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abril 13, 2005

Ana

Tenho uma amiga que se chama Ana. Foi uma inspiração dos seus pais este nome, porque ela não se poderia chamar de outro modo. Três letras, o nome mais simples em que se pode pensar, mas muito doce. Três letras. A mesma vogal repetida, a primeira das cinco vogais. Nome tão fácil que se diz e se lê nos dois sentidos. É um nome inicial. Nome que não soa bem gritado apesar de ter muita força. É a Ana. A minha amiga Ana.

Venho falar dela porque me sabe bem. Sabe bem pensar nela.
Havia antigamente na “Selecção do Readers Digest “ uma secção chamada “o meu tipo inesquecível” galeria de pessoas com aspectos de personalidade considerados interessantes por essa revista. Esta minha amiga deveria ter lá um lugar de topo.

Ela é uma pessoa perfeitamente normal, é claro. Não há nada de mágico. Teve uma boa infância numa aldeia, uma adolescência sem nada digno de relevo, namorou, casou, teve filhos, tem um emprego onde se mostra uma muito boa profissional, vive a sua vida com grande serenidade. Mas é para esse ponto, a serenidade, que eu quero chamar a atenção. É a pessoa que conheço ( e se conheço muita gente!) que com maior naturalidade consegue descomplicar as coisas.

Percebem o que quero dizer? Claro que a Ana tem uma vida tão difícil como cada um de nós. Para ser verdadeira devo até reconhecer que, em muitos aspectos, mais difícil do que muitos de nós. Mas tem o dom de olhar para os problemas com um olhar muito límpido e encontrar a saída do labirinto sem dificuldade. Já lhe tenho dito isso de brincadeira: enquanto nós procuramos uma saída para as nossas dificuldades entrando vezes sem conta em becos sem saída, batendo com a cabeça nas paredes e tendo de voltar atrás – como nos verdadeiros labirintos – ela, como que abre umas asas, sobe e plana um pouco, vê o labirinto por cima encontrando a saída num só olhar.

Quando lhe chamo descomplicadora, acho que é a palavra certa mesmo que a tenha inventado agora. Ela vive a sua própria vida resolvendo as dificuldades uma por uma ou contornando-as quando não há resolução, de um modo lúcido e tranquilo. E alegre, ainda por cima.

E esse método funciona também para os outros.

Tenho sido testemunha de pessoas meio desconhecidas que vêm desabafar com ela problemas muito pessoais e íntimos. Ela dá a sua opinião que parece de simples bom-senso. Parece. Mas afinal é muito mais do que isso, pela expressão que vejo aparecer nos olhos dessas pessoas. Era exactamente o caminho que precisavam de ver indicado. Ela tem o dom de apenas com a sua presença, a sua voz, a sua atitude empática, aliviar o peso do stress e atrair boa disposição.

Que o diga eu. Sei que sinto um calor no coração, se chego a casa cansada depois de um dia de trabalho complicado, ligo o gravador de chamadas e oiço uma voz clara onde se pressente o sorriso “Olá! Sou eu! Falou a Ana!”

Publicado por Clara às abril 13, 2005 12:14 AM

Comentários

Por estas (e por outras) é que eu estou a pensar em dar ao JPC o lápis côr de rosa. O que achas, Clara?

Publicado por: susana em abril 13, 2005 02:25 AM

que querido!!

Publicado por: Ana [Lua] em abril 13, 2005 10:07 AM

Os seus textos são a minha Ana...aqui por estes sítios.

Publicado por: patrícia em abril 13, 2005 11:02 AM

Demasiado idealismo. A Ana peida-se e arrota como toda a gente? Gostava de saber...

Publicado por: Realista em abril 13, 2005 12:37 PM

ólh lá, ó realista, fala por ti, eu não faço nada disso. :-)

Publicado por: susana em abril 13, 2005 01:48 PM

Muito bonito o teu texto Ana. E é precioso ter uma amiga assim... Os "descomplicadores" nunca são demais na nossa vida!

Publicado por: M. em abril 13, 2005 01:59 PM

Ana (ou aná) em árabe quer dizer «eu». Eu acho que se aplica. ;)

Publicado por: João Pedro da Costa em abril 13, 2005 02:01 PM

Aná = eu.
Face a esta constatação, nada tenho a dizer. Está tudo explicado.

Publicado por: Realista em abril 13, 2005 02:27 PM

Também conheço um "descomplicador". Foi meu professor e ficou meu amigo. É quem vou logo procurar quando estou na fossa, porque sei que tem um modo de ver as coisas que deixam de parecer tão negras.

Publicado por: Paulo em abril 13, 2005 02:27 PM

São notáveis as conclusões rápidas que se têm tirado em relação a estes posts da Clara. Quer aqui, quer no Afixe! A minha alma fica parva, com a velocidade com que o Realista concluiu não sei lá bem o quê.
Por mim, repito o que diz a Susana. Nem todos serão como o Realista que imagino para além dos outros sons de que se gabou também deve cuspir para o chão para mostrar que não é nenhum mariquinhas.

