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abril 28, 2005
Uploading Sessions #21

De certa forma, há quase sete anos (desde ELECTRO-SHOCK BLUES em 1998) que aguardava pela edição deste disco dos Eels. Nesse intervalo, saíram três álbuns bem recomendáveis, mas nada que se compare a este recentíssimo BLINKING LIGHTS AND OTHER REVELATIONS. E isto porque o que Mark Everett, mais conhecido por E, nos oferece nos 90 minutos deste disco duplo são 33 canções em que a autobiografia surge como um exercício lírico paradoxalmente sóbrio e cativante, servido pelo habitual caldeirão misto de música infantil e de experimentalismo sónico à la Beck.
O tema que vos deixo aqui, «Things The Grandchildren Should Know», é o que fecha este brilhante disco e não passa mesmo disto: de uma amostra relativamente aleatória e que não faz jus à diversidade e à riqueza do álbum. É uma canção quase inexistente do ponto de vista musical, uma construção lenta e subtil, que parece apenas servir de fundo para uma das letras mais avassaladoras jamais escrita para o formato pop.
2005 passa obrigatoriamente por aqui.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
THINGS THE GRANDCHILDREN SHOULD KNOW (E, 2005)
i go to bed real early
everybody thinks it's strange
i get up early in the morning
no matter how disappointed i was
with the day before
it feels new
i don't leave the house much
i don't like being around people
makes me nervous and weird
i don't like going to shows either
it's better for me to stay home
some might think it means i hate people
but that's not quite right
i do some stupid things
but my heart's in the right place
and this i know
i got a dog
i take him for a walk
and all the people like to say hello
i'm used to staring down at the sidewalk cracks
i'm learning how to say hello
without too much trouble
i'm turning out just like my father
though i swore i never would
now i can say that i have love for him
i never really understood
what it must have been like for him
living inside his head
i feel like he's here with me now
even though he's dead
it's not all good and it's not all bad
don't believe everything you read
i'm the only one who knows what it's like
so i thought i'd better tell you
before i leave
so in the end i'd like to say
that i'm a very thankful man
i tried to make the most of my situations
and enjoy what i had
i knew true love and i knew passion
and the difference between the two
and i had some regrets
but if i had to do it all again
well, it's something i'd like to do
Publicado por João Pedro da Costa às 09:12 PM | Comentários (23)
Da luz, a aldeia
Depois do encontro de bloggers em Beja, aproveitei para ir visitar o Alqueva, que é uma espécie de Génesis em banda larga, não sei se estão a ver. Na (nova) Aldeia da Luz, bati com a traseira do carro (calma, o veículo não era meu) na merda de um poste. Foi mesmo estranho e inesperado: é que eu iria jurar que o raio da aldeia não costumava estar ali.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:14 AM | Comentários (23)
abril 27, 2005
Post climatérico

O tempo.
O tema não é nada original.
Tenho de reconhecer que é até completamente corriqueiro. É considerado o «desbloqueador de conversas» universalmente reconhecido como neutro e desenxabido. Onde é facílimo chegar-se a acordo nalguns casos porque, por exemplo, ou chove ou não chove, e não costuma haver duas opiniões uma vez que a chuva até se pode medir. Mas também é sabido que noutras situações até o tempo pode ser muito pessoal e subjectivo:
- Tá um calor do caraças!
- O quê? Não acho nada! Até vou vestir já uma camisola.
Mas como a conversa por aqui, no Ruínas, não anda nada bloqueada, se chamei este assunto foi sob um outro foco. Como é interessante observar a influência da luz do sol, da humidade, da amplitude do dia e da noite, no nosso modo de reagir, de funcionar. Fico muitas vezes a pensar se sei distinguir o que é verdade, facto comprovado, científico, e o que é a ideia-feita.
Porque se encontra um acordo generalizado afirmando que os povos que vivem numa zona do mundo onde recebem mais sol durante todo o ano são mais alegres, efusivos, com intensas emoções enquanto os que habitam em zonas mais frias e escuras, pelo contrário, são mais reservados mais distantes, menos bem dispostos. E é mesmo? Será que o homem é o espelho do clima em que vive?
Por um lado até parece que sim. Na Europa os povos do sul são mais expansivos, calorosos, emotivos, assim como os sul-americanos ou africanos também o são. Como se o factor luz, também se traduzisse por luz interior. Passa-se depressa do pensamento ao acto. Do estar ao ser. É...? Ummmm....
Falando por mim, isso é certo. Uns anos em que vivi num país mais sombrio também me sentia um pouco sombria. Sonhava com sol. E, inversamente, em África as depressões pareciam longe, havia uma calma especial. Mas a verdade é que eu tinha sido «transplantada», não era aquela a minha casa. Não me parece que sirva de exemplo. E recorrendo ao exemplo mais conhecido por todos, vê-se a diferença enorme entre o português e o espanhol que vivem exactamente nas mesmas condições de luz e têm um modo de encarar a vida tão diferente!
Pois é. Palpita-me que estamos a encontrar mais um alibi. Nós “«somos assim», porque a culpa é do clima. Se acordamos para ir trabalhar e o tempo está enovoado, ah, que horror, nem apetece sair da cama! mas acontece que ao abrir a janela se encontra um dia esplendoroso, então oh, que dia, está bom é para ir à praia!
Tal e qual. E a mim deu-me para escrever isto, para adiar um bocadinho o começo de um trabalho que ainda não descobri qual a ponta por onde lhe vou pegar...
Afinal o post devia chamar-se «Alibis».
Publicado por Clara às 02:03 AM | Comentários (51)
abril 26, 2005
O blog da liberdade
Gostaria de destacar o impressionante trabalho que a Emiéle , a Isabel, a Susana e o João Garcez fizeram no Afixe para comemorar condignamente o 25 de Abril. Se não houvesse blogues com um sentido cívico tão ímpar como o Afixe, como é que eu me sentiria à vontade para prosseguir calmamente a minha pesquisa sobre aquela que é, de longe, a melhor jornalista do mundo? (Ana Sofia Fonseca).
NOTA: Não sei se serei o único, mas, nos últimos dias, entrar no Afixe tem-se revelado uma tarefa praticamente impossível (isso já para não falar em tentar deixar lá um comentário). Montyzinho, meu amor, será que nós os dois não seremos gajos para, em conjunto, resolver esse problemita? (Tou cá com uma vontade de retirar aquelas cenas pesadonas tipo «últimas notícias» e quejandos, que nem te conto...)
Publicado por João Pedro da Costa às 07:04 PM | Comentários (27)
A Ana Sofia Fonseca
é, sem sombra de dúvida (e penso que o derFred, o Tuby , o Zé Mário e o Carlos estão comigo quando afirmo isto), a melhor, como é que eu hei-de dizer isto?, jornalista, é isso, a melhor jornalista do mundo. Ela. A Ana Sofia Fonseca, digo. De longe. A melhor de todas. As jornalistas.
Publicado por João Pedro da Costa às 06:54 PM | Comentários (28)
abril 25, 2005
Beja: breves apontamentos de reportagem (que se faz tarde)
- «Beja» e «Veja», na minha terra, são palavras homófonas;
- «Beja» antes de ser «Beja» chamava-se «Pax Julia»;
- Os «Bejanos» não são «Bejanos» mas «Bejenses»;
- Os Bejenses são péssimos conhecedores da toponímia e do ordenamento territorial da sua cidade. Mas tudo bem: compensam largamente essas lacunas com sua infinita hospitalidade;
- O melhor jornalista do mundo é, de longe, uma mulher (eu já digo quem é);
- O Presidente da Câmara de Beja não parece o Presidente da Câmara de Beja de tão bacano e simpático que é;
- Idem aspas aspas para o Director da Biblioteca Municipal (eu repito: IDEM ASPAS ASPAS PARA O DIRECTOR DA BIBLIOTECA MUNICIPAL);
- Antes da conversa sobre blogues, assistimos à apresentação de um livro da Ana Sofia Fonseca sobre isto:

