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abril 17, 2005
Um caderno de capa castanha
E ela, então, olhou-me com um pequeno sorriso:
«Sabes, Clara, muitas vezes penso que devia escrever as minhas recordações. Chamar-lhes memórias seria muito presunçoso, se calhar. A verdade é que me lembro com muita nitidez da minha vida de criança e, para vocês, isso são “cenas da vida privada” como se estuda nos livros de sociologia. Repara bem, eram os anos 40, o século ainda nem tinha chegado a meio.
Mas sabes o que me levou a pensar mais a sério em começar a escrever? Foi ter encontrado, quando desmanchei a casa depois da morte da minha mãe, um caderno da capa castanha, um velhinho “Caderno de Apontamentos”, ainda dos que diziam Havaneza das Avenidas e a respectiva morada. Era apenas um caderno escolar, como os dessa altura, já amarelado, grosso, com cerca de 100 páginas. Tinha uma data na primeira página, a data do meu nascimento.
Sabia que ele existia, tinham-me contado, mas a verdade é que nunca o lera. Aquele caderno era o Diário do meu primeiro ano de vida. Consegues imaginar a emoção de ler, escrito com a letra do meu pai que também já não existia, o que ele tinha sentido quando olhou para mim a primeira vez?
Fui concebida no início da guerra, porque nasci em meados de 40. Sabes que penso que foi como um desafio dos meus pais, desafio à vida. O oposto ao aberrante grito de Viva la muerte na época ainda muito recente.
Naquela altura já existia a Maternidade, mas eu nasci em casa. Em casa da minha avó, ali nas Avenidas Novas. O prédio ainda lá está, com uma porta de ferro forjado desenho Arte Nova. Mas, como te estava a contar, a primeira folha era escrita pelo meu pai, apesar de todas as outras páginas já o serem pela mão da minha mãe. Na primeira estava registada a data e 10 da noite. Dizia “este foi um dia de inquietação e de esperanças”. Relembrava a chegada da parteira e contava como ele tinha ido para a rua. Olha que caminho se percorreu nestes sessenta anos… Hoje, o parto pode quase ser em comum. O pai ouve o primeiro som do seu bebé ao mesmo tempo que a mãe. Mas isso não passava pela cabeça dos meus pais, ele ali “só atrapalhava”. Começou então a subir e descer a rua olhando para a luz da janela. Já viste isso em filmes, não é? E estava ali no meu caderno, como subiu a correr a escada quando a luz se apagou e acendeu, a dar o sinal. E eu pude ler: -Tinha nascido uma menina! Anos mais tarde, fiquei com a certeza de que primeiro se tinha desejado um rapaz, mas naquele momento o que ali estava era de pura alegria, esquecida a possível desilusão.
No dia seguinte começa a narrativa da minha mãe. Uma linguagem muito romântica, mas recheada de pormenores por onde se podia seguir o meu dia a dia. Escrevia na cama, porque apesar de ter sido um parto fácil a minha mãe só se levantou passados 10 dias. E nota que era um casal desempoeirado, os dois licenciados, de esquerda… Mas era assim naquela altura. E começaram os pormenores: Pesavam-me todos os dias cheios de preocupação com o aumento de peso. Podia seguir a curva. E depois um dia sorri. Está lá! O dia certo e para quem sorri – afinal para a minha avó! Mas sabes bem que sempre adorei a minha avó. E também, rigorosamente, tudo que comia. Dia a dia. Imaginas o que é acompanhar o crescer de um bebé durante um ano, todos os dias?
E a disciplina rigorosa que se usava na época. Horas certas de comer, horas certas de dormir, horas certas de tomar banho e vestir. Está lá tudo. Um amor enorme mas nada de beijos por causa dos micróbios. Havia tuberculose, como sabes, e ainda não existiam antibióticos. Qualquer infecção podia ser grave. Tinha bordado por cima do berço “Se és meu amigo, não me beijes”. Li nas entrelinhas do Diário que isto não foi bem aceite pelas avós.
E esta narrativa diária durou os 12 meses. O caderno termina com a minha primeira festa de anos, e a lista das prendas recebidas. Muitas prendas, mas brinquedos só 3. Um cãozinho de pano azul, um sempre-em-pé e um boneco de borracha. Também era o costume da época, vês? Ficariam de boca aberta se vissem a quantidade de brinquedos de uma criança de hoje. Quando li aquelas cem páginas, numa letra inclinada, reparei como era um testemunho tão real, tão vivo de uma época e dos seus costumes.
