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abril 11, 2005
A propósito do último post da Clara
Eu conheço duas meninas (a Manela e a Joana) que padecem do mesmo «mal» - só que, no caso delas, são os números que possuem propriedades cromáticas e não as vogais. Sabendo que ambas são leitoras d'As Ruínas, seria porreiro se uma delas (ou as duas) partilhassem connosco estas suas sensibilidades cromáticas. Fica aqui o convite, extensível a eventuais leitores que também sejam capazes (que inveja) de estabelecer ligações entre símbolos e cores.
Voltando ao título do post, existe um famoso (e belo) soneto de Rimbaud que glosa precisamente esta tua tripe, Clara, e que é um dos textos emblematicos daquilo que se costuma designar por Simbolismo:

Se compararmos as vossas sensibilidades cromáticas em relação às vogais, obtemos os seguintes resultados [COR (Rimbaud, Clara)]:
A (preto, vermelho)
E (branco, amarelo)
I (vermelho, azul)
U (verde, preto)
O (azul, branco)
Ou seja: nenhuma vogal coincide, o que não deixa de ter a sua piada. O resultado também é previsível e natural: são impressões subjectivas de duas pessoas diferentes e que, ainda por cima, elaboram as suas conjunturas a partir de duas línguas distintas.
Para terminar, Clara, deixo aqui uma pergunta: as vogais do Português que referiste não são, na verdade, vogais, mas representações gráficas de várias vogais (sons ou fonemas) através de um único símbolo gráfico (grafemas). Eu gostaria de saber se detectas alguma nuance cromática entre as vogais (em negrito) existentes nas seguintes palavras:
«A»
carro (/a/ aberto) vs. aprender (/a/ fechado)
«E»
seca (/e/ aberto) vs. ser (/e/ fechado)
«O»
homem (/o/ aberto) vs. posto (/o/ fechado)
No fundo, o que pretendo detectar é a natureza da motivação que está por detrás da tua sensibilidade cromática: será ela auditiva (fonemas) ou visual (grafemas)? No primeiro caso, sentirás nuances cromáticas entre os exemplos que te dei; no segundo, tudo será corrido com a mesma cor.
Publicado por João Pedro da Costa às abril 11, 2005 04:31 PM
Comentários
Só sei que sinto azul no 2 e amarelo no 5.
A piada é que quando chego ao O de homem, sinto o amarelo do H.Mas vou esforçar-me mais.isto foi uma reacção instintiva.
P.S. estou a gostar do brain storming do luving. Não sei se está a brincar comigo mas eu estou a levá-lo a sério.
Muito Obrigada
Publicado por: patricia em abril 11, 2005 05:12 PM
Eu não sei brincar, Patrícia. ;)
Publicado por: João Pedro da Costa em abril 11, 2005 05:28 PM
Ou seja: a tua sensibilidade cromático é, muito provavelmente, visual (a história do «H» não engana, visto que em Português é uma consoante muda).
Publicado por: João Pedro da Costa em abril 11, 2005 05:32 PM
Sem a menor dúvida, é auditiva. São os sons bem abertos. Eu, aliás, tentei dizer isso no post. E até brinquei porque disse que não via o U ou o I como abertos ou fechados, esses são uns sons mais constantes.
É engraçado que tinha "esquecido" o poema do Rimbaud. Conhecia-o, contudo. Mas como dizes, em línguas diferentes os sons têm de ser diferentes ( o U então...!)
Quanto aos algarismos para mim não têm cor. Para mim. Não há mesmo nada de mais pessoal.
Publicado por: Clara em abril 11, 2005 08:24 PM
Para mim, com os os dias da semana acontece o mesmo que aos números: a segunda-feira é azul e a quinta é amarela mas acho que é auditivo...não sei.
Publicado por: patrícia em abril 11, 2005 08:32 PM
0 - transparente
1 - branco
2 - amarelo
3 - laranja
4 - ?
5 - azul claro
6 - cor de rosa
7 - verde
8 - vermelho
9 - castanho
Publicado por: Manela em abril 11, 2005 10:21 PM
Clara, o teu post recorda-me o método de estudo para anatomia de uma amiga minha. Ela assinalava o texto com uma côr específica para cada tema. Exemplo: Tecido Conjuntivo = Amarelo, Cérebro = Vermelho , Músculos = Verde, and so on...
Nunca associei uma côr específica a texto, mas muitas vezes durante um exame, para facilitar o acesso à máteria estudada começava por "imaginar" as folhas e a posição do que eu precisava de me recordar nessas folhas. Imagiva primeiro a localização do capítulo nos apontamentos, depois em que parte da folha estava, depois um quadro, um sublinhado ou algo que chama-se à atenção... eventualmente lembrava-me. Ou não, altura em que olhava para o teste do vizinho ou puxava das cábulas. Hehehe...
Conclusão: Julgo que a minha memória espacial é melhor que a memória cognitiva.
Publicado por: Graven em abril 11, 2005 10:29 PM
Olá,
lembrou-me esta conversa o compositor Olivier Messiaen e a sua 'audition coulorée', ou seja, via determinadas cores conforme os sons que ouvia.
Uma outra vertente da sensibilidade cromática.
Publicado por: paulo em abril 11, 2005 10:40 PM
Graven: eu também fazia isso. Era uma boa mnemotécnica.
Paulo: essas variantes de Olivier Messiaen tinham a ver com o timbre de cada nota?
Manela: a sério - eu fico sempre parvo com essa tua capacidade inequívoca de relacionar números com cores. Agora só falta comparar com os dados da Joana. :)
Publicado por: João Pedro da Costa em abril 11, 2005 11:41 PM
Bem, acabo de falar com a Joana ao telefone (estou mesmo a ficar paranóico com esta cena) e a sua lista é a seguinte:
0 - cinza
1 - preto
2 - laranja
3 - amarelo
4 - rosa
5 - azul
6 - castanho
7 - verde
8 - vermelho
9 - castanho
Ou seja: comparando com a Manela, elas partilham 4 números/cores (5, 7, 8 e 9) e trocam as cores ligadas aos números 2 e 3.
Quanto às vogais (afinal, ela também as relaciona com cores) a lista é a seguinte:
A - vermelho
E - amarelo
I - azul
O - castanho
U - preto
Ou seja (e isto até assusta) partilha 4 vogais/cores com a Clara (a única excepção é o «O»).
Finalmente, a Joana informou-me que se costuma designar estas pessoas como (e isso é óbvio) «sinestésicas» e contou-me igualmente uma história engraçada: desde pequena que o seu pintor favorito era Kadinski - ela viria a saber, muitos anos mais tarde, que também ele era sinestésico. Incrível, não é?
Publicado por: João Pedro da Costa em abril 12, 2005 12:05 AM
eu cá, a esta hora, não vejo letras, nem números, nem cores, nem porra nenhuma e tou é com fome, isso serve para alguma coisa?
Publicado por: Mar em abril 12, 2005 04:48 PM
(óbviamente, o comentário anterior pretendia relacionar a ausência de comida no estômago com a incapacidade de os neurónios processarem o paleio cromático, fonético, ou o raio que o parta, que vocês mantiveram antes, ok?)
(convém sempre fazer estes esclarecimentos antes que a malta pense que eu tou a desvalorizar o trabalho que tiveram, principalmente o JP, que quando "encasquilha" uma coisa na cabeça e embica pr´áquele lado, faxavôr...);-))
Publicado por: Mar em abril 12, 2005 04:53 PM
à partida o i é amarelo e o 7 é verde. o A vermelho, o 3 violeta e o 8 azul. pra mim.
Publicado por: susana em abril 13, 2005 01:01 AM