- Eu bebi daquilo que foi um fartote e aquilo é, de facto, o nectar dos Deuses;
- A Ana Sofia Fonseca é, de longe, a melhor jornalista do mundo;
- «Complexo» em linguagem enóloga é o contrário de «simples»;
- A Blogotinha, the one and only, é casada com o

- O Camané, longe de ser um marialva alfacinha, é um encanto de pessoa. Para além disso, ele nasceu na cidade do Porto (juro) e sonha poder um dia lá voltar (amigo: podes contar comigo para o que for preciso);
- É possível confeccionar uma sopa a partir de coentros;
- Ser possível confeccionar algo não quer dizer que esse algo seja comestível;
- A Ana Sofia Fonseca é, de longe, a melhor jornalista do mundo;
- O vinho da Vidigueira é maroto e costuma-se alojar rapidamente na cabecinha das pessoas mais insuspeitas (eu);
- O Ricardo Araújo Perreira, para além de ter talento que até mete impressão, é um porreiraço;
- O Charkinho faz filtros a partir de uma declaração amigável de sinistros rodoviários;
- A Catarina apoderou-se de todos os microfones da Biblioteca Municipal;
- A Ana Sofia Fonseca é, de longe, a melhor jornalista do mundo;
- O José Mário Silva foi um caso de amor à primeira vista (precisamos de nos encontrar com mais tempo para conversarmos com calma, caramba);
- O Daniel Oliveira esteve meio apagadito: mal dei por ele;
- O derFred é o legítimo proprietário de um belíssimo automóvel e usa slips pretos da Hugo Boss (por favor, não me perguntem como é que eu sei que ele tem um Mercedes);
- É mais fácil arranjar haxe no Porto do que em Beja;
- A Mi considera o adjectivo em «pequeno-almoço» meramente decorativo;
- Quando um gajo compra o jornal «Público» em Beja, eles oferecem-nos gentilmente a revista «Visão»;
- Ah, já me ia esquecer: a Ana Sofia Fonseca é, de longe, a melhor jornalista do mundo.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:43 PM | Comentários (60)
abril 21, 2005
Uploading Sessions #20

Tive a oportunidade de ver Mark Eitzel ao vivo pela segunda vez na última edição do Festival de Paredes de Coura. Os deuses, o ano passado, não foram muito favoráveis ao evento e choveu durante os quatro dias, transformando o belíssimo recinto num lamaçal - mas enfim, esses imponderáveis fazem parte do espírito festivaleiro. Outra consequência da intempérie foi o fecho do pequeno palco SONGWRITERS onde era suposto actuarem Mark Eitzel, Josh Rouse e Old Jerusalém, passando esses a actuar no palco principal. Foi uma péssima decisão. Às 19:20, dez minutos após a abertura das portas do recinto principal, Mark Eitzel era atirrado às feras, que, na circunstância, eram apenas cerca de 50 gatos pingados (mas felinos são felinos e quem tem gatos sabe que não os devemos substimar). E o que Mark Eitzel fez foi absolutamente memorável. Riu-se da situação, falou com o público, foi um digníssimo entertainer e deu um magnífico concerto. Um senhor.
Já tinha tido o meu momento de redenção há dois anos quando ele veio tocar ao Porto n'O MEU MERCEDES É MAIOR DO QUE O TEU, um bar minúsculo e soturno, boa onda, onde a proximidade do público revelou ser o habitat natural para um concerto do trovador americano. O Mercedes esteve à pinha e Mark Eitzel deu simplesmente o melhor concerto que vi na minha vida.
O gajo anda nisto há mais de vinte anos. Primeiro nos American Music Club (AMC), com os quais gravou alguns dos discos que mais marcaram a minha adolescência, caso de CALIFORNIA (1988), EVERCLEAR (1991), MERCURY (1993) e SAN FRANCISCO (1994). Depois, o fracasso comercial ditou a ruptura da banda e foi preciso esperar 10 anos para que eles se juntassem de novo para lançar o melhor disco que ouvi em 2004: LOVE SONGS FOR PATRIOTS. Nesse intervalo, Mark Eitzel iniciou uma solenemente ignorada carreira a solo, não deixando, apesar disso, de editar grandes discos como 60 WATT SILVER LINING (1996), CAUGHT IN A TRAP... (1998), INVISIBLE MAN (2001) ou o distintíssimo MUSIC FOR COURAGE AND CONFIDENCE (2002).
SONGS OF LOVE LIVE (1991) é, de certa forma, a antecâmara desse seu trajecto a solo, na medida em que se pode ouvi-lo a interpretar sozinho uma selecção do na altura existente reportório dos AMC (integralmente escrito por ele) e ainda dois temas inéditos, tendo um deles vindo a ser regravado sob um outro título pela banda em 1993 para o álbum MERCURY. Eu estou práqui a falar em Mark Eitzel e, de imediato, me vem à memória o nome de Jeff Buckley, outro dos meus compositores favoritos. E isso tem piada por Mark Eitzel ser, de certa forma, a perfeita negação de Buckley, o seu negativo. Onde o último era virtuoso e subtil, o primeiro é trapalhão e demolidor. Onde Jeff Buckley era um predestinado e revelava uma tendência quase (sobre)natural para o palco, Mark Eitzel é um sobrevivente que tem de lutar constantemente contra a amplitude da sua voz e contra uma timidez que, por exemplo, o impossibilita de planear com antecedência o alinhamento de um concerto, na medida em que ele é incapaz de ignorar o mínimo pedido proveniente da assistência. Finalmente, onde Jeff revelava um certo constrangimento em compor temas originais e brilhava na forma pessoalíssima como cantava temas alheios, Mark Eitzel revela-se um dos mais profícuos compositores americanos, tendo escrito e gravado quase duas centenas de temas nos últimos vinte anos.
Não é fácil encontrar esta pérola em Portugal. Contudo, sei que poderão encomendá-la aqui (caso não sejam do Porto, não tem mal, eles enviam-no por correio à cobrança). Numa altura em que se aproxima o dia 22 de Maio, data em que os AMC virão ao Porto para deitar abaixo a Casa da Música, pensei que faria todo o sentido deixar-vos aqui aquela que considero ser a mais bela canção que já alguma vez ouvi na minha vida. Chama-se «Take Courage» e nela vibra todo o génio de um excelentíssimo senhor com quem tenho uma dívida infinita. Ouçam porquê.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
TAKE COURAGE (Mark Eitzel)
We’ll take the rings of your fingers as if they were tears
Find a new silver lining to put a polish on your golden years
All the clever talk and the glamour: bright lies you don’t hear anymore
You got so far out, all you want is a tide to take you back to the shore
«Take courage, take courage», said the sign
You used to wait for it every morning
Now you’re looking so dumb and they don’t see us standing there
Trying to figure out why all your promises left you hanging in mid-air
And you lost your war of words – oh, but your heart was strong
You say: «the dirt can have my pretty things, but to the earth my heart does not belong»
(If we walk without our crutches, would we have anything to offer them?
If we can walk without our crutches, would they have anything to see?)
We’ll take the rings of your fingers as if they were tears
Cause the diamonds are hollow and ring painfully in our ears
And if you ask someone to help you, well, don’t let them get carried away:
Last thing you need right now is a lesson in humility
«Take courage, take courage» – said the sign
I used to wait for it every morning
But now I know that it was just another warning.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:23 AM | Comentários (12)
abril 20, 2005
A sério: este gajo é hilariante
(via TSF on-line, 12 de Fevereiro de 2001)
Publicado por João Pedro da Costa às 04:36 PM | Comentários (37)
Beja-me mucho
A Câmara Municipal de Beja vai celebrar no próximo Sábado, 23 de Abril, o Dia Mundial do Livro (a propósito, o novo romance do Eco é ma-ra-vi-lho-so) com um programa de actividades muito intenso que poderá ser consultado aqui.
Se repararem bem, por volta da meia-noite, na Biblioteca Municipal, haverá uma mesa-redonda sobre a blogosfera intitulada Eu blogo, tu blogas, ele bloga, que contará com a presença de ilustres bloggers como a Catarina, a Blogotinha, a Mar, o Ricardo Araújo Pereira, o Daniel Oliveira, o José Mário Silva e o Sharkinho. Eu também andarei por lá a arrumar carros e a distribuir propaganda para a beatificação do Papa Bento XVI (nessas merdas, convém sempre ir adiantando o serviço).
Se for caso disso, um gajo vê-se no Sábado (façam o favor de levar moedinhas).
Publicado por João Pedro da Costa às 10:54 AM | Comentários (12)
abril 18, 2005
Uploading Sessions #19

