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abril 06, 2005
Sabores falados
Nasci em Lisboa.
Isto quer dizer que desde que me lembro sempre ouvi falar à minha volta «lisboês». É a minha forma de expressão, um som tão normal, tão natural, tão neutro que corresponde, para mim, directamente ao meu pensamento. São palavras-sons que não existem em si, eu não oiço as palavras, oiço o seu significado. E, de um modo geral, esta sensação não é consciente, não é assunto em que se pense. No nosso dia a dia, comunica-se assim, directamente, com toda a simplicidade.
Mas, por vezes, há uns relâmpagos de luz que atravessam a minha atenção: se oiço uma reportagem na rádio passada na Fuseta, em Viseu, em Serpa, de repente a língua que falam parece outra com outra vibração, outra força. Paro para ouvir. É a beleza dos sotaques.
Aqui há uns tempos, um priminho meu ainda criança, foi passar umas férias bastante alargadas ao norte, em casa de uns avós. Sabemos que as crianças são esponjas, a capacidade de absorver os sinais do mundo que as rodeia é infinita. De modo que à chegada, recebeu-se em casa uma miniatura de um puro nortenho, com o sotaque mais cerrado que se possa imaginar. Lindo! Ficámos a sorrir durante dias!
E isto veio chamar-me a atenção para o importante que é o colorido da nossa língua. Para mim, o que se fala em Lisboa é água. Água da torneira. Bebo-a, e nem a sinto. Não me sabe a nada. Nem dou porque a bebo, afinal é o mesmo líquido com que lavo os dentes. Mas vou ao Porto, a Beja, a Leiria, a Portimão e passa a ser limonada, vinho, chá, um outro líquido cheio de sabor. Mesmo estando à espera, é sempre uma surpresa e, muito, muitíssimo, agradável. Tenho de confessar que fico fascinada quando saio do meu ambiente e oiço falar «outro Português» que me soa, não sei porquê, mais autêntico. Eu é que me sinto um pouco desajeitada, como um pato no meio dos pintos...
Aqui nos blogs, como a linguagem é escrita, perde-se esse encanto. Sei que se cruzam neste ecrã esses tais magníficos modos de falar mas não os consigo ouvir. Sirva-me de consolação o imaginar que isto que acabei agora mesmo de escrever está a ser lido, se calhar, com um sotaque tripeiro...
CLARA
Publicado por João Pedro da Costa às abril 6, 2005 10:17 PM
Comentários
Ô li cô staque lesboete.
Publicado por: derFred em abril 6, 2005 10:26 PM
Ainda vem que não se nota os sotaques por escrito, senão seria bilmente gozado...
Esse teu primito sempre voltou à fala primitiva (ie lisboeta)?
Publicado por: João Pedro da Costa em abril 6, 2005 10:30 PM
Pois é. Passou-lhe. Assim como veio, assim foi. Mas enquanto falou assim, era um encanto. Não é essa história dos Bs e Vs, isso é mais folclore. Do que falo é mais profundo. Era toda uma musicalidade diferente. Uns sons mais guturais de vez em quando, o próprio rolar dos erres. Acho lindo. Mas também acho lindos os outros "falares" todos. Nesse aspecto não sou nada esquisita. Fico fascinada.
Publicado por: Clara em abril 6, 2005 11:49 PM
Pois olha, Clarita: és uma excepção. Normalmente os sotaques são super-estigmatizados (olha a Rute Marques, por exemplo). E depois há os media, que teimam em uniformizar até à exaustão a musicalidade da língua.
Há uma coisa, no entanto, que pode ser detectada na escrita de cada um: as nuances sintácticas. Olha o teu caso por exemplo. Utilizas muito adversativas e eu tenho uma inclinação doentia pelas concessivas. Quando escreves:
«Sei que se cruzam neste ecrã esses tais magníficos modos de falar, mas não os consigo ouvir.»
Eu escreveria:
«Apesar de saber que se cruzam neste ecrã esses tais magníficos modos de falar, a verdade é que não os consigo ouvir.»
O que não é nem mais bonito, nem mais feio (ok, talvez um nada mais feio, LOL). Apenas diferente. Mas marca um estilo, uma espécie de «sotaque ortográfico». Ainda bem que a uniformidade não chegou aqui.
