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fevereiro 04, 2009

Angelina

bob1.jpg Bob Dylan nunca gramou o processo de concepção de um disco. Com a excepção do mercury sound de BLONDE ON BLONDE (1966), Dylan sempre manifestou publicamente a sua frustação com a produçao dos seus álbuns (que eu, como qualquer ser humano que se preze, considero simplesmente fantásticos). A edição, nos últimos 17 anos, dos 7 volumes das BOOTLEG SERIES (colectâneas de temas inéditos e de actuações ao vivo) veio no entanto confirmar que, não raras vezes, e sobretudo a partir da década de 80, Dylan deixou de lado algumas das suas melhores canções. «Angelina» é, está-se mesmo a ver, uma delas. O tema foi gravado durante as sessões de SHOT OF LOVE (1981), o último capítulo da sua fase assumidamente cristã, onde, no entanto, Dylan já se aventura pelos sons das Caraíbas e que viriam a atingir o seu zénite dois anos depois no portentoso «Jokerman». Olhando para o alinhamento de SHOT OF LOVE, percebe-se que o tema, de facto, não se enquadra num álbum com uma sonoridade tão crua e coesa, mas o que é verdadeiramente fascinante é perceber que esta magnífica canção não se enquadra em nenhum dos mais de 30 álbuns que Dylan gravou. «Angelina» é um ponto de fuga na sua carreira, um momento bissexto onde Dylan caminha cambaleante pelo limiar da pirosice, lugar que hoje em dia acredito ser aquele onde se pode encontrar todas as grandes canções. São apenas três acordes numa progressão linear e circular tocados de uma forma absolutamente simples e hipnótica por Dylan ao piano. A sua voz está aqui no crepúsculo de mais uma das muitas transformações que viria a sofrer ao longo dos anos, a performance vocal é arrepiante (basta reparar nas diversas entoações que utiliza para cantar o nome Angelina), e a letra é, simplesmente, uma das mais fabulosas de sempre da história da pop, pela forma como recusa permanentemente qualquer exercício de interpretação graças à infinidade de citações (bíblicas, mitológicas e literárias) que transformam a sua aparente estrutura narrativa numa câmara de ecos em que o significado reverbera com um virtuosismo bem evidente no ritmo dos versos, no esquema rimático, nas rimas cosonânticas ou nas palavras que ele incorpora para rimar com o vocativo do refrão (concertina, hyena, subpoena, Argentina e arena). A verdade é que, até hoje, nunca conheci ninguém que partilhasse comigo o encanto que me desperta esta canção. Mas tudo bem. Há fascínios em que um gajo se sente menos mal sozinho.

ANGELINA (Bob Dylan, 1981)

Well, it's always been my nature to take chances
My right hand drawing back while my left hand advances
Where the current is strong and the monkey dances
To the tune of a concertina

Blood dryin' in my yellow hair as I go from shore to shore
I know what it is that has drawn me to your door
But whatever it could be, makes you think you've seen me before
Angelina

Oh, Angelina. Oh, Angelina

His eyes were two slits that would make a snake proud
With a face that any painter would paint as he walked through the crowd
Worshipping a god with the body of a woman well endowed
And the head of a hyena

Do I need your permission to turn the other cheek?
If you can read my mind, why must I speak?
No, I have heard nothing about the man that you seek
Angelina

Oh, Angelina. Oh, Angelina

In the valley of the giants where the stars and stripes explode
The peaches they were sweet and the milk and honey flowed
I was only following instructions when the judge sent me down the road
With your subpoena

When you cease to exist, then who will you blame?
I've tried my best to love you, but I cannot play this game
Your best friend and my worst enemy is one and the same
Angelina

Oh, Angelina. Oh, Angelina

There's a black Mercedes rollin' through the combat zone
Your servants are half dead; you're down to the bone
Tell me, tall man, where would you like to be overthrown
Maybe down in Jerusalem or Argentina?

She was stolen from her mother when she was three days old
Now her vengeance has been satisfied and her possessions have been sold
He's surrounded by God's angels and she's wearin' a blindfold
And so are you, Angelina

Oh, Angelina. Oh, Angelina

I see pieces of men marching; trying to take heaven by force
I can see the unknown rider, I can see the pale white horse
In God's truth tell me what you want, and you'll have it of course
Just step into the arena

Beat a path of retreat up them spiral staircases
Pass the tree of smoke, pass the angel with four faces
Begging God for mercy and weepin' in unholy places
Angelina

Oh, Angelina. Oh, Angelina

Publicado por João Pedro da Costa às fevereiro 4, 2009 12:20 AM

Comentários

quando foi quando ele canta if you can read my mind why must i speak que percebi que tinha de comentar

breathtaking

Publicado por: alice em fevereiro 4, 2009 12:06 PM

Não te vou insultar, sendo simpático. Mas subscrevo que há fascínios que temos que navegar em solitário.

Publicado por: Nuno em fevereiro 4, 2009 08:32 PM

:) Caramba, nuno, ainda não é desta que alguém que conheço gosta desta canção. Alice: a gente por acaso não se conhecerá?

Publicado por: João Pedro daCosta em fevereiro 4, 2009 11:16 PM

Vamos lá ser precisos com as palavras. Ninguém falou em não gostar. Tu subiste a parada, puseste as fichas todas na mesa: "encanto" e "fascínio", só nas últimas três linhas. A canção é boa, mas estava à espera de ser arrebatado (o que é ligeiramente perturbador, agora que penso nisso).
Sei que não é coisa para te intimidar, mas fica aqui o repto - keep'em coming, não desistas já de mim que eu só sou um herege mais difícil de converter.
Abraço!

Publicado por: Nuno em fevereiro 5, 2009 02:39 PM

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