O mais inacreditável é que nem sequer quem conhece o magnífico APRIL (2002) está preparado para o estalo que é ouvir o novo disco de Old Jesrusalem. Eu nem sei se eles têm consciência disso, mas, em 2005, Francisco Silva (compositor), Paulo Miranda (produtor) e Rodrigo Cardoso (o incansável responsável por aquela que já é a mais importante editora independente portuguesa de todos os tempos, a Borland) escreveram uma das mais importantes páginas da história da música portuguesa: TWICE THE HUMBLING SUN.
A sério: esqueçam os MP3 e as gravações piratas e, se gostam de boa música, façam algo da mais elementar justiça: comprem este disco. Eu até vos deixo uma amostra e tudo: «180 days», tema de abertura desta assombrosa obra-prima.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
Publicado por João Pedro da Costa às 11:22 PM | Comentários (15)
Post numerário

A sério: eu não ganho para isto. Ainda agora, quando me sentei para escrever este post coloquei no bolso €3,05 que estavam em cima da secretária. Mal percebi o que tinha feito, senti um arrepio na espinha: ainda virei os bolsos do avesso e revistei o chão do meu quarto, mas era tarde de mais. Queridas moedinhas: era uma vez.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:25 AM | Comentários (25)
abril 17, 2005
Um caderno de capa castanha
E ela, então, olhou-me com um pequeno sorriso:
«Sabes, Clara, muitas vezes penso que devia escrever as minhas recordações. Chamar-lhes memórias seria muito presunçoso, se calhar. A verdade é que me lembro com muita nitidez da minha vida de criança e, para vocês, isso são “cenas da vida privada” como se estuda nos livros de sociologia. Repara bem, eram os anos 40, o século ainda nem tinha chegado a meio.
Mas sabes o que me levou a pensar mais a sério em começar a escrever? Foi ter encontrado, quando desmanchei a casa depois da morte da minha mãe, um caderno da capa castanha, um velhinho “Caderno de Apontamentos”, ainda dos que diziam Havaneza das Avenidas e a respectiva morada. Era apenas um caderno escolar, como os dessa altura, já amarelado, grosso, com cerca de 100 páginas. Tinha uma data na primeira página, a data do meu nascimento.
Sabia que ele existia, tinham-me contado, mas a verdade é que nunca o lera. Aquele caderno era o Diário do meu primeiro ano de vida. Consegues imaginar a emoção de ler, escrito com a letra do meu pai que também já não existia, o que ele tinha sentido quando olhou para mim a primeira vez?
Fui concebida no início da guerra, porque nasci em meados de 40. Sabes que penso que foi como um desafio dos meus pais, desafio à vida. O oposto ao aberrante grito de Viva la muerte na época ainda muito recente.
Naquela altura já existia a Maternidade, mas eu nasci em casa. Em casa da minha avó, ali nas Avenidas Novas. O prédio ainda lá está, com uma porta de ferro forjado desenho Arte Nova. Mas, como te estava a contar, a primeira folha era escrita pelo meu pai, apesar de todas as outras páginas já o serem pela mão da minha mãe. Na primeira estava registada a data e 10 da noite. Dizia “este foi um dia de inquietação e de esperanças”. Relembrava a chegada da parteira e contava como ele tinha ido para a rua. Olha que caminho se percorreu nestes sessenta anos… Hoje, o parto pode quase ser em comum. O pai ouve o primeiro som do seu bebé ao mesmo tempo que a mãe. Mas isso não passava pela cabeça dos meus pais, ele ali “só atrapalhava”. Começou então a subir e descer a rua olhando para a luz da janela. Já viste isso em filmes, não é? E estava ali no meu caderno, como subiu a correr a escada quando a luz se apagou e acendeu, a dar o sinal. E eu pude ler: -Tinha nascido uma menina! Anos mais tarde, fiquei com a certeza de que primeiro se tinha desejado um rapaz, mas naquele momento o que ali estava era de pura alegria, esquecida a possível desilusão.
No dia seguinte começa a narrativa da minha mãe. Uma linguagem muito romântica, mas recheada de pormenores por onde se podia seguir o meu dia a dia. Escrevia na cama, porque apesar de ter sido um parto fácil a minha mãe só se levantou passados 10 dias. E nota que era um casal desempoeirado, os dois licenciados, de esquerda… Mas era assim naquela altura. E começaram os pormenores: Pesavam-me todos os dias cheios de preocupação com o aumento de peso. Podia seguir a curva. E depois um dia sorri. Está lá! O dia certo e para quem sorri – afinal para a minha avó! Mas sabes bem que sempre adorei a minha avó. E também, rigorosamente, tudo que comia. Dia a dia. Imaginas o que é acompanhar o crescer de um bebé durante um ano, todos os dias?
E a disciplina rigorosa que se usava na época. Horas certas de comer, horas certas de dormir, horas certas de tomar banho e vestir. Está lá tudo. Um amor enorme mas nada de beijos por causa dos micróbios. Havia tuberculose, como sabes, e ainda não existiam antibióticos. Qualquer infecção podia ser grave. Tinha bordado por cima do berço “Se és meu amigo, não me beijes”. Li nas entrelinhas do Diário que isto não foi bem aceite pelas avós.
E esta narrativa diária durou os 12 meses. O caderno termina com a minha primeira festa de anos, e a lista das prendas recebidas. Muitas prendas, mas brinquedos só 3. Um cãozinho de pano azul, um sempre-em-pé e um boneco de borracha. Também era o costume da época, vês? Ficariam de boca aberta se vissem a quantidade de brinquedos de uma criança de hoje. Quando li aquelas cem páginas, numa letra inclinada, reparei como era um testemunho tão real, tão vivo de uma época e dos seus costumes.
É boa ideia, não é, eu escrever também o que me lembro de quando era criança? Se calhar ensaio antes de escrever, contando-te primeiro a ti. Está bem?»
Publicado por Clara às 11:35 AM | Comentários (23)
Mutts #19

(Pá: eu nem deveria acrescentar nada, mas caramba: vocês estão à espera de quê para comprarem todos os álbuns dos Mutts de Patrick McDonnell?)
Publicado por João Pedro da Costa às 10:42 AM | Comentários (4)
abril 15, 2005
Uploading Sessions #18

