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fevereiro 28, 2009
Resumo alargado com análise do lance fulcral das férias em Barca d'Alva

Os dias que passei a semana passada em Barca d’Alva foram ainda mais luminosos do que aquele não muito distante em que a minha mãe recebeu finalmente por correio o primeiro cheque da sua reforma de França. Estive rodeado de amigos magníficos, ouvimos música, tocámos guitarra e harmónica, roubámos laranjas, cozinhámos, visitámos as ruínas da antiga estação de comboios de Barca d’Alva, atravessámos a pé a ponte férrea por cima do Águeda, seguimos pela antiga linha de comboio em Espanha, a minha cadela tomou banho no rio, maravilhámo-nos com as amendoeiras em flor, as oliveiras e as estrelas à noite, visitámos a quinta onde viveu Guerra Junqueiro e por lá vimos, a poucos metros de distância, esse ser absolutamente inverosímil e cheio de vértices que é uma raposa. Foram dias tão perfeitos que até o facto de o meu carro me ter deixado pendurado rapidamente se transformou numa aula de sociolinguística e de anatomia do corpo humano. Passo a explicar. O carro não pegava e após umas tentativas frustradas de encher cabos e velas de WD-40, resolvi pedir ajuda ao ACP (o ACP deve ser a instituição mais fiável e eficiente do nosso país: rebocaram-me o carro, arranjaram-me um táxi para fazer a viagem de regresso e ainda tive direito a um belo veículo alugado quando cheguei ao Porto). Passado uma hora, chega o reboque, conduzido por um rapaz bonito, muito bonito, não daqueles escanzelados, mas encorpado e muito saudável, a quem apetece de imediato agarrar as bochechas e despentear o cabelo. O rapaz, que, repito, era uma bela figura de um moço, lá saiu do reboque e perguntou
- Boa tarde. Então que se passa?
- O carro não pega ou o caralho.
Esta minha entrada de carrinho pelo vernáculo pôs logo o rapaz muito à vontade. Sorriu, olhando para as meninas meio embaraçado, e arriscou um
- Ai o cabrão do gajo. Vamo lá ver o que se passa, caralho.
O ambiente estava muito descontraído e, como é óbvio, os palavrões foram fluindo de uma forma muito natural da boca do rapaz. Um gajo, claro, ria-se, pois a vida já nos tinha ensinado que nessas coisas de alguém prestar serviços a outrem, o outrem tem de piar fino até o alguém ter prestado o serviço, deixando eventuais reclamações para a fase posterior à prestação do servicinho. O rapaz lá decidiu que
- Aqui não dá para fazer nada. Falta-me a merda da ferramenta.
E pediu-nos se podia ir lavar as mãos. Lá fomos. Quando chegamos à banca da cozinha, resolvi dar um ar da minha graça inventando, na hora, uma fórmula para tirar o óleo das mãos.
- Isto vai lá é com detergente da loiça e sal grosso.
E, acto contínuo, misturei os dois ingredientes nas mãos que, de imediato, e para grande surpresa minha, ficaram logo limpinhas. Eis que o rapaz se vira então para mim e diz-me em sotto voce:
- O senhor sabe o que tira bem o óleo das mãos?
- Mas olhe que o sal e o detergente funcionam...
- Sim, sim, mas melhor ainda. Sabe o que tira mesmo o óleo das mãos?
- Diga lá.
- Esfregá-las nas pachachas da cona.
O leitor não deverá aqui subestimar o efeito que a última frase, dita assim de rajada e naquelas circunstâncias, pode causar no ouvinte. Claro que o efeito poderá variar consoante as idiossincrasias do interlocutor – no meu caso, em vez de me matar a rir como agora faço cada vez que digo, oiço ou escrevo «pachachas da cona» (eu e os meus amigos tencionámos registar a marca e tudo), em vez de me rir, dizia eu, boiei durante alguns segundos na incredulidade e depois inquiri:
- Como disse?
- Nas pachachas da cona.
- Pachachas da cona?
- Sim, isso. Esfregar as mãos nas pachachas da cona.
- Mas, ó homem, isso não existe...
- Como assim?
- (Pausa) «Pachacha» e «cona» são sinó... querem dizer a mesma coisa.
- Ah, isso só se for lá pró Sul. Aqui existe e muito...
- Pachachas da cona?
- Sim. É aquela parte da barbatana.
E riu-se. Ficando ainda mais bonito.
