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maio 30, 2005
American Music Club #5

UNITED KINGDOM (1990) não é bem um álbum de originais dos American Music Club: é uma colectânea onde se reúnem outakes de CALIFORNIA (1988), B-sides, e três canções gravadas ao vivo. O que, à partida, poderia ser indicador de um disco menor da banda, acaba por se revelar um dos seus maiores trabalhos, no qual as nove canções do alinhamento formam um conjunto uno e coeso (tem piada, porque estou-me agora a lembrar que o meu álbum favorito dos Smiths, HATFUL OF HALLOW de 1985, possui características editoriais muito semelhantes às deste disco).
O tema que vos deixo aqui intitula-se «Never Mind», e é uma das mais assombrosas canções de Mark Eitzel, aqui captada ao vivo. Para além da voz de Eitzel (jamais alguém cantou a palavra «ever» de forma tão arrepiante como ele a canta aqui), gostaria de vos chamar a atenção para os versos finais da canção: «Guess I can learn to stay / With those who understand: / They play the game to win / With a loosing end». Assim, até parece simples, não é?
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
NEVER MIND (Mark Eitzel, 1990)
You wonder what I want from you
Never mind
You wonder why I say the things I do
Never mind, never mind
You wonder: «Would I waste my time
Looking for and never find?»
You wonder what I see in you
Never mind
Guess I could learn to stay
With those whose lives are gold
Play their game for the end
For the cold
You say «Admit to all these words»
Never mind
That I've got no conscious for this world
Never mind, never mind
You say that there's no love
That I could ever find
Okay, well I just waste my time...
Guess I could learn to stay
Who those who barely live
Their poor eyes only take
They never give
To all your arguments and threats
Never mind
Your hidden motives and regrets
Never mind
It doesn't matter to me what you keep
Or what you leave behind
If you're a coward and you're blind
Never mind
Guess I could learn to stay
With those who understand
They play the game to win
With a losing hand
Publicado por João Pedro da Costa às 08:44 PM | Comentários (13)
maio 28, 2005
American Music Club #4

EVERCLEAR (1991) é o disco que a doxa elegeu como obra-prima dos American Music Club e aquele que daria o momento de maior popularidade à longa carreira de Mark Eitzel: alguns meses após o seu lançamento, uma revista tão mainstream como a Rolling Stone não hesitaria a considerá-lo o melhor compositor americano do ano.
O quinto disco dos AMC, apesar de não ser o meu favorito, é um dos mais equilibrados da discografia da banda e é, sem dúvida, o mais sombrio. O tema que aqui vos deixo, «Why Won't You Stay?» foi o único do álbum que os AMC tocaram no concerto da Casa da Música. Ouvi-lo foi como se toda aquela estrutura desabasse sobre os meus ombros: se não é impunemente que um gajo ouve um requiem como este, imaginem só o que será escrevê-lo.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
WHY WON'T YOU STAY? (Mark Eitzel, 1991)
Will this night fulfill all our promises
And bury us in peace?
Will it leave us free and forgetful
Or at least bring some sleep?
Your eyes don't catch the little things
As they narrow on your fall
I'm checking your pulse 'cause you're so quiet
I'm kissing you but you don't feel it
Why you do this to me?
Showing me that all I'm good for
Is to watch you sleep
As lifeless as an angel
She was the most beautiful cloud
That ever passed before the face of a girl
Seems like nothing's too good for this life
Yeah, some things are too good for this world
And our names and our faces
Well they're just spare change
In memory of a soul
Kept dropping spare change
Why won't you stay?
In memory of a little girl
Who was far too much in love with the world
And who really didn't wanna stick around for the end
Why won't you stay?
Publicado por João Pedro da Costa às 02:08 PM | Comentários (10)
maio 27, 2005
O meu café: breve introdução ao seu peculiar ecossistema
Se há um hábito em mim que abomino em absoluto (não, não é esse) é o de ser frequentador assíduo de um café. Há mais de cinco anos que essa cena dura. Toda a gente me conhece e me cumprimenta de mão quando chego. O dono do estabelecimento, por exemplo, faz sempre questão de tentar adivinhar
- Meia de leite e uma torrada?
- Um café e um copo d'água?
- Um fino?
aquilo que pretendo consumir (lixado é quando ele acerta e eu sou obrigado a pedir algo que não me apetecia nada tomar, tudo para evitar que ele um dia me atire um por mim muito temido: «É o costume?»). Sei que haverá por aí gente que adora essas frescuras: eu acho-as deprimentes. A verdadeira emancipação será, para mim, um estado civilizacional no qual eu jamais frequentaria o mesmo café duas vezes. Adoro entrar num local pela primeira vez e observar os clientes ou estar atento à forma como eles me observam com olhares do tipo
- Olha-me este paneleiro.
ou então
- Valha-me Nossa Senhora.
O café que frequento fica a uns míseros vinte metros da minha casa. É um local sinceramente cinzento e sombrio, mas essa proximidade somada ao facto de lá haver os jornais do dia, fez de mim um assíduo e «bom» cliente, o que, na peculiar taxonomia dos gerentes de estabelecimentos comerciais, quer dizer que sou alguém que não faz ondas e que deixa lá o seu dinheiro com uma assinalável regularidade.
Nesta minha rotina (a todos os títulos lamentável) consegui, não o nego, conhecer personagens fascinantes. Há, por exemplo, um toxicodependente cheio de urbanidade que todos os dias me crava um cigarro como se o fizesse pela primeira vez; uma senhora que vai lá diariamente tomar café com umas pantufas cor-de-rosa e uns rolos fosforescentes na cabeça; uma miúda triste e giríssima que jamais se digna a olhar para mim; um puto muito gordo que cobiça com olhares de criança faminta tudo aquilo que um gajo esteja a comer; ou então um GNR que possui o dom de se afundar em melancolias melosas sempre que o televisor do café está sintonizado na RTP Memória.
Nesta galeria felliniana, há contudo duas pessoas que se destacam das demais. A primeira delas é um senhor de idade, impecavelmente vestido, que, já deu para perceber, é sempre o primeiro cliente do café. O que o torna inverosímil é o facto de ele, todos os dias, se entreter a preencher, na horizontal, as palavras cruzadas de todos os jornais do café

com o alinhamento de antigas equipas do FCP, maribando-se para as indicações de preenchimento das mesmas. Há cerca de meio ano que colecciono (graças a um comprometedor acordo com o dono do café que, eu sei, irei pagar um dia com um preço elevado) as ditas grelhas e as arquivo numa pasta verde, não sei muito bem porquê. Como é óbvio, esse seu exercício lúdico já correu com três ou quatro clientes que possuíam ilegítimas veleidades em relação aos referidos passatempos. Cheguei a assistir a várias queixas
- Ó senhor Bruno, quem é o palhaço que anda a estragar as palavras cruzadas?
- Esta merda é uma pouca-vergonha, carago.
mas o dono do café é um mestre na complexa combinação das artes do negócio e da diplomacia: se o prevericador for um «bom» cliente (ver taxonomia), então ele é sempre merecedor de uma intensa e inabalável compreensão. E eu até fico contente, senão lá se ia à vida a minha primorosa colecção.
O segundo cliente que se destaca dos demais é o maior chato que me foi dado a conhecer em toda a minha vida. O tipo é um funcionário da AMERICAN EXPRESS (ele vai sempre ao café com a sua farda pimpona), tem cerca de quarenta anos, e é, muito provavelmente, o mais profissional «mete-nojo» do planeta. Como nem eu, nem a maioria dos residentes da mui nobre freguesia de Canidelo, possui a