Sou absolutamente incapaz de escrever um texto sobre os Swell sem cair na bajulação e no exagero. Sou um fã incondicional, parvinho, sem um pingo de sentido crítico: foram, na minha opinião, a melhor banda rock norte-americana da década de 90.
O tema que vos deixo aqui intitula-se «Like Poverty» e é retirado daquele que é, sem dúvida, o álbum menos conseguido da banda (EVERYBODY WANTS TO KNOW, 2000). Agora ouçam e imaginem o resto.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
Publicado por João Pedro da Costa às 01:27 AM | Comentários (16)
abril 13, 2005
Das cerejas e outros frutos divisíveis por dois
Entre as inúmeras virtudes do meu pai, contava-se a de ter morrido bem, como um raio de luz e sem dor, ao lado da mulher que amava. Ele já tinha ensaiado esse truque uma boa dezena de vezes, algumas delas mesmo antes de eu ter nascido, vai-se lá saber porquê. A minha mãe conta que a primeira delas foi há mais de trinta anos, numa praia da Nazaré. Ele estava a nadar longe da costa e ela fez algo que viria a se transformar num velho truque da família e que, quem sabe?, poderá vir a ser útil às gerações vindouras: começou a pensar na morte do meu pai com muita força como para anular qualquer probabilidade de ela acontecer. Ele esteve meia hora a lutar contra a maré e chegou à areia exausto. Ambos fizeram de conta que nada tinha acontecido, mas, a partir daquele dia, a minha mãe arranjaria sempre uma desculpa para que o meu pai não voltasse a pôr um pé no mar. Depois, houve acidentes de trabalho (a morte mais indigna do mundo, segundo o pessoalíssimo e intransmissível sistema de valores da minha mãe), um carro que não travou numa passadeira, uma tábua que caiu do segundo andar de um andaime, uma intoxicação alimentar. E, em todas essas ocasiões, a minha mãe foi aprimorando um monólogo longo e seco, repleto de frases curtas e incisivas, nas quais enumerava as razões pelas quais ela considerava a sua hipotética morte um absurdo. Mas jamais a ouvi a invocar como pertinente o facto de o amar. A minha família era assim um combate de surdos: por um lado, o meu pai a meter-se em trapalhadas que punham a sua vida em jogo; e, por outro, os dons oratórios da minha mãe. No entanto, o meu pai tinha um aliado de peso: o seu corpo. O dele era 27 anos mais velho do que o da minha mãe, e, para além dos anos, o meu pai esculpiu-o à força com uma vida sedentária e três maços de tabaco que fumava todos os dias com o método e a paciência de quem forja um plano. Quando eu tinha seis anos, ele foi operado ao coração. Recordo essa noite com a mesma exactidão com que recordo o Sol que ainda há pouco vi brilhar lá fora. Ficámos ambos acordados a noite inteira na cozinha e eu ia apontando num caderno escolar as frases que ela debitava para me garantir que o meu pai não corria perigo de vida. Passados cinco anos, regressámos a Portugal, por indicação do médico de família: O senhor Costa precisa de ar puro e de fugir do stress da cidade, afinal de contas, o senhor já tem 65 anos. Viemos morar para a beira do mar, numa casa onde ainda hoje vivo e escrevo isto, não sei muito bem porquê. É que o meu pai nunca se habituou a esta merda. Faltava-lhe a azáfama de uma cidade industrial, o frenesim das horas matinais, o ruído dos carros na rua. Cismou que haveria de plantar cerejeiras no quintal, não obstante o cepticismo da minha mãe, que invocava a proximidade do mar, o clima húmido e a nortada para considerar o projecto agrícola do meu pai uma parvoíce. Durante cinco anos, podia-se ver em frente à minha casa, fosse qual fosse a estação, filas intermináveis de paus secos que nem sequer possuíam a nobreza triste que torna suportáveis os cemitérios. Houve uma vez em que me lembrei de comprar meio quilo de cerejas (o dinheiro que tinha não dava para mais) e de dependurá-las de manhã nos ramos secos e estéreis das cerejeiras. Foi a primeira vez que vi o meu pai a chorar e essa visão inundou-me com a certeza que tinha feito uma asneira insuperável. Ele tentou disfarçar, claro (tu disfarçavas tão mal, meu querido pateta), e sentámo-nos os dois a comer as cerejas, partilhando em segredo o facto da nossa pressa ter a ver com a iminente chegada da minha mãe. E depois houve um dia em que eu fui para a praia sozinho. Tinha quinze anos. Nem sequer recordo a última imagem do meu pai em vida. Sei que devo ter-lhe pedido autorização para ir, pois ainda estávamos longe da época balnear, mas as imagens que desaguam neste preciso momento na minha memória não enganam ninguém: são nítidas de mais para não serem inventadas. Lembrei-me da história da praia da Nazaré que me tinha contado a minha mãe e nadei, vejam só que estupidez, até onde as minhas forças não me permitiriam regressar. Fiquei a boiar durante mais de uma hora. A costa era uma linha pouco mais que ténue que definia o horizonte, e comecei a repetir os monólogos da minha mãe. Na tua família, morrem todos com mais de oitenta anos. Coisa ruim não parte. Tu ainda tens um filho para criar. Quando abri os olhos, a corrente já me tinha arrastado de volta e, no meu quintal, uma flor branca e inverosímil rompia a casca morta de uma cerejeira.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:07 PM | Comentários (36)
Ana
Tenho uma amiga que se chama Ana. Foi uma inspiração dos seus pais este nome, porque ela não se poderia chamar de outro modo. Três letras, o nome mais simples em que se pode pensar, mas muito doce. Três letras. A mesma vogal repetida, a primeira das cinco vogais. Nome tão fácil que se diz e se lê nos dois sentidos. É um nome inicial. Nome que não soa bem gritado apesar de ter muita força. É a Ana. A minha amiga Ana.
Venho falar dela porque me sabe bem. Sabe bem pensar nela.
Havia antigamente na “Selecção do Readers Digest “ uma secção chamada “o meu tipo inesquecível” galeria de pessoas com aspectos de personalidade considerados interessantes por essa revista. Esta minha amiga deveria ter lá um lugar de topo.
Ela é uma pessoa perfeitamente normal, é claro. Não há nada de mágico. Teve uma boa infância numa aldeia, uma adolescência sem nada digno de relevo, namorou, casou, teve filhos, tem um emprego onde se mostra uma muito boa profissional, vive a sua vida com grande serenidade. Mas é para esse ponto, a serenidade, que eu quero chamar a atenção. É a pessoa que conheço ( e se conheço muita gente!) que com maior naturalidade consegue descomplicar as coisas.
Percebem o que quero dizer? Claro que a Ana tem uma vida tão difícil como cada um de nós. Para ser verdadeira devo até reconhecer que, em muitos aspectos, mais difícil do que muitos de nós. Mas tem o dom de olhar para os problemas com um olhar muito límpido e encontrar a saída do labirinto sem dificuldade. Já lhe tenho dito isso de brincadeira: enquanto nós procuramos uma saída para as nossas dificuldades entrando vezes sem conta em becos sem saída, batendo com a cabeça nas paredes e tendo de voltar atrás – como nos verdadeiros labirintos – ela, como que abre umas asas, sobe e plana um pouco, vê o labirinto por cima encontrando a saída num só olhar.
Quando lhe chamo descomplicadora, acho que é a palavra certa mesmo que a tenha inventado agora. Ela vive a sua própria vida resolvendo as dificuldades uma por uma ou contornando-as quando não há resolução, de um modo lúcido e tranquilo. E alegre, ainda por cima.
E esse método funciona também para os outros.
Tenho sido testemunha de pessoas meio desconhecidas que vêm desabafar com ela problemas muito pessoais e íntimos. Ela dá a sua opinião que parece de simples bom-senso. Parece. Mas afinal é muito mais do que isso, pela expressão que vejo aparecer nos olhos dessas pessoas. Era exactamente o caminho que precisavam de ver indicado. Ela tem o dom de apenas com a sua presença, a sua voz, a sua atitude empática, aliviar o peso do stress e atrair boa disposição.
Que o diga eu. Sei que sinto um calor no coração, se chego a casa cansada depois de um dia de trabalho complicado, ligo o gravador de chamadas e oiço uma voz clara onde se pressente o sorriso “Olá! Sou eu! Falou a Ana!”
Publicado por Clara às 12:14 AM | Comentários (23)
abril 12, 2005
Pedido pessoal e urgente
Por favor, João Pedro. Por favor.
Escreve agora qualquer coisa, não me atrevo a desejar um dos teus mais criativos posts, mas um qualquer, até mesmo um pouco menos bom. É que me sinto completamente sem jeito a ocupar-te assim a casa.
Que apareça um post meu, lá de vez em quando, não me atrapalha muito, mas se forem assim de enfiada dá muito mau aspecto.
E não queria nada enjoar os leitores do Ruínas, sabes?
Publicado por Clara às 11:55 PM | Comentários (7)
abril 11, 2005
A propósito do último post da Clara
Eu conheço duas meninas (a Manela e a Joana) que padecem do mesmo «mal» - só que, no caso delas, são os números que possuem propriedades cromáticas e não as vogais. Sabendo que ambas são leitoras d'As Ruínas, seria porreiro se uma delas (ou as duas) partilhassem connosco estas suas sensibilidades cromáticas. Fica aqui o convite, extensível a eventuais leitores que também sejam capazes (que inveja) de estabelecer ligações entre símbolos e cores.
Voltando ao título do post, existe um famoso (e belo) soneto de Rimbaud que glosa precisamente esta tua tripe, Clara, e que é um dos textos emblematicos daquilo que se costuma designar por Simbolismo:

Se compararmos as vossas sensibilidades cromáticas em relação às vogais, obtemos os seguintes resultados [COR (Rimbaud, Clara)]:
A (preto, vermelho)
E (branco, amarelo)
I (vermelho, azul)
U (verde, preto)
O (azul, branco)
Ou seja: nenhuma vogal coincide, o que não deixa de ter a sua piada. O resultado também é previsível e natural: são impressões subjectivas de duas pessoas diferentes e que, ainda por cima, elaboram as suas conjunturas a partir de duas línguas distintas.
Para terminar, Clara, deixo aqui uma pergunta: as vogais do Português que referiste não são, na verdade, vogais, mas representações gráficas de várias vogais (sons ou fonemas) através de um único símbolo gráfico (grafemas). Eu gostaria de saber se detectas alguma nuance cromática entre as vogais (em negrito) existentes nas seguintes palavras:
«A»
carro (/a/ aberto) vs. aprender (/a/ fechado)
«E»
seca (/e/ aberto) vs. ser (/e/ fechado)
«O»
homem (/o/ aberto) vs. posto (/o/ fechado)
No fundo, o que pretendo detectar é a natureza da motivação que está por detrás da tua sensibilidade cromática: será ela auditiva (fonemas) ou visual (grafemas)? No primeiro caso, sentirás nuances cromáticas entre os exemplos que te dei; no segundo, tudo será corrido com a mesma cor.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:31 PM | Comentários (13)
As cores das vogais
Quando li a Isabel do Afixe dizer que não gosta do ó, assim mesmo, o O com acento por cima, lembrei-me logo da minha esquisitice particular. Cada um tem direito a ter a sua.
É que as minhas vogais são coloridas.
Não tenho culpa. É assim mesmo. Falo das vogais puras, abertas. O A aberto ( com acento, se calhar ) o E e o I e o O e o U. Quando as oiço ou leio, assim despidinhas, sem qualquer consoante a aconchegar, vejo-as em cores fortes!
Para mim o A é vermelho. Vermelho vivo. Assim vermelho papoila. Gosto dos AAA. É um som muito aberto, primitivo até, que parece vir lá da antiguidade. A, linda vogal bem vermelha.
Quanto ao E, para mim é amarelo. Não tenho a menor dúvida. Nunca poderia ser de outra cor. Já viram que até a palavra amarelo tem um E aberto? E yelow também. E amarelo bem forte, cor quente. Mas cor mais suave que o A, tem de ser.
O I, então, é azul. Nada a fazer. Azul! Não do tipo azulão, mais azul mar. E aqui já não sei porque é. Porque o I é uma vogal estridente, não há III fechados, se o quisermos fechar fica uma espécie de E mudo. E o azul é uma cor doce, que não liga com estridências. Mas é assim que o vejo. Não consigo alterar.
Quanto ao O é branco. Mesmo branco. Não quero dizer que seja pálido, é um branco-branco, nítido, branco como a cal a ferver. Reparem que não falei no leite, é cal e ainda mais, cal a ferver. Porque também é forte. Arrumo-o mais ao pé do A e do E. Sons muito abertos e claros.
O U é preto. É que só pode ser preto. Não o vejo de mais nenhuma cor. Assim um preto aveludado. Mas suave. Claro, se é aveludado é suave. Ao contrário do I, não pode haver UUU estridentes. Incompatível!
E cá tenho as minhas vogais. Vermelho, Amarelo, Azul, Branco e Preto.
São as minhas, não obrigo ninguém a partilhá-las. Vejo-as com muita nitidez.
Serei só eu?
Publicado por Clara às 02:05 AM | Comentários (20)
Um blog
É preciso dar-me o devido desconto: eu sou (e sei que sou) um péssimo conhecedor da blogosfera (preguiça minha). Mas, dentro desta minha ignorância, gostaria de partilhar convosco (por favor, não venham práqui dizer que já o conheciam) um blog que, apesar de apenas o ter descoberto há duas semanas, já considero ser (e eu até tenho medo de escrever isto) o meu favorito.
Este.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:51 AM | Comentários (6)
abril 10, 2005
Uploading Sessions #17

Faz exactamente hoje 6 anos que os Gomez lançaram o seu primeiro álbum, BRING IT ON (1998), que constituíu, na época, uma autêntica pedrada no charco em que se encontrava a música britânica, a viver ainda dos restos comatosos da britpop. O álbum conseguiu agradar à crítica e ao público (coisa rara), vindo mesmo a ganhar o Mercury Prize, facto particularmente assinalável se tivermos em conta que o fantástico MEZZANINE dos Massive Attack e o popularucho URBAN HYMS dos Verve faziam parte da competição.
O que realmente impressionava nos Gomez é o facto de eles serem britânicos. As raízes blues, folk e até hip-pop deste belíssimo álbum de estreia remetiam imediatamente para o lado de lá do Atlântico, facto por de mais inegável quando se ouvia canções como «Get Miles», «Whippin' Picadilly», «Tijuana Lady» ou «Get Myself Arrested». Os Gomez não voltariam jamais a igualar este disco, pese embora o assinalável esforço experimentalista de IN OUR GUN, o terceiro disco editado em 2002. BRING IT ON é um daqueles trabalhos absolutamente irrepetíveis, cuja génese não está ao alcance do usual rastreio de contextos e de supostas influências: é um fruto ímpar do génio de uma banda que, para o melhor e o pior, excedeu as suas próprias capacidades logo no primeiro disco. E depois, que raios, convirá não esquecer que foi de BRING IT ON que saíu um dos singles mais importantes da década de 90: o indescrítivel «78 Stone Wobble» que, ouvido hoje, soa tão fresco, desconcertante e meticuloso como há seis anos atrás. Façam-me o favor de confirmar.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
(Nota final para a capa do disco, da autoria do pintor Reggie Pedro, que, para além dos singles, viria igualmente a assinar o artwork do 2.º álbum da banda.)
Publicado por João Pedro da Costa às 04:00 PM | Comentários (5)
abril 09, 2005
Já cá canta