Publicado por João Pedro da Costa às 05:08 PM | Comentários (28)
Ponto Negro #16
Acabo de descobrir que tenho na minha secretária oito esferográficas que não escrevem.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:09 AM | Comentários (2)
fevereiro 26, 2009
Ponto Negro #15
Ai Barca d'Alva, Barca d'Alva...
Publicado por João Pedro da Costa às 07:57 PM | Comentários (4)
O raio da febre até tem as suas virtudes
É sem pompa e ainda menos circunstância que venho por este meio informar os infiéis que um dos grandes discos de 2009 já está disponível na Internet (lamento, mas não dá mesmo para esperar até ao dia 18 de Março). Karin Dreijer Andersson, a vocalista dos The Knife (autores do magnífico SILENT SHOUT de 2006) aventura-se a solo sob o nome Fever Ray. Se a notícia me deixou perplexo há uns meses atrás (caneco, o que o mundo precisava era de um novo disco dos The Knife), a audição do disco homónimo converteu-me de imediato: está lá tudo o que me fascinava na música do duo e é caso para perguntar o que é que o mano andava lá a fazer na banda. Sem mais delongas, deixo aqui os vídeos dos dois primeiros singles: «If I Had A Heart» e «When I Grow Up» que, não por acaso, foram realizados por dois dos meus realizadores favoritos: os muito obscuros e escandinavos Andreas Nillson e Martin de Thurah. Preparem-se para o estalo.
Publicado por João Pedro da Costa às 10:58 AM | Comentários (2)
fevereiro 21, 2009
Ponto Negro #14
Quando isto for publicado estarei em Barca d'Alva. Miam.
Publicado por João Pedro da Costa às 06:03 PM | Comentários (1)
fevereiro 20, 2009
Snowfakes



Publicado por João Pedro da Costa às 04:23 PM | Comentários (9)
Ponto Negro #13
Estava aqui outra frase antes.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:59 PM | Comentários (2)
Fala fala
Os Talk Talk são um caso exemplar de darwinismo musical (um conceito que acabei de inventar agora mesmo e que, como é óbvio, é absoluta e simultaneamente inócuo e brilhante). Se o grupo de Mark Hollis começou como apenas mais um dos imensos projectos que cavalgou a onda dos new romantics na década de 80, os dois últimos discos da banda (SPIRIT OF EDEN de 1988 e LAUGHING STOCK de 1991) são duas obras-primas que, apesar de terem sido javardamente ignoradas na altura em que foram editadas, lançaram as bases de muita da música que viria a ser produzida nos anos seguintes. O tema que talvez melhor ilustre este glorioso período da banda é «After The Flood», um longo e minucioso épico que se aventura pelo free-jazz sem nunca perder uma sensibilidade pop que o resgata in extremis dos territórios pantanosos do experimentalismo e da música adulta. Confesso que ouvir isto assim a frio através do vil HTML até pode ser um pouco indigesto, mas não desistem de repetir a experiência. Vão ver que não serão precisas muitas audições para ficarem viciados nisto.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:50 PM | Comentários (4)
fevereiro 19, 2009
Ponto Negro #12
Agora, vou almoçar à casa da minha mãe.
