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abril 11, 2005

As cores das vogais

Quando li a Isabel do Afixe dizer que não gosta do ó, assim mesmo, o O com acento por cima, lembrei-me logo da minha esquisitice particular. Cada um tem direito a ter a sua.

É que as minhas vogais são coloridas.

Não tenho culpa. É assim mesmo. Falo das vogais puras, abertas. O A aberto ( com acento, se calhar ) o E e o I e o O e o U. Quando as oiço ou leio, assim despidinhas, sem qualquer consoante a aconchegar, vejo-as em cores fortes!

Para mim o A é vermelho. Vermelho vivo. Assim vermelho papoila. Gosto dos AAA. É um som muito aberto, primitivo até, que parece vir lá da antiguidade. A, linda vogal bem vermelha.

Quanto ao E, para mim é amarelo. Não tenho a menor dúvida. Nunca poderia ser de outra cor. Já viram que até a palavra amarelo tem um E aberto? E yelow também. E amarelo bem forte, cor quente. Mas cor mais suave que o A, tem de ser.

O I, então, é azul. Nada a fazer. Azul! Não do tipo azulão, mais azul mar. E aqui já não sei porque é. Porque o I é uma vogal estridente, não há III fechados, se o quisermos fechar fica uma espécie de E mudo. E o azul é uma cor doce, que não liga com estridências. Mas é assim que o vejo. Não consigo alterar.

Quanto ao O é branco. Mesmo branco. Não quero dizer que seja pálido, é um branco-branco, nítido, branco como a cal a ferver. Reparem que não falei no leite, é cal e ainda mais, cal a ferver. Porque também é forte. Arrumo-o mais ao pé do A e do E. Sons muito abertos e claros.

O U é preto. É que só pode ser preto. Não o vejo de mais nenhuma cor. Assim um preto aveludado. Mas suave. Claro, se é aveludado é suave. Ao contrário do I, não pode haver UUU estridentes. Incompatível!

E cá tenho as minhas vogais. Vermelho, Amarelo, Azul, Branco e Preto.
São as minhas, não obrigo ninguém a partilhá-las. Vejo-as com muita nitidez.

Serei só eu?

Publicado por Clara às abril 11, 2005 02:05 AM

Comentários

Ok consegui abrir esta caixa de comentários...tava difícil. Tive que lhe deixar um no texto dos sotaques.
Por isso e para não me repetir digo-lhe apenas que Clara é um bonito nome.

Publicado por: Patrícia em abril 11, 2005 01:42 PM

Olhe Patrícia, fiquei sem saber o que responder quando li o seu comentário lá em baixo... Que estou desvanecida, é evidente, mas é pouco.
Dizer como no norte "Bem-haja" ou "obrigada" aqui à moda do sul, parece ser ainda menos mas é só o que me ocorre. Fico muito feliz com o que me disse.
( é verdade que os comentários entraram em greve; não só aqui mas noutros blogs o que é muito irritante)

Publicado por: Clara em abril 11, 2005 02:24 PM

Ia escrever um longuíssimo comentário, Clara, mas resolvi passá-lo para post. Miaguardji.

Publicado por: João Pedro da Costa em abril 11, 2005 03:48 PM

Clara:
Estamos a tentar reabilitá-los(aos comments)no nosso blog. É uma tarefa difícil mas espero que a ideia vos contagie.
Sei que vou pressioná-la mas fico à espera do seu próximo texto ou de um comentário certeiro como o que me fez aqui.Nós não procuramos comentários simpáticos, procuramos todos aqueles que nos ajudem a melhorar.

Publicado por: Patrícia em abril 11, 2005 04:13 PM

No norte diz-se "bem-haja" em vez de obrigada????
Quando muito acrescenta-se "muito" atrás de "obrigado". O "bem-haja" é para outras situações...

Publicado por: Jorge Morais em abril 11, 2005 07:47 PM

Não me parece que as minhas letras tenham cores.Estou desde manhã e não me parece...

Se as minhas letras tivessem cores, o meu Ó seria branco. Tal como o teu. Mas só se tivesse um acentozeco...sem acento continuaria incolor. Mas parece-me que é porque não gosto de branco. E não sei porque não gosto do branco...talvez porque me lembre cal. E cal me lembra morte, A minha morte (salvo seja) veste sempre de branco. Mas isto só acontece quando tem acento. Quando não tem, o meu O como todas as outras vogais não têm cor. Ou terão todas as cores?

Não vale a pena dizer que continua a ser um prazer ler-te, pois não?

Publicado por: isabel em abril 11, 2005 08:23 PM

Jorge Morais:
A Clara tem toda a razão.