Publicado por: João Pedro da Costa em abril 7, 2005 01:12 AM
Tenho a dizer que me soube lindamente este chá de tília Clara, e que curiosamente cruza lindamente com o conhaque que por vezes aqui costumo vir bebericar
Publicado por: Eufigénio em abril 7, 2005 01:30 AM
E JPC, estimo em ver-te mais calmo
( a sair de mansinho não vá o Diabo tecê-las ... como fez ao pobre do Jorge Morais)
Publicado por: Eufigénio em abril 7, 2005 01:33 AM
Clara,
Fiquei teu fã.
Tens é de deixar este blog o mais cedo possível. Este JP é muito instável, tão depressa me dá beijos, como me trata daquela forma que viste no afixe. Quando ele perceber que as pessoas vêm aqui por tua causa e não dele, vai fazer o mesmo contigo...
Publicado por: Jorge Morais em abril 7, 2005 02:26 AM
Eu sou outra excepção JP. Também gosto imenso da graça do sotaque. Mas sempre ouvi dizer que onde se fala um português "mais puro" é em Coimbra. Apanhando a metáfora da Clara, será que Coimbra é "água engarrafada sem gás"?
Fiquei para aqui a pensar: olha que se este homem se põe a analisar à séria a tua maneira de escrever, tás feita ao bife! Aquilo é um cirurgião de bisturi em punho!
:)
Publicado por: Emiéle em abril 7, 2005 07:38 AM
Eufigénio, chá de tília???
Nem sequer sumo de laranja, ou uma coisa mais afirmada? :(
Paciência. Se é assim que sentes... mas olha que aqui é só a escrita que "se ouve", que como o meu sábio colega fez notar também tem as suas características. ( Tens razão Emiéle, se ele se põe a dissecar o que escrevi, começo a sentir-me mais pequena que sei quê...)
Publicado por: Clara em abril 7, 2005 09:39 AM
Ouço-te então em "lisboês", esse "português" que conheço de ouvir das primas.
Escreves muito bem, e deixaste em mim uma vontade de ir ouvir os outros...
Publicado por: sofia em abril 7, 2005 09:51 AM
Gosto. Falamos a mesma língua e ouvimos com o mesmo prazer as suas variações.
Publicado por: monstro horrendo em abril 7, 2005 11:54 AM
Eufigénio: tás-me a enervar, pá... :))))
Jorginho: LOL.
Publicado por: João Pedro da Costa em abril 7, 2005 02:27 PM
Pois atão, ê cá , li tudinho com um sotaque assim um bocadinho pr'ó arrastado e que carrega nos "éis". Espero que saibas bem do que ê tou a falári, tu ó mocinha de lesboa. ;-))))
Publicado por: Mar em abril 7, 2005 02:27 PM
Se sei, querida Mar! Esse é para mim um dos de maior estimação, porque me relembra as férias da infância. E aí, fazia eu a figura do meu priminho e vinha lá debaixo a dizer que tinha ido "à da nha prima" e que o "lête" de Lisboa não sabia tão bem.
:)
Publicado por: Clara em abril 7, 2005 03:21 PM
Ainda me lembro de que quando eu era puto ia passar férias à Madeira e os miúdos passavam o tempo todo a gozar com o meu sotaque alfacinha. Pelo menos nunca me chatearam por causa dos meus vestidos e uma vez até elogiaram o verniz com que eu pintava as unhas.
Carla, já te disse que gosto bastante de te ler? Que contraste com o abrunho do JPC. E já agora colocava a tua escrita muito mais na categoria de um bom tinto.
Publicado por: PN em abril 7, 2005 03:55 PM
PN, com esta do tinto em vez do chá de tília ( e logo de tília!) já me conquistaste. Tás antecipadamente perdoado da gralha do nome.
Publicado por: Clara em abril 7, 2005 05:18 PM
Como é que é possível eu ter cometido tamanha gralha, peço imensas desculpas. Está visto que carlamente ando a fumar demasiadas coisas maradas.
Publicado por: PN em abril 7, 2005 05:44 PM
Os sotaques, a gastronomia, a paisagem e o clima!
Não conheço outro país que em tão reduzida dimensão seja tão rico na variedade de cores e aromas..., e identidades!
Publicado por: carlos a.a. em abril 7, 2005 06:09 PM
Realmente, chá de tília? anda para aí um gajo a passar por mim e a largar ofensas por todo o lado ...bahhh, esta blogotrolitada está cada vez pior. Eu, Eu...Eufigénio Lagoa, depois de um gargarejo prolongado afirmo veementemente que é a medronho que sabe, e do de monchique, lá da quinta dos tios. (e prontos, vamos lá ver se é desta)
JPC, ganda cortes, a pôr os ":)))" no fim. Isso é por causa do meu 1,95m, é?