em casa, é habitual haver enchentes no café para assistir aos jogos transmitidos em exclusivo pelo canal. É bom de ver que somos todos uns portistas doentes a necessitar urgentemente de tratamento hospitalar (eu nem ligo muito ao futebol, mas quando entro naquele café sou de imediato invadido por uma onda pouco saudável de fanatismo clubístico). Pois bem, o tal funcionário da AMERICAN EXPRESS costuma estar sempre lá a ver os jogos, mas, pormenor essencial, ouve os relatos a partir de um daqueles rádios portáteis que são parte integrante de uns bonés muito pirosos. Ora, não sei se sabem que, devido à descodificação do canal, existe um assinalável delay (qualquer coisa como 3 ou 4 segundos) entre o tempo real do jogo e as imagens que são transmitidas em «directo» na Sport TV. Ou seja: graças ao relato, o cabrão daquele palhaço da merda consegue sempre saber, com uma irritante antecedência, quando é que há um golo. Festejar um golo, naquele café, é algo parecido com:
(Funcionário da AMERICAN EXPRESS): Goooolo!!!
(Outros clientes): Como? Golo? Quem é que marcou?
...
(3 segundos de silêncio tenso)
...
(Os restantes clientes em uníssono): GOOOOLO!!!
Isto torna-se particularmente irritante para mim, porque não consigo ignorar a omnisciência do gajo. Quando há um lance perigoso, como um livre ou um penalti, não consigo sentir aquele frenesim tão agradável da expectativa, pois estou sempre a ver se o palhacito salta da cadeira a gritar «Golo». Se, no momento do arranque do jogador X ou Y para a bola, o funcionário da AMERICAN EXPRESS ainda estiver em silêncio, já sei que o lance irá dar em nada. Ou seja: desaparece 99% da piada que é ver um jogo de futebol na televisão. Já tentei várias vezes chamar aquele ser humano à razão, mas em vão. O tipo responde sempre com máximas do género:
- Estamos num país livre.
ou
- O rádio é meu.
e até já ouvi um
- Vai-te mas é foder.
Nos últimos dias (vejam só ao ponto a que chegou o meu desespero), até tenho sonhado com o gajo. Imagino que ele me segue por toda a parte munido do seu boné e respectivos auscultadores e que, como por artes mágicas, consegue adivinhar, com 3 ou 4 segundos de antecedência, o que me irá acontecer. Se ouço o gajo a dizer «Bem feita!», sei que, poucos segundos depois (e sem que possa fazer nada para o impedir), algo de muito chato me irá acontecer, tipo dar-me um ataque de diarreia ou cair-me um vaso em cima dos cornos. A sério, é uma angústia filha da puta. Tudo isto é particularmente enervante e eu, que me considero um gajo pacífico, sinto que, qualquer dia, ainda lhe vou às trombas. O problema é que, com aquele maldito delay, o gajo é bem capaz de se desviar a tempo.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:40 PM | Comentários (97)
Post Carlsberg

Já que estou com a mão na massa, não resisto em enfeitar estas ruínas com aquela que é a minha canção favorita de Mark Eitzel. É retirada do disco CAUGHT IN A TRAP (1997) e intitula-se «Xmas Lights Spin».
É, muito provavelmente, a melhor canção do mundo.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
XMAS LIGHTS SPIN (Mark Eitzel, 1997)
Well haven't you seen that big sign
Over on First and Seventh that says
With words ten feet high and made of teeth
«Oh reason not the need»? And underneath
Is a man doing an imitation of Satan
But there is nothing evil in him
He was just another saint that was made broken
Next to an old doorway
With a dark history of being left open
Saint Nicholas left your toys again behind at the bar
A silver gun, some dollar bills, a lump of coal
And wolves howling at your door
A ceiling full of inflatable worlds
And Xmas lights that spin all year round
The question is always bigger than the answer
It takes a nurse to ease you into your surrender
As she smiles 'cause she knows you won't remember
Things you should only be telling your mother
As she counts you down your drowned soul
Tired and hard, defeated and getting mean
And what's worse: the humiliations of a good time
Or slipping into the routine?
Or for you is it all the same thing?
Saint Nicholas left your toys again at the bar
A silver gun, some dollar bills, a lump of coal
Wolves howling at your door
Most people want to inhabit their lives
Like ghosts and drift from room to room
And brag about what imprisons them
And wait for the sweep of a broom
And written in the dust beneath your drink
It says «Deadness needs nothing to justify it»
Like the ache that's crawling through your chest
Needs nothing to amplify it
For years you wore the crown
Now the wolves are hunting you down
And you're dead serious in your face
You're dead serious, now want someone to see you
Saint Nicholas the wolves all believe you
Saint Nicholas the wolves all believe you
Publicado por João Pedro da Costa às 12:19 AM | Comentários (15)
maio 26, 2005
American Music Club #3

E assim, dez anos após SAN FRANCISCO, os American Music Club voltam a editar um disco: o magnífico LOVE SONGS FOR PATRIOTS (2004). Nesse intervalo, Mark Eitzel deu asas a uma muito recomendável carreira a solo, editanto álbuns seminais como 60 WATT SILVER LINING (1995), WEST (1996), CAUGHT IN A TRAP (1997), THE INVISIBLE MAN (2001) ou ainda um iluminado disco de versões intitulado MUSIC FOR COURAGE & CONFIDENCE (2002). No entanto, a primeira coisa que se nota ao ouvir o disco (e que o concerto da Casa da Música confirmou) é o facto de ninguém como os outros quatro elementos da banda ser capaz de moldar de forma tão sublime o caos e a raiva das canções de Mark Eitzel, ainda que, por vezes, essa mesma tensão nos surja ocasionalmente disfarçada sob um (falso) manto de acalmia sonora. Ninguém diria que estes rapazes não tocavam juntos há cerca de dez anos, tal é a alquimia que se sente entre todos os membros da banda em qualquer uma das quatorze canções que formam este sublime disco.
O tema que vos deixo, «Myopic Books», é aquele que, nas digressões da banda dos dois últimos anos, costuma fechar o alinhamento dos concertos. No da Casa da Música, Danny Pearson deixou o baixo e juntou-se a Tim Mooney na bateria num dos momentos mais altos e mágicos da noite. A versão de estúdio também é lindíssima e a letra, para variar, é digna dos mais eloquentes anais.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
MYOPIC BOOKS (Mark Eitzel, 2004)
One day I left my room in the evening
It was freezing, a sidewalk shining
But it was okay - I wasn't lonely
I wasn't no one, I was just hoping
for a bookstore like the one I prayed for
and the music they'd play there would be Dinosaur Jr.
and the people who worked there would be super skinny
and super unfriendly - and that would make me happy
That would make me happy
And what really kills me is I'm only lonely
when I talk to you, yeah I should have told you
I just can't handle your endless sorrow
All I wanted from you was some tomorrow
But it's okay - I'll find a bookstore and buy Saul Bellow
and one about old ruins for my mother
You never met her - she liked Manhattans
They taste like mouthwash
She understood how to be alone, all alone
All alone
(Maybe the worst is over...)
One day I left my room in the evening
The sun had just gone down, but the sky was still shining
and not even the stars out, up in their heaven,
could throw their ashes on the blue still burning
over this ugly city - and that makes me happy
and that makes me happy
and that makes me happy
that makes me happy...
Publicado por João Pedro da Costa às 06:00 PM | Comentários (13)
maio 25, 2005
Post à janela

Publicado por João Pedro da Costa às 04:42 PM | Comentários (36)
maio 24, 2005
American Music Club #2

