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abril 13, 2005

Das cerejas e outros frutos divisíveis por dois

Entre as inúmeras virtudes do meu pai, contava-se a de ter morrido bem, como um raio de luz e sem dor, ao lado da mulher que amava. Ele já tinha ensaiado esse truque uma boa dezena de vezes, algumas delas mesmo antes de eu ter nascido, vai-se lá saber porquê. A minha mãe conta que a primeira delas foi há mais de trinta anos, numa praia da Nazaré. Ele estava a nadar longe da costa e ela fez algo que viria a se transformar num velho truque da família e que, quem sabe?, poderá vir a ser útil às gerações vindouras: começou a pensar na morte do meu pai com muita força como para anular qualquer probabilidade de ela acontecer. Ele esteve meia hora a lutar contra a maré e chegou à areia exausto. Ambos fizeram de conta que nada tinha acontecido, mas, a partir daquele dia, a minha mãe arranjaria sempre uma desculpa para que o meu pai não voltasse a pôr um pé no mar. Depois, houve acidentes de trabalho (a morte mais indigna do mundo, segundo o pessoalíssimo e intransmissível sistema de valores da minha mãe), um carro que não travou numa passadeira, uma tábua que caiu do segundo andar de um andaime, uma intoxicação alimentar. E, em todas essas ocasiões, a minha mãe foi aprimorando um monólogo longo e seco, repleto de frases curtas e incisivas, nas quais enumerava as razões pelas quais ela considerava a sua hipotética morte um absurdo. Mas jamais a ouvi a invocar como pertinente o facto de o amar. A minha família era assim um combate de surdos: por um lado, o meu pai a meter-se em trapalhadas que punham a sua vida em jogo; e, por outro, os dons oratórios da minha mãe. No entanto, o meu pai tinha um aliado de peso: o seu corpo. O dele era 27 anos mais velho do que o da minha mãe, e, para além dos anos, o meu pai esculpiu-o à força com uma vida sedentária e três maços de tabaco que fumava todos os dias com o método e a paciência de quem forja um plano. Quando eu tinha seis anos, ele foi operado ao coração. Recordo essa noite com a mesma exactidão com que recordo o Sol que ainda há pouco vi brilhar lá fora. Ficámos ambos acordados a noite inteira na cozinha e eu ia apontando num caderno escolar as frases que ela debitava para me garantir que o meu pai não corria perigo de vida. Passados cinco anos, regressámos a Portugal, por indicação do médico de família: O senhor Costa precisa de ar puro e de fugir do stress da cidade, afinal de contas, o senhor já tem 65 anos. Viemos morar para a beira do mar, numa casa onde ainda hoje vivo e escrevo isto, não sei muito bem porquê. É que o meu pai nunca se habituou a esta merda. Faltava-lhe a azáfama de uma cidade industrial, o frenesim das horas matinais, o ruído dos carros na rua. Cismou que haveria de plantar cerejeiras no quintal, não obstante o cepticismo da minha mãe, que invocava a proximidade do mar, o clima húmido e a nortada para considerar o projecto agrícola do meu pai uma parvoíce. Durante cinco anos, podia-se ver em frente à minha casa, fosse qual fosse a estação, filas intermináveis de paus secos que nem sequer possuíam a nobreza triste que torna suportáveis os cemitérios. Houve uma vez em que me lembrei de comprar meio quilo de cerejas (o dinheiro que tinha não dava para mais) e de dependurá-las de manhã nos ramos secos e estéreis das cerejeiras. Foi a primeira vez que vi o meu pai a chorar e essa visão inundou-me com a certeza que tinha feito uma asneira insuperável. Ele tentou disfarçar, claro (tu disfarçavas tão mal, meu querido pateta), e sentámo-nos os dois a comer as cerejas, partilhando em segredo o facto da nossa pressa ter a ver com a iminente chegada da minha mãe. E depois houve um dia em que eu fui para a praia sozinho. Tinha quinze anos. Nem sequer recordo a última imagem do meu pai em vida. Sei que devo ter-lhe pedido autorização para ir, pois ainda estávamos longe da época balnear, mas as imagens que desaguam neste preciso momento na minha memória não enganam ninguém: são nítidas de mais para não serem inventadas. Lembrei-me da história da praia da Nazaré que me tinha contado a minha mãe e nadei, vejam só que estupidez, até onde as minhas forças não me permitiriam regressar. Fiquei a boiar durante mais de uma hora. A costa era uma linha pouco mais que ténue que definia o horizonte, e comecei a repetir os monólogos da minha mãe. Na tua família, morrem todos com mais de oitenta anos. Coisa ruim não parte. Tu ainda tens um filho para criar. Quando abri os olhos, a corrente já me tinha arrastado de volta e, no meu quintal, uma flor branca e inverosímil rompia a casca morta de uma cerejeira.

Publicado por João Pedro da Costa às abril 13, 2005 04:07 PM

Comentários

"take it easy" Jeff Lebowski....bom texto dude.

Publicado por: Patrícia em abril 13, 2005 04:19 PM

(lindo, João. a fazer-me recordar o verde da pupila.)

Publicado por: Mi em abril 13, 2005 05:12 PM

É nestes textos que mais gosto de te ler. Obrigada.

Publicado por: 1poucomais em abril 13, 2005 05:28 PM

Já tinha saudades destes teus textos lindos ... mas difíceis de comentar (por razões óbvias)
Abraço

Publicado por: Eufigénio em abril 13, 2005 06:07 PM

Podia dizer muita coisa sobre este texto, mas basta uma palavra. Obrigado!