O bilhete para o concerto do ano, na sala de espectáculos do ano. Tudo na cidadezinha do Porto. Miam.
(derFred: também já comprei o teu).
Publicado por João Pedro da Costa às 06:44 PM | Comentários (18)
abril 08, 2005
O tiro pela culatra
Acabo agora de perceber que o esforço que fiz nos últimos dois dias para convencer o Monty a voltar a escrever no Afixe, apenas teve como consequência eu voltar a publicar lá três posts, descurando estas pequenas ruínas. Fica a lição: um gajo nunca se deve meter com gente ligada à advocacia.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:49 PM | Comentários (17)
abril 06, 2005
Sabores falados
Nasci em Lisboa.
Isto quer dizer que desde que me lembro sempre ouvi falar à minha volta «lisboês». É a minha forma de expressão, um som tão normal, tão natural, tão neutro que corresponde, para mim, directamente ao meu pensamento. São palavras-sons que não existem em si, eu não oiço as palavras, oiço o seu significado. E, de um modo geral, esta sensação não é consciente, não é assunto em que se pense. No nosso dia a dia, comunica-se assim, directamente, com toda a simplicidade.
Mas, por vezes, há uns relâmpagos de luz que atravessam a minha atenção: se oiço uma reportagem na rádio passada na Fuseta, em Viseu, em Serpa, de repente a língua que falam parece outra com outra vibração, outra força. Paro para ouvir. É a beleza dos sotaques.
Aqui há uns tempos, um priminho meu ainda criança, foi passar umas férias bastante alargadas ao norte, em casa de uns avós. Sabemos que as crianças são esponjas, a capacidade de absorver os sinais do mundo que as rodeia é infinita. De modo que à chegada, recebeu-se em casa uma miniatura de um puro nortenho, com o sotaque mais cerrado que se possa imaginar. Lindo! Ficámos a sorrir durante dias!
E isto veio chamar-me a atenção para o importante que é o colorido da nossa língua. Para mim, o que se fala em Lisboa é água. Água da torneira. Bebo-a, e nem a sinto. Não me sabe a nada. Nem dou porque a bebo, afinal é o mesmo líquido com que lavo os dentes. Mas vou ao Porto, a Beja, a Leiria, a Portimão e passa a ser limonada, vinho, chá, um outro líquido cheio de sabor. Mesmo estando à espera, é sempre uma surpresa e, muito, muitíssimo, agradável. Tenho de confessar que fico fascinada quando saio do meu ambiente e oiço falar «outro Português» que me soa, não sei porquê, mais autêntico. Eu é que me sinto um pouco desajeitada, como um pato no meio dos pintos...
Aqui nos blogs, como a linguagem é escrita, perde-se esse encanto. Sei que se cruzam neste ecrã esses tais magníficos modos de falar mas não os consigo ouvir. Sirva-me de consolação o imaginar que isto que acabei agora mesmo de escrever está a ser lido, se calhar, com um sotaque tripeiro...
CLARA
Publicado por João Pedro da Costa às 10:17 PM | Comentários (32)
Uploading Sessions #16

Ora aqui está uma senhora cuja discografia tem tido a precisão e a regularidade de um relógio suiço. E se escolhi «Long Snake Moan» do álbum TO BRING YOU MY LOVE (1994) para os vossos delicados ouvidos é apenas por considerar esta a canção em que a P. J. Harvey assume de forma mais visceral a sua estonteante sensualidade. Para além da muralha cerrada de guitarras e do baixo frenético que servem o tema, a letra é vintage puro: a Pijuka (eu trato-a assim, somos amigos) assume uma voz masculina e põe-se a tecer considerações sobre a sua genitália perante uma hipotética amante. Poderia ser irónico, mas não é. É simplesmente genial.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
LONG SNAKE MOAN (P. J. Harvey)
(Um-hmmm)
Dunk you
Under
Deep salt
Water
Bring me
Lover
All your
Power
I'll be
No hell
Out of
Your spell
Over
Under
Die of
Pleasure
Hear my
Dreaming
You'll be
Drowning
Hell's no
God above
All drunk
On my love
You wanna hear my long snake... moan!
You oughta see me crawl my... roar!
Dunk you
Under
Deep salt
Water
In my
Dreaming
You'll be
Drowning
Raise me
Up, Lord
Call me
Lazarus
Hey Lord
Help me
Make me
Marvel
You wanna hear my long snake... moan!
You oughta see me crawl my... roar!
Is my voodoo working?
Publicado por João Pedro da Costa às 06:38 PM | Comentários (8)
abril 05, 2005
O meu coelho suicida #29

Publicado por João Pedro da Costa às 11:09 PM | Comentários (32)
Post para todos, mas sobretudo para a Susana Mana

Hoje à noite, pelas 22h30, passa na :2 o que poderá ser (lá veremos depois) um interessante documentário intitulado THE CUTTING EDGE - THE MAGIC OF MOVIE EDITION, dedicado à montagem na sétima arte. Conta com depoimentos de Quentin Tarantino, Francis Ford Coppola, Steven Spielberg e George Lucas, entre outros. Quem não puder ver, pode sempre deixar a gravar.
(Catarina, fazes-me o favor de avisar a mana? 'Brigados.)
Publicado por João Pedro da Costa às 02:53 PM | Comentários (15)
Bom dia! Com licença, posso entrar?
No outro dia caiu-me uma estrela no colo.
Bem, parece que não me estou a explicar bem. Tenho de começar pelo princípio: sou uma visitante da blogosfera passeando quase sempre por caminhos conhecidos. Sempre que tenho tempo, dou uma vista de olhos por meia dúzia de blogs que me agradam particularmente. Se me sinto em estado de espírito mais aventureiro, lá me afasto para um ou outro desconhecido, onde por vezes encontro surpresas agradáveis. Mas o coração destes meus passeios não muda muito, e onde as suas pancadas têm sido mais certinhas é aqui pelo Ruínas. Acompanhei os primeiros posts, raramente falho um novo, este tem sido o meu blog de estimação. Calada quase sempre, ou deixando sair um ou outro comentário quando sinto que o que cá está tem ainda mais a ver comigo do que o costume, eu nem acredito que se tenha dado por mim. Daí o meu espanto e deslumbramento quando o João Pedro me encontra e me convida a escrever aqui! Foi a tal chuva de estrelas, e uma acertou-me na mão. O que se faz? Agarra-se, não é?
Não me apresento, porque o que gostaria é que me fossem conhecendo muito devagarinho, a pouco e pouco, preguiçosamente. Apesar do meu anfitrião me ter com toda a generosidade aberto a porta de par em par, eu por feitio, sou tímida e vou entrando com passinhos curtos. Mas acredito que daqui a uns tempos nos conheçamos mais ou menos bem. Além de tímida sou indecisa. Fiquei a roer a unhas, pensando no nome com que iria assinar. O verdadeiro, completo, enorme, estava fora de questão. Ocorreu-me Etelvina.
Porque já que estamos entre blogs, depois de Barnabé, a figura mais interessante é a Etelvina, aquela que «com seis meses já se tinha de pé», que dormia «sozinha à noite, à beira rio» e «gostava era de andar pela cidade a semear desacatos e a colher tempestades». Gosto muito da Etelvina do Sérgio Godinho. Mas era uma grande presunção e eu, infelizmente, não sou assim. Esse nome seria uma homenagem, mas seria falso. Então... pensei deixar apenas cair os apelidos.
Clara. Só Clara. Assino simplesmente o meu nome, igual a milhares de outros e espero que o que aqui venha a escrever corresponda a este nome que também é adjectivo. (Já começo a ser obscura, não é ?) :)
CLARA
Publicado por João Pedro da Costa às 01:42 AM | Comentários (40)
Novidades Ruinosas
Este blog cinzentão irá ter, muito em breve, uma nova colaboradora. Sim, colaboradora. Chama-se Clara e, enquanto ela não tiver o username que lhe é devido, publicará sob o meu nick (salvo seja). Deu-me um imenso trabalhão convencê-la e, por isso, é com uma certa folia que vos dou esta notícia. As Ruínas passam a ser, desta forma, duas pessoas: ela e eu.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:26 AM
abril 04, 2005
Uploading Sessions #15