O álbum CALIFORNIA (1988) marca a entrada dos American Music Club na idade adulta. Após um primeiro disco renegado pelo próprio Mark Eitzel (THE RESTLESS STRANGER, 1986) e de um segundo álbum (ENGINE, 1987) onde já se começava, aos poucos, a vislumbrar o talento do trovador americano, CALIFORNIA é o primeiro disco da carreira dos AMC que eleva a fasquia para o nível que viria a fazer deles a banda norte-americana mais importante dos últimos 25 anos.
CALIFORNIA é, também, o disco mais amado pelos fãs da banda e aquele que terá deixado mais lastro em outras bandas, nomeadamente nas que viriam a formar o movimento «sadcore» da década de 90 (Idaho, Red House Painters, Swell, Grant Lee Buffalo, etc...). Não é por isso de estranhar que, nos anos seguintes à sua edição, o álbum se tenha transformada numa espécie de nemesis contra a qual os AMC e o próprio Mark Eitzel na sua aventura a solo tiveram de lutar (no concerto da Casa da Música, os AMC apenas tocaram dois temas do álbum, o que, tendo em conta a importância de CALIFORNIA na discografia da banda, é manifestamente pouco).
O tema que vos deixo aqui é uma das canções mais emblemáticas de Mark Eitzel e dos seus AMC: chama-se «Western Sky» (um pastiche de «Nothern Sky» de Nick Drake) e, entre as suas inúmeras virtudes, conta-se a de conter dois dos mais belos versos jamais escritos para uma canção pop: «I won't see you no more / Mmh, who am I to rate that high?». Está, na boa, no TOP 5 das minhas canções favoritas de todos os tempos.
[O ficheiro esteve disponível nas 24h seguintes à publicação do post.]
WESTERN SKY (Mark Eitzel, 1988)
Time for me to go away
I'll get a new name, I'll get a new face
Time for me to go away
No, I don't belong in this place
But I'm not gonna ask you why
You think the parade has passed you by
Or if everything good is gone into the western sky
I hate to see you look that way
All the beauty has left your face
That's such an easy thing to give away
That's impossible to replace
So I'll take you in my two weak hands and I'll throw you so high
Just to watch you fall forever, forever in the western sky
And when you land you'll turn, you'll turn into some kind of prize
Into somebody's sweet prize
I won't see you no more...
(Mmh, who am I to rate that high?)
The world's a shadow of what went before
The world gives off none of its own light
So please be happy baby and please don't cry
Even though the parade has passed us by
Well you can still see it shining in the western sky
Publicado por João Pedro da Costa às 12:19 AM | Comentários (31)
maio 23, 2005
American Music Club #1

«Johnny Mathis' Feet» é uma canção retirada da obra-prima dos American Music Club: MERCURY (1993). Este álbum marca o zénite na arte de compor de Mark Eitzel e representa, sobretudo, o momento em que a banda prova, pela primeira vez, estar à altura das suas canções: os arranjos são inatacáveis e a produção e a mistura do disco consegue resgatar as músicas do seu estatuto «low-fi». MERCURY não é apenas o melhor disco dos AMC: é um dos maiores de toda a história da pop. Um clássico absoluto.
O tema em concreto (que já foi objecto de uma versão por parte dos Divine Comedy) é bem característico da fina ironia de Mark Eitzel: uma falsa elegia à única voz masculina que conseguiu rivalizar com Sinatra em termos de popularidade na década de 50 e 60. Mathis é o negativo absoluto de Eitzel: o cantor polido, glamouroso e, mais importante ainda, um dos mais perfeitos exemplos de sucesso da canção ligeira norte-americana. O diálogo entre os dois, e o paternalismo de Mathis em particular, é das coisas mais sublimes que Mark Eitzel alguma vez escreveu. E foi um dos momentos altos do concerto dos AMC na Casa da Música.
[O ficheiro esteve disponível nas 24 horas seguintes à publicação do post.]
JOHNNY MATHIS' FEET (Mark Eitzel, 1993)
I laid all my songs at Johnny Mathis' feet
I said «Johnny, Johnny tell me, can you tell me how to live?
All my hopes are unravelling and I just lost my lease
On my house without love, doors or windows - without peace»
And with a wave of his jewel-encrusted hand
Across a glittering Las Vegas scene
He said: «You've got to learn how to disappear
In the silk and amphetamines.»
Johnny looked at my songs and he said: «Well, at first guess,
Never in my life have I ever seen such a mess...
Why do you say everything as if you were a thief?
Like what you stole has no value, like what you preach is far from belief?»
And with a wave of his red, white and blue hand
Across a glittering Hollywood scene
He said: «You've got to learn how to disappear
In the silk and amphetamines.»
Johnny looked at my old collection of punk rock posters
Anonymous scenes of disaffection, chaos and torture
And he said: «You are on the right track, but you're a lamb jumping for the knife»
He said: «A real showman knows how to disappear in the spotlight»
Publicado por João Pedro da Costa às 11:22 PM | Comentários (9)
American Music Blog
Como forma de celebrar o magnífico concerto que os American Music Club deram ontem na Casa da Música, As Ruínas Circulares irão ser nos próximos dias totalmente dedicadas à banda mais maravilhosa do universo. Diariamente, eu e o derFred seleccionaremos uma canção do vasto reportório de Mark Eitzel & Companhia para V. Ex.ªs ouvirem. Se, no final da semana, tivermos convertido pelo menos um leitor d'As Ruínas à música dos AMC, já nos daremos por satisfeitos. O amor é assim: uma cena cega e louca.
Publicado por João Pedro da Costa às 10:13 PM | Comentários (14)
maio 21, 2005
Uploading Sessions #26

Amanhã à noite, infinitamente mais importante do que a última jornada do campeonato nacional de futebol, será o concerto dos American Music Club na Casa da Música. Eu, sinceramente, não sei se irei conseguir sobreviver a tanta emoção.
Por isso, resolvi trazer-vos um pouco daquele que é, porventura, o disco mal-amado da banda americana: SAN FRANCISCO (1994). Eu nunca percebi as razões por detrás do ostracismo a que foi votado o álbum: na minha opinião, é um dos trabalhos mais sofisticados e equilibrados dos AMC, no qual a escrita de Mark Eitzel e a performance da banda roça, não raras vezes, a mais pura e inverosímil perfeição. Enfim, indiossincrasias.
O tema que vos deixo (e que espero ouvir amanhã à noite, caramba) é uma das mais belas canções dos AMC. Chama-se «I Broke My Promise» e há quase doze anos que a ouço com o mesmo deslumbramento com que a ouvi, pela primeira vez, em 1994.
(Os lisboetas podem tirar o cavalinho da chuva: os AMC não irão na 2.ª-feira tocar na capital. Tenho na manga um elaboradíssimo plano para raptar todos os elementos da banda e trazê-los para a minha casa, onde lhes serão dadas todas as condições para comporem e gravarem os próximos dez discos da banda. Aos fãs, darei depois notícias.)
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
I BROKE MY PROMISE (Mark Eitzel, 1994)
I broke my promise
that I wouldn't write another song about you
I guess I lied: after twelve years I still love you
On the phone you sound happy
But a heart can cry and you don't see the tears
I'm glad you went back (I am glad)
The California sun always shines
Oh but San Francisco is a cold place
To have a run of bad luck
Everyone likes to shine a little flashlights in your face
The blue blue sky is made of butcher knives
And everyone you meet is wearing some stupid disguise
In Columbus there's no spotlight to dazzle your eyes
I hope you find someone who loves you
'Cause only love will save you
I broke my promise
'Cause I've missed you for so long
I can feel you in my life when you're happy
No matter where you are
No matter where you are
Publicado por João Pedro da Costa às 04:29 PM | Comentários (20)
Finalmente
à venda.
Nos próximos dias, darei informações sobre o programa de festas para o lançamento do livro, primeiro no Porto (como é óbvio) e, se tudo correr bem, em Lisboa.
Hoje, tenho a certeza de estar no (vá lá) TOP 10 das pessoas mais gratas do mundo.
(Paulo: obrigado por tudo.)
Publicado por João Pedro da Costa às 12:29 AM | Comentários (36)
maio 19, 2005
Uploading Sessions #25