Publicado por: curioso em abril 13, 2005 07:08 PM

Estou como o Eufigénio. É que nem se sabe o que dizer. Um texto terrível de comovente. Escrever é isto que fizeste - passar as emoções e as recordações mais pesadas para palavras. Conseguiste que te acompanhássemos ao teu passado. Que viagem, João Pedro!

Publicado por: Emiéle em abril 13, 2005 07:40 PM

Estes teus textos são tão ricos e como diz o Eufigénio, "difíceis de comentar", mas gosto mesmo de te ler
Deixo-te um sorriso

Publicado por: sofia em abril 13, 2005 07:42 PM

Mexer comigo, João Pedro, é assim...quando as palavras não saem.

Publicado por: isabel em abril 13, 2005 07:51 PM

Como disse a Emiéle, levaste-nos numa grande viagem. E sentimo-nos de tal modo inundados de comoção que são as nossas palavras que não saem como deviam. Ficamos com a imagem da flor da cerejeira que insiste em romper de uma casca morta. Tens razão na metáfora, João. É que decerto a casca não está morta, pertence a uma árvore que insiste em viver. Tal como as nossas memórias.

Publicado por: Clara em abril 13, 2005 08:20 PM

(tou aqui sossegadinha, a pensar como me sinto por ter tido o previlégio de conhecer alguém como tu)
Muito, muito bonito.

Publicado por: Mar em abril 13, 2005 08:50 PM

É um texto muito bonito!!! Gostei muito e também fiquei comovido! : )

Publicado por: Paulo em abril 13, 2005 11:23 PM

...!!!!!! (estou sem palavras. O que vale é que ainda me sobra a pontuação para exprimir a minha admiração por ti, ó ruínoso)

Publicado por: PN em abril 13, 2005 11:36 PM

Agora sim, posso dizer que regressaste a casa. As saudades que eu tinha desta tua escrita, João!
Abraço.

Publicado por: cap em abril 13, 2005 11:36 PM

Difícil difícil, é um gajo comentar os vossos comentários. Obrigado a todos.

Publicado por: João Pedro da Costa em abril 14, 2005 12:26 AM

:)

Publicado por: mondrian em abril 14, 2005 12:58 AM

Vida por vida?

Publicado por: derFred em abril 14, 2005 01:00 AM

brutal. mesmo.

Publicado por: cereja_m em abril 14, 2005 01:50 AM

muito bonito. há uma palavra que não sei se é gralha, se intencional: "habitou" em "o meu pai nunca se habitou a esta merda". primeiro pensei que seria "habituou", mas também é pertinente a palavra que surge no lugar desta. O habitar como acto de vontade, mais que de circunstância.

Publicado por: susana em abril 14, 2005 03:29 AM

Puxa, Susana. Chama-se a isto leitura atenta. Era mesmo gralha (entretanto corrigida). Os erros, por vezes, fazem mesmo sentido.

Publicado por: João Pedro da Costa em abril 14, 2005 04:02 AM

Lindo, JP, e de chorar (na verdadeira acepção verbal) por mais!
Abraço!

P.S - Festinhas para Ziggy, Xiquinho, Leão e Josefina.

Publicado por: SGC em abril 14, 2005 05:57 AM

Tão bonito este texto, que qualquer comentário estará a mais.

Publicado por: NOITE em abril 14, 2005 08:31 AM

Apesar de ser como diz a Noite, não posso deixar de dizer que li e adorei. Obrigada!

Publicado por: M. em abril 14, 2005 08:43 AM

Muito bom.

Publicado por: Realista em abril 14, 2005 10:47 AM

Quando for grande, quero ter um blog assim!

Publicado por: mondrian em abril 14, 2005 12:10 PM

(não sei o que dizer, não quero estragar esta sensação única com palavras deslocadas. um sorriso, apenas)

Publicado por: Lisa em abril 14, 2005 12:46 PM

Foooda-se!

Publicado por: monstro horrendo em abril 14, 2005 02:08 PM

Bom, Jota, muito bom...

Publicado por: amaga em abril 14, 2005 02:12 PM

Escreve um livro, please.

Publicado por: Nélson Alves em abril 14, 2005 05:05 PM

Outra gralha, Susana:
apontado -» apontando

Publicado por: Realista em abril 14, 2005 05:57 PM

Bem: a Susana e o Curioso estão contratados como revisores d'As Ruínas. :)

Nélson: é uma questão de semanas.

Amaga: é muito bom ter-te aqui nestas caixas.

Um abraço a todos

Publicado por: João Pedro da Costa em abril 14, 2005 06:28 PM

Quase onírico...

Publicado por: vanus em abril 14, 2005 09:25 PM

Obrigada por escreveres JPC. Nitidamente, arruinas-me o amâgo.

Publicado por: maria arvore em abril 14, 2005 10:49 PM

Tu escreves como outros pintam.

Publicado por: sharkinho em abril 15, 2005 12:07 AM

Cheguei por acaso. Ando há muito pouco tempo pela bloggosfera.
Parabéns. Por este e pelo texto da ANA!
A teu registo. Escrito. Fica. obg

Publicado por: maria heli em abril 15, 2005 03:51 PM

JPC: vais ser o próximo lançamento do Paulo Querido? É que se assim for, conta comigo para te ler no papel, ouvindo a minha música.

Publicado por: HFR em abril 16, 2005 03:22 PM

HFR: não me faças perguntas complicadas, tá bem? ;)

Publicado por: João Pedro da Costa em abril 16, 2005 05:45 PM