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maio 02, 2005

Adjectivos

Deu-me hoje para escrever sobre adjectivos.

Já por diversas vezes tinha pensado abordar este tema mas sentia algumas dúvidas. Teria interesse para alguém, para além de mim? Contudo o último livro que comecei a ler forçou-me a avançar com a ideia. E, quando digo com algum rigor que «comecei a ler», isto não é um modo de falar, é sim porque tenho dúvidas se o vou acabar. Ora isto para mim não é vulgar, quando começo a ler um livro, mesmo que não aprecie o que leio, gosto sempre de acabar até para o poder criticar com conhecimento de causa. Mal comparado, é um pouco como o costume de acabar a comida que se tem no prato – hábito aprendido em pequenina que faz com que vulgarmente me sirva pouco da primeira vez, preferindo repetir se o prato me agrada...

Quanto aos adjectivos: é evidente que os aprecio. O que seria de qualquer literatura, sem eles? Enriquecem, aperfeiçoam a imagem que se quer transmitir, dão mais colorido à escrita. Mas tenho para mim que numa frase têm um pouco o papel que a roupa tem para o corpo. Vestem a linguagem, escrita ou falada, realçam alguns aspectos, sublinham, disfarçam, modificam. Tudo isto no ponto certo. Não pode ser de menos, nem demais, tem de ser na medida justa.

Mas penso que essas roupas não podem ser do «pronto-a-vestir», feito em série. E, infelizmente, encontramos muitas vezes esse tipo de linguagem do «pronto-a-escrever», da frase feita como que numa colagem de lugares comuns. Voltando ao romance que ando a mastigar como pastilha elástica e com vontade de o pôr definitivamente de lado, ele enjoa com o peso dos seus adjectivos.

Faço-me entender? Nesse romance, abrindo-o ao acaso, encontro uma dose generosa, uma cabeleira farta, e um soluço abafado, e árvores frondosas, e lábios carnudos, e ainda desapontamento mudo, ou prado verdejante, ou discussão renhida, tudo emparelhadinho como se fosse impossível classificar de outro modo as árvores, as cabeleiras, a discussão, etc. Ufff... Como se a cada substantivo tivesse de de vir colado um adjectivo.

Que sufoco!

Publicado por Clara às maio 2, 2005 01:35 AM

Comentários

É isso! São os adjectivos que vestem, que dão o ritmo, a "música", à frase, mas como em tudo o demais o evidente e o vulgar grangeiam e incentivam a vulgaridade do gosto, tornando o "bom gosto" passível de ser fruído por uma "quase" marginal minoria!

Publicado por: carlos a.a. em maio 2, 2005 02:20 AM

Tem piada, por exemplo, reparar que no teu texto os poucos adjectivos que usas não são sequer verdadeiros adjectivos, mas vocábulos que são parte integrante de um substantivo complexo: «medida justa», «frase feita», «lugares comuns» e «pastilha elástica». E isso é engraçado, porque a forma, no teu discurso, está em sintonia com o conteúdo.

Portugal teve belíssimos escritores que utilizavam os adjectivos de uma forma cirúrgica: Camões, Fernão Mendes Pinto, o Eça e o Vergílio Ferreira, só para citar alguns. E depois, na poesia, há este caso absolutamente flagrante de sábia (e parca) adjectivação que é o Eugénio de Andrade.

Publicado por: João Pedro da Costa em maio 2, 2005 04:04 AM

É um bocado difícil decidir o que torna uma escrita boa ou má. Há muitos factores pessoais. Pelos vistos o teu livro é mesmo mauzito, para além do tipo de escrita. Se tem mesmo os prados verdejantes e as árvores frondosas... Estou daqui a imaginar!
Tenho o mesmo vício de me custar deixar um livro a meio. Já que o comprei e comecei, é a tal coisa do "já-agora" vamos ver se esta coisa começa a melhorar. Mas houve coisas que deitei simplesmente no lixo, pensando "não presta nem para mim nem para ninguém"!!!!