Os Kaiser Chiefs são, neste momento, a banda com mais «hype» no Reino Unido. Toda a gente fala neles, e até em Portugal a maioria dos nossos críticos se têm desdobrado em elogios, considerando-os a «next-big-thing». Quando, há dias, comprei EMPLOYMENT (belo título pop), fi-lo cheio de desconfianças, não obstante a boa impressão que me tinha causado o omnipresente single «Everyday I Love You Less and Less». Pois bem: não havia motivos para preocupação. É certo que o álbum de estreia dos Kaiser Chiefs não irá mudar o rumo da música, mas é um belíssimo registo punk-pop (alô, derFred?), leve como o Verão, cheio de melodias super-orelhudas e de refrões que funcionam como uma espécie de anti-depressivos para quem anda em baixo (e eu sei que andam muitos por aí). As influências da banda são bastante óbvias: ao ouvir os onze temas de EMPLOYMENT é impossível não pensar em bandas como The Jam e Blur (e até um pouco de Roxy Music em alguns temas). É uma linhagem eruditíssima, eu sei, mas a forma com a herança dessas bandas é trabalhada pelos Kaiser Chiefs consegue, a espaços, ser verdadeiramente entusiasmante.
O tema que vos deixo é, talvez, o melhor exemplo do que estive práqui a falar. Chama-se «I Predict A Riot» e é, para já, a canção com mais hipóteses de ocupar o lugar que, em 2004, foi ocupado por «Take Me Out» dos Franz Ferdinand. Pergunta ingénua: não haverá por aí nenhum promotor interessado em trazê-los cá a Portugal? É que «Kaiser Chiefs» rima na perfeição com «Festivais de Verão».
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
Publicado por João Pedro da Costa às 03:55 PM | Comentários (28)
maio 17, 2005
Anti-post
Publicado por derFred às 11:01 PM | Comentários (74)
derFrediana
Quem o sabe, não o terá com certeza esquecido: o derFred foi, em tempos não muito remotos, co-autor destas ruínas.
No início, ele ainda publicou uns posts e umas imagens, mas acabou rapidamente por sucumbir à vocação que lhe coagula o sangue e lhe dilacera as vísceras - ser comentador. Penso que posso mesmo dizer, sem correr o risco de ser exagerado, que é, sem dúvida, o mais famoso comentador da blogosfera a utilizar o nick «derFred» (pensem lá um pouco e digam-me se conhecem outro). O que vocês não sabem, nem poderiam saber, é que o nosso omnisciente comentador tem mantido ao mesmo tempo um ritmo de produção de posts absolutamente insuperável. Desde Janeiro de 2005, o derFred escreveu qualquer coisa como 268 posts absolutamente inéditos. É verdade. Escreveu-os e gravou-os na área privada deste blog, mas (por razões que se prendem com a sua lendária modéstia) não os publicou. Ao longo dos últimos meses, tenho tido a oportunidade, o privilégio, a honra de ser o único leitor dos mesmos. São pedaços formidáveis de prosa e de raciocínio que, só por si, justificariam um ramalhete de colóquios e uma salva de fodas. Nas últimas semanas, tenho insistido com o nosso amigo para os publicar, mas ele tem-se mantido irredutível («Paneleirices, nunca!»). Há dias, consegui finalmente convencê-lo, mas ele impôs duas condições: permitiria apenas a publicação de um único post do seu vasto e rico espólio e a escolha desse post teria de ser minha. Ó deuses que velais pelo caminho dos audazes, ó musas que me iluminais nas mais profundas hesitações: quem sou eu para suportar sozinho semelhante peso nos ombros? Um drogado da merda. Por isso, resolvi partilhar convosco esta árdua tarefa. Após seis noites em branco e quatro garrafas de whisky, consegui escolher um corpus de 10 textos que penso representarem o supra-sumo dos seus escritos:

O que peço aos estimados leitores é muito simples: utilizem, por favor, a caixa dos comentários para, a partir do título, escolherem qual é o post derFrediano que mais desejariam ver publicado n'As Ruínas. A escolha não é fácil, eu sei - mas a vida, por vezes, é prostituta. Em troca, apenas vos posso oferecer a minha infindável gratidão. E, claro está, uma pérola inédita do derFred.
(A votação termina hoje às 23h e às 23h01 será publicado o post vencedor.)
Publicado por João Pedro da Costa às 01:12 AM | Comentários (95)
maio 15, 2005
Rated R

Naquele que já é, sem dúvida, o maior acontecimento do Festival de Cannes deste ano, foi de mais um gajo verificar que, incomparavelmente mais sensual do que o desnudado seio de Sophie Marceau, foi a forma como ela reagiu ao pequeno percalço: para o bem-estar de todos, sorrisos daqueles apenas deveriam ser exibidos a altas horas da noite.
Publicado por João Pedro da Costa às 10:37 PM | Comentários (95)
Aqui há gato

Publicado por João Pedro da Costa às 08:57 PM | Comentários (17)
maio 14, 2005
Uploading Sessions #24 (reprise)

Como prometido, mais um tema de TRANSISTOR RADIO, o magnífico novo disco de M. Ward. Desta vez, deixo ao vosso cuidado uma canção intitulada «Big Boat», que é rock'n'roll puro e duro, sem corantes nem conservantes. Se, por um lado, toda a matriz do tema nos remete para figuras arquéticas da década de 50 como Jerry Lee Lewis, Chuck Berry, Eddie Cochran, Buddy Holly ou Litte Richard, a abordagem, essa, é bem indiossincrática do génio de M. Ward. Reparem só nos contra-tempos da bateria, na forma como o baixo se enrola sob o tema e na desbunda daquele piano - são simplesmente inexcedíveis.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
Publicado por João Pedro da Costa às 09:28 PM | Comentários (11)
maio 13, 2005
Uploading Sessions #24

Aviso desde já os mais incautos que se segue um texto ridículo e bajulador.
Comecemos por aqui: M. Ward publicou há poucas semanas o melhor disco que já ouvi na minha vida (peço-vos encarecidamente para se rirem mais baixinho). O disco chama-se TRANSISTOR RADIO e já imagino o diálogo quando, daqui a quarenta anos, algum comentador deste blog me vir na rua e perguntar:
- João, qual é o melhor disco que ouviste na tua vida?
- Hã?
- QUAL-É-O-ME-LHOR-DIS-CO-DA-TUA-VI-DA?
- Não tenho nada sida, que parvoíce, isto é mesmo velhice.
- Não é isso. Qual é o melhor disco que ouviste até hoje?
- Olha, já agora, não me dispensas uma moedinha?
- Toma lá. Mas diz-me: qual é o...
- Não te importas que dê aqui uma mijinha enquanto falas?
- Pá, não me importa, mas...
- É a merda da próstata, foram muitas horas sentado em frente a um computador...
- Olha, mas o melhor disco que tu...
- Shiu... não consigo urinar quando estão a falar comigo.
- ...
- Sabes assobiar?
- Nem por isso.
- Que chatice...
- ...
- Aaaaaaaaaahhh, que quentinho...
- Mas voltando à minha pergunta...
- Olha, agora não tenho tempo, tenho mesmo de ir para casa. É que hoje ainda não ouvi o TRANSISTOR RADIO...
- Ah, também me parecia.
- Já agora: não me dispensas mais uma moedinha?
Falando agora um pouco mais a sério, TRANSISTOR RADIO é um conjunto irrepreensível de composições que invocam os dias gloriosos da rádio (os dias em que se podia ouvir Muddy Waters, Robert Johnson, Hank Williams ou Billie Holliday) e traça uma espécie de Guia Michelin das raízes da música americana, do Jazz ao Delta Blues, passando pelo country e pelo incontornável som que a assinatura Holland-Dozier-Holland imortalizou na Motown. Comparativamente aos álbuns anteriores, M. Ward desvia-se de forma assinalável da sua rota em direcção a um som mais aberto e acessível. Não há aqui espaço para a mais ínfima concessão: tudo gravita em torno desse ideal do que a música norte-americana já conseguiu ser um dia e tudo isto através de uma mestria da arte de compor canções que torna este exercíco numa genuína declaração de amor que impossibilita qualquer alento saudosista mais bacôco ou revivalista. A sério: comprem e ouçam este disco. Daqui a alguns anos, há-de se falar deste gajo da mesma forma com que hoje se fala (e muito bem) de Bob Dylan.
O tema que vos deixo aqui, «One Life Away», é uma pequena pérola: um sublime tema lo-fi com menos de dois minutos que emula o ruído dos velhinhos 78 rotações e que nos transporta de imediato para a década de 30. Reparem sobretudo nas harmonias vocais e na letra cujo mote é:
«To all the people underground
listening to the sound of the living people
walking up and down the graves
Well, one of them is mine: I'm visiting my fräulein
She's only one step away»
[O ficheiro esteve disponível nas 24h seguintes à publicação do post.]
(Prometo colocar mais um ou dois temas on-line ao longo do fim-de-semana.)
Publicado por João Pedro da Costa às 03:21 PM | Comentários (21)
Post à Gerard Mercator (a blogosfera e o planopost)

