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fevereiro 07, 2006

Conta, peso e medida

O segredo de uma boa sesta, contava o avô octogenário, é a sua duração: tem de ser suficientemente longa para ser reparadora e suficientemente breve para impedir a indisposição. Por isso, lembrou-se um dia de tentar adormecer com uma pedra na mão e deixar-se acordar quando a mesma caísse no soalho. O que ele não sabia, nem poderia saber, é que demoraria dois anos a encontrar a pedra ideal. Inicialmente, acreditou que o peso da pedra era a única variável relevante: quanto mais pesada ela fosse, menor seria a duração da sesta; quanto mais leve, maior. Comprou então uma balança de pratos e um caderno quadriculado onde ia apontando os pesos das pedras que ia testando. Todos os dias, depois do almoço, sentava-se na poltrona a com a pedra na mão e fechava os olhos. Quando, alguns minutos depois, acordava com o ruído da pedra a bater no chão, voltava a fechar os olhos e tentava decifrar no paladar da saliva os sinais do corpo: fadiga ou indisposição? Ao fim de alguns meses, e apesar de alguns inevitáveis erros, ele foi conseguindo estreitar cada vez mais os intervalos de peso da pedra desejada e chegou mesmo a conhecer uma ou outra vez o frenesim inconfundível da aproximação. Contudo, ao olhar para as tabelas e gráficos do seu caderno, era por de mais evidente que havia um factor desconhecido que interferia com o rigor dos cálculos e das medições. Chegou a pensar que tal se deveria a variações do seu próprio peso e procurou introduzir uma certa regularidade no horário e na quantidade de comida que ingeria nas refeições. Acrescentou então uma terceira coluna na tabela, ao lado da do peso das pedras e das respectivas considerações, com o peso do seu próprio corpo. No entanto, mesmo após ter conseguido estabilizar esse segundo factor, os cada vez mais reduzidos intervalos que ia definindo revelavam-se instáveis e, mais grave ainda, incongruentes. Num primeiro momento, chegou a especular sobre a questão da forma, mas rapidamente afastou essa hipótese pelo facto de o leque das probabilidades ser praticamente infinito e, por isso mesmo, inalcançável. Lembrou-se finalmente da mão. Todos os testes e cálculos que tinha efectuado tinham sido feitos com a pedra agarrada na mão direita e essa não tinha sido uma decisão pensada, mas apenas um fruto do acaso ou, quando muito, a tendência natural de um dextro. Quase febril com essa descoberta, desenhou um risco horizontal na folha do caderno e agradeceu aos deuses o facto de ter conservado e catalogado todas as pedras que tinha testado: 439. Seu propósito era inequívoco: refazer, com mão esquerda, pedra a pedra, sesta a sesta, todo o percurso da sua busca e comparar os resultados. Ao fim de algumas semanas, a disparidade era evidente. Os intervalos, outrora hesitantes e pouco precisos, possuíam agora um rigor belo e matemático. Numa tarde, chegou mesmo a determinar com exactidão, através de simples cálculos de proporcionalidade, a pedra que lhe proporcionaria finalmente o repouso imaculado. Contudo, resolveu não saltar etapas, talvez por superstição ou pelo facto de sentir um certo e inconfessável prazer em prolongar a espera. Quando finalmente chegou o dia em que ele iria testar a pedra que sabia ser a que procurava há quase dois anos, não deixou de sentir uma irreprimível tristeza. Agarrou na pedra e olhou longamente para ela. Era uma pedra absolutamente banal, feita do que lhe parecia ser granito, sem forma precisa e de cor irregular. Percebeu que o facto de saber o exacto peso da pedra ou mesmo o de um hipotético geólogo lhe determinar a sua complexa constituição não dissolveriam em nada o seu mistério. Antes de adormecer, calculou no caderno a razão exacta entre o seu peso e o da pedra, não por lhe interessar o resultado, mas apenas para se distrair do medo inexplicável que sentira de repente. Pousou o caderno, respirou fundo e agarrou a pedra com a mão esquerda. Fechou os olhos e, para sua grande surpresa, não lhe custou nada adormecer.

Publicado originalmente na Aspirina B em 28/01/2006

Publicado por João Pedro da Costa às fevereiro 7, 2006 10:30 AM

Comentários

Que bem que me soube!... :)

Publicado por: sofia em fevereiro 7, 2006 11:01 AM

Mas é óbvio que aqui tem outro brilho.
Volto a dizer que o Aspirina tem barulho a mais para o meu gosto. Sou mais pacata, e prefiro a intimidade do Ruinas.
Li o post lá e até nem me lembro se disse alguma coisa. Injustiça, porque é um belíssimo texto não só muito bem escrito mas profundamente criativo na sua concepção. Gostei muito à primeira e gosto muito à segunda.

Publicado por: Emiéle em fevereiro 8, 2006 07:03 PM

Bom dia, móinas. É só pra dizer que isto é prós apanhados e deixei-te no charco uma excelente oportunidade de trazeres a lume os teus recalcamentos homo.

Publicado por: sharkinho em fevereiro 9, 2006 09:51 AM

E não é que voltaste mesmo?
:)

Publicado por: Ricardo Garcia em fevereiro 9, 2006 05:22 PM

Faz um favor a toda a gente e deixa de escrever. És um poço de irrelevância.

Publicado por: I em fevereiro 9, 2006 08:00 PM

Ena, ena, tantos amiguinhos que tu tens. Pedem por favor. E "poço de irrelevância" é fixe, desculpa lá a piquena traição.
Estragam-te com mimos, nesta blogosfera ingrata (mas polida) que não compreende o génio oculto em ti...
É só esfregar-te a lâmpada.

Publicado por: sharkinho em fevereiro 9, 2006 09:56 PM

Ah, é verdade: a posta tá baril, mas podias dividir o "tijolo" com uns parágrafos. A malta gosta de uns espacinhos para descansar a vista.

Publicado por: sharkinho em fevereiro 9, 2006 09:59 PM

Não sei exactamente por que decidiste sair da Aspirina e reabrir o Ruínas, mas vou-te lendo à mesma. E a minha opinião sobre este texto mantém-se, é claro, ó Nobel (do html).
Um abraço.

Publicado por: Filipe Moura em fevereiro 10, 2006 01:00 AM

Um poço de irrelevância? Puxa, que boca mais xunga, meu. Fiquei bué de chateado.

Obrigado, Filipe. Saí da Aspirina por razões óbvias: eu adoro o blog como leitor, mas nos últimos tempos senti que estava desenquadrado do tom dominante. Apenas isso.

Publicado por: João Pedro da Costa em fevereiro 10, 2006 03:10 PM

Tubyzito: a malta gosto de uns espaçozinhos para descansar a vista?

Ora

descansa

na

boa.

Publicado por: João Pedro da Costa em fevereiro 10, 2006 03:18 PM

O teu tom é que me domina, gatão...

Publicado por: sharkinho em fevereiro 13, 2006 10:05 AM

tenho 18 anos e peso 1,68kg, gostaria de saber qual o peso ideal para mim????

Publicado por: Anitha em abril 17, 2006 09:22 PM

ola
eu tenho 16 naox e peso 78kg mexo 1.64 queria emagreser e gostava de saber qual é o meu peso ideal para poder obeter esse peso por favor responda

Publicado por: tania em março 5, 2007 03:08 PM

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