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março 22, 2005

The Life Aquatic with Steve Zissou

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Como se já não bastava o Jorge Mourinha e a Emiéle terem gostado do filme, vejo que é agora a vez do Rui Tavares tecer elogios rasgados ao último trabalho de Wes Anderson, THE LIFE AQUATIC WITH STEVE ZISSOU. Como é obvio, estar simultaneamente em desacordo com estas três pessoas sobre um determinado assunto não augura nada de bom sobre o estado da minha saúde e, por isso, resolvi ir ontem à noite ver o filme pela 2.ª vez. Infelizmente, a minha opinião inicial não se alterou e acabou por ganhar, pelo contrário, contornos mais bem definidos que irei tentar explicar neste post (não deixei, no entanto, de marcar um TAC para a próxima semana - a senilidade, na casa dos trinta, é um assunto sério).

Antes de mais, quero deixar aqui bem claro (porque isto é um factor decisivo para a definição do meu universo de expectativas) que considero Wes Anderson um dos mais geniais realizadores norte-americanos do nosso tempo, a par de nomes tão respeitáveis como Hal Hartley, Quentin Tarantino ou Sofia Coppola. Apesar de, infelizmente, ainda não ter conseguido ver o seu primeiro filme, BOTTLE ROCKET (que, ainda recentemente, foi incluído numa lista dos 10 melhores filmes norte-americanos da década de 90, elaborada por um senhor tão insuspeito como o Martin Scorsese), apesar disso, dizia eu, basta-me os seus dois filmes anteriores, RUSHMORE e THE ROYAL TENENBAUMS, para me provar que Wes Anderson é, à semelhança dos três nomes que atrás citei, um exímio artífice da arte de filmar e que, sobretudo, conseguiu criar um estilo muito próprio e inconfundível através do qual aborda, de forma obsessiva, um tema nuclear (também muito caro a Spielberg): a família.

O que me irrita mais em THE LIFE AQUATIC (para além de ver um dos meus realizadores favoritos se estender ao comprido) é o facto do filme possuir, em potência, todos os ingredientes para ser uma obra-prima. Possui um elenco de luxo, que é um autêntico regalo para quem, como eu, preza muito a subtileza do «under-acting» (para além da habitual presença do trio Bill Murray / Owen Wilson / Angelica Huston, destaque óbvio para a Cate Blanchett, que tem aqui o papel da sua vida); o universo estilizado de Wes Anderson atinge o seu zénite (o mais ínfimo pormenor dos cenários é de tirar a respiração a qualquer mortal); a banda-sonora é magnífica, sobretudo um pequeno tema electrónico minimalista tipo ZX Spectrum, que pode ser ouvido na íntegra quando se acede ao site oficial; o filme está cheio de ideias brilhantes e originalíssimas como, por exemplo, colocar Seu Jorge a tocar versões portuguesas do período HUNKY DORY / ZIGGY STARDUST de David Bowie ou colocar um irrepreensível Jeff Goldblum no papel do (falso) vilão do filme; há referências óbvias ao universo da banda desenhada (sendo o mais flagrante o de Timtim em álbuns como a ILHA MISTERIOSA ou o dístico da viagem lunar do repórter belga), da literatura (Melville) e, como não poderia deixar de ser, do próprio cinema (e, aqui, peço desculpa pela provável heresia, mas não deixei de pensar em Tati ao longo das duas horas de projecção da película); finalmente, há essa ideia genial de levar até às últimas consequências a apropriação do universo aventuroso-aquático-xunga dos documentários de Cousteau (não é por acaso que o filho de Zissou também morre ao longo do filme).

Sendo assim, o que é que eu quero mais? Queria o mais importante e o mais essencial: que a soma das partes não fosse superior ao todo, que, para além da «mise-en-scène», a «mise-en-film» também tivesse sido conseguida. E, manifestamente, não é. Tudo neste filme parece um amontoado caótico de cenas, sem rei nem roque. Para além da montagem ser absolutamente desastrosa, quase proporcionalmente inversa à genialidade das próprias cenas (o que não deixa de ser particularmente irónico se tivermos em conta o facto de ter sido o cuidado na montagem um dos factores decisivos na atribuição da Palma d'Ouro a LE MONDE DU SILENCE de Cousteau em 1955), nota-se a ausência de um fio condutor no argumento que consiga unir toda a orgia imagética e sonora que pulula no filme (e aqui, estou convencido que a ausência de Owen Wilson na escrita do argumento foi decisiva).

Ainda assim, como é óbvio, THE LIFE AQUATIC WITH STEVE ZISSOU é melhor do que 99% dos filmes que estreiam em Portugal. Mas em vez de ser aquilo que, de facto, poderia ter sido (um dos filmes dos ano), é «apenas» o filme mais espectacularmente falhado que já vi numa sala de cinema. Se calhar, quem sabe?, até isto faz parte do espírito da coisa, mas nada disso me impede de considerar este como o filme menos conseguido deste genial realizador americano. Paciência: felizmente, para o ano há mais (o novo filme de Wes Anderson, THE FANTASTIC Mr. FOX, tem estreia prevista para 2006).

Publicado por João Pedro da Costa às março 22, 2005 05:00 PM

Comentários

Se já estava para ir ver o filme, agora é que se tornou imprescindível só para corroborar essa a tua análise. Ou então para contra-argumentar com a qualidade das pipocas e com a ergonomia das cadeiras.

Publicado por: PN em março 22, 2005 07:07 PM

Oube lá gajo! Mas onde vais tu desencantar tanto conhecimento "ténico" de coisas que eu, muito mais velha do que tu ;-)), desconheço??

Tenho que ver, daqui a 6 meses, quando o filme chegar cá à planície, se percebo metade do que tu disseste ;-), deve ser do sotaque...

Publicado por: Mar em março 23, 2005 09:55 AM

PN: Tira-me o artigo definido "a" entre o pronome demonstrativo "essa" e o pronome possessivo "tua"...

Publicado por: correctora em março 23, 2005 02:30 PM

(JP leste o JN de ontem?)

Publicado por: cap em março 23, 2005 05:33 PM

(Não, porquê?)

Publicado por: João Pedro da Costa em março 23, 2005 05:42 PM

(Já seguiu. Se não estiver activo, avisa.)

Publicado por: cap em março 23, 2005 06:22 PM

Mas afinal, o que é que dizia o JN de "ontem"?

É só para fazer jus ao meu "nick"...

Publicado por: curioso em março 23, 2005 07:29 PM

Mas João ( só respondo agora que estive mesmo "de férias" até da blogosfera) eu também não disse que gostei assim TANTO! O que disse lá pelo Afixe é que depois de filmes muito bons mas muito pesados que tinha visto nos últimos tempo, me tinha sabido bem aquele humor. Afinal, tudo aquilo que também aqui dizes: ideias muitos giras, actores de luxo, uma banda sonora engraçadíssima, alusões a outras histórias que é divertido descodificar, etc. Não quis dizer que não se pudesse ter feito melhor com esses elementos.
Vamos ver: possivelmente ias com uma bitola alta e ficaste infeliz, eu ia só para me divertir, sem nenhuma expectativa especial, e ...diverti-me!
(Quando comecei a ler o teu post, achei que ia FINALMENTE discordar de ti; vai ter de ser. Mas afinal ainda não foi desta.)

Publicado por: Emiéle em março 27, 2005 11:52 PM

LOL, Emiéle.

Publicado por: João Pedro da Costa em março 28, 2005 12:35 AM

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Publicado por: free gay pics em junho 2, 2005 02:43 AM