Publicado por João Pedro da Costa às 01:52 PM | Comentários (7)
Masked & Anonymous
Ontem cumpri mais uma etapa da minha via sacra rumo à muito desejada Dylanomania ao ver Masked & Anonymous (2003), realizado por Larry Charles (produtor de Curb Your Enthusiasm, vejam lá a coincidência). Longe de mim vir práqui dizer que o filme é um grande filme (não é), mas é um daqueles objectos de culto absolutamente irresistíveis. Os momentos musicais, por exemplo, em que se pode ver Dylan com a magnífica banda que gravou LOVE AND THEFT (2001), são de cair para o lado. Deixo aqui dois exemplos supremos: a superlativa versão de «Cold Irons Bond» (filmada a partir de um dos planos mais estranhos que vi na minha vida) e a forma como Dylan e a sua banda resgatam da piroseira de EMPIRE BURLESQUE (1985) o tema «I'll Remember You». Mil caralhos saturados me fodam se não adoro absolutamente esta merda.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:24 PM | Comentários (6)
fevereiro 18, 2009
This boy needs therapy
Os The Avalanches foram um cometa que passou pela música pop e deixou como rasto um único disco: o magnífico SINCE I LEFT YOU (2000), um autêntico bric-à-brac que pegava em mais de 3.500 samples de vinis para produzir um todo infinitamente superior à soma das partes. Mas o legado dos australianos não se ficou por aqui. Também devemos a eles um dos melhores vídeos musicais de todos os tempos, cuja premissa era arrojadamente simples: ilustrar com personagens a origem das dezenas de samples que se podem ouvir no irresistível «Frontier Psychiatrist». O resultado é a mediatriz perfeita que se pode traçar entre o mariachi, o western spaghetti, a Broadway, Ionesco, os Alpes suiços e os homo-testudinatas.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:07 PM | Comentários (11)
Ponto Negro #11
Apontem aí: duas semanas sem fumar.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:23 AM | Comentários (5)
fevereiro 17, 2009
Sunsets were mocked
Publicado por João Pedro da Costa às 11:25 PM | Comentários (0)
Ponto Negro #10
Publicado por João Pedro da Costa às 10:54 PM | Comentários (3)
Aposto que era preto

Ontem, fiz a viagem Lisboa-Porto de Alfa em estado febril. Sentei-me no meu lugar com dores que classificaria de consideráveis e, ao meu lado, veio um senhor quinquagenário com um ar muito saudável e simpático. Diria que era um senhor do campo (disse-me boa tarde quando se sentou ao meu lado), com uma vida activa talhada algures nas searas e nas hortas (vinha a comer uma sande de chouriço e uma maçã), mas com um conhecimento considerável do que é a azáfama da cidade (saco da Zara numa das mãos) e as novas tecnologias (tinha um telemóvel melhor que o meu). Estávamos algures naquele limbo que separa Santarém do Entroncamento quando toca o telemóvel do senhor. Tou sim? Olá, meu amor. Sim, sim, já vou no comboio. Não sei, vinha a dormir. Sim, meu amor. Estou muito satisfeito e feliz, minha querida. É um óptimo rapaz, gostei muito dele. Claro que não duvidava, meu amor. Tu conheces teu pai. Sim, claro. Ouve. Venho muito contente e feliz, mas mais contente ainda por saber que estás feliz com ele. Disse que estou muito contente e feliz, tou? Muito contente e feliz... Estava a dizer que estou muito contente e feliz, mas sobretudo contente por saber que és feliz com ele. Sim, meu amor. Gosto muito de ti... És uma marota. Sim. Tou, tou? Nesse ponto, a chamada foi abaixo, fruto do referido limbo que separa Santarém do Entroncamento. Pouco depois, entre Fátima e Pombal (outro belo limbo da paisagem portuguesa), o telemóvel volta a tocar. Tou? Olá, querida. Sim, já vou no comboio. Estava a dormir. Sim, já voltei a falar com ela. Pois. Olha, como é óbvio, disse-lhe que ainda estavas em estado de choque. Claro, disse-lho logo pelo telemóvel, a tua mãe ainda está em estado de choque, que lá não dava para falar à vontade à frente dele. Eu? Eu disse que também estava, claro. Sim, sim. Mas sabes uma coisa? Eu até achei o rapaz muito... Tá bem, tá bem. Tem calma. Foi mesmo o que lhe disse. Tou? Olha, tou a ficar sem rede, tou? Acto contínuo, desliga o telemóvel. O senhor acabaria por sair em Coimbra. A viagem, essa, não voltaria a ser a mesma.
Publicado por João Pedro da Costa às 03:33 PM | Comentários (21)
fevereiro 16, 2009
Ponto Negro #9
Publicado por João Pedro da Costa às 11:47 AM | Comentários (5)
fevereiro 15, 2009
Ricky Gervais meets Larry David
Os dois maiores génios da comédia da actualidade juntos num programa do Channel 4. Está dividido em seis partes. É só ir ao U2B para ver o resto. Muito bom.