Publicado por: Emiéle em maio 2, 2005 08:22 AM

Há um livro que eu gosto muito de um escritor que não se pensaria ter escrito uma coisa daquelas (o Stephen king) sobre a escrita, a dele, todos os processos e as coisas que foi ouvindo dos editores ao longo vida; uma delas, era que se escrevesse com os adjectivos: e depois tirá-los todos (ou 90%) na revisão. Se a ideia não estivesse implicita, também não valia a pena espetar o adjectivinho para colmatar a falha.
Eu também não gosto nada de frondosas árvores e fugazes momentos de leves inspirações de adjectivada escrita.

Publicado por: catarina em maio 2, 2005 09:29 AM

Catarina: o que dizes fazes todo o sentido, até porque o Stephen King é um belíssimo escritor. Que texto é esse?

Publicado por: João Pedro da Costa em maio 2, 2005 11:15 AM

Chama-se 'On Writing'. Também há a tradução em português, mas não me lembro do título. É mesmo muito bom o livro.

(eu confesso que sou doidinha por ele)


http://www.amazon.com/exec/obidos/tg/detail/-/0743455967/qid=1115029047/sr=1-8/ref=sr_1_8/102-3389865-7976914?v=glance&s=books

Publicado por: catarina em maio 2, 2005 11:20 AM

"Para mim" os adjectivos deviam ser como as "italianas"(cafés).É precisamente por serem em pouca quantidade( e muita qualidade) que o desejo pelo próximo café se impõe. O excesso de adjectivos corresponde, "para mim", a uma overdose de vestidos de gala mas sem festa para onde ir o que não quer dizer que por vezes não possa utilizá-los em catadupa, depende da entoação que lhes dou...tento sempre ler os textos em "voz alta" ainda que ninguém ouça, nem mesmo eu.
Quanto à leitura de um livro até ao fim, devo confessar que funciono precisamente ao contrário da Clara.Não há nenhum argumento que legitime mais uma crítica negativa em relação a um livro do que aquele que a gente traduz por:"fartei-me;não consegui passar da mesma frase; dava-me sono;entediava-me;não me prendeu;desisti dele."Nessa altura sei que estou perante um mau livro..."para mim". Também sei que por vezes o facto de desistir demasiado cedo torna-me numa pessoa precipitada e incompleta...mas se há coisa que eu deixo a meio são os livros.
Por exemplo, se neste momento estivesse a ler o mesmo livro que a Clara está a ler(com uma adjectivação tão bacoca que só demonstra a chamada lei do menor esforço)já o tinha deitado no lixo sem perder tempo a criticá-lo e já estava enfiada noutro.Obviamente...Para Mim...e haverá alguma coisa mais pessoal do que isto?
Adorava que um dia fizesses um post sobre pontuação, a área onde sou mais indisciplinada.
"Porque não o fazes tu." pergunta a Clara com ponto final. Porque é o género de posts que não faz o meu género mas que te ficam e saem sempre muito bem....ainda que saiba que só fazes o que muito bem te apetece sobretudo se vem para aqui alguém dar ordens. :)
Adorei ser o comentário número 5.É amarelo como o sol.

Publicado por: patrícia em maio 2, 2005 11:49 AM

Ya...sou o 7.É muita bem feita.Se eu própria não me esbofetear quem o fará?

Publicado por: patrícia em maio 2, 2005 11:52 AM

Venho de vez em quando ao Ruínas e aprecio os posts da Clara. É estranhíssimo como ( lá pelo Afixe) quando a Clara apareceu aqui houve várias pessoas que insinuaram que este seria um alter-ego do JPC.
Lendo os dois não podia haver a menor confusão.
São mesmo estilos completamente diferentes.
E eu venho cá pelos dois.

Publicado por: Gui em maio 2, 2005 02:11 PM

Gui, mas tens a certeza que não é? Olha que eu ainda não estou convencida.

