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maio 09, 2005
Um Caderno de Capa Castanha #3
Eu sei que eras pequenina mas ainda te consegues lembrar do final da guerra? Apeteceu-me perguntar-te isto agora.
«Se me lembro…! Essa é das imagens da minha infância que recordo com mais nitidez. Sentia-me confundida por perceber como tudo aquilo era importante para as pessoas que me rodeavam, pessoas que eram os meus modelos. Se os meus pais estavam naquele estado de excitação era porque, com certeza, se passava algo de muito sério! Era complicado, sentia-me também nervosa, um pouco assustada, arrastada por uma onda gigante de alegria colectiva.
Mas deixa-me voltar a esse tempo. Eu tinha cinco anos. A nossa vida do dia a dia era muito espartilhada. Para além do “espartilho” que era a própria existência do salazarismo com a pressão permanente sobre a liberdade de pensamento e de expressão, um morno medo latente, havia ainda o “espartilho” da guerra. Há quem hoje imagine que como Portugal pela sua neutralidade não entrou nela directamente, não foi afectado. Nada de mais errado! Fomos sim e muito. A vida do dia a dia só podia ser compreendida pela existência dessa guerra.
Lembro-me bem de como tudo tinha de ser poupado, da força opressora do racionamento. Havia senhas para se comprar quase tudo o que era necessário, cada família tinha mais ou menos senhas conforme o seu tamanho. E havia os produtos do mercado negro, um mercado clandestino mas a que todos recorriam. Coisas preciosas chegavam-nos da província quando as nossas raízes iam até lá. De vez em quando chegava a surpresa duma dúzia de ovos, uma garrafa de azeite. Era uma festa!
Custa-nos imaginar hoje, quando entramos no enorme casarão de um supermercado com prateleiras inteiras cheias de produtos, o valor que podia ter uma garrafinha de azeite que aparecia clandestinamente...Sabes que nessa altura havia muito menos lojas, mesmo na proporção. Havia mercearias, drogarias, lugares de hortaliça, capelistas, mas nem imaginas a variedade de produtos que nos vinham trazer à porta. Era um mercado ambulante.
O pão e o leite, em primeiro lugar. Lembro-me do padeiro, logo de madrugada, bater à porta com o enorme cesto cheio de pão saído do forno, a leiteira com bilhas de lata vinha de porta em porta, e media o leite que se precisava directamente para o nosso fervedor. Depois, havia as varinas que traziam peixe também à nossa porta, e lembro-me de uma carrocinha puxada por um burro, onde um vendedor trazia os legumes. Tinha um pregão muito modulado cujas palavras nunca cheguei a entender. Mas isso não interessava porque, ao ouvir-se aquela cantiga, sabíamos que era o homem das hortaliças.
Quase nada se vendia empacotado.
Lembro-me de ir com a senha para a manteiga no bolso, até à mercearia e pedir 50 ou 100 gramas que o merceeiro atirava com uma grande colher de pau de um alguidar para cima da balança. Ou a farinha, ou o açúcar, ou o feijão, que ele despejava para uns cartuchos de papel pardo pesando-se a quantidade que se pedia. Depois assentava a compra num livro e pagava-se no fim do mês. Toda a gente fazia assim. Era o “cartão de crédito” da altura baseado na confiança.
Quando te digo que se poupava tudo, era tudo. Havia uma caixinha, na chaminé, para os fósforos queimados. Um fósforo, mesmo depois de usado, ia servir para acender outro lume aproveitando um que já estivesse aceso. Uma panela com um furo mandava-se consertar, deitar ali um pingo de solda. Na loiça que se partia, punha-se “gatos”, uns agrafes que mantinham os pedaços juntos.
E o rescaldo da guerra surgia também noutros campos. Olha as legiões de refugiados. Faziam moda, imagina. O cabelo cortado “à refugiada”, era muito mais curto porque não havia tempo para grandes penteados. Assim como elas não andavam de chapéu como as portuguesas, tapavam simplesmente a cabeça com lenços grandes. E inventavam soluções muito imaginativas: lembro-me bem de, em casa de uns amigos dos meus pais, ter visto uma senhora fugida da guerra que tinha feito a caminha do seu bebé com uma gaveta que retirou de uma cómoda... E foi também nessa altura que surgiu a moda das alcofas para os bebés. Se não havia berço, havia alcofa. Era um mundo novo mais simples, mais prático.
Mas o final da guerra foi o delírio. Foi isso que me perguntaste? Nunca tinha visto gente crescida a saltar de alegria ! Na minha rua, de um momento para o outro viram-se as janelas cheias de colchas penduradas ( é um hábito de festa que desapareceu, parece-me…) e as pessoas aos abraços e a rir. Gritavam de uma janela para a outra “Acabou a guerra!!!” Hoje, eu entendo que aquela alegria tão grande era porque se acreditava que ia ser a grande barrela: Hitler, Mussolini, Franco e Salazar. Tudo parecia possível. Os aliados tinham vencido e as ideologias que eles tinham combatido iam desaparecer.
Foi um momento de sonho e de grande felicidade.
Lembro-me sim. Lembro-me muito bem do fim da guerra. Como havia de esquecer?»
Publicado por Clara às maio 9, 2005 11:55 PM
Comentários
Como gosto destas folhas do caderno de capa castanha, Clara! São luminosas.
Publicado por: 1poucomais em maio 10, 2005 01:54 AM
Eu a pensar que ela é uma chavalinha e ela a falar-me das memórias da Grande Guerra...
Isto da internet pode mesmo induzir uma pessoa em erro, carago...