Estava eu aqui muito descansadinho no meu quarto a ouvir esta absoluta maravilha que é o último disco de M. Ward (vai dar post na certa) e a ler a biografia de Gerard Mercator escrita por Nicholas Crane (de que já falei num post anterior), quando me lembrei que, se nós (autores, comentadores ou leitores) fazemos parte da blogosfera, então cada post publicado, comentado ou lido em qualquer blog desta suposta esfera é, de certa forma, uma homenagem ao famoso cartógrafo do séc. XVI que conciliou, pela primeira vez e de forma tão sublime, a esfera e o plano. Às vezes, um gajo sorri por causa das merdas mais insuspeitas.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:09 AM | Comentários (22)
maio 12, 2005
Post que o autor julgava perdido

Publicado por João Pedro da Costa às 05:16 PM | Comentários (27)
Post xerox

Publicado por João Pedro da Costa às 03:43 AM | Comentários (25)
Mais um elo para a cadeia interminável (TM)
A convite do Zé Mário e do AdamastoR, vou tentar responder a um divertido questionário que anda a circular um pouco por toda a blogosfera.
1- Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
O «Dictonnaire des lieux imaginaires» de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi, um magnífico inventário dos lugares imaginários criados ao longo de três milénios de literatura.
2- Já alguma vez ficaste perturbado/apanhado por uma personagem de ficção?
Jesus Cristo pela pena de Mateus. E a Matilde Urbach referida por Borges no belíssimo poema:
LE REGRET D'HÉRACLITE
Yo, que tantos hombres he sido, no he sido nunca
aquel en cuyo amor desfallecía Matilde Urbach.
3- O último livro que compraste?
«Mercator: the man who mapped the planet», uma belíssima biografia escrita por Nicholas Crane sobre a vida e a obra de Gerard Mercator, o fascinante cartógrafo do séc. XVI, que resolveu um dos problemas mais difíceis da história da cartografia: como converter de forma correcta a representação tridimensional do globo terrestre num planisfério bi-dimensional.

4- Os últimos livros que leste?
«A misteriosa chama da rainha Loana» de Umberto Eco, «Diary» de Chuck Palahniuk, «Mutts #10» de Patrick McDonnell e a autobiografia de Moebius (Jean Giraud).
5- Que livros estás a ler?
Para além da biografia de Mercator que já referi, ando a ler o «Anti-Borges», uma colectânea de textos publicados nos últimos setenta anos, nos quais se critica de forma feroz a obra do meu escritor favorito. Tem sido uma leitura agradabilíssima e que, por mais estranho que pareça, tem feito vir ainda mais ao de cima as razões pelas quais considero o escritor argentino absolutamente insuperável. A selecção dos textos é de Martín Ernesto Lafforgue, que é um gajo com muita piada.
6- Que livros levarias para uma ilha deserta?
Levaria dois livros que, por uma razão ou outra, jamais consegui ler com a atenção devida, por serem livros que exigem uma entrega e uma dedicação que, pelo menos a mim, me parecem sobre-humanas: as «Rimas» de Camões e a «Invocação ao meu corpo» de Vergílio Ferreira.
7 – Pessoa a quem vais passar este testemunho e porquê?
Sem dúvida nenhuma, ao Rui Tavares, por suas sugestões de leitura terem sempre correspondido à expectativa criada pelos seus escritos.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:18 AM | Comentários (10)
maio 11, 2005
Uploading Sessions #23

