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janeiro 30, 2009
Parkour
Fenómeno cultural, exercício recreativo, produto de uma sociedade onde se foi perdendo o valor das relações afectivas, símbolo compulsivo de fragilidade e fraqueza, praga, flagelo, doença – estes são alguns dos termos utilizados para definir a toxicodependência.
Na verdade, a toxicodependência é uma palavra inventada pela Comunidade Terapêutica Ponte da Pedra, em Leça do Balio, e que significa percurso ou trajecto que une a distância entre um ponto A (o dependente) a um ponto B (o tóxico).

A toxicodependência é igualmente um manual de instruções para ser utilizado por um praticante de forma a percorrer essa distância e a suplantar os eventuais obstáculos que lhe surgem pelo caminho.

A prática da modalidade difundiu-se em Portugal, na Suíça e pelo mundo inteiro sobretudo através da ocupação dos tempos livres, tendo sido de imediato adoptada por jardineiros, militantes do PCP, baixistas e outros curiosos em busca de adrenalina que a interpretaram como um misto de desporto radical e de exercício meditativo.

Apesar de poder ser praticada tanto em meios rurais como urbanos, é sobretudo nas cidades, subúrbios e bairros sociais, que se podem encontrar os praticantes da toxicodependência, cuja filosofia e práxis mudam radicalmente a forma como vemos e vivemos a paisagem humana.

Aparentes obstáculos como a proibição, o conhecimento empírico, a razão ou as leis do mercado são transformados numa espécie de instrumentos de um ginásio imaginário em que se subverte o desígnio que esteve na criação de palavras como amor, diversão, felicidade e mãe.

O primeiro objectivo de qualquer toxicodependente consiste em desenvolver uma perícia que lhe permita percorrer, ultrapassar ou contornar com a máxima eficiência a distância e os obstáculos que o separam do tóxico. Os músicos de Jazz costumam dizer que os novatos precisam de aprender tudo sobre o seu instrumento e a música para depois esquecer tudo isso e poderem finalmente aprender a tocar. O mesmo se pode dizer sobre o desejo e a fúria que um toxicodependente investe na prática da modalidade: no seu estado mais puro, a toxicodependência é, tal como o Jazz, uma arte do improviso.