Publicado por João Pedro da Costa às 06:44 PM | Comentários (4)
fevereiro 14, 2009
Ponto Negro #8
Publicado por João Pedro da Costa às 11:09 AM | Comentários (2)
fevereiro 13, 2009
Gosto muito de listinhas, mas esta deu uma trabalheira dos diabos
Uma das questões que tem tirado o sono à parte mais interessante, sensível e atenta da humanidade é saber qual é, afinal, o melhor solo de harmónica de Bob Dylan. Como é óbvio, é impossível encontrar uma resposta definitiva sem a mesma ser o fruto de um complexo processo de selecção, no qual a capacidade analítica, a objectividade e o conhecimento enciclopédico são fundamentais se não queremos produzir listas constrangedoras, cuja leitura levará impiedosamente os devotos à perplexidade e os curiosos ao bocejo. Por isso, resolvi contribuir para esta causa, ao elaborar uma lista que doravante deverá ser vista pelas gerações vindouras como o cânone dos dez melhores solos de harmónica do Bob Dylan e os que me levaram, há uns meses, a comprar esta pequena maravilha. Esta é, portanto, não apenas a lista de um connaisseur, mas a de um aprendiz que já consegue fazer ganir a sua cadela e levar os seus gatos ao limiar do terror cada vez que sopra numa harmónica diatónica.
(A quantidade de MP3 deste post tornava a página de entrada mais pesada que o buraco financeiro do BPN. Para ler o resto - vejam lá se vale mesmo a pena - basta clicar aqui.)
10. Tryin' to get to heaven (Time Out Of Mind, 1997)
Nos últimos anos, Dylan não tem sido pródigo na utilização da harmónica. Ainda assim, é possível encontrar numa das grandes canções de TIME OUT OF MIND (1997), um dos seus mais belos e solos. Aqui, é de máxima importância sublinhar a produção pantanosa de Daniel Lanois que consegue imprimir um efeito de envelhecimento muito semelhante ao que se pode ouvir na voz de Dylan. Paradoxalmente ou não, são 40 segundos que passarão facilmente despercebidos ao ouvinte menos atento.
9. I'll Be Your Baby Tonight (John Wesley Harding, 1967)
Se me perguntassem qual é o álbum em que o Dylan mais desbunda a sua harmónica (é incrível como ninguém me faz esse tipo de perguntas), não teria qualquer dúvida em escolher JOHN WESLEY HARDING. Em 1967, Dylan já tinha acumulado dezenas de concertos com os The Band e gravado com eles mais de sessenta temas nas famosas BASEMENT TAPES (que seriam parcialmente editadas em 1975). Para além duma rodagem em palco em que a harmónica era o seu instrumento por excelência (para quê tocar guitarra quando se tem um Robbie Robertson na banda?), os instrumentos, neste álbum, estão todos muito afastados um dos outros na mistura, o que deixa uma enorme avenida a ser preenchida pela voz de Dylan e a sua harmónica (não é por acaso que conheço muita gente que não suporta fisicamente o som estridente da harmónica neste disco). Poderia escolher praticamente qualquer um dos temas para incluir nesta lista («I Dreamt I Saw St. Angustine» e «All Along The Watchtower» seriam escolhas óbvias), mas optei pela canção que fecha o álbum por ser nela que Dylan mais se afasta dos tiques bluesy dos discos anteriores. Depois de «I'll Be Your Baby Tonight», o country não mais voltaria a ser visto como um género menor para rednecks e hillbillies.
8. Peldging My Time (Blonde On Blonde, 1966)
Por falar em tiques bluesy, embrulhem lá isto. É incrível como este tema não surge na lista da Stylus Magazine, de tão óbvio que é.
7. Desolation Row (Highway 61 Revisited, 1965)
Este também é muito óbvio, apesar de ainda há dias um amigo meu teimar que o tema não tinha qualquer solo de harmónica (o palerma). É verdade que é preciso esperar 8 minutos e 40 segundos para chegar lá, mas chega-se lá com uma perna às costas.
6. I Want You (Blonde On Blonde, 1966)
Talvez a melodia de harmónica mais famosa da carreira de Dylan. Mas o que é verdadeiramente admirável é o diálogo do instrumento com o órgão tocado por Al Kooper. «The lonesome organ grinder cries» o tanas.
5. Every Grain Of Sand (Shot Of Love, 1981)
Toda a fase cristã de Dylan, incluindo os respectivos excessos beatíficos e panfletários, se redimem neste «Every Grain Of Sand». Atrevo-me mesmo a dizer que, a haver um parênteses na sua carreira, este começa com o coda de «Where Are You Tonight?» de STREET LEGAL (1978) e termina com este tema que fecha SHOT OF LOVE (1981). Aqui, a harmónica é um instrumento assumidamente telúrico, cujo sopro está em perfeita consonância com uma das suas mais belas letras. Não dá para converter um infiel, mas anda lá perto.