Numa altura em que ando sem pedal para falar de todos os bons novos discos que tenho andado a ouvir (caso da refrescante estreia dos Kaiser Chiefs, da última pérola de M. Ward e de GUERO, o melhor disco de Beck até à data), resolvi trazer-vos um álbum que saíu em finais de 2004, mas que está a partir a loiça toda em 2005: o primeiro disco homónimo dos Kasabian.
Os Kasabian são uma espécie de revisão da matéria dada pela onda de «Madchester», actualizada aos dias de hoje (e é sobretudo aqui que eles se tornam particularmente interessantes). Imaginem um caldeirão onde colocassem os Happy Mondays (vénia), os Primal Scream (dupla vénia) e os Stone Roses (a minha vida pertence a esses gajos), apimentando o todo com um pouco de electrónica que tem tanto de D.J. Shadow como de Chemical Brothers e voilá - ficam com uma pequena ideia do que são esta banda de Leicester. Simplificando um pouco ainda mais, o disco dos Kasabian (que é de uma regularidade impressionante, onde qualquer canção é um potencial single) é um manual de instruções sobre como tornar o rock num género de música não avesso às pistas de dança e, sobretudo, sem medo nem preconceitos no que diz respeito à incorporação de elementos electrónicos nas suas músicas (sim, isto é uma boca para os White Stripes).
O tema que vos deixo é, provavelmente, o que melhor ilustra o ecletismo da banda: intitula-se «Reason Is Treason» e houve um jornalista do Blitz (peço desculpa por não me lembrar do nome) que o descreveu, e muito bem, como uma espécie de Black Rebel Motorcycle Club sob o efeito de ecstasy. O inverso também é capaz de ser verdade.
Façam-me o favor de arrastar os móveis do quarto (ou do escritório) antes de premir o PLAY.
[O ficheiro esteve disponível nas 24h seguintes à publicação do post.]
Publicado por João Pedro da Costa às 02:45 PM | Comentários (29)
LEMBRETE: desligar sempre o raio do computador antes de fumar um charro
Bate leve, levemente
Como quem se charra por mim
Será ganza, será erva?
Ganza não é certamente
E a erva não bate assim.
Fui ver: era um blog.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:27 AM | Comentários (17)
maio 10, 2005
Post agradecido
Este post serve apenas para agradecer ao pessoal do Bits & Bytes, o utilíssimo suplemento de Informática do JN e do 24 Horas, que, na passada sexta-feira, publicou um texto muito amável e generoso sobre estas ruínas em forma de círculo. Peço desculpa pelo atraso deste agradecimento, mas só hoje é que tive acesso a um exemplar. Vocês são uns bacanos.
A piada é que um dos primeiros posts que escrevi aqui neste blog foi a propósito de uma das figuras míticas do início da vida do suplemento: José Becho (que, infelizmente, depois do meu post, não viria a escrever mais). Republico-o agora como forma de agradecimento.
HIS NAME IS BECHO, JOSÉ BECHO (18/09/2004)
Chegou o momento de partilhar convosco o segredo mais bem guardado da imprensa portuguesa. Não conheço José Becho, nem dele possuo quaisquer dados biográficos, a não ser o facto de saber que ele é «formador» (evito aqui qualquer comentário sarcástico, seguro que este meu esforço de contenção não passará despercebido) e, sobretudo, o de ser o autor de umas prosas deliciosas intituladas «Formação» no Bytes, suplemento de informática do JN e do 24 Horas.
Todas as semanas, o José Becho tem um problema bicudo para resolver: preencher (palavra fundamental, como veremos de seguida, na poética subjacente aos seus escritos) uma página inteira do dito suplemento com um texto de 1500 palavras. Nesse texto, há sempre uma espécie de lição de moral sobre um determinado assunto informático que, na verdade, poderia ser enunciado numa ou duas frases. Que fazer, portanto? O José Becho não está com meias medidas e resolve narrar. Sim, narrar. Criar um mundo imaginário, com diálogos e tudo, onde interagem umas personagens-tipo do género «sobrinho-curioso-cheio-de-dúvidas», os «amigos-que-não-percebem-patavina-de-informática-e-que-só-fazem-merda» e, claro, o próprio «José-Becho-formador-malta-jovem-super-cool-que-sabe-tudo». Numa palavra: palha. Palhinha da grossa e da seca, daquela que pica e não nos deixa dormir. Paradoxalmente, é nessa «palhinha» que nasce o meu verdadeiro interesse (quase fascínio) pelos textos de José Becho: o senhor é o mais profissional enchedor-de-chouriças existente em Portugal, capaz mesmo de rivalizar com esta figura mítica e arquétipa que foi Alexandre Dumas.
Exemplifiquemos. Na crónica (crónica?) de ontem, José Becho resolveu dizer-nos esta coisa que jamais nos passou pela cabeça que é o facto dos toners das impressoras serem «altamente tóxicos e perigosos se forem inalados». Como vêem, são sempre informações úteis e que, pessoalmente, já me convenceram a desistir da ideia de mamar ao lanche uma sandes de paio com dois toners HP (um 15/845c preto e um 17/845c a cores). O José Becho salva vidas e bastaria isso para ser merecedor da minha (nossa?) consideração.
Mas o melhor vem a seguir. Faltam, na boa, mais 1480 palavras para o texto estar completo e aqui é que a escrita de José Becho se torna seráfica. Temos pérolas do género:
«Quando chegámos, o funcionário que nos atendeu, o senhor [este «senhor» é semiotiquíssimo e refere a ausência de formação académica da personagem] Paulo Renato, olhou fixamente para o Saraiva e disse-lhe: "Eu acho que o conheço de qualquer lado...", e o Saraiva: "É natural, venho muitas vezes a casa do meu amigo Bernardo e também morei aqui até aos dez anos", de repente o senhor Paulo lembrou-se: "GILDINHO!!! Tu és o Gildinho, não és?", e antes do Saraiva poder sequer responder, deu-lhe um abraço e umas palmadas tão fortes nas costas, que até deixaram o Saraiva um bocado azul.»
Como podem ler, isto é puro teatro grego. Confrontação, reconhecimento e catarse. E penso que não vos terá escapado a insinuação por parte do narrador de uma pulsão homossexual mal reprimida por parte da personagem que se dá pelo nome de «Saraiva». E, sobretudo, e isto é que é fundamental, nada do que se narra aqui é relevante e serve apenas para atingir o objectivo das 1500 palavras.
No texto em causa, nota-se que José Becho despachou o que queria dizer (não se deve comer toners) muito cedo e que ainda lhe faltam cerca de 400 palavras para receber o cheque pelo correio. Eu imagino-o em casa, em cuecas, a suar e de cigarro na boca, a accionar o contador de palavras do processador de texto e acrescentar um adjectivo aqui, um advérbio ali, ou uma frase catita acolá. Mas 400 palavras é muita coisa e aí, o nosso formador tem uma ideia genial que vem muito ao caso num texto que trata da problemática da toxicidade dos toners das impressoras, a Moldávia:
«Deixamos então a impressora para reparação e a caminho de casa, o tio Alberto convidou-me para ir passar umas semanas de férias à Moldávia, a terra da tia Vika [genial]. Eu disse logo que sim [bruxo], e o tio Bernardo atirou à sua maneira: "Então os moldavos vêm para cá e tu vais para a Moldávia?" [apontamento fascista: todos os formadores são fachos], o tio Alberto saiu em minha defesa e disse-lhe: aquilo é um país espectacular, Bernardo. É pena que a economia esteja de rastos e origine tanta corrupção. De resto, é um país lindo: uma imensa planície com campos de trigo e girassol [ah, Cesário!]. Pinhais. Um jardim! E as pessoas? As pessoas são afáveis e generosas, são solidárias e convivem imenso. Quando lá chegas pela primeira vez, estranhas - os restos do passado recente estão bem presentes [eu não disse que ele era facho?] - mas depois de conviveres com aquele povo [e pimba], não queres sair de lá...».
Palavras para quê? É um artista português.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:39 PM | Comentários (16)
Esclarecimento