É boa ideia, não é, eu escrever também o que me lembro de quando era criança? Se calhar ensaio antes de escrever, contando-te primeiro a ti. Está bem?»
Publicado por Clara às abril 17, 2005 11:35 AM
Comentários
Vocês estão bem um para o outro. E o blog duplica-se.
Publicado por: horrendo AdamastoR em abril 17, 2005 12:13 PM
:)
Obrigada, Adamastor.
Com o apreço que tenho pelo João, fico extremamente feliz com a tua opinião.
Publicado por: Clara em abril 17, 2005 12:41 PM
Não podia concordar mais com o adamastor. Uma fusão muito interessante entre a tua inteligência, sensibilidade, sabedoria e beleza com as dúvidas existenciais sobre detergente do coelhícida do JPC.
Publicado por: PN em abril 17, 2005 02:15 PM
Há neste teu texto, Clara, uma polifonia de vozes que me deixa estonteado. Tudo muito no sítio, tudo muito afinado sob o mesmo compasso.
Já conhecia os cadernos vermelhos e azuis do Paul Auster - agora fiquei a conhecer este castanho. ;)
Publicado por: João Pedro da Costa em abril 17, 2005 02:35 PM
Sabes que me lembro em casa da minha avó de um caderno tal e qual como esse, onde estavam as receitas da minha bisavó. Também dizia Havaneza Camões, ou coisa assim, de depois da morada Papelaria-Tabacaria-Lotarias. Fez-me cá umas saudades. ( Havia muitas Havanezas nessa época!:))
Deixaste uma porta aberta para continuares com estas histórias. Por mim, desejo muito que o faças. Fico mesmo à espera.
Parabéns ao blog.
Publicado por: Paulo em abril 17, 2005 02:38 PM
A meio caminho entre uma história e um testemunho. E estes testemunhos são muito importantes, Clara. Não os podemos deixar escapar. Arrepiei-me também com o "Viva la muerte!" porque há muito quem nem saiba o que era esse grito e quem o soltava.
São memórias importantes. Ainda bem que as deixas aqui, mesmo que seja num blog que é de leitura tão passageira. Alguma coisa fica.
A guerra civil de Espanha foi ontem.
Publicado por: Emiéle em abril 17, 2005 03:10 PM
Sim, está bem!
Podes sempre partilhar connosco essas histórias. Só não sei o que diremos quando gastarmos os elogios. :)
(podem-se repetir?)
Publicado por: cap em abril 17, 2005 03:49 PM
Olá.Quem me recomendou os seus textos foi a Patrícia.É a primeira vez que faço uma leitura atenta das ruínas circulares.Acho que a Patrícia teve razão em algum do exagero que aqui deixou.Quanto ao seu texto de hoje,em mim, só começou a funcionar no antepenúltimo parágrafo-"se é meu amigo não me beije".Foi como se(em mim)todo o texto estivesse só à espera daquele episódio para ganhar sentido, para se tornar verosímil, independentemente da história ser verídica ou não.Não acho que todos aqueles que encontrem o tal caderno castanho devam reproduzi-lo por escrito para que outros leiam.Obviamente arrisco-me(com todo o gosto, o do risco) a que me digam o mesmo.No entanto, senti que o caderno é capaz de estar em boas mãos.Peço desculpa por ter ocupado tanto espaço.Pode chamá-lo de acto exibicionista mas, daqui para frente, penso que conseguirei, ainda que seja difícil, ser mais sintética e mais discreta na minha (apenas minha)opinião.Obrigada.
Publicado por: catarina em abril 17, 2005 03:56 PM
Respondendo por aqui acima a alguns comentários: Cap, cá por mim se é de elogios que se trata podes sempre repetir. Não se gastam, como as borrachas de apagar. Quanto ao João, essa sensibilidade auditiva encanta-me, pretendi, como adivinhaste, reflectir os sentimentos de várias pessoas. Pelas tuas palavras, consegui!
Quanto ao Paulo, e outros leitores, se pensam assim, então de vez em quando volto aos cadernos castanhos. :)
Publicado por: Clara em abril 17, 2005 04:14 PM
Castanhos, azuis, de capa vermelha, folhas soltas, o que que que seja, se fôr para nos encantares e arrepiares com esta escrita tão limpa, tão "falada" como diz o João. Muito bonito, Clara ;-)
Publicado por: Mar em abril 17, 2005 05:14 PM
Estou como a mar, se for para nos falares assim, depois do castanho podes passar para todas as outras cores, que vamos cá estar ávidas de te ouvir.