4. Percy's Song Biograph, 1985)
Ora aqui está mais um tema que esteve mais de duas décadas na gaveta até ser editado em 1985. «Percy's Song» foi gravado nas sessões de THE TIMES THEY ARE A'CHANGING (1963) e, mais uma vez, não é fácil um gajo entender por que raio terá ficado de fora, na medida em que é superior a qualquer uma das canções que acabariam por entrar no disco. Aqui, não há propriamente um solo, mas uma sucessão de pequenos arranjos de harmónica fodidíssimos de tocar, devido à forma como convocam a quase totalidade das técnicas que se podem aplicar no instrumento (isto está tudo a soar-me muito mal). A verdade, no entanto, é que mesmo sem a harmónica, esta continuaria a ser uma das minhas canções favoritas de sempre, a tal que possui os únicos arpeggios de guitarra capazes de superar os de «Don't Think Twice, It's Alright».
3. I Shall Be Released (Greatest Hits II, 1971)
Este é um clássico. Originalmente gravado nas BASEMENT TAPES com os The Band (que posteriormente gravariam uma versão para fechar o seu álbum de estreia), esta fabulosa versão foi gravada a solo por Dylan em 1967 e, infelizmente, não entrou por uma unha negra em JOHN WESLEY HARDING. Teria dado uma magnífica abertura para um dos seus melhores discos.
2. Simple Twist Of Faith (Blood On The Tracks, 1975)
Era óbvio que esta listinha não faria qualquer sentido se não tivesse, pelo menos, uma tema de BLOOD ON THE TRACKS (1975). Poderia ter perfeitamente escolhido «Tangled Up In Blue», «You're A Big Girl Now», «Idiot Wind», «You're Gonna Make Me Lonesome When You Go» ou «Shelter From The Storm» que a coisa não destoaria.
1. What Can I Do For You? (Saved, 1980)
Sim, é verdade que a capa original de SAVED me provoca vómitos. Também é verdade que este é o mais irritante dos discos da fase cristã de Dylan, onde a sua devoção roça não raras vezes a lobotomia. E também é verdade que, a par de EMPIRE BURLESQUE (1985), este é provavelmente o disco com o som mais datado da sua carreira. Mas também é verdade que se podem encontrar aqui alguns dos seus mais fascinantes temas. É o caso de «Pressing On», «In The Garden» e deste «What Can I Do For You?» que contém, sem sombra de dúvida, os seus dois mais belos solos de harmónica de sempre.
Publicado por João Pedro da Costa às 02:07 PM | Comentários (0)
fevereiro 11, 2009
Ponto Negro #7
Era para escrever sobre os solos de harmónica do Dylan, mas it's getting late.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:23 PM | Comentários (7)
fevereiro 09, 2009
Ponto Negro #6
Clique como se não houvesse amanhã.
Publicado por João Pedro da Costa às 10:29 PM | Comentários (2)
fevereiro 08, 2009
Penso que dezasseis
Fazia ontem anos que o pai dele tinha morrido.
Morreu-me nos braços, disse-me ele, fazia ontem anos.
Penso que catorze, não tenho a certeza,
que a minha atenção não estava focada no número
mas nos braços em que o pai dele tinha morrido
fazia ontem anos. Que fixe
irmos jantar juntos, acrescentou, fazia ontem anos
e não lhe apetecia nada estar em casa
a olhar para o tecto de braços cruzados
a pensar no vazio e nos meus enganos
se catorze, se quinze, se o pai dele
fazia ontem anos.
Publicado por João Pedro da Costa às 09:57 PM
fevereiro 07, 2009
Por falar em She & Him
Publicado por João Pedro da Costa às 06:37 PM | Comentários (4)
Ponto Negro #5
Publicado por João Pedro da Costa às 12:07 AM | Comentários (10)
fevereiro 06, 2009
Rave On
Ontem à noite, coloquei finalmente as patinhas em HOLD TIME, o novo disco de M. Ward. Para os mais incautos, convém desde já dizer que estamos a falar de um dos mais regulares, geniais e anacrónicos praticantes da arte de escrever canções que se pode encontrar do lado de lá do Atlântico. Nos últimos 9 anos, o rapaz editou 6 discos capazes de fazer salivar qualquer fã das raízes da música norte-americana (blues, folk, country, bluegrass, soul, you name it). O novo álbum é fruta para muitos posts, mas não resisto em deixar aqui um exemplo de um dos seus muitos talentos que é a sua capacidade em se apropriar de temas alheios cumprindo aquele adágio de Borges segundo o qual uma versão pode adquirir uma genuinidade que o original desconhece. O tema em causa é nada mais nada menos que Rave On, um dos clássicos do primeiro (e, de resto, último) disco a solo do grande Buddy Holly (1958). O que é inacreditável é a forma como M. Ward, com a preciosa ajuda da Zooey Deschanel (com quem formou os muito menosprezados She & Him), dá a volta a uma das canções que mais ouvi na minha vida. Se mexer neste tema requer ousadia, o resultado revela um talento infindável. Façam o favor de conferir.