Andam por aí algumas pessoas que julgam que eu apaguei comentários neste blog pelo simples facto de 1) eles conterem insultos de 3.ª escalão dirigidos à minha mãezinha e 2) da mesma pessoa praticar a alínea 1) com nomes diferentes, que é assim para dar a ideia que existe uma espécie de grémio que se dedica única e exclusivamente ao insulto nas caixas de comentários d'As Ruínas.
Era só para dizer que essas pessoas, de facto, têm razão. Sempre fui assim: um susceptível da merda. Mas prometo que a coisa irá ao sítio com os novos comprimidos que ando a tomar.
Publicado por João Pedro da Costa às 08:27 AM | Comentários (33)
maio 09, 2005
Um Caderno de Capa Castanha #3
Eu sei que eras pequenina mas ainda te consegues lembrar do final da guerra? Apeteceu-me perguntar-te isto agora.
«Se me lembro…! Essa é das imagens da minha infância que recordo com mais nitidez. Sentia-me confundida por perceber como tudo aquilo era importante para as pessoas que me rodeavam, pessoas que eram os meus modelos. Se os meus pais estavam naquele estado de excitação era porque, com certeza, se passava algo de muito sério! Era complicado, sentia-me também nervosa, um pouco assustada, arrastada por uma onda gigante de alegria colectiva.
Mas deixa-me voltar a esse tempo. Eu tinha cinco anos. A nossa vida do dia a dia era muito espartilhada. Para além do “espartilho” que era a própria existência do salazarismo com a pressão permanente sobre a liberdade de pensamento e de expressão, um morno medo latente, havia ainda o “espartilho” da guerra. Há quem hoje imagine que como Portugal pela sua neutralidade não entrou nela directamente, não foi afectado. Nada de mais errado! Fomos sim e muito. A vida do dia a dia só podia ser compreendida pela existência dessa guerra.
Lembro-me bem de como tudo tinha de ser poupado, da força opressora do racionamento. Havia senhas para se comprar quase tudo o que era necessário, cada família tinha mais ou menos senhas conforme o seu tamanho. E havia os produtos do mercado negro, um mercado clandestino mas a que todos recorriam. Coisas preciosas chegavam-nos da província quando as nossas raízes iam até lá. De vez em quando chegava a surpresa duma dúzia de ovos, uma garrafa de azeite. Era uma festa!
Custa-nos imaginar hoje, quando entramos no enorme casarão de um supermercado com prateleiras inteiras cheias de produtos, o valor que podia ter uma garrafinha de azeite que aparecia clandestinamente...Sabes que nessa altura havia muito menos lojas, mesmo na proporção. Havia mercearias, drogarias, lugares de hortaliça, capelistas, mas nem imaginas a variedade de produtos que nos vinham trazer à porta. Era um mercado ambulante.
O pão e o leite, em primeiro lugar. Lembro-me do padeiro, logo de madrugada, bater à porta com o enorme cesto cheio de pão saído do forno, a leiteira com bilhas de lata vinha de porta em porta, e media o leite que se precisava directamente para o nosso fervedor. Depois, havia as varinas que traziam peixe também à nossa porta, e lembro-me de uma carrocinha puxada por um burro, onde um vendedor trazia os legumes. Tinha um pregão muito modulado cujas palavras nunca cheguei a entender. Mas isso não interessava porque, ao ouvir-se aquela cantiga, sabíamos que era o homem das hortaliças.
Quase nada se vendia empacotado.
Lembro-me de ir com a senha para a manteiga no bolso, até à mercearia e pedir 50 ou 100 gramas que o merceeiro atirava com uma grande colher de pau de um alguidar para cima da balança. Ou a farinha, ou o açúcar, ou o feijão, que ele despejava para uns cartuchos de papel pardo pesando-se a quantidade que se pedia. Depois assentava a compra num livro e pagava-se no fim do mês. Toda a gente fazia assim. Era o “cartão de crédito” da altura baseado na confiança.
Quando te digo que se poupava tudo, era tudo. Havia uma caixinha, na chaminé, para os fósforos queimados. Um fósforo, mesmo depois de usado, ia servir para acender outro lume aproveitando um que já estivesse aceso. Uma panela com um furo mandava-se consertar, deitar ali um pingo de solda. Na loiça que se partia, punha-se “gatos”, uns agrafes que mantinham os pedaços juntos.
E o rescaldo da guerra surgia também noutros campos. Olha as legiões de refugiados. Faziam moda, imagina. O cabelo cortado “à refugiada”, era muito mais curto porque não havia tempo para grandes penteados. Assim como elas não andavam de chapéu como as portuguesas, tapavam simplesmente a cabeça com lenços grandes. E inventavam soluções muito imaginativas: lembro-me bem de, em casa de uns amigos dos meus pais, ter visto uma senhora fugida da guerra que tinha feito a caminha do seu bebé com uma gaveta que retirou de uma cómoda... E foi também nessa altura que surgiu a moda das alcofas para os bebés. Se não havia berço, havia alcofa. Era um mundo novo mais simples, mais prático.
Mas o final da guerra foi o delírio. Foi isso que me perguntaste? Nunca tinha visto gente crescida a saltar de alegria ! Na minha rua, de um momento para o outro viram-se as janelas cheias de colchas penduradas ( é um hábito de festa que desapareceu, parece-me…) e as pessoas aos abraços e a rir. Gritavam de uma janela para a outra “Acabou a guerra!!!” Hoje, eu entendo que aquela alegria tão grande era porque se acreditava que ia ser a grande barrela: Hitler, Mussolini, Franco e Salazar. Tudo parecia possível. Os aliados tinham vencido e as ideologias que eles tinham combatido iam desaparecer.
Foi um momento de sonho e de grande felicidade.
Lembro-me sim. Lembro-me muito bem do fim da guerra. Como havia de esquecer?»
Publicado por Clara às 11:55 PM | Comentários (13)
Diálogo branco
[NOTA: Este post é colectivo, e está em constante e frenética actualização.]
Acabadinho de chegar de mais um ajuntamento javardo de amigos organizado já não sei muito bem por quem, fui incumbido da missão de publicar um post colectivo, que foi originalmente engendrado a altas horas da noite pela Mi, o Descompensado, o derFred e moi-même. A ideia era imaginar um diálogo em que não se dissesse absolutamente nada, a não ser uma série de frases muito vazias que, no fundo, apenas são usadas para encher chouriças. O mote é:
- Uma coisa não invalida a outra.
- Depende.
- Porque dizes isso?
- Tá-se mesmo a ver.
- Como assim?
- Falar é fácil.
- Olha que não, olha que não...
- Nem sei que te diga.
- Assim como assim...
- É das tais coisas...
- Já dizia o outro.
- A sério?
- Tou-te a dizer.
- Uma palhaçada é o que é.
- Eu desde que vi um porco a andar de bicicleta que já acredito em tudo.
- Quem diria...
- É o diabo.
- Eu já nem digo nada.
- Acontece.
- É assim.
- Essa é que é essa.
- Sim sim, pois.
- O que lá vai, lá vai.
- Não há nada como, realmente.
- Nem que a vaca tussa.
- Bem o dizes.
- Melhor o farei.
- Olha, nem é tarde, nem é cedo.
- E está tudo dito.
- Nem sempre.
- É fodido.
- Tava-se mesmo a ver.
- Vai na volta...
- Já estou como hei-de ir.
- Falas bem, mas não m'aquentas nem m'arrefentas.
- Pois, pois.
- Nem mais.
- Ai é?
- Pão pão, queijo queijo.
- Tiraste-me as palavras da boca.
- Acontece.
- Sem tirar, nem pôr.
- É como tudo.
- Tá bem, abelha.
- Não dás uma prá caixa.
- Eu que o diga.
- Ó-ó.
- Á-á.
- É-é.
- Í-í.
- Ú-ú.
- Tás aqui tás a levar no cu.
- Bem lembrado.
- Tás aqui, tás ali.
- Ó, caga nisso.
- Caguei e andei.
- Cagarito cagarão.
- Quem fala assim não é gago.
- Não és o primeiro que me diz isso.
- Caguei para essa cena.
- Não me digas...
- É a vida.
- Essa vai no Batalha.
- Podes crer.
- É que não tás bem a ver...
- Tou tou.
- É uma tripe...
- Não me fodas.
- Ui, não vás por aí.
- Vou ali e já venho.
- É piu.
- É das tais coisas.
- Tás mas é maluco.
- Achas?
- Então não?
- Cala-te boca.
- Já te estive a ver melhor.
- Só não vê quem não quer ver.
- Tu deves ter a mania...
- Ó, lá tás tu.
- Que chatice.
- Tch.
- Eu não diria melhor.
- A brincar que o digas...
- És muito lindo, deves ser filho de algum fotógrafo.
- Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
- Mau, mau, Maria...
- És parvo ou fazes-te?
- Uma coisa não invalida a outra.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:01 AM | Comentários (90)
maio 08, 2005
Uploading Sessions #22

Quando, há algumas semanas, comprei THE MYSTERIOUS PRODUCTION OF EGGS, o último disco de Andrew Bird, fi-lo apenas porque (a ingenuidade tem desses requintes) achava impossível um disco com uma capa e um título tão geniais não ser outra coisa que brilhante (confirma-se).
O álbum de Andrew Bird (que, pelos vistos, já é o quinto da sua carreira musical) é um elegantíssimo caldeirão de influências que vão do jazz ao retro-swing, passando pela música cigana e árabe e servido aos ouvintes sob o incontornável formato da canção pop. A voz de Andrew Bird é particularmente distintiva (algures entre Rufus Wainwright e Jeff Buckley) e a rara nitidez da sua dicção está em perfeita consonância com a produção e a mistura do álbum: tudo no sítio certo, devidamente equalizado ao micro-pêlo. Eu iria agora escrever que este é um dos discos do ano, mas começo a perceber que 2005 está-se a tornar num ano impróprio para melómanos com parcos recursos económicos como eu.
O tema que vos deixo aqui intitula-se «A Nervous Tic Motion Of The Head To The Left» e é, deixêmo-nos de merdas, uma daquelas canções que só aparecem de 10 em 10 anos: tem um «intro» e um «outro» de fazer cair para o lado os mais cépticos, um refrão digno dos mais distintos anais, um theremin que nos remete para as bandas-sonoras de Danny-Nightmare-Before-Xmas-Elfman, uma guitarra eléctrica de uma pertinência arrepiante, e uma letra, meu Deus, uma puta de uma letra que nem dá para acreditar: glosa o importantíssimo tema do HAZMAT (Hazardous Materials Transportation and Security), isto é, dos efeitos das normas de segurança para o transporte de substâncias perigosas num hipotético condutor - daí o nervous tic motion. Of the head. To the left, é claro.
Querem mais pop do que isto? Azarito: não há.
[O ficheiro esteve disponível nas 48h seguintes à publicação do post.]
A Nervous Tic Motion Of The Head To The Left (Andrew Bird, 2005)
Over prescribed under the mister
We had survived to - turn on the History Channel
And ask our esteemed pannel why are we alive
And here's how they replied:
«You're what happens when two substances collide
And by all accounts you really should've died...»
Stretch out on the tarmac
Six miles South of North Platte
He can't stand to look back
The sixteen tons of HAZMAT
It goes undelivered (undelivered)
And it's a nervous tic motion of the head to the left
(to the)
It's a nervous tic motion of the head to the left
(Of the what? Of the head to the left)
So exorcize your cells 'til you're bereft
(You're bereft)
Cos it's a nervous tic motion of the head to the left
(Of the, of the, to the)
Splayed out on a bathmat
Six miles North of South Platte
And he just wants his life back
What's in that paper knapsack
It's what goes undelivered (undelivered)
It's a nervous tic motion of the head to the left
A nervous tic motion of the head
(Of the head to the left
It's a nervous tic motion of the left
Of the
To the
Left
A nervous tic motion of the head
To the
Of the
Of the head
Of the head
To the)
Over imbibed under the mister
Barely alive we cover the blisters in flannel
Though the words we speak are banal
Not one of them's a lie
Not one of them's a lie
You're what happens when two substances collide
And by all accounts you really should've died
Publicado por João Pedro da Costa às 09:37 PM | Comentários (26)
maio 05, 2005
Um Caderno de Capa Castanha # 2