Publicado por: isabel em abril 17, 2005 05:27 PM
Está tudo dito, Clara. Parabéns. Eu continuo, aqui, no meu cantinho, à espera de outros cadernos.
Publicado por: curioso em abril 17, 2005 06:08 PM
Voltando atrás, reconheço que este tipo de texto não dá para grandes conversas a não ser o "gostei" ou "não gostei". Quanto ao que disse a Catarina, eu entendo-a. Eu não quis insistir no toque verídico da história, mas numa soma de sentimentos. Porque esta história é como um puzle com várias peças que podem construir este escrito ou outro diferente usando as mesmas peças.
Como disse acima a Emiéle, isto pretende também ser um testemunho. Eu vi-o assim.
E fico contente que a malta que passa por aqui e conhece a qualidade da escrita do João Pedro se tivesse manifestado de um modo tão simpático comigo. Para mim tem muito valor.
Publicado por: Clara em abril 17, 2005 06:52 PM
oh Clara, não sejas tão modesta. não tarda e será o João a pedir autorização para escrever cá. :-)
Publicado por: ding em abril 17, 2005 08:21 PM
Gostei muitíssimo, Clara. Recordou-me uma caixa cheia de cartas antigas que encontrei, e que ainda não li (quero descobri-las aos bocadinhos). Acho que é uma belíssima ideia escrever essas memórias de infância. Se de vez em quando forem trazidas aqui, ficamos nós todos a ganhar :)).
Publicado por: 1poucomais em abril 17, 2005 08:38 PM
Tens razão, Azul, as cartas ou postais ( muitos postais se escreviam dantes!!!) antigos são mesmo uma fonte de modos de encarar o mundo e a sociedade diferente da nossa mas muitíssimo interessante. Também tenho cartas e postais que me parecem preciosos. Todos devemos ter para aí uma costela de sociólogos da família...
(quando digo diferente não é nenhum juízo de valor; há valores que permanecem, outros mudam, por vezes mudam apenas por fóra ou então mudam radicalmente)
Publicado por: Emiéle em abril 17, 2005 09:20 PM
cadernos, outras memórias, dizeres, músicas, pequenas histórias, este blog está cada vez melhor :-)
Publicado por: Sofia em abril 17, 2005 10:53 PM
:)
Publicado por: Clara em abril 17, 2005 11:46 PM
pois é, clara, eu também gostei. mas olha que quando eu era pequena, se recebessemos três brinquedos no nosso aniversário, seria uma grande sorte. as crianças dantes não eram inundadas de tralha, até porque os brinquedos eram caros em proporção com o resto, quase de luxo. e eu só nasci nos anos sessenta... tu deves ser mais nova.
Publicado por: susana em abril 17, 2005 11:57 PM
Por um lado estás cheia de razão, Susana, o aumento de oferta de brinquedos tem aumentado numa proporção geométrica... E de ano para ano se verifica isso, mesmo crianças de famílias com grandes dificuldades, têm uma quantidade de brinquedos surprendente.
Mas acho que depende também muito do plano educativo de cada família. E há uma novidade de então para cá. No caso de que fala a Clara, como era apenas um ano, só lá deviam ter ido adultos; mas meninos de 4 ou 5 anos que fazem festas com colegas de infantário e meninos filhos de amigos, cada convidado leva uma prenda. Mais a dos pais, avós, tios, padrinhos, é fácil no final do dia do seu 4º aniversário ele estar rodeado de 20 brinquedos novos! Não é pedagógico, mas é o que se vê.
Publicado por: Emiéle em abril 18, 2005 06:16 AM
Vim ter a este blog através do Afixe. Comecei a ler há um bom bocado e ainda nem acabei... Estou encantada. Quanto a escrita, não sei qual de vocês escreve melhor, se o João se a Clara.
Este texto da Clara deixou-me muito comovida. Foi escrito com tanta emoção que isso transparece ao longo do post todo.
Só posso dizer "Obrigada, Clara!"
Publicado por: Gui em abril 18, 2005 09:57 AM
Nunca são demais os testemunhos desses tempos.
Gostei muito deste post. É doce sem pieguice. "Vê-se" muito bem o mundo desse tempo.
Publicado por: Zé em abril 18, 2005 10:09 AM
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Publicado por: military schools em junho 10, 2005 09:34 PM