Publicado por: sharkinho em maio 10, 2005 09:54 AM
Clara, acho que já aqui disse que tenho mandado imprimir os teus textos, que acho uma maravilha. Não sei como consegues esses testemunhos mas são preciosos. Não sei bem se isto são textos, como eu lhes chamo se são posts, porque um post para mim é uma coisa mais passageira.
A tua confidente que não se cale.
Nós vamos vivendo com ela experiências que não tivemos mas que assim nos é fácil imaginar.
Publicado por: Zé em maio 10, 2005 10:45 AM
Quase que posso assinar por baixo do que acabou de escrever o Zé.
A minha avó conta-me algumas histórias como estas, mas com menos côr. Isto é tão vivido que parece que estamos numa de "regresso ao passado".
Muito bem Clara. Vai registando estes momentos que são preciosos. Essas poupanças pequeninas, que se diziam salazaristas, se calhar tinham sido aprendidas por causa da guerra. Nunca tinha pensado.
Publicado por: Gui em maio 10, 2005 10:58 AM
Lembraste-te disto pelo 8 de Maio, foi?
Não podia vir mais a propósito!
Junto-me ao coro.
João Pedro e Clara, grandes bloggers!!!!!
Publicado por: King em maio 10, 2005 11:00 AM
Apanhei um pouco de racionamento na altura da guerra pela independência, em Angola. Não havia carne, nem manteiga, o leite era vendido um pacote por dia/família, as pessoas partilhavam com a família e os amigos alguma coisa excepcional que conseguiam arranjar. Já depois do 25 de Abril, na aldeia portuguesa onde vivi, conheci isso de que falas: o leite que vinha de manhã da leiteira, num recipiente de alumínio, cheio de nata, ainda quente; o peixe e o pão vendidos à porta, a fruta da quinta. Os fósforos guardados depois de usados são um hábito que ainda conservo, durante a preparação da mesma refeição, para acender o queimador ao lado com o fogo do anterior.
Publicado por: susana em maio 10, 2005 02:03 PM
Sharkyboy, e tu ainda nem viste nada!
Como imaginas que saem estes posts?
Tenho o PC acoplado à cadeira de rodas, é o que é!
Publicado por: Clara em maio 10, 2005 03:01 PM
Recordo que o meu avô esteve na Guerra. Mas na outra, a Primeira. Ccontava as histórias. Lembro-me de nos dizer como foi feliz o dia em que soube que ia voltar. Não havia correspondência com a terra, a família. No dia em que chegou a casa, soube que tinha perdido a mulher e o filho com a febre espanhola. Apesar disso, e até morrer, todos os dias 9 de Abril,saía á rua a deitar foguetes por a guerra ter terminado. Depois o meu pai contava-me o que a família, já recomposta e enorme passou durante a Guerra de que falas.
Ao recordares, Clara, recordaste-me a alegria do meu avô, o drama do meu avõ,a sardinha que, durante o tempo que falas, era dividida por dois, quem comia hoje a parte da cabeça, comeria no dia seguinte a do rabo...
Obrigado Clara, por me relembrares as hsitórias que também a mim num dia distante me contaram. E por o fazeres desta forma linda.
Publicado por: isabel em maio 10, 2005 04:40 PM
São vivências que nem sequer consigo imaginar. E às vezes, anda um gajo chateado com coisinhas insignificantes. Este teu texto, Clara, põe tudo em perspectiva.
Publicado por: João Pedro da Costa em maio 10, 2005 05:01 PM
A recordação da Susana é importante e muito vivida também. Mas o que eu realço a partir do que disse a Clara, é que em Angola durante a guerra todos podiam imaginar que houvesse carências ( aliás agora também!) contudo, há quem imagine que de 39 a 45 Portugal passou entre os pingos da chuva pela sua "neutralidade". Afinal não foi assim. Foi bom relembrá-lo.
E a história que nos conta a Isabel, faz todo o sentido, enquadrada neste post. A falta de informação é hoje quase inimaginável. Num mundo em que se conhece o Tsunami minutos depois, que se assiste a bombardeamentos, que se fala em segundos para a Austrália ou Japão, imaginar um soldado que regresse da frente e encontre a notícia de que a família morrera entretanto, deixa-nos abalados. Como era possível?
Publicado por: Emiéle em maio 10, 2005 09:43 PM
Aprendi hoje muita coisa. Não fazia a menor ideia de que por cá as coisas fossem assim. A minha ideia era que essas cenas do racionamento e falta de tudo era, como se vê no cinema, em França ou Inglaterra.
É de ver tanto cinema...
Mas fiquei admirado.
Publicado por: Paulo em maio 10, 2005 09:49 PM
Também eu ouvi essas histórias e ainda me lembro do leite cremoso e quente no fervedor de alumínio, da caixa dos fósforos queimados, dos cartuchos de papel pardo...
Bonito, as usual, Clara. :)
Publicado por: cap em maio 11, 2005 01:36 AM
Obrigada a todos por tantos comentários simpáticos e sobretudo obrigada a quem colaborou com outras memórias, como a Isabel e a Susana.
O João Pedro chama a atenção para uma coisa que também me parece importante: o levarmos tão a peito por vezes coisas levezinhas. Até a nível de saúde - tenho mais uma "memória" destas na calha, porque nessa altura não havia antibióticos, e a tuberculose era mortal. Doenças que hoje quase nem são de meter baixa, nessa época eram assustadoras.
Mas prometo que não vou só falar do passado.
Daqui a pouco nem me podem ouvir. :)
Publicado por: Clara em maio 11, 2005 09:12 AM