Quanto aos adjectivos não costumo usar muitos, Clara,mas agora estou muita ocupada, chateada, furiosa, furibunda,cansada,espantada, impaciente, esfomeada, confusa,alterada e abaratada (vem de barata, percebeste) para me pronunciar.
Lamento usar poucos , mas estou um bocada assarampatada para me dedicar ao assunto. Volto à noite cálida, quente e estrelada , tá bem?

Publicado por: isabel em maio 2, 2005 03:39 PM

ora aqui está um "telhado" que vai ser um prazer frequentar. adjectivos?! pfffff. apenas quando não qualificam, mas "substantivam".

Publicado por: gato_escaldado em maio 2, 2005 04:29 PM

pra mim, alguns substantivos até podem ter roupa a mais, desde que a maioria venha completamente nua.

Publicado por: susana em maio 2, 2005 05:10 PM

Clara, esse teu livro não traz uma indicação qualquer sobre a idade aconselhada de leitura? Tipo: menores de 10 anos. :))

Publicado por: cap em maio 2, 2005 05:28 PM

Depende da qualidade dos escritores. Por mim, gosto muito do Eça de Queirós, por exemplo... Quem os saiba utilizar é muito bom. Mas neste exemplo é uma desgraça.

Publicado por: Paulo em maio 2, 2005 07:16 PM

Para o Cap em especial, mas abrangendo quem se pôs a imaginar horrores do romance em causa:
ora bem, quando a "coisa" me parece mesmo desinteressante, é verdade que nem a começo a ler. Mas neste caso, tratava-se de um best-seller, que me foi oferecido, com cinta vermelha a falar nos 20.000 exemplares já vendidos. E pensei que eu não havia de ser a única contra 19.999... E até imagino se a culpa não é da tradução.
Mas, de qualquer modo, teve a qualidade de me levar a escrever estas ideias que me andavam atravessadas.

Publicado por: Clara em maio 2, 2005 08:59 PM

Os adjectivos colam-se como lapas aos substantivos. E tal forma se tornam indissociáveis, que a certo ponto deixam de exprimir o relevo que se quer dar às palavras. Assim, aqui no Alentejo, temos uma localidade próxima que se chama Cuba. (Não, não façam já piadas sobre o velho do charuto e dos discursos tudo menos curtos) Nessa terra alentejana, todas as palavras tem melgas em cima. Qualquer coisa é logo acompanhada do "extra ordinária, formidavel, fora de série, supremo" e demais palavras em grau superlativo, de preferencia absoluto. Em resumo: nem já soa bem o substantivo por ele próprio se não tiver a etiqueta que o acompanha como se de regra se tratasse. Chegados a este ponto, quando querem destacar pelo positiva o carácter de alguém, não tem valor a expressão de extremamente simpático, ou de simpatiquissimo, ou outros do tipo. Antes, levados pelo desgaste adjectival dizem: "---He pá. Aquele tipo, o Fulano, é uma besta de simpatia....----"

Publicado por: charlie em maio 3, 2005 09:00 AM

ehehehehe!
Sou contra a corrente!
Eu GOSTO de adjectivos! Adoro adjectivos.
Até imagino o que seria uma conversa ou um texto só com eles... :))
Um pouco mais a sério, são conceitos diferentes mas afinal é o gongorismo que não tem nada de mal.
Claro que a Clara ( era inevitável o jogo de palavras!!!) defende bem a sua dama, e os exemplos ridicularizam a adjectivação. Mas podíamos cair no outro extremo, não é?

