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fevereiro 12, 2006
Mil nove centos e noventa
É no início do mês de Dezembro que nos começam a bater à porta. Vamos à porta e, tirando a primeira vez, que nos apanha todos os anos desprevenidos, já não estranhamos o facto de abrirmos a porta e de lá não ver ninguém. Os dias vão passando e há já 15 anos que o ritual se repete: batem-nos à porta, um de nós vai à porta e não está lá ninguém. Uma vez por dia, duas, três. Em meados de Dezembro, o som do osso a bater na madeira já se transformou num ruído natural da respiração da casa, ao lado de outros como o do ranger do soalho, do murmúrio dos electrodomésticos ou do mecanismo do relógio da sala: batem-nos à porta e já nem sequer vamos lá, apesar de ser uma das regras da casa abrir sempre a porta aos que estão ausentes. Na manhã do dia 24, o ruído torna-se incessante. Batem-nos à porta, batem-nos à porta, batem-nos à porta. E sou sempre eu quem sucumbe à inquietação daquele momento: abro a porta, mas nem precisaria de o fazer para dizer à minha mãe
- Está aqui o pai.
- Que merda. Deixa-o lá entrar.
É que o meu pai só atrapalha. É preciso pegar nele ao colo e trazê-lo para dentro de casa e sentá-lo ao quente no sofá. Ele fica ali parado a olhar de um jeito meio triste e alucinado para nós e de vez em quando desaparece para surgir nos locais mais inesperados: a fazer o pino na banheira, a esparregata no chão da cozinha ou de parvo perante os cozinhados da minha mãe. A gente bem volta a pegar nele, mas de nada nos vale fechá-lo numa divisão da casa - pouco depois ele reaparece como por magia nos locais mais inesperados e sempre a atrapalhar. Quando chegar a hora da ceia, não haverá qualquer lugar para ele na mesa, mas aí a gente cede um pouco e deixa-o desarrumar a casa à sua vontade. Ele arrasta móveis, muda a posição de alguns objectos, empilha outros lá fora no pátio para os pormos no lixo e é como se viajássemos no tempo, pois ao fim de algumas horas a casa fica quase com o aspecto que tinha há quinze anos atrás, quando celebrámos aquilo que nenhum de nós sabia ser o nosso último Natal - aquele que, todos os anos, no primeiro dia de Dezembro, se mistura com o vento e a chuva e a noite para nos vir bater à porta.
Publicado originalmente na Aspirina B em 01/12/2005
Publicado por João Pedro da Costa às fevereiro 12, 2006 12:19 AM
Comentários
JP, tens toda a razão em publicar aqui os teus textos. O da "conta, peso e medida" lembrava-me bem dele e tinha dúvidas se lá tinha deixado qualquer coisa, neste de certeza que não deixei apesar de também o ter lido. Mas a verdade é que o Aspirina está a ficar muito "pesado" com muita gente e excessivamente variada, Li o teu texto porque quando lá entrava ia de propósito à tua procura, do Rainha e do Zé Mário. Mas é muita confusão, eles que me desculpem a sinceridade.
Agora, aqui no sossego, não vou pôr-me a analisar isto literariamente ( que competência teria?) mas pela emoção que desperta. E é muita. As imagens que nos trazes, como materialização dos sentimentos, acabam por ser elas também a correspondência emocional à “materialização” da presença/ausente do pai.
Muitíssimo bem escrito, JP. Quer pelo domínio das palavras quer pela transmissão dos sentimentos. Gostei imenso.
Publicado por: Emiéle em fevereiro 12, 2006 09:39 AM
Os homens desarrumam tudo.
Publicado por: Fred em fevereiro 13, 2006 01:46 AM
Sobretudo nas ideias.
Publicado por: sharkinho em fevereiro 13, 2006 10:08 AM
Arrumem lá essa ideia.
Publicado por: João Pedro da Costa em fevereiro 13, 2006 12:34 PM
e já que estão em arrumações, arrumem também esta aqui.
não é essa, é esta.
Publicado por: susana em fevereiro 13, 2006 01:17 PM
eu não dizia?
Publicado por: teresa em fevereiro 13, 2006 03:46 PM
Bem podias dizê-lo...
Publicado por: sharkinho em fevereiro 13, 2006 09:17 PM
Foi bom teres posto aqui este post, porque assim (pelo menos nos próximos tempos) tenho muito menos trabalho quando ando à procura dele para o reler. O mais chato nos teus posts é andar depois à procura deles. Como me acontece frequentemente com aquele em que dizias que tinhas que escrever com uma letra que se percebesse, ou o outro das cerejas ou aquele em que vens cá para fora com o maço de cigarros, ou o do Borges (já agora, podias pôr esse aqui também), ou, pior ainda, os outros que não me lembro como procurar, mas que sei que queria reler. É mesmo uma chatice andar à procura dos teus posts.
Publicado por: ana_pr em fevereiro 13, 2006 10:15 PM
Puxa, muito obrigado, ana_pr. Ando com pouco tempo para bloguices e vou aproveitando os posts que publiquei na Aspirina para republicá-los aqui. E o do Borges será um deles.
Publicado por: João Pedro da Costa em fevereiro 14, 2006 10:04 AM
Somos tão materialistas que até materializamos aqueles de quem sentimos saudades.
(não é preciso dizer-te que o texto tem uma batida espectacular, pois não? :)
Publicado por: maria árvore em fevereiro 14, 2006 01:45 PM
Eu não sou adepto das caixas de comentários, mas não quis deixar de saudar o seu regresso!
Abraço
Publicado por: mondrian em fevereiro 14, 2006 03:32 PM
Xenical
Publicado por: 110x83l97 em fevereiro 14, 2007 05:02 AM
[url=http://hometown.aol.com/pics28635495/gay-master-4-slave.htm]gay master 4 slave[/url]
Publicado por: t7clqlhm em fevereiro 21, 2007 05:13 PM