Publicado por: Eufigénio em abril 7, 2005 06:45 PM
Gostei muito do texto. Eu cá sou da água engarrafada que não sabe a nada de Coimbra, mas com resquícios nortenhos sem dar por ela.
(nota para o PN - muito andas tu a falar em verniz das unhas; é fetiche? ;))
Publicado por: 1poucomais em abril 7, 2005 07:39 PM
também gostei muito, clara; sabe bem para variar da escrita intrincada e ininteligível do jota pê... podia agora dizer que a tua é límpida e fresca como a água de que falas, mas soaria um bocado foleiro.
ó joão pedro, hoje não escreves? acho que a clara vai tomar conta das ruínas, por este andar tu ficas só com a circularidade.
Publicado por: susana em abril 7, 2005 07:53 PM
Susana, foste muito, muito amável e sabes que também gosto muitíssimo de te ler no Afixe. Não tenho sido muito de comentar ( mas vai passar-me a timidez) Mas apesar de gostar dos elogios, acho que não estás a ser justa com o nosso João. Como disse no post inicial, achei que me tinha saído a sorte grande quando para cá vim, porque gosto muito dele em todos os aspectos. Escreve, desenha, tem humor, comenta música, cinema, literatura… Sabes que me inibe um bocadinho…?
Também espero que vá passando a inibição com o tempo.
Até porque sabe muito bem ler o que vocês têm escrito.
Publicado por: Clara em abril 7, 2005 08:59 PM
Olha Clara, vim aqui às Ruínas porque está um sossego. No Afixe não se pode estar: os comentários levam horas a entrar e eu e a Isabel já andámos à batatada com os homens do blog, porque por magia os comentários deles entram!!
Já vi que tens sido bem recebida. :)
Dizes que escreves devagarinho, mas quando mandas outro? É que a gente habitua-se.
Publicado por: Emiéle em abril 7, 2005 10:21 PM
Pois é, Emièle, sabe bem vir aqui ao Ruínas e poder ler um post refrescante como o da Clara.
Clara, gostei muito.
Eu sou mais daqueles lados do "mê pai"; da " nha mãe"; do "fêjao"...
Mas já tou há tantos anos em Lisboa que já quase esqueci as origens.O "lisboês" já se tornou a minha língua oficial.
Publicado por: isabel em abril 8, 2005 12:10 AM
(tamãe nachi em l'jboa)
tal como tu, clara, gosto de ouvir todas as melodias que por cá se falam. que tédio seria, um portugal monocórdico.
Publicado por: Mi em abril 8, 2005 02:48 PM
Eu falo em dialecto charquinhês com pronúncia marítima. E na bebo água da tornêra nem chá de tília, carago!
Publicado por: sharkinho em abril 8, 2005 03:17 PM
Ê nã gosto nada de lête Clara por isso nem falo neli neim nada. ;-)))
Publicado por: Mar em abril 8, 2005 03:22 PM
Mi, com essa pronúncia já me aproximo da "água". Isso é o que "todos" dizem, não é? :)
Mas o João Pedro tem razão quando diz que os media uniformizam tudo. E a verdade é que o uniforme é o da capital.
Publicado por: Clara em abril 8, 2005 05:07 PM
Eu também sou da terra da "água", embora tenho ido novo para o norte. Neste momento arrisco-me a ouvir coisas assim: "O gimbra azoigou e foi atupido no poio das tanarifas", e com um sotaque que nem vos digo.
Publicado por: curioso em abril 8, 2005 07:42 PM
Se consigo acertar, estás na Madeira, é verdade?
Madeira e Açores (S. Miguel é pior que as outras ilhas) então são o máximo! Aí, é mesmo outra língua.
Publicado por: Clara em abril 8, 2005 09:53 PM
Clara:
Acabei de informar o João Pedro da Costa do que acho justo dizer-lhe a si:
Não consigo entrar na caixa de comentários do seu texto sobre a cor das vogais.
Ainda bem porque tive de vir à sua procura e pude ler outras coisas.
Disse ao João pedro da Costa que depois de a ler resolvi convencer os meus colegas e amigos de blog a linkar as ruínas. Nunca apreciei a coluna de links que lá temos mas quando conseguir linkar um blog com textos como os seus, será a primeira vez que vou olhar para a mesma coluna com satisfação.
Publicado por: patricia em abril 11, 2005 01:35 PM
Yep. Madeira!
Publicado por: curioso em abril 11, 2005 06:05 PM