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fevereiro 17, 2009

Aposto que era preto

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Ontem, fiz a viagem Lisboa-Porto de Alfa em estado febril. Sentei-me no meu lugar com dores que classificaria de consideráveis e, ao meu lado, veio um senhor quinquagenário com um ar muito saudável e simpático. Diria que era um senhor do campo (disse-me boa tarde quando se sentou ao meu lado), com uma vida activa talhada algures nas searas e nas hortas (vinha a comer uma sande de chouriço e uma maçã), mas com um conhecimento considerável do que é a azáfama da cidade (saco da Zara numa das mãos) e as novas tecnologias (tinha um telemóvel melhor que o meu). Estávamos algures naquele limbo que separa Santarém do Entroncamento quando toca o telemóvel do senhor. Tou sim? Olá, meu amor. Sim, sim, já vou no comboio. Não sei, vinha a dormir. Sim, meu amor. Estou muito satisfeito e feliz, minha querida. É um óptimo rapaz, gostei muito dele. Claro que não duvidava, meu amor. Tu conheces teu pai. Sim, claro. Ouve. Venho muito contente e feliz, mas mais contente ainda por saber que estás feliz com ele. Disse que estou muito contente e feliz, tou? Muito contente e feliz... Estava a dizer que estou muito contente e feliz, mas sobretudo contente por saber que és feliz com ele. Sim, meu amor. Gosto muito de ti... És uma marota. Sim. Tou, tou? Nesse ponto, a chamada foi abaixo, fruto do referido limbo que separa Santarém do Entroncamento. Pouco depois, entre Fátima e Pombal (outro belo limbo da paisagem portuguesa), o telemóvel volta a tocar. Tou? Olá, querida. Sim, já vou no comboio. Estava a dormir. Sim, já voltei a falar com ela. Pois. Olha, como é óbvio, disse-lhe que ainda estavas em estado de choque. Claro, disse-lho logo pelo telemóvel, a tua mãe ainda está em estado de choque, que lá não dava para falar à vontade à frente dele. Eu? Eu disse que também estava, claro. Sim, sim. Mas sabes uma coisa? Eu até achei o rapaz muito... Tá bem, tá bem. Tem calma. Foi mesmo o que lhe disse. Tou? Olha, tou a ficar sem rede, tou? Acto contínuo, desliga o telemóvel. O senhor acabaria por sair em Coimbra. A viagem, essa, não voltaria a ser a mesma.

Publicado por João Pedro da Costa às fevereiro 17, 2009 03:33 PM

Comentários

Dizes portanto que fizeste a viagem em estado febril...

Publicado por: derFred em fevereiro 17, 2009 04:15 PM

Ó.

Publicado por: João Pedro da Costa em fevereiro 17, 2009 04:18 PM

Não compreendi o titulo do ultimo post!!!
mas quem é que era preto?

Publicado por: Ana em fevereiro 17, 2009 05:18 PM

Grande título.

Publicado por: Valupi em fevereiro 17, 2009 05:18 PM

LOL. Como vês, primo, nem toda a gente pensa o mesmo.

Publicado por: João Pedro da Costa em fevereiro 17, 2009 06:18 PM

LOL. Gostei. E a foto da estação do Oriente trouxe-me boas recordações.

Publicado por: claudia em fevereiro 17, 2009 08:31 PM

E o título está muito bem, claro.

Publicado por: claudia em fevereiro 17, 2009 08:32 PM

O título não é claro.

Publicado por: derFred em fevereiro 17, 2009 09:39 PM

(eu devia pagar-te por esses comentários)

Publicado por: João Pedro da Costa em fevereiro 17, 2009 09:46 PM

se a conversa foi essa tudo fica preto no branco.

Publicado por: susana em fevereiro 17, 2009 10:26 PM

Eu diria: preto na branca.

Publicado por: João Pedro da Costa em fevereiro 17, 2009 10:49 PM

não quis ser tão brejeira.
também podia ser budista na católica.

Publicado por: susana em fevereiro 17, 2009 11:37 PM

Não foi fácil sincronizar o meu comentário com o da Ana, mas, se formos honestos, é caso para dizer que valeu a pena. O que vale é que não somos honestos, porque senão.

Publicado por: Valupi em fevereiro 17, 2009 11:37 PM

Aquela estação, já não sei se é a de Lisboa. Aqueles painéis da esquerda meteram-me confusão.
Todas as estações se assemelham. E o betão das cidades, idem.

Publicado por: claudia em fevereiro 18, 2009 12:05 AM

Claro, Susana. «Aposto que era paraplégico» é outra hipótese,não é Fred?

Publicado por: João Pedro da Costa em fevereiro 18, 2009 01:37 AM

Aposto que não era eu. (As mães adoram-me, os pais é que são racistas)

Estou com o Valupi. Ganda título.

Publicado por: shark em fevereiro 18, 2009 01:15 PM

"Belo limbo" era um excelente nome para uma clínica de recuperação.

Publicado por: Chris em fevereiro 18, 2009 04:01 PM

Um limbo é uma coisa a que a pessoa às vezes se agarra com muita força. É como um varão no autocarro.
(JPC, seu garganta funda, não reveles os comentários de bastidores, deixa-me ser hipócrita à vontade)

Publicado por: derFred em fevereiro 18, 2009 04:13 PM

Tens toda a razão. E não vamos fazer amor este fim-de-semana.

Publicado por: João Pedro da Costa em fevereiro 18, 2009 04:28 PM

Uma viagem de Alfa já por si leva-nos a um estado de observação(estado Alfa) em roda-livre, o que reduz consideravelmente o desgaste dos nossos comportamentos mais mecânicos. Se ao estado Alfa se acrescentar o estado febril (estado Alfebril) consegue-se (nem todos conseguem) alcançar o "three-state", ou seja nem branco nem preto, o tal limbo necessário para produzir um bom texto como este post do João Pedro da Costa.Venham mais estados Alfebris!

Publicado por: Chris em fevereiro 18, 2009 04:37 PM

Era cabeludo.

Publicado por: claudia em fevereiro 19, 2009 12:30 AM

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