

Depois de "O Hélder está?", de dedo em riste, atrás do sofá do senhor, o fim da história é mesmo acessório...
Ando por aqui há muito tempo (e pelos vizinhos também) mas nunca tive coragem de comentar! Foi hoje... depois de me rir à gargalhada! That was very refreshing!

Publicado por: Joana R.. em março 7, 2005 04:22 PM

Podias ser mais original, e perguntar, sei lá se a carreira 58 passava ali, ou se tinha encontrado uma carteira que tinhas perdido noutro lado...

LOL Está fenomenal.

Publicado por: curioso em março 7, 2005 05:10 PM

eheheheheheheheheheheheheheheh......
com que então!, já criativo na adolescência!?

Publicado por: jorge em março 7, 2005 06:18 PM

João Pedro,

O final poderia ter sido

"Calling Enterprise!

Calling Enterprise!

Captain Kirk tele-transport me from Helder's fucking-living-room-with-no-fucking-exit!"

Publicado por: gibel em março 7, 2005 09:22 PM

Gibel: LOL!!!

Joana R.: bem-vinda a estas humildes ruínas. É sempre bom ter alguém de novo por aqui. ;)

Publicado por: João Pedro da Costa em março 7, 2005 09:44 PM

divertidíssimo! Tens realmente muito jeito para anter o suspense
. E já agora parabéns tambem por me teres apresentado os Doves...

Publicado por: fernando em março 7, 2005 10:19 PM

JPC, infelizmente sou novo por aqui, deve ter havido aqui outro blog... imagino o que perdi. Quem escreve assim não é gago!
Magnífico.

Publicado por: UerUn em março 7, 2005 11:00 PM

UerUn: está tudo ainda disponível nos arquivos (coluna direita do blog). Um abraço

Publicado por: João Pedro da Costa em março 8, 2005 11:53 PM

O dedo em riste era para chamares a atenção dele?

Publicado por: derFred em março 10, 2005 12:44 PM

História bem contada.

Publicado por: susana em março 14, 2005 12:32 AM