RAVE ON (Petty, Tighman, West) (M. Ward, 2009)
Well, the little things you say and do
Make me want to be with you
Rave on this crazy feelin'
I know it’s got me reelin'
When you say I love you, I say rave on
The way you walk when you say goodnight
The way you make up when we fight
Rave on, this crazy feeling
I know it's got me reelin'
When you say I love you, I say rave on
Rave on, it's a crazy feeling
I know its got me reelin'
I'm so glad that you're revealing your love for me
Rave on and tell me, tell me not to be lonely
Tell me you love me only, rave on to me
Publicado por João Pedro da Costa às 12:16 PM | Comentários (0)
fevereiro 05, 2009
Piu-piu! (making of)

Publicado por João Pedro da Costa às 10:12 PM | Comentários (2)
Piu-piu!

Publicado por João Pedro da Costa às 01:27 PM | Comentários (19)
fevereiro 04, 2009
Ponto Negro #4
Começo a ficar viciado em pop-ups.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:37 PM | Comentários (2)
djeb djeb djeb djeb zuiú in ban zãzãzã zã-iã pom paiô lôlôlô zoiô
Esta sublime performance do clássico «O Pato» pelo João Gilberto e pelo Caetano Veloso que acabo agorinha mesmo de descobrir, trouxe-me à memória um dos passatempos favoritos da minha adolescência: o de transcrever as magníficas onomatopeias cantadas pelo João Gilberto. Tinha um caderno com dezenas de transcrições e o que me fascinava era exactamente a dificuldade em transcrevê-las, não porque em algum momento o gajo fugisse do sistema fonético da língua portuguesa, mas porque o ritmo com que debitava essas onomotopeias tornava a tarefa quase impossível. E depois, como é óbvio, havia o fascínio deste exercício de significante puro, destas melopeias fonéticas em que cada som parece corresponder a um instrumento musical (a cuíca, o tropedo, os timbaus, o d'jembê, os agogôs, o surdo, o pandeiro, o repique, o aro de bacurinha, o piccolo, etc) na imaginação do João Gilberto. Um dos mais sublimes exemplos que conheço deste virtuosismo onomatopeico é «Eu Quero Um Samba», tema de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida (alto nome) que o João Gilberto gravou em 1973. Estejam atentos que as onomotopeias surgem duas vezes. Uma moca.
EU QUERO UM SAMBA
Eu quero um samba feito só para mim
Me acabar, me virar, me espalhar
Eu quero a melodia feita assim
Quero sambar, quero sambar
Quero sambar porque
No samba eu sei que vou
Me acabar, me virar, me espalhar
A noite inteira até o Sol raiar.
Ai, quando o samba acaba
Eu fico triste então.
Vai melancolia, eu quero alegria
Dentro do meu coração.
Publicado por João Pedro da Costa às 04:20 PM | Comentários (4)
Ponto Negro #3
Isto vai ser bonito: ter de inventar uma frase para cada pop-up.