Numa outra tarde, a dona do Caderno de Capa Castanha contou-me:
“Olha, Clara, tenho imensa pena de não me conseguir lembrar dos primeiros anos da minha infância. Muitas coisas que imagino serem recordações se calhar são apenas histórias que ouvi contar e fui aceitando como sendo verdadeiras lembranças. Mas consigo lembrar-me de alguns momentos com tanta nitidez que, esses, decerto foram mesmo reais.
A primeira vez que fui à escola, por exemplo. Nessa altura havia um único Jardim-Escola. As crianças costumavam ficar em casa até começarem os estudos. Mesmo no caso de as mães trabalharem, como quase todas as famílias tinham uma empregada ficávamos com ela. Isso, até mesmo quem tinha pouco dinheiro. E, se assim não fosse, havia uma avó, uma madrinha, uma tia com quem nós ficávamos durante o dia. No meu caso vivia connosco uma tia velha e uma empregada com quem fiquei até aos 3 anos.
Mas, como era filha única, os meus pais consideraram que era importante a convivência com outros meninos e, avançados para a época, foram levar-me ao tal Jardim-Escola. Era na Pedro Alvares Cabral, junto ao Jardim da Estrela. A intenção era boa, mas para mim esse dia foi um pesadelo! A viver 3 anos num ninho, senti-me projectada no ar sem saber como se abriam as asas. E, pelos padrões de hoje, a escola era muito rigorosa – entrava-se e pronto! Nada de os pais ficarem connosco uma manhã, ou a entrada ser gradual. Chegada à porta, cumprimentava-se uma senhora que eu nunca tinha visto e… adeus, até logo!
Nesta escola pretendia-se, firmemente, não haver distinções de classe e assim vestiam-nos um bibe de quadradinhos – azuis, amarelos ou rosa conforme a sala – e calçavam-nos umas sapatilhas de sola de corda. Lá distinções não havia mas, de início, senti que perdia era a identidade. Não era eu , era uma menina, igualzinha às outras todas. E todos eram desconhecidos para mim. A sensação, Clara, foi de verdadeiro pânico! Sentia-me diluída, fundida no conjunto, sem presença real. Esse dia foi inesquecível. Recordo-me de ouvir alguém dizer: “Coitadinha, esta faz pena, nem se ouve chorar só se lhe vêem as lágrimas cara abaixo”. E era certo, porque apesar de muito pequena eu tinha o meu orgulho e queria mostrar-me forte, nem queria que reparassem nas lágrimas que não conseguia segurar.
Depois habituei-me, claro está. Saía de casa, bem cedo, pela mão da tia-avó que morava connosco, e íamos até ao eléctrico. Era uma meia hora a chegar ao Rato, e a seguir era só subir a avenida. Dessa parte sempre gostei e acho que os meninos de hoje, que vão de carro até à porta da escola, perdem qualquer coisa. Porque o convívio no carro eléctrico era divertido: as pessoas metiam-se comigo e puxavam-me o laço, entravam ardinas a vender jornais, havia miúdos que se penduravam das portas com o revisor a ralhar com eles, todos os dias havia motivos de interesse, era a vida perto de nós.
O revisor que vendia os bilhetes vinha de banco em banco, com 3 macinhos conforme a distância, bilhete de 5 tostões, de 7 tostões ou de 10 tostões. Com um alicate fazia um furinho no bilhete, marcando onde se tinha entrado. Muitas vezes brincava comigo, fingindo que me fazia um furo na orelha com esse alicate. Era uma relação muito mais humanizada do que a de hoje, a qualidade do tempo era diferente.
E é isso que gostava de acentuar. O tempo desenrolava-se à minha frente longo, longo, os dias, semanas, meses, pareciam não ter fim. Quando me diziam “para a semana que vem” parecia-me uma eternidade. Se queres saber, o que acho que mais mudou da minha infância para agora foi a qualidade do tempo. Houve algo que se transformou em profundidade. Nem melhor nem pior, mas o tempo hoje é diferente. Acredita.»
Publicado por Clara às 10:05 PM | Comentários (32)
maio 04, 2005
Temos capa

Da autoria daquela que é, de longe, a melhor designer do mundo: Rebeca Pereira. É uma capa simples, sóbria e com o seu quê de alucinada. A cara cagada do blog.
(Com um agradecimento muito especial à Isabel B., sem quem nada disto seria possível e à Rita Tenreiro pelo seu espírito crítico e formidável café.)
Publicado por João Pedro da Costa às 02:36 AM | Comentários (66)
maio 02, 2005
Finalmente
está pronto. O arranjo gráfico e a paginação foram o diabo. 173 páginas carregadas de imagens distribuídas ao longo de 95 posts. 210x175mm. A cores.
Mais novidades ao longo desta semana. Agora, vou fumar um charrito e toca a nanar.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:07 AM | Comentários (28)
Adjectivos
Deu-me hoje para escrever sobre adjectivos.
Já por diversas vezes tinha pensado abordar este tema mas sentia algumas dúvidas. Teria interesse para alguém, para além de mim? Contudo o último livro que comecei a ler forçou-me a avançar com a ideia. E, quando digo com algum rigor que «comecei a ler», isto não é um modo de falar, é sim porque tenho dúvidas se o vou acabar. Ora isto para mim não é vulgar, quando começo a ler um livro, mesmo que não aprecie o que leio, gosto sempre de acabar até para o poder criticar com conhecimento de causa. Mal comparado, é um pouco como o costume de acabar a comida que se tem no prato – hábito aprendido em pequenina que faz com que vulgarmente me sirva pouco da primeira vez, preferindo repetir se o prato me agrada...
Quanto aos adjectivos: é evidente que os aprecio. O que seria de qualquer literatura, sem eles? Enriquecem, aperfeiçoam a imagem que se quer transmitir, dão mais colorido à escrita. Mas tenho para mim que numa frase têm um pouco o papel que a roupa tem para o corpo. Vestem a linguagem, escrita ou falada, realçam alguns aspectos, sublinham, disfarçam, modificam. Tudo isto no ponto certo. Não pode ser de menos, nem demais, tem de ser na medida justa.
Mas penso que essas roupas não podem ser do «pronto-a-vestir», feito em série. E, infelizmente, encontramos muitas vezes esse tipo de linguagem do «pronto-a-escrever», da frase feita como que numa colagem de lugares comuns. Voltando ao romance que ando a mastigar como pastilha elástica e com vontade de o pôr definitivamente de lado, ele enjoa com o peso dos seus adjectivos.
Faço-me entender? Nesse romance, abrindo-o ao acaso, encontro uma dose generosa, uma cabeleira farta, e um soluço abafado, e árvores frondosas, e lábios carnudos, e ainda desapontamento mudo, ou prado verdejante, ou discussão renhida, tudo emparelhadinho como se fosse impossível classificar de outro modo as árvores, as cabeleiras, a discussão, etc. Ufff... Como se a cada substantivo tivesse de de vir colado um adjectivo.
Que sufoco!
Publicado por Clara às 01:35 AM | Comentários (29)