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maio 10, 2005
Post agradecido
Este post serve apenas para agradecer ao pessoal do Bits & Bytes, o utilíssimo suplemento de Informática do JN e do 24 Horas, que, na passada sexta-feira, publicou um texto muito amável e generoso sobre estas ruínas em forma de círculo. Peço desculpa pelo atraso deste agradecimento, mas só hoje é que tive acesso a um exemplar. Vocês são uns bacanos.
A piada é que um dos primeiros posts que escrevi aqui neste blog foi a propósito de uma das figuras míticas do início da vida do suplemento: José Becho (que, infelizmente, depois do meu post, não viria a escrever mais). Republico-o agora como forma de agradecimento.
HIS NAME IS BECHO, JOSÉ BECHO (18/09/2004)
Chegou o momento de partilhar convosco o segredo mais bem guardado da imprensa portuguesa. Não conheço José Becho, nem dele possuo quaisquer dados biográficos, a não ser o facto de saber que ele é «formador» (evito aqui qualquer comentário sarcástico, seguro que este meu esforço de contenção não passará despercebido) e, sobretudo, o de ser o autor de umas prosas deliciosas intituladas «Formação» no Bytes, suplemento de informática do JN e do 24 Horas.
Todas as semanas, o José Becho tem um problema bicudo para resolver: preencher (palavra fundamental, como veremos de seguida, na poética subjacente aos seus escritos) uma página inteira do dito suplemento com um texto de 1500 palavras. Nesse texto, há sempre uma espécie de lição de moral sobre um determinado assunto informático que, na verdade, poderia ser enunciado numa ou duas frases. Que fazer, portanto? O José Becho não está com meias medidas e resolve narrar. Sim, narrar. Criar um mundo imaginário, com diálogos e tudo, onde interagem umas personagens-tipo do género «sobrinho-curioso-cheio-de-dúvidas», os «amigos-que-não-percebem-patavina-de-informática-e-que-só-fazem-merda» e, claro, o próprio «José-Becho-formador-malta-jovem-super-cool-que-sabe-tudo». Numa palavra: palha. Palhinha da grossa e da seca, daquela que pica e não nos deixa dormir. Paradoxalmente, é nessa «palhinha» que nasce o meu verdadeiro interesse (quase fascínio) pelos textos de José Becho: o senhor é o mais profissional enchedor-de-chouriças existente em Portugal, capaz mesmo de rivalizar com esta figura mítica e arquétipa que foi Alexandre Dumas.
Exemplifiquemos. Na crónica (crónica?) de ontem, José Becho resolveu dizer-nos esta coisa que jamais nos passou pela cabeça que é o facto dos toners das impressoras serem «altamente tóxicos e perigosos se forem inalados». Como vêem, são sempre informações úteis e que, pessoalmente, já me convenceram a desistir da ideia de mamar ao lanche uma sandes de paio com dois toners HP (um 15/845c preto e um 17/845c a cores). O José Becho salva vidas e bastaria isso para ser merecedor da minha (nossa?) consideração.
Mas o melhor vem a seguir. Faltam, na boa, mais 1480 palavras para o texto estar completo e aqui é que a escrita de José Becho se torna seráfica. Temos pérolas do género:
«Quando chegámos, o funcionário que nos atendeu, o senhor [este «senhor» é semiotiquíssimo e refere a ausência de formação académica da personagem] Paulo Renato, olhou fixamente para o Saraiva e disse-lhe: "Eu acho que o conheço de qualquer lado...", e o Saraiva: "É natural, venho muitas vezes a casa do meu amigo Bernardo e também morei aqui até aos dez anos", de repente o senhor Paulo lembrou-se: "GILDINHO!!! Tu és o Gildinho, não és?", e antes do Saraiva poder sequer responder, deu-lhe um abraço e umas palmadas tão fortes nas costas, que até deixaram o Saraiva um bocado azul.»
Como podem ler, isto é puro teatro grego. Confrontação, reconhecimento e catarse. E penso que não vos terá escapado a insinuação por parte do narrador de uma pulsão homossexual mal reprimida por parte da personagem que se dá pelo nome de «Saraiva». E, sobretudo, e isto é que é fundamental, nada do que se narra aqui é relevante e serve apenas para atingir o objectivo das 1500 palavras.