Quando em 1995, os Stone Roses chegaram ao fim (um ano após o magnífico SECOND COMING, um dos mais injustiçados álbuns da história da pop), cheguei a fazer apostas com o meu melhor amigo sobre quem iria ter mais sucesso após o rompimento da banda. Como é óbvio, Ian Brown e John Squire eram, para nós, os mais cotados. O tempo viria a demonstrar que, afinal, estávamos errados: tanto o vocalista como o guitarrista perder-se-iam para sempre e nenhum dos elementos da dupla de compositores dos Stone Roses voltaria a escrever uma página de ouro da história da música pop. Os Seahorses apenas deixaram dois singles pouco mais que aceitáveis («Love is the law» e «Blinded by the sun») retirados de um álbum francamente medíocre (DO IT YOURSELF, 1997), e tanto os álbuns a solo de Ian Brown (apesar de algumas boas ideias) e de John Squire (mau de mais para almas sensíveis) são exercícios desaconselháveis para quem vibrou com canções como «I wanna be adored», «Fool's gold» ou «Love spreads».
Vem esta introdução a propósito dos Primal Scream e da (muito pouco assinalada) importância que Mani (Gary Mounfield), o ex-baixista dos Stones Roses, viria a ter no percurso musical da banda escocesa com a sua entrada em 1996. Creio que se pode mesmo falar de um momento «AC/DC», isto é, há duas bandas sob o nome de Primal Scream: uma «pré-Mani» e outra «pós-Mani». A primeira já tinha deixado o seu nome para sempre gravado nos anais da música pop com o seminal SCREAMADELICA (1991), manifesto definitivo da cultura indie, das raves e do ecstasy, onde a junção da pop com a música de dança (acid-house e tecno) lançou definitivamente para o mainstream as fórmulas já experimentadas por bandas como os Happy Mondays ou os já referidos Stone Roses. A entrada de Mani na banda, contudo, deu-se num momento em que os Primal Scream estavam num impasse: a edição, em 1994, de GIVE OUT BUT DON'T GIVE UP (um exercício anacrónico de hard rock, que fazia lembrar os Rolling Stones vintage da década de 70) tinha sido recebido com grande frieza pela crítica e pelo público, resultando num fracasso comercial. Com Mani na banda, a revolução começa. Desde logo ao comporem o tema título do marco cinematográfico do ano, TRAINSPOTTING, e editando, a par de OK COMPUTER dos Radiohead, um dos dois discos mais marcantes de 1997: VANISHING POINT. Estava consumado um regresso à fórmula dançante de SCREAMADELICA, mas numa abordagem mais experimentalista, onde o baixo de Mani começa a pautar a dimensão mais obscura dos temas de Primal Scream. Ano zero, portanto.
EXTERMINATOR (2000) foi o primeiro disco de rock do séc. XXI. E, se calhar, é ainda o único editado até hoje digno desse nome. Não me refiro, como é óbvio, ao ano de edição, mas a uma concepção inovadora do que é rock'n'roll, a milhas de distância da visão revivalista de bandas como os White Stripes, só para citar um exemplo (e eu até sou um fã). O disco, de resto, parece apostado em cobrir um largo espectro dos géneros musicais ao açambarcar outros influências como as Big Beats (os Chemical Brothers têm a honra de ver a sua remistura de «Swastika Eyes» integrar o alinhamento do álbum), o Hip-Pop («Pills») e o Jazz («Blood Money»), ao mesmo tempo em que dá um novo alento à visceralidade das guitarras eléctricas («Accelerator», ironicamente o último single a ser lançado pela Creation). E em todos os temas vêm à tona a importância do baixo cheio de swing de Mani, sempre de uma forma sóbria e em constante diálogo com os restantes instrumentos e a inconfundível voz de Bobbie Gillespie, não obstante momentos de virtuosismo como «Kill All Hippies», «Exterminator», «Keep Your Dreams» ou aquele que considero o mais incendiário tema rock dos últimos vinte anos: «Shoot Speed / Kill Light».
EXTERMINATOR é um disco nervoso e palpitante, uma autêntico manifesto lírico e sónico, cuja produção e dinâmica vanguardista abriu largas avenidas por onde o rock'n'roll poderia (e deveria) ter seguido. Pena que ninguém (a não ser os próprios Primal Scream, que continuaram a debravar caminhos com EVIL HEAT de 2002) tenha ligado puto ao convite.
O tema que vos deixo aqui é o já referido «Shoot Speed / Kill Light». Está lá tudo: o feed-back da guitarra eléctrica e a bateria a planarem sobre o baixo gorduroso de Mani e a voz destorcida de Gillespie. Há revoluções que começaram por (muito) menos do que isto.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
(Uma palavra final para o belíssimo design do álbum, da responsabilidade de Julian House, designer de uma das mais geniais empresas de design do Reino Unido: a intro. Um clássico.)
Publicado por João Pedro da Costa às 03:47 PM | Comentários (15)
abril 03, 2005
A arte de Patrick McDonnell

Há algumas semanas, tornei-me (fruto paciente de uma longínqua encomenda na FNAC) no legítimo proprietário de um álbum intitulado THE COMIC ART OF PATRICK MCDONNELL, uma cuidadíssima edição de luxo com capa dura (30x20cm) dedicada ao autor dos Mutts, a mais genial tira de todos os tempos (e vocês sabem que, nessas merdas, sou um gajo sereno que mede o peso de cada palavra). O objecto em causa é carote (60 Euros, ai), mas é dinheiro bem gasto e passo a explicar porquê. Para além de um interessantíssimo ensaio de John Carlin que se debruça sobre as razões que estarão por detrás do sucesso da tira e dos próprios testemunhos do autor, o livro contem mais de 180 ilustrações a cores de grande qualidade e cerca de 200 inéditos (miam) retirados directamente dos sketchbooks de Andy McDonnell. Temos assim acesso a uma espécie de arqueologia da tira, na qual se vê a forma como as personagens foram, pouco a pouco, sendo criadas e, sobretudo, como o estilo do desenho dos Mutts foi amadurecendo no papel. O livro constitui uma oportunidade única para vermos «rabiscos» e «rascunhos» desenhados a 100 à hora pela mão sempre ágil e precisa de Patrick McDonnell, pequenas preciosidades cuja contemplação provoca em mim uma sensação que apenas poderei comparar à da levitação assistida (vulgo marijuana).
Só para vos dar um exemplo, gostaria de partilhar convosco (sou uns mãos largas do caraças, não sou?) um excerto da página 170, que replica uma página de um sketchbook de McDonnell, na qual ele se entreteve a apurar a sua técnica sobre objectos que viriam a ser usados, na sua grande maioria, nos interiores da tira:

Uma maravilha, não é? Reparem só naquela delícia de tapete ou na bola de bowling (Big Lebowski, eu sei). Ou então na geometria do frigorífico e do televisor. Reparem, sei lá, na diferença entre uma planta e um vaso ou entre um copo e um balde do lixo ou como uma simples, mas cirúrgica, pincelada de aguarela confere cor e volume aos desenhos. E aquela fabulosa teia de aranha com duas moscas suspensas que é, só por si, o prenúncio de uma narrativa? O carro, o telefone, o espelho. O candeeiro, a cadeira. E a cama, caramba? Quando um dia morrer, hei-de ser uma personagem do McDonnell e ele far-me-á o favor de me pôr lá a dormir.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:31 PM | Comentários (18)
Mutts #18