Publicado por João Pedro da Costa às 12:53 AM | Comentários (6)
Angelina
Bob Dylan nunca gramou o processo de concepção de um disco. Com a excepção do mercury sound de BLONDE ON BLONDE (1966), Dylan sempre manifestou publicamente a sua frustação com a produçao dos seus álbuns (que eu, como qualquer ser humano que se preze, considero simplesmente fantásticos). A edição, nos últimos 17 anos, dos 7 volumes das BOOTLEG SERIES (colectâneas de temas inéditos e de actuações ao vivo) veio no entanto confirmar que, não raras vezes, e sobretudo a partir da década de 80, Dylan deixou de lado algumas das suas melhores canções. «Angelina» é, está-se mesmo a ver, uma delas. O tema foi gravado durante as sessões de SHOT OF LOVE (1981), o último capítulo da sua fase assumidamente cristã, onde, no entanto, Dylan já se aventura pelos sons das Caraíbas e que viriam a atingir o seu zénite dois anos depois no portentoso «Jokerman». Olhando para o alinhamento de SHOT OF LOVE, percebe-se que o tema, de facto, não se enquadra num álbum com uma sonoridade tão crua e coesa, mas o que é verdadeiramente fascinante é perceber que esta magnífica canção não se enquadra em nenhum dos mais de 30 álbuns que Dylan gravou. «Angelina» é um ponto de fuga na sua carreira, um momento bissexto onde Dylan caminha cambaleante pelo limiar da pirosice, lugar que hoje em dia acredito ser aquele onde se pode encontrar todas as grandes canções. São apenas três acordes numa progressão linear e circular tocados de uma forma absolutamente simples e hipnótica por Dylan ao piano. A sua voz está aqui no crepúsculo de mais uma das muitas transformações que viria a sofrer ao longo dos anos, a performance vocal é arrepiante (basta reparar nas diversas entoações que utiliza para cantar o nome Angelina), e a letra é, simplesmente, uma das mais fabulosas de sempre da história da pop, pela forma como recusa permanentemente qualquer exercício de interpretação graças à infinidade de citações (bíblicas, mitológicas e literárias) que transformam a sua aparente estrutura narrativa numa câmara de ecos em que o significado reverbera com um virtuosismo bem evidente no ritmo dos versos, no esquema rimático, nas rimas cosonânticas ou nas palavras que ele incorpora para rimar com o vocativo do refrão (concertina, hyena, subpoena, Argentina e arena). A verdade é que, até hoje, nunca conheci ninguém que partilhasse comigo o encanto que me desperta esta canção. Mas tudo bem. Há fascínios em que um gajo se sente menos mal sozinho.
ANGELINA (Bob Dylan, 1981)
Well, it's always been my nature to take chances
My right hand drawing back while my left hand advances
Where the current is strong and the monkey dances
To the tune of a concertina
Blood dryin' in my yellow hair as I go from shore to shore
I know what it is that has drawn me to your door
But whatever it could be, makes you think you've seen me before
Angelina
Oh, Angelina. Oh, Angelina
His eyes were two slits that would make a snake proud
With a face that any painter would paint as he walked through the crowd
Worshipping a god with the body of a woman well endowed
And the head of a hyena
Do I need your permission to turn the other cheek?
If you can read my mind, why must I speak?
No, I have heard nothing about the man that you seek
Angelina
Oh, Angelina. Oh, Angelina
In the valley of the giants where the stars and stripes explode
The peaches they were sweet and the milk and honey flowed
I was only following instructions when the judge sent me down the road
With your subpoena
When you cease to exist, then who will you blame?
I've tried my best to love you, but I cannot play this game
Your best friend and my worst enemy is one and the same
Angelina
Oh, Angelina. Oh, Angelina
There's a black Mercedes rollin' through the combat zone
Your servants are half dead; you're down to the bone
Tell me, tall man, where would you like to be overthrown
Maybe down in Jerusalem or Argentina?
She was stolen from her mother when she was three days old
Now her vengeance has been satisfied and her possessions have been sold
He's surrounded by God's angels and she's wearin' a blindfold
And so are you, Angelina
Oh, Angelina. Oh, Angelina
I see pieces of men marching; trying to take heaven by force
I can see the unknown rider, I can see the pale white horse
In God's truth tell me what you want, and you'll have it of course
Just step into the arena
Beat a path of retreat up them spiral staircases
Pass the tree of smoke, pass the angel with four faces
Begging God for mercy and weepin' in unholy places
Angelina
Oh, Angelina. Oh, Angelina
Publicado por João Pedro da Costa às 12:20 AM | Comentários (4)
fevereiro 02, 2009
Ponto Negro #2
Esta merda ocupa mesmo muito espaço.
Publicado por João Pedro da Costa às 10:53 PM | Comentários (11)
1967-1997
Que fique registado nos anais que Ben Braddock e Jackie Brown são as minhas duas personagens favoritas do cinema americano.
Publicado por João Pedro da Costa às 10:45 PM | Comentários (4)
fevereiro 01, 2009
Ponto Negro #1
Isto não cabe aqui por isso toca a clicar temerariamente e a gramar um pop up.
Publicado por João Pedro da Costa às 11:13 PM | Comentários (10)