O segundo objectivo é a sobrevivência. O toxicodependente vive constantemente num estado de emergência para chegar ao tóxico, e nessa vivência vai perdendo os outros, a sombra e os dentes. Na Comunidade Terapêutica Ponte da Pedra, em Leça do Balio, aprende-se todos os dias que a única distância que vale a pena galgar é a que nos separa de nós mesmos. É por isso que, aqui, os jardineiros, os militantes do PCP, os baixistas e os demais curiosos não querem abdicar do significado preciso e genuíno de palavras como mãe, felicidade, diversão e amor.
Publicado por João Pedro da Costa às 05:31 PM | Comentários (9)
Levanta os pezinhos
Dizer que o vídeo que se segue é um spoiler é, no mínimo, um eufemismo. Não sei quando a fita irá estrear por cá (mas vou andar em cima do mother fucker), mas é um belo exemplo de como o segmento de um filme pode servir de clipe para um tema. A música é, para os mais incautos, uma (das muitas) pérolas que se podem encontrar nos dois primeiros álbuns dos Roxy Music (antes do Eno ter feito um manguito ao Bryan Ferry): «If There Is Something» do álbum homónimo dos rapazes. Reparem, por exemplo, no pormenor (fundamental) da agulha cair exactamente no ponto em que o Phil Manzanera começa o seu solo de guitarra. Até arrepia.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:00 PM | Comentários (4)
janeiro 22, 2009
Espero que estejas agasalhado que os poços são lugares fresquinhos
O James Murphy é que fala muito bem destas cenas.
LOSING MY EDGE (Lcd Soundsystem, 2002)
Yeah, I'm losing my edge. I'm losing my edge. The kids are coming up from behind. I'm losing my edge. I'm losing my edge to the kids from France and from London. But I was there. I was there in 1968. I was there at the first Can show in Cologne. I'm losing my edge. I'm losing my edge to the kids whose footsteps I hear when they get on the decks. I'm losing my edge to the Internet seekers, who can tell me every member of every good group from 1962 to 1978. I'm losing my edge. I'm losing my edge to all the kids in Tokyo and Berlin. I'm losing my edge to the art-school Brooklynites in little jackets and borrowed nostalgia for the unremembered eighties. But I'm losing my edge. I'm losing my edge, but I was there. I was there. But I was there. I'm losing my edge. I'm losing my edge. I can hear the footsteps every night on the decks. But I was there. I was there in 1974 at the first Suicide practices in a loft in New York City. I was working on the organ sounds with much patience. I was there when Captain Beefheart started up his first band. I told him "Don't do it that way - you'll never make a dime". I was there. I was the first guy playing Daft Punk to the rock kids. I played it at CBGB's. Everybody thought I was crazy. We all know. I was there. I was there. I've never been wrong. I used to work in the record store. I had everything before anyone. I was there in the Paradise Garage DJ booth with Larry Levan. I was there in Jamaica during the great sound clashes. I woke up naked on the beach in Ibiza in 1988. But I'm losing my edge to better-looking people with better ideas and more talent. And they're actually really, really nice. I'm losing my edge. I heard you have a compilation of every good song ever done by anybody. Every great song by the Beach Boys. All the underground hits. All the Modern Lovers tracks. I heard you have a vinyl of every Niagra record on German import. I heard that you have a white label of every seminal Detroit techno hit - 1985, '86, '87. I heard that you have a CD compilation of every good '60s cut and another box set from the '70s. I hear you're buying a synthesizer and an arpeggiator and are throwing your computer out the window because you want to make something real. You want to make a Yaz record. I hear that you and your band have sold your guitars and bought turntables. I hear that you and your band have sold your turntables and bought guitars. I hear everybody that you know is more relevant than everybody that I know. But have you seen my records? This Heat, Pere Ubu, Outsiders, Nation of Ulysses, Mars, The Trojans, The Black Dice, Todd Terry, the Germs, Section 25, Althea and Donna, Sexual Harrassment, A-Ha, Pere Ubu, Dorothy Ashby, PIL, the Fania All-Stars, the Bar-Kays, the Human League, The Normal, Lou Reed, Scott Walker, Monks, Niagra, Joy Division, Lower 48, the Association, Sun Ra, Scientists, Royal Trux, 10cc, Eric B. and Rakim, Index, Basic Channel, Soulsonic Force ("just hit me!"), Juan Atkins, David Axelrod, Electric Prunes, Gil! Scott! Heron!, the Slits, Faust, Mantronix, Pharaoh Sanders and the Fire Engines, the Swans, the Soft Cell, the Sonics, the Sonics, the Sonics, the Sonics. You don't know what you really want.
Por acaso até sei e este é que é o problema: apesar disso estou a lusar o meu edge. Anda um gajo há anos a suspirar com os três disquitos dos Soul Coughing, para hoje um puto de 17 anos dar-me o maior arraial de porrada da minha vida. Rewind. Ontem, estava em casa de um amigo (manifesto exagero, mas tá bem) à espera de uma boleia (ele não sabe onde pôs as chaves). Ao meu lado, sentado no sofá, o irmão mais novo devora um episódio da Anatomia de Grey («Bela merda essa série», disse eu, «Iá, mas tem gajas boas!», «Ah.»). De repente, no final do episódio, entra uma canção com a inconfundível voz de Mike Doughty.
- Eh, mas é o gajo dos... dos...!
- Pois é.
- Pois é o quê?
- É o coiso.
- O coiso o quê?
- O gajo dos Soul Coughing. Gostas da banda?
- Claro, adoro. Mas, tu conheces os gajos?
- Iá. Ouvi umas cenas. Esta música é de um disco a solo que ele lançou há uns anos.
- A sério?
- ...
O tema era orelhudo e, apesar de sofisticado, não encaixava nada na cartilha daquela que considero ser uma das melhores bandas da década de 90. Quando cheguei a casa, fui à net e descubro que o cabrão lançou um disco a solo em 2005 intitulado HAUGHTY MELODIC e que o tema «Looking At The World From The Bottom Of A Well» até teve um sucesso considerável no último ano devido à sua utilização na anatomia daquela chorona neurótica.
Pronto, era só isso que tinha para dizer.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:25 PM | Comentários (5) | TrackBack