Quem tem gatos, perceberá o sarcasmo da tira...
(Sem querer estar aqui a ser muito chato, não posso deixar de salientar a cabeça do Earl ao centro - um cão é mesmo aquilo. Simplesmente genial.)
Publicado por João Pedro da Costa às 09:48 PM | Comentários (5)
abril 01, 2005
Uploading Sessions #14

São muito parcas as informações que possuo sobre este rapaz. Sei que se chama Sue Daniels, euh... que é belga, que se considera um músico de euh... «tecno», que Nick Drake é o seu... euh... ídolo e, sobretudo, que é o autor de um dos meteoritos musicais mais singulares que ouvi nos últimos anos (PARIS, 2001).
Tomei conhecimento deste disco através da Vox (que, apesar de não chegar aos calcanhares da Xfm, me deixou saudades). Quando ouvi a música («Collect Call from Ibiza», o mesmo tema que aqui vos deixo), fiquei parvo por ouvir algo que, apesar de ser tão desconchavado e estranho, me soava tão bem. Mas isto, já se sabe, pode ser tudo loucura minha.
(Reparem só nesta pequena preciosidade: «Expecting a message / A collect call from Ibiza / My friends are over there / Living on acid, Red Bull and pizza.»)
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
Publicado por João Pedro da Costa às 02:30 AM | Comentários (28)
Post suficientemente chato para o seu autor achar que, se o publicasse, estaria a meter água (nessas merdas há que ter sentido de humor e calça curta)
.

Li pela primeira vez este sublime poema-verso de Luís Miguel Nava em 1995 e, de imediato, fui fulminado por esta cristalização suprema do que é a poesia, pelo menos como a entendo e a amo. Gostaria aqui de ser capaz de falar um pouco deste poema, sem invocar coisas acessórias e desnecessárias como a biografia do autor (que, por acaso, até é prolífera em factos insólitos e susceptíveis de interpretações abusivas). Para os que se sentem com pachorra para isso, prometo tentar fazer o impossível, isto é, não ser chato. E não meter água.
Comecemos pelo título ARS POETICA (Arte Poética), que enquadra de imediato o poema numa tradição milenar de textos normativos e doutorinários sobre o ofício da escrita e cujos modelos matriciais são a CARTA AOS PISÕES de Horácio e o DE SUBLIME que alguns autores atribuem (e outros nem por isso - paciência, nessas cenas há sempre gajos desconfiados) a Longino. O primeiro efeito de «estranhamento» (palavra que considero chave para a análise de qualquer construção poética) é a brevidade do mesmo: apenas um verso no qual apenas existe, ao nível do significado, um princípio condutor (ou, se quiserem, uma recomendação) consubstancializado num exemplo. O desejo de substituição parece inusitado e encena uma imagem quase «inimaginável» na mente do leitor: a de colocar um relâmpago em vez do mar.
Numa primeira leitura, poderá parecer que não há nada de mais distinto ou de incomutável do que o «mar» e um «relâmpago». Do ponto de vista semântico, onde um é imenso, perene e materializável, o outro é comparativamente menor, efémero e imaterial. A acentuar a distância dos termos, há ainda que ter em conta os artigos que os introduzem: em vez de o mar, colocar, no seu lugar, um qualquer relâmpago.
A chave de leitura do poema de Luís Miguel Nava reside exactamente na detecção das razões que fazem com que, no seu universo poético, «o mar» e «um relâmpago» sejam coisas correspondentes e comutáveis, no sentido matemático do termo. É óbvio que, aqui, a invocação da obra do autor seria de uma utilidade preciosa, na medida em que se poderia detectar como essa «porosidade» das coisas constitui um elemento central e sistemático da sua escrita, mas o mais sublime deste poema reside exactamente no facto das razões que motivam essa substituição estarem ao alcance de qualquer falante da língua portuguesa, na medida em que apenas apelam ao conhecimento que possuimos da matéria-prima de qualquer texto, isto é, da língua.
Se, por um lado, existe no mesmo livro um poema intitulado «Sketch», no qual se afirma que «a rebentação da luz é idêntica à rebentação das ondas», a verdade é que, para além da equivalência proclamada no corpus poético de Luís Miguel Nava entre a manifestação «sonora» do mar e a manifestação «visual» da luz, há ainda mais uma motivação, de ordem linguística e induzida pela «sonoridade» do mar, para a encenação metafórica desta arte poética: é perfeitamente possível, de um ponto de vista semântico, estabelecer uma associação entre a palavra «relâmpago» e a outra forma da manifestação da luz: «trovão». Do ponto de vista fenomenológico, «relâmpago» e «trovão» correspondem às duas manifestações possíveis de um acontecimento (descarga eléctrica na alta atmosfera) que o nosso saber enciclopédico nos ensinou a associar. Quase se poderia dizer, embora correndo o risco de ferir a susceptibilidade de algum linguista (uuuh, i'm so scared...), que «relâmpago» e «trovão» são hipónimos de um campo semântico dominado pelo hiperónimo «trovoada» (peço desculpa pelos palavrões, mas penso que perceberam o que cada um significa - outro exemplo: «proa» e «mastro» são hipónimos do hiperónimo «barco»). Desta forma, o que esta arte poética realiza é o transporte de uma associação semântica in absentia (e, volto a dizê-lo, induzida pelo sema [+ sonoro] da rebentação do «mar»), entre «relâmpago» e «trovão», para uma associação poética in presentia, entre «mar» e «relâmpago».

É precisamente na acção conjunta e simultânea de todos estes mecanismos que se encontra a motivação da metáfora: o visual é eleito como ponto de convergência dos sentidos através de uma operação sinestésica na qual, citando um poema de VULCÃO (1994), «se fundem / o tímpano e a pupila». De resto, a leitura sucessiva dos livros de Luís Miguel Nava instrui exactamente o leitor a reconhecer, no universo instaurado pela sua escrita, algures entre o intervalo que separa a velocidade da luz da do som, todo um conjunto de correspondências onde, por exemplo, associar «a superfície da pele à das águas» não é menos inteligível e imediato do que uma associação do tipo «sair» e «porta».
E é exactamente nisso que, para mim (e nem sequer sou o primeiro a dizê-lo), consiste a poesia: uma construção de linguagem, na qual a própria linguagem de que é feito o poema funciona de uma forma distinta daquela que será, porventura, a sua primeira ou essencial função: comunicar. Qualquer poema que se preze (como este conciso decassílabo de Luís Miguel Nava) deve ser capaz de accionar os mecanismos mais profundos ou subterrâneos da língua e de fazê-los vir à tona do texto.
O mundo de Nava, ou melhor dizendo, o mundo dos poemas de Nava, é um mundo que nos poderá parecer «estranho» apenas pelo facto de ser um mundo diferente daquele que a linguagem nos serve quotidianamente. Porém, convirá não esquecer que este segundo mundo no qual vivemos e onde, por exemplo, a gravidade faz correr a água dos rios e as flores se fecham à noite, se dá também como objecto de uma aprendizagem longa e morosa (eu que o diga). O universo criado pela poesia de Nava tem a vantagem de nos fornecer, a nós leitores, passo a passo, e com (garanto-vos) um grau de explicitação e uma coerência ímpares, que apenas apelam à nossa competência linguística, todas as condições para o recebermos com «benevolência» e concretizarmos o desejo formulado no final do último poema que ele publicou em vida - «arder juntos»:

E a mim apetece-me terminar dizendo que qualquer dia é um bom dia para essa combustão.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:05 AM | Comentários (30)