Publicado por: Monty em abril 11, 2005 08:28 PM

É tão sugestivo comparar sensações, Isabel. Sabes que a cal nunca, mas nunca, me evocou a morte muito pelo contrário?
Para mim, talvez por umas costelas alentejanas, a cal é asseio. Vejo as mulheres de trincha na mão, a caiarem as casas como noutros locais se lavam as paredes. O balde da cal estava ao lado da chaminé, e muitas vezes mal ela começava a estar enegrecida voltava a ser caiada.
Vejo a cal como luz. E como queima, como luz forte. A luz também que o sol devolve ao bater nas paredes caiadas.
Cada um tem as suas recordações, não é?

Publicado por: Clara em abril 11, 2005 08:32 PM

Ó Clara, eu estou a tentar conter-me para não te bombardear de comentários elogiosos mas não consigo parar.

Publicado por: patrícia em abril 11, 2005 08:36 PM

Sabem o que é engraçado? São as vogais em chinês! Seguindo a linha do que disse o João Pedro, um A mais aberto, mais fechado, mudo, etc, em cantonense eles têm 9 sons. Imagina-se um A ou O ou pronunciado de 9 modos diferentes? Para um ouvido ocidental é dificílimo distinguir a diferença. Mas lá que existe, não haja dúvida, porque duas palavras que nos parecem iguais podem ter significados o mais distintos possível!

Publicado por: Emiéle em abril 11, 2005 08:58 PM

Na língua árabe, por exemplo, as vogais pertencentes a sílabas abertas (isto é, que terminam em vogal) não são grafadas (quando muito, são grafadas com sinais diacríticos muito semelhantes aos nossos acentos). Ou seja: se algum árabe sente motivações cromáticas nas vogais, ele terá de ser, necessariamente, auditiva e não visual.

Publicado por: João Pedro da Costa em abril 11, 2005 09:52 PM

Eu não sinto motivações cromáticas nas vogais (usando os termos do JP no comentário acima). Vejo é qualquer palavra que pronuncio escrita, ou seja, para mim as palavras não são simples conjuntos de sons, mas letras juntas por escrito.

Publicado por: 1poucomais em abril 11, 2005 09:57 PM

Os livros das minhas filhas, com as suas primeiras letras de todas as cores, tiraram-me a capacidade da associação única. Agora, para mim, elas são de todas as cores.

Publicado por: cap em abril 11, 2005 10:35 PM

Também sabia isso do árabe, que praticamente só escrevem o que chamaríamos consoantes. Tenho um amigo que aprendeu chinês e árabe e acha que o árabe é mais difícil... Só que como o chinês é ideográfico não tem nada do que possa ser sons separados. Só se escreve palavras. Mas os números sim.

Publicado por: Emiéle em abril 11, 2005 10:57 PM

È, Clara, as recordações são chatas...às vezes limitam-nos, formam-nos, fazem-nos...também tenho essa recordação da cal, igual à tua, que aí o Ribatejo e o Alentejo estão bem pertinho...tenho, no entanto outra que se sobrepõe...a última imagem que tenho da minha Inha ( deminuitivo de avózinha, a minha bisavó) que me ensinou a fazer bonacas de pano e a bordar ponto cruz é a cal...a partir daí a cal deixou de ser branca e passou a ser da cor da falta que ela me fez.Como a pobre cal tem o azar de ser branca...o branco passou a ter a cor da falta que ela me fez...

Isto não vem nada a propósito do teu post que era um ode à alegria da cor...que horror isto hoje tá um bocadito...branco, por aqui.
Volto amanhã a ver se melhorou...

Publicado por: isabel em abril 11, 2005 11:36 PM

cap: LOL.

Na poesia do Eugénio de Andrade, a cal é azul. Assim como os corpos.

Publicado por: João Pedro da Costa em abril 11, 2005 11:43 PM

...uma...
è o que faz não dar cor ao raio do a...

Publicado por: isabel em abril 11, 2005 11:46 PM

Isabel, podes não acreditar mas já te conheço um pouco através do que escreves ( não foi por acaso que te citei ao começar a escrever). E, era muito evidente para mim que a tua referência da cal estar associada à morte vir daí, do que contaste agora. Eu tinha entendido. Disse apenas a minha outra visão. Mas, como sabes, em muitos lugares o luto é ainda branco. Sabe-se lá por que associações.
Talvez as tuas...

Publicado por: Clara em abril 12, 2005 01:16 AM

E já agora, continuando o que disse a Clara, sabem que na China o luto para além de branco pode ser azul?
O azul associado ao luto é como para nós o branco associado ao luto. Cá pensa-se em branco, nas crianças, na inocência, e lá essa inocência é azul...

Publicado por: Emiéle em abril 12, 2005 08:24 AM

Como cheguei a este blog só muito recentemente, tenho estado a "descer" pelos posts abaixo, e se calhar aqui que aqui escrevo já os autores do post não vão ler...
Olha, paciência. Pelo menos deixo a minha opinião.
E a opinião não podia ser melhor.
Gosto mesmo muito deste estilo. Gosto das imagens, gosto do tipo de escrita, se eu soubesse escrever escrevia assim ! :)
É isso, quando for grande vou chamar-me Clara.

Publicado por: Gui em abril 18, 2005 10:03 AM