Publicado por: Zé em maio 3, 2005 10:11 AM

Quanto ao último comentário da Clara:
Sou da mesma opinião. Quando um livro, ou outra coisa qualquer, reúne tão grande unanimidade, a atitude mais sensata, mais inteligente é a de ir averiguar o porquê dessa unanimidade.Ir, por sistema, contra as unanimidades não passa, em minha opinião, de uma necessidade de afirmação, de nos mostrarmos os tipos originais que fazem questão de ir contra a corrente e acho que é precisamente nessa altura, quando queremos ir contra a corrente, que somos arrastados por ela.
O argumento best-seller, em alguns casos, é bom para lermos um livro até ao fim. Só depois poderemos, ou não, ir contra os 19.999 leitores que o aclamaram. No meu caso,se me acontece não gostar de uma unanimidade, obrigo-me a uma reflexão, não só sobre os outros, mas também sobre mim.
Além disso sinto sempre que as coisas de que simplesmente gostamos geram, invariavelmente e apenas(nem sempre)sorrisos pacíficos. O que não gostamos exige-nos um maior esforço para o justificar...também nos dá vida.Neste caso deu um post sobre adjectivos e cada vez me apercebo mais que um post só acaba na caixa de comentários.

Publicado por: patrícia em maio 3, 2005 10:50 AM

A tua perspicácia, Patrícia, não pára de me surpreender.

Publicado por: João Pedro da Costa em maio 3, 2005 11:18 AM

Se não foi irónico, obrigada pelo elogio.
Desculpa desconfiar da tua intenção mas, basicamente, não passo de uma desconfiada que está sempre a olhar por cima do ombro...insegurança talvez.(talvez diz a gaja... LOL)

:)

Publicado por: patrícia em maio 3, 2005 11:25 AM

Ainda passei por esta caixa de comentários de novo ( a Patrícia tem razão, há posts que se continuam muito pela caixa de comentários adentro )
Por acaso, para mim uma das boas qualidades de um blogger é exactamente suscitar comentários. Muitas vezes lemos que coisas que nem estão mal, mas...
Ficamos a pensar "tá bem, e depois?!".
Gosto do Ruínas por isso, pelos seus comentários e porque quer o João quer a Clara, vêm cá abaixo conversar connosco. É simpático. Cá por mim acho que estão bem um para o outro.
:)

Publicado por: Gui em maio 3, 2005 11:46 AM

Eu também acho. :)

Publicado por: João Pedro da Costa em maio 3, 2005 11:55 AM

Das duas uma: ou a tradução não presta, ou o livro é uma merda.

Publicado por: Afonso Henriques em maio 3, 2005 12:09 PM

ó Afonso Henriques: se experimentares ler os comentários dos outros antes de escrever o teu é bem provável que não repitas o que já foi dito mas tudo bem, ainda há espaço para estar sempre a bater na mesma tecla e não adiantar absolutamente nada.
Não é todos os dias que me posso meter com o Afonso Henriques.É uma realissima honra.:^^?»»«(isto é uma careta)

Publicado por: patrícia em maio 3, 2005 12:38 PM

JP:
Engraçado que escrevas sobre este tema. Há uns tempos, fiz uma experiência engraçada: escrevi um texto assim para o "denso" e depois escrevi-o de novo, sem um só adjectivo... Se tiveres tempo, dá lá um salto e diz de tua justiça.
Ah; e parabéns pelo livro, está claro!

Publicado por: João Garcez em maio 4, 2005 03:40 PM

Um pequenino PS, se tal me é permitido: o problema com os exemplos que citas nem é tanto a cadência monótona da adjectivação. É mesmo o absoluto lugar-comum em que todas essas expressões vivem.

Publicado por: JG em maio 4, 2005 06:40 PM

:)
Olá amigo!
Só uma correcção. Pelo modo como fizeste o comentário, dirigido ao JP parece que consideraste que o post era dele...
Olha que não.
Vê lá a assinatura.
( eu tenho andado atenta, por acaso, mas olha que não és o único)

Publicado por: Emiéle em maio 5, 2005 09:41 PM

Emiéle,
Olha, olha... ando mesmo distraído. Que argolada.

Publicado por: JG em maio 6, 2005 07:26 PM

Também nem tanto! Se tivesses desancado no post, o pobre o JP tinha alguma razão para protestar, mas não foi o caso.
Eu é que achei graça, até porque não és o primeiro

Publicado por: Emiéle em maio 7, 2005 05:53 PM