Publicado por: Emiéle em abril 13, 2005 02:34 PM

Emièle: Há aqui um malentendido. Vou tentar explicar-me. (Aná = eu) = A Ana a que se refere o JPC é uma Ana fictícia que existe em cada um de nós.
Pode ser que ela exista, mas entendo o texto de outra forma. Uma forma mais filosófica. Não sejais tão concretos... Eu ia dizer - grande parvoeira - tão realistas...

Publicado por: Realista em abril 13, 2005 02:40 PM

Esse "eu" não sou eu, Emièle! É o "eu" que tu tens, o "eu" que eu tenho, o "eu" que todos nós temos.
Nesse "eu", há uma Ana!

Publicado por: Realista em abril 13, 2005 02:43 PM

Mesmo assim gostava de ver a Ana a tirar macacos do nariz quando ninguém a vê, gostava de a ver a comer o pedaço de carne que saiu fora do prato, gostava de a ver... Enfim... Já não digo nada... É que essa Ana é tão perfeita, Clara ou JPC (que eu já nem sei quem escreveu), que até gostava de a ver mais... concreta, mais... realista.

Publicado por: Realista em abril 13, 2005 02:49 PM

Realista, venho aqui de passagem e se calhar não vou ter tempo para uma boa explicação: pelo que dizes, acho que falhei no meu post. Porque nunca quis descrever uma pessoa perfeita. Ela tem vários defeitos como todos nós. Eu pretendi sublinhar uma qualidade de que gosto muito, e uma só. Aprecio muito o modo de ver as coisas pelo seu lado mais positivo. De resto é desleixada no arranjo da casa, excessivamente permissiva com os filhos, tem o nariz grande para o tamanho da cara, esquece-se de pagar a conta do telefone, e não é lá grande cozinheira.

Publicado por: Clara em abril 13, 2005 03:14 PM

Só mais uma coisinha - infelizmente não tenho nenhuma "Ana" dentro de mim, e bastante gostava. É que "eu" sou bem complicadinha....

Publicado por: Clara em abril 13, 2005 03:17 PM

:-) Gostei desta vertente escondida. Continua a escrever.

Publicado por: Realista em abril 13, 2005 03:32 PM

Acredito piamente que a Clara seja "complicadinha" (os textos revelam uma complexidade profunda).Nunca achei que ser "complicadinha" era apenas desvantajoso.O que é incrível é como é que os textos e , sobretudo, os comentários da Clara provocam (em mim) a vontade de confessar o inconfessável, de me tornar o mesmo tipo de pessoas que desabafa com a Ana.Por isso, e contra todas as expectativas(em relação a mim), vou ter de confessar à Clara que os seus comentários finais, a seguir a uma catrefada de comments(o meu também)têm-me, até agora, provocado calor nos olhos...o mesmo que se sente quando estamos prestes a chorar de emoção.
Espero que esta seja a última vez que me atrevo a fazer um comentário depois do da Clara.Para mim(para mim...haverá alguma coisa mais pessoal)a Clara passa a fechar as caixas de comments mesmo que não seja ela a última a fazê-lo.

Publicado por: patrícia em abril 13, 2005 03:47 PM

Lindo, Clara. Que sorte teres uma Ana na tua vida, alguém que descomplica e dá paz.

Publicado por: 1poucomais em abril 13, 2005 05:30 PM

Oh Patrícia, eu não sei o que pensa a Clara, mas com franqueza não há para aí um exagero de todo o tamanho??? Eu venho aqui todos os dias, gosto muitíssimo deste blog e tenho seguido com interesse a entrada da Clara. Tenho-lhe comentado os textos, porque até tenho gostado. Já aqui o disse. Mas vamos lá a ver, esse tipo de elogio é tão, mas tão exagerado, que até parece que estás a gozar com ela. E lá isso também eu acho que ela não merece. De acordo?
(desculpa, Clara, não leves a mal, mas no teu caso não me sentia à vontade…)


Publicado por: Emiéle em abril 13, 2005 07:35 PM

Émièle, até quando saimos do Afixe, somos parecidas, irra que é demais...

Publicado por: isabel em abril 13, 2005 08:01 PM

Dupont e Dupond?
Loool!

Publicado por: Emiéle em abril 13, 2005 08:13 PM

penso que foi a emiéle que sugeriu que eu estava a gozar com a Clara.O seu comentário obrigou-me a quebrar o que me tinha proposto:não voltar a comentar depois da clara encerrar o assunto.Isso deixa-me apenas zangada comigo.Quanto ao conteúdo do seu comentário, agradeço-lhe que não me volte a dirigir a palavra.
Peço desculpa à Clara por ter vindo aqui resolver aquele tipo de questões que só se resolvem no meio da rua.E agora espero bem que a voz da Ana esteja no gravador de mensagens.

Publicado por: patrícia em abril 13, 2005 10:12 PM

Muito, muito bem escrito.
Só posso dizer que gostei imenso.
Uma personagem tão real, tão viva, que até parece que também nós ouvimos dizer "OLá, sou a Ana!

Publicado por: Gui em abril 18, 2005 09:59 AM