No texto em causa, nota-se que José Becho despachou o que queria dizer (não se deve comer toners) muito cedo e que ainda lhe faltam cerca de 400 palavras para receber o cheque pelo correio. Eu imagino-o em casa, em cuecas, a suar e de cigarro na boca, a accionar o contador de palavras do processador de texto e acrescentar um adjectivo aqui, um advérbio ali, ou uma frase catita acolá. Mas 400 palavras é muita coisa e aí, o nosso formador tem uma ideia genial que vem muito ao caso num texto que trata da problemática da toxicidade dos toners das impressoras, a Moldávia:
«Deixamos então a impressora para reparação e a caminho de casa, o tio Alberto convidou-me para ir passar umas semanas de férias à Moldávia, a terra da tia Vika [genial]. Eu disse logo que sim [bruxo], e o tio Bernardo atirou à sua maneira: "Então os moldavos vêm para cá e tu vais para a Moldávia?" [apontamento fascista: todos os formadores são fachos], o tio Alberto saiu em minha defesa e disse-lhe: aquilo é um país espectacular, Bernardo. É pena que a economia esteja de rastos e origine tanta corrupção. De resto, é um país lindo: uma imensa planície com campos de trigo e girassol [ah, Cesário!]. Pinhais. Um jardim! E as pessoas? As pessoas são afáveis e generosas, são solidárias e convivem imenso. Quando lá chegas pela primeira vez, estranhas - os restos do passado recente estão bem presentes [eu não disse que ele era facho?] - mas depois de conviveres com aquele povo [e pimba], não queres sair de lá...».
Palavras para quê? É um artista português.
Publicado por João Pedro da Costa às maio 10, 2005 04:39 PM
Comentários
Só uma nota, o suplemento é do JN e 24horas, e não do DN. Parabéns ;)
PS: Já te falei do http://savetoby.com/?
Publicado por: Boss em maio 10, 2005 05:00 PM
Ups. Vou já corrigir. Eu li o teu post no Renas, na altura, Boss. É absolutamente inacreditável. LOL.
Publicado por: João Pedro da Costa em maio 10, 2005 05:06 PM
Não podes mandar uma digitalização do texto do suplemento ou publicá-lo aqui?
Publicado por: Jorge Morais em maio 10, 2005 05:34 PM
Ah ok. Eu lembrei-me do site porque o descobri via Bits & Bytes ;) Se quiseres a digitalização eu mando-ta ;)
Publicado por: Boss em maio 10, 2005 06:21 PM
(Parece que quem se esqueceu da digitalização fui eu, Jorge. Mas ando a tentar corrigir :))))
Publicado por: Hipatia em maio 10, 2005 06:24 PM
Este post é tão comprido que não dá para ler.
Publicado por: Rata Zinger em maio 10, 2005 07:39 PM
Rata: LOL.
Boss, se mandasses isso era porreiro. :)
Publicado por: João Pedro da Costa em maio 10, 2005 08:08 PM
E achas que foi por causa do teu post que ele não escreveu mais? :)
Publicado por: susana em maio 10, 2005 11:21 PM
Não iria tão longe, mas é uma coincidência do caraças. :D
Publicado por: João Pedro da Costa em maio 10, 2005 11:51 PM
Desculpem mas tenho de esclarecer uma coisa. O Becho sentiu alguns problemas com o post do JP da C. Era chato para ele chegar à tasca, pedir uma cervejinha e os amigos começarem a melgar-lhe a cabeça por causa da referência nas Ruínas Circulares. O senhor Antunes, o dono da tasca, habitualmente um tipo plácido e silencioso, passou-se quando soube. Chegou a dar-lhe uma palmada no ombro: “Com que então, meu grande sacana! Foste assunto nos Ruínas Circulares e não dizias nada à gente?”
“Mas já viste a minha crónica no Bits & Bytes?” – perguntava o Becho timidamente.
“Quero lá saber dessa merda!” – cortava o Antunes. “Eu quero é saber o que é que fizeste para aparecer nos Ruínas Circulares!”
Ele teve mesmo de mudar de tasca porque a malta já aparecia no café à cata do autógrafo, acenando com os prints do Ruínas Circulares e chamando: “Senhor Becho! Senhor Becho!”.
Como aquela malta toda ia para lá sem beber nada, o dono teve de intervir: “Vá, toca a circular, toca a circular, que ainda me põe o negócio em ruínas”.
Portanto o gajo acabou por ser corrido do Bits porque ficámos com ciúmes.
Agora que a verdade está reposta, parabéns pelo blogue ;)
Publicado por: Marco Santos em maio 11, 2005 12:33 AM
Marco Santos: LOL!!! Até o facto de vocês virem aqui comentar este post é a prova (inequívoca e irrefutável) da vossa bacanacidade. Um abraço para ti.
Publicado por: João Pedro da Costa em maio 11, 2005 01:18 AM
Parabéns pela menção no Bits e Bytes!!!
Publicado por: Gotinha em maio 11, 2005 09:49 AM
João, podes fazer esse em homenagem à genial resposta do Marco Santos.
Publicado por: racf em maio 11, 2005 10:19 AM
JPC,
não te esqueças de mandar a digitalização antes de usares o jornal como mortalha...
Hipatia,
I'm waiting ;-)
Marco Santos,
ganda resposta...
Publicado por: Jorge Morais em maio 11, 2005 10:43 AM
Ó João já tenho a digitalização, não ficou lá muito bem mas.. só que não acho o teu e-mail..
Publicado por: Boss em maio 12, 2005 03:26 PM
Alguem sabe o mail do Bits & Bytes para colocar duvidas??
Publicado por: Soares em junho